{"id":18683,"date":"2021-04-05T10:01:51","date_gmt":"2021-04-05T13:01:51","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18683"},"modified":"2021-05-31T19:19:54","modified_gmt":"2021-05-31T22:19:54","slug":"aperitivopalavraii-20","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavraii-20\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p><strong>QUAL A DIST\u00c2NCIA ENTRE OS HOMENS E OS BICHOS?<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><em>Por Gustavo Rios <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Caes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18685\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Caes.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Caes.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Caes-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00falia Grilo poderia ser apenas uma jovem estudante com pretens\u00f5es art\u00edsticas n\u00e3o muito bem definidas. Afinal e a priori, o que \u00e0s vezes se mostra na superf\u00edcie \u00e9 t\u00e3o somente isso: uma escritora que publica um livro, num contexto em que publicar (no sentido de imprimir, divulgar nas redes e se considerar literato) se tornou relativamente f\u00e1cil. Mas eis que esse \u201crelativo\u201d pode muito bem nos enganar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afora esse papo cabe\u00e7a que mistura relatividades e jovens com ganas de escrever, o que posso dizer \u00e9 que, com seu primeiro livro, <em>C\u00e3es<\/em>, publicado em 2021 pela brav\u00edssima Penalux, J\u00falia me pegou na contram\u00e3o e no contrap\u00e9, no sentido de boa surpresa, n\u00e3o aquela surpresa que vem depois do desd\u00e9m; aquele lance de olhar a pessoa e pensar em segredo \u201cEsperava bem menos de voc\u00ea\u201d, ou \u201cAchei que voc\u00ea fosse mais uma nesse mercado de pulgas\u201d. No \u00fanico encontro que tive com ela, numa <em>live<\/em> de divulga\u00e7\u00e3o da colet\u00e2nea <em>Soteropolitanos<\/em>, de cara percebi a firmeza e a seriedade do prop\u00f3sito da quase-psic\u00f3loga Grilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, e lutando contra esse desd\u00e9m paternalista (o cara de quase-cinquenta que resenha <em>versus<\/em> a jovem escritora), tentarei explicar minhas ideias acerca do livro (que, \u00e9 bom frisar, conta com uma bel\u00edssima capa). E logo de imediato, j\u00e1 posso usar a meu favor o fato dela ser uma futura psic\u00f3loga &#8211; isso se ela n\u00e3o se invocar e enveredar de vez na escrita; coisa que, acho, ela faria com moral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos falar ent\u00e3o sobre an\u00e1lise. Mas n\u00e3o no sentido \u201cJungiano\u201d da coisa. Eu quero falar \u00e9 sobre o olhar atento e extremamente \u201canal\u00edtico\u201d de J\u00falia, j\u00e1 que em <em>C\u00e3es <\/em>uma das coisas que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi o interesse da autora em esmiu\u00e7ar e detalhar todas as quest\u00f5es propostas por ela mesma e pela hist\u00f3ria em si &#8211; o andamento de um bom livro \u00e0s vezes foge de nosso controle e de nossa vontade; da\u00ed que ele se imp\u00f5e e tamb\u00e9m prop\u00f5e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os par\u00e1grafos \u00e0s vezes parecem longos, e os instantes em que a descri\u00e7\u00e3o chega no limite n\u00e3o s\u00e3o poucos. Todavia, ainda que tal recurso seja frequente, nada \u00e9 sacal. A escrita de J\u00falia sempre exige do leitor aten\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia e entrega. Mas nunca paci\u00eancia, ao menos aquela do tipo \u201cestou de saco cheio\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cJ\u00falias\u201d<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que a autora se mostre firme em seu trajeto, considerando parte das ideias expostas no t\u00f3pico acima, \u00e9 bom que se repita que tal escolha n\u00e3o implica num livro ma\u00e7ante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos trechos em que J\u00falia \u00e9 descritiva e, digamos, cerebral, podemos enxergar facilmente um bom bocado de poesia (misturada \u00e0 prosa, <em>por supuesto<\/em>). Al\u00e9m do mais, ao se p\u00f4r inteira na hist\u00f3ria, talvez de acordo com uma ideia de Coetzee, em que <em>\u201cno calor extremo da cria\u00e7\u00e3o a identidade individual do artista \u00e9 consumida e monopolizada por seu lado criador\u201d<\/em> <em>(1)<\/em>, a escrita de J\u00falia Grilo se mostra bem acima e al\u00e9m de um simples amontoado de frases cabe\u00e7udas e falsamente po\u00e9ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A complexidade no texto algumas vezes se encerra com uma frase simples que busca concluir uma ideia. E tal movimento se mostra eficaz, na medida da poesia utilizada, e, principalmente, do momento vivido \u2013 por vezes a narradora se mostra belamente pueril, noutras arredia e rebelde; as met\u00e1foras e as reflex\u00f5es se encaixam numa boa, enquanto isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como exemplos, destaco:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cVinha at\u00e9 meus p\u00e9s, esticava as patinhas e enfiava a cara por entre meus joelhos, lambendo-os at\u00e9 ser atendida. Eu atendia; n\u00e3o demorava muito para atender, exceto quando queria v\u00ea-la gracejar por mais tempo, os olhinhos brilhando. A vontade era sufoca-la de beijos \u2013 e torcer para que nenhuma pulga me atingisse.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cNesse mesmo per\u00edodo, meus pais come\u00e7aram a carinhosamente me chamar por lobisomem, numa tentativa desconcertante de amenizar o espanto que causavam os meus olhos v\u00edvidos, cintilantes, contra os quais eles se chocavam em quase toda madrugada (&#8230;). O dia me irritava, o calor incessante, a quantidade de gente que se movia, que me atrapalhava.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cJ\u00e1 seus ossos, por sua vez, foram vinculados conjuntamente dentro de uma designada l\u00f3gica pr\u00f3pria, reminisc\u00eancia bruta dos vincos de sua m\u00e3e, dos sulcos do seu pai, da posi\u00e7\u00e3o em que brotou do ventre, de como de l\u00e1 foi retirada e passou a rastejar faminta para as tetas pingando leite; do sangue fetal que lhe permaneceu seco e digno.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os poucos momentos em que a sonoridade me incomodou n\u00e3o reduziram em nada o andamento da obra (<em>\u201cA culpa ecoava ininterruptamente ao meu redor, perseguia-me com viol\u00eancia, num fulgor insuport\u00e1vel\u201d; \u201cQualquer coisa que amea\u00e7asse fissurar a consist\u00eancia deste v\u00e9u era recebida com muita viol\u00eancia.\u201d<\/em>). Mas sugiro revis\u00e3o, se poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao abrir o jogo e contar sua vida, essa jovem soteropolitana, criada no Rec\u00f4ncavo Baiano, eleva a qualidade do seu trabalho, o particularizando (o mundo a partir de sua individualidade, mesmo que na dedicat\u00f3ria do meu exemplar ela meio que defenda outro ponto de vista). Dessa maneira, <em>C\u00e3es<\/em> se torna \u00fanico e cativante, a partir do olhar e da viv\u00eancia de uma garota que, afinal, vai crescendo e sentindo tudo de maneira intensa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para \u201cfechar essa conta\u201d, concluo que a tal complexidade de que tanto falo n\u00e3o \u00e9 daquelas que servem para justificar bra\u00e7adas no raso em temas profundos. Aquele papo furado de quem sempre se esquiva do problema ao dizer para si e para o mundo \u201cIsso \u00e9 muito complicado. N\u00e3o arrisco um ju\u00edzo de valor\u201d. J\u00falia n\u00e3o foge ao nado, nem \u00e0 luta; e tanto um quanto o outro possuem muito de coragem, f\u00f4lego e escrut\u00ednio. Dessa forma, somos levados a refletir sobre v\u00e1rias coisas. Tendo como ponto de partida as diversas \u201cJ\u00falias\u201d. Que seguem evoluindo a todo instante, na cara, no <em>crown<\/em> e na coragem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis alguns exemplos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEu fui convocada a assistir ao espancamento como se fosse ele um espet\u00e1culo, estruturado de tal forma para que assim eu aprendesse as consequ\u00eancias que recairiam sobre meu corpo, caso eu me comportasse mal tamb\u00e9m\u201d <\/em>(sobre um fato ocorrido com uma prima).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cMas o amor e o conhecimento carregam a mesma l\u00f3gica por tr\u00e1s de seus funcionamentos. Talvez n\u00e3o s\u00f3 se assemelhem, feito coisas distintas que se encontram em paralelo, como cheguem a ser exatamente o mesmo: \u00e9 preciso amar para estar disposto a conhecer, e \u00e9 preciso estar disposto a conhecer para amar.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cH\u00e1 quantos passos de dist\u00e2ncia entre a maciez curiosa de um rec\u00e9m-nascido e a esperteza barbada de um homem adulto, de p\u00eanis rijo e l\u00e1bios \u00e1geis? Qu\u00e3o fina \u00e9 essa linha que separa as suas mamadeiras de leite dos seus sagrados copos de cerveja puro malte? Mas o que \u00e9 que separa estes t\u00e3o fortes e espertos e cerebrais meninos das l\u00e1grimas primitivas que lastimavam quando foram paridos.\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Feminismos e protagonismos<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro de uma vis\u00e3o esquem\u00e1tica, mas n\u00e3o menos importante, que define protagonismo como uma ou poucas figuras centrais em detrimento a todo o resto, eu at\u00e9 poderia me contentar em dizer que em <em>C\u00e3es<\/em> temos somente duas protagonistas: J\u00falia e, de certo modo, Cafe\u00edna, a cadela \u2013 se isso for poss\u00edvel, conforme os estudiosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, e n\u00e3o querendo contestar quaisquer teorias (n\u00e3o tenho cacife para tanto), posso afirmar que senti o peso de outra personagem na hist\u00f3ria: a m\u00e3e da autora-narradora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entendendo peso como algo marcante, me aventuro a dizer que, sem essa \u201cpersona\u201d, talvez o livro n\u00e3o tivesse tanta for\u00e7a. Evidentemente ao me ler assim, voc\u00ea pode ficar confuso. O que \u00e9 cab\u00edvel (afinal, ela \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 protagonista? Gustavo anda fumando o qu\u00ea?). Com os fragmentos abaixo, por\u00e9m, talvez eu consiga me explicar, mesmo correndo riscos ao expor uma pequena parte do que li sobre:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEla mesmo me dizia, fingindo brincadeira, que eu havia roubado a sua beleza. Nasci parasita insaci\u00e1vel, tirando-lhe a graciosidade, obrigando-a a permanecer acordada por noites a fio, sugando-lhe os peitos do\u00eddos. Minha m\u00e3e quase morreu ao me parir. Seus p\u00e9s saltaram do n\u00famero 35 ao n\u00famero 38. At\u00e9 hoje eu desconfio que a viol\u00eancia que ela impunha contra mim na inf\u00e2ncia foi uma resposta \u00e0 viol\u00eancia imposta sobre ela, imposta por um mundo inteiro.<\/em>\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cO feminismo acad\u00eamico do qual eu tanto me orgulhava n\u00e3o havia me ensinado metade do vigor que mam\u00e3e me ensinou.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levando-se em conta o fato de que, apesar da import\u00e2ncia, a m\u00e3e de Grilo n\u00e3o \u00e9 \u00fanica mulher a surgir e a definir o rumo do livro (que foi dedicado a ela, \u00e9 bom que se diga), isso sem falar nas cadelas, mais uma vez invento outra teoria: para mim, <em>C\u00e3es <\/em>\u00e9 um livro essencialmente feminino. E boa parte de sua beleza vem da\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que n\u00f3s, homens, costumamos chamar de \u201cuniverso feminino\u201d parece se mostrar um pouco para o leitor. E J\u00falia mais uma vez me surpreende ao se utilizar do aleg\u00f3rico e de uma boa dose de fabula\u00e7\u00e3o, na tentativa de nos fazer enxergar esse universo, que atrita com a realidade ainda hoje <em>\u201cimposta\u201d<\/em> \u00e0s mulheres, realidade bem distinta da que n\u00f3s, homens, conhecemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso de <em>C\u00e3es<\/em>, por\u00e9m, a f\u00e1bula quando utilizada n\u00e3o se parece com aquela tradicional, em que a \u201cmoral da hist\u00f3ria\u201d, necess\u00e1ria em algum momento de nossas conquistas cognitivas, \u00e9 a \u00fanica resposta vi\u00e1vel (o Lobo que sopra enquanto os Porquinhos trabalham; moral: d\u00ea duro e tenha uma casa de tijolos). Para mim, o uso de animais no livro, no caso os cachorros, tem mais a ver mesmo com o esperto Pedro Vermelho, citado no pref\u00e1cio pelo professor Wagner Teles. Ou at\u00e9 com um pouquinho do Orwell, sem o lance da distopia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, e <em>acima de tudo<\/em>, os c\u00e3es que existem e coexistem na obra s\u00e3o escolhas feitas pela autora. Prioritariamente por causa de seu declarado afeto por Cafe\u00edna &#8211; a mesma que, segundo J\u00falia, <em>\u201cera t\u00e3o miudinha que cabia nos meus sapatos\u201d<\/em> -, al\u00e9m de ser fundamento para Grilo desenvolver bem a sua arte. Arte que, conforme escreveu Laerte (sim, ela: a Laerte-Genial!) na orelha do livro, se organiza <em>\u201c(&#8230;) \u00e0s vezes em folia, \u00e0s vezes em sofrimento.<\/em>\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A humanidade em Cafe\u00edna<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o desejo de se tornar humana, pois s\u00f3 <em>\u201cquem pode abrir os port\u00f5es s\u00e3o os humanos<\/em>\u201d, em determinado momento do livro Cafe\u00edna foge. E dentre todos os acontecimentos envolvendo de forma direta a cadela, talvez esse seja o mais importante para mim, pois ele causa uma mudan\u00e7a no ritmo, na forma e na narrativa de Grilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s um acidente corriqueiro e um distanciamento entre Cafe\u00edna e a sua dona (a pr\u00f3pria J\u00falia Grilo), presente no cap\u00edtulo 8, \u201cCaf\u00e9\u201d come\u00e7a a planejar sua fuga, ainda que o desejo de partir talvez n\u00e3o seja resultado direto desses dois eventos. Ent\u00e3o \u00e0 noite, quando a garagem se abrisse para a entrada do carro do pai de J\u00falia, \u201cCaf\u00e9\u201d iria se esgueirar entre o ve\u00edculo e a parede, correndo para bem longe em seguida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cFoi o que ela fez.\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir desse ponto, o rumo da hist\u00f3ria d\u00e1 uma boa guinada. E mais uma vez somos pegos de surpresa. No contrap\u00e9 e na contram\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que vemos a seguir \u00e9 uma sucess\u00e3o de fatos e acontecimentos envolvendo os c\u00e3es. E aqui J\u00falia consegue desenvolver a hist\u00f3ria com uma petul\u00e2ncia incomum, como se ela n\u00e3o enxergasse sequer os riscos adiante: o de misturar formas de escrita e cair inevitavelmente num buraco sem fim de obviedades infantis, tolices, falcatruas intelectuais e imita\u00e7\u00f5es no varejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o poucos os cap\u00edtulos onde acompanhamos Caf\u00e9 em seu mundo. Mundo em que cachorros conversam, sentem inveja, lutam por posi\u00e7\u00f5es de poder e se afei\u00e7oam uns aos outros. A petul\u00e2ncia da autora, todavia, em vez de ceg\u00e1-la para os erros, confirma seu talento e se converte em moral, inten\u00e7\u00e3o e mais uma vez coragem, principalmente numa estreia. Pois, para mim, muita gente competente na escrita derraparia nessa vereda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00falia nos provou que o risco valeu a pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A transi\u00e7\u00e3o entre uma vis\u00e3o \u201chumana\u201d para uma vis\u00e3o \u201ccanina\u201d n\u00e3o nos agride. E a mudan\u00e7a se faz numa boa, a partir da simplicidade de uma frase-ato (<em>\u201cFoi o que ela fez.\u201d)<\/em> que nos mostra a concretiza\u00e7\u00e3o da fuga e do plano (eu disse \u201cplano\u201d) de uma cadela (eu disse \u201ccadela\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed que Cafe\u00edna, com<em> \u201cos olhos saltando como esp\u00e1tulas de batedeira, brilhando junto \u00e0 lua\u201d<\/em>, segue <em>\u201cpassando em frente a \u00e1rvores que miavam, capins que coaxavam, muros que latiam, sempre adiante, empurrando com as fu\u00e7as a vontade de escorrer dilu\u00edda, desgarrada das coleiras.\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ratificando, digo que colocar num animal o desejo de se tornar humano, e fazer isso de forma bacana e coerente, n\u00e3o \u00e9 para muitos. Agora imaginar que esse desejo de se humanizar surgir\u00e1 com leveza e poesia, servindo tamb\u00e9m de suporte para questionamentos, j\u00e1 paga o pre\u00e7o e justifica minha labuta ao tentar explicar a voc\u00eas o romance.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201c \u2013 Quem \u00e9 voc\u00ea?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Eu sou Cafe\u00edna (Por que sempre faziam essa pergunta?)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; E o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ela n\u00e3o sabia como explicar. A m\u00e3e, os humanos, a dor, Duquesa <\/em>(a boxer alem\u00e3 que divide a casa com Caf\u00e9)<em>, o port\u00e3o, tudo, ela n\u00e3o sabia como explicar. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Eu estou me tornando humana.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Riram.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entendo que as palavras \u201cm\u00e3e\u201d, \u201cdor\u201d, \u201cport\u00e3o\u201d e, principalmente, o \u201dtudo\u201d que encerra a frase dizem muito sobre J\u00falia Grilo, nossa estreante-petulante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, afirmo que o fato do livro ser feminino ou n\u00e3o, f\u00e1bula ou simples fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem import\u00e2ncia. <em>C\u00e3es<\/em> \u00e9 merecedor de elogios e de aten\u00e7\u00e3o, e pronto. Pois a obra, ainda que n\u00e3o se d\u00ea ao luxo de ser facilmente entendida, dentro da defini\u00e7\u00e3o de um estilo, se mostrou para mim profunda, interessante e envolvente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo que a gente n\u00e3o entenda de que se trata (fic\u00e7\u00e3o, f\u00e1bula, autofic\u00e7\u00e3o ou literatura \u00e0 toa), digo que <em>C\u00e3es<\/em> \u00e9 uma estreia \u201cde prima\u201d. Al\u00e9m de ser uma amostra da literatura feita na Bahia atualmente. Pouco importando o resto, pois, conforme E. M. Foster, o <em>\u201c(&#8230;) teste final de um romance ser\u00e1 a nossa afei\u00e7\u00e3o por ele, o que \u00e9 o mesmo teste dos nossos amigos e de todas aquelas outras coisas que n\u00e3o conseguimos definir direito.\u201d (2)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/span>(1) Trecho extra\u00eddo da resenha \u201cA literatura segundo Coetzee\u201d, de Willian Vieira; revista Quatro Cinco Um, edi\u00e7\u00e3o 41. Mas relaxem: o livro resenhado j\u00e1 est\u00e1 nos Correios.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>(2) <\/em><em style=\"text-align: justify;\">Trecho da p\u00e1gina 44 do livro \u201cAspectos do Romance\u201d. Esse eu li at\u00e9 o final.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Gustavo Rios<\/em><\/strong><em> \u00e9 baiano e autor do livro Raps\u00f3dia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cC\u00e3es\u201d, romance de J\u00falia Grilo, \u00e9 alvo das aten\u00e7\u00f5es de Gustavo Rios <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18684,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3980,2533],"tags":[11,1124,4009,2411,4010,189,496],"class_list":["post-18683","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-143a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-back-in-bahia","tag-caes","tag-gustavo-rios","tag-julia-grilo","tag-resenha","tag-romance"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18683","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18683"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18683\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18762,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18683\/revisions\/18762"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18684"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18683"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18683"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18683"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}