{"id":18704,"date":"2021-04-05T11:05:01","date_gmt":"2021-04-05T14:05:01","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18704"},"modified":"2021-04-07T18:43:35","modified_gmt":"2021-04-07T21:43:35","slug":"janela-poetica-iv-79","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/janela-poetica-iv-79\/","title":{"rendered":"Janela Po\u00e9tica IV"},"content":{"rendered":"<p><em>Helena Aranha<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18706\" aria-describedby=\"caption-attachment-18706\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/6C9BF08D-6C57-4D23-B847-9952586C76E6.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18706\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/6C9BF08D-6C57-4D23-B847-9952586C76E6.jpeg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/6C9BF08D-6C57-4D23-B847-9952586C76E6.jpeg 375w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/6C9BF08D-6C57-4D23-B847-9952586C76E6-225x300.jpeg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18706\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Marjorie Duarte<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Meus ouvidos s\u00e3o copos de vidro<br \/>\nbacias onde escorre pra dentro<br \/>\n\u00e1gua salgada<br \/>\n\u2013 ao passo do conta gotas<br \/>\nda gravidade \u2013<br \/>\nnascida do len\u00e7ol fre\u00e1tico<br \/>\nque me corta.<\/p>\n<p>Dentro da noite<br \/>\nh\u00e1 pontilhados<br \/>\nno teto, que me fogem<br \/>\ndan\u00e7ando o ronco das motos<br \/>\nO eterno ru\u00eddo da boca<br \/>\ndo est\u00f4mago<br \/>\narranca.<\/p>\n<p>Dentro da noite<br \/>\nh\u00e1 algo que me escapa<br \/>\nou me consome. Dentro<br \/>\nda fronha do travesseiro<br \/>\nDentro<br \/>\ndo caf\u00e9 que tomei mais cedo<br \/>\nDentro<br \/>\nn\u00e3o.<\/p>\n<p>[ de vidro ]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Percebi que n\u00f3s pode significar n\u00f3s como os n\u00f3s de uma corda de uma corrente<br \/>\nn\u00f3s podem(os) barrar a fluidez de um movimento de um peso<br \/>\nobstruir a entrada de certas coisas<br \/>\nn\u00f3s de uma armadilha n\u00f3s de dedos apertados e n\u00f3s juntos n\u00f3s<br \/>\nn\u00e3o necessariamente somos bons mesmo quando pensar em n\u00f3s \u00e9 bom<br \/>\nn\u00f3s somos ruins atados ou quando um dos n\u00f3s se prende<br \/>\nn\u00f3s sugerem uma liga\u00e7\u00e3o feita \u00e0 for\u00e7a e n\u00e3o se questiona<br \/>\n\u00e0 quem ela pertence \u00e0 quem interessa estes n\u00f3s t\u00e3o presos e dados<br \/>\nn\u00f3s talvez se desfa\u00e7am com paci\u00eancia e com jeito<br \/>\nmas para tanto nos deixam machucados, tanto que desistimos dele<br \/>\nn\u00e3o como quem se conforma mas como quem se cansa e larga<br \/>\ncom as m\u00e3os ocupadas<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esquecer tem uma manha, uma regra,<br \/>\nconsiste numa f\u00f3rmula que todo mundo conhece,<br \/>\nda qual por algum motivo fui alienada?<br \/>\nEsquecer tem textura de pele,<br \/>\nou gosto de cigarro,<br \/>\nseu cheiro fica impregnado nos dedos?<\/p>\n<p>A l\u00edngua amarga e inchada dentro da boca,<br \/>\nos olhos vermelhos e apertados,<br \/>\ntentando enxergar na claridade branca do morma\u00e7o?<br \/>\nO som da espuma iluminada e efervescente<br \/>\nque interrompe o ensurdecer calmo do mar,<br \/>\na onda que atinge sem aviso?<br \/>\nE que te puxa para onde quiser,<br \/>\nem uma dan\u00e7a descoordenada<br \/>\nque te engole por inteiro<br \/>\ne voc\u00ea n\u00e3o sabe mais se faz algumas horas, um final de semana,<br \/>\nou uma vida toda em que a ard\u00eancia do sal na garganta<br \/>\nse esgueirou em dire\u00e7\u00e3o ao peito<br \/>\nse expandindo at\u00e9 explodir em um rasgo,<br \/>\nnum ciclo onde as hist\u00f3rias se repetem<br \/>\nsem plat\u00e9ia e sem voz.<\/p>\n<p>Seria o suor escorrendo pelas costas,<br \/>\na tatuagem desbotada,<br \/>\no calor abafado, a voz que grita e ri,<br \/>\num cinema abandonado na Rep\u00fablica?<br \/>\nSeria o amigo que te beija a bochecha,<br \/>\nafundar em um abismo de almofadas,<br \/>\na dor que vem tirar o sono?<br \/>\nOu seria cantar baixo acompanhando as curvas da estrada?<\/p>\n<p>Quantos copos de caf\u00e9 tomar at\u00e9 esquecer?<br \/>\nQuantos goles, quantos dias, quantas manh\u00e3s em sil\u00eancio,<br \/>\nquantas vezes chegar em casa, o tilintar indiscreto das chaves no escuro,<br \/>\ncaminhar \u00e0s cegas pelo corredor memorizado,<br \/>\nfechar a janela do quarto como um ritual de encerramento<br \/>\nque se repete toda noite e finda absolutamente nada.<\/p>\n<p>Penso tanto nessas 8 letras, uma de cada vez,<br \/>\numa mem\u00f3ria por vez,<br \/>\nseparo em s\u00edlabas \u00e0 medida em que tamb\u00e9m divido as horas,<br \/>\ntr\u00eas s\u00edlabas, tr\u00eas horas, tr\u00eas meses,<br \/>\na sem\u00e2ntica n\u00e3o me parece intelig\u00edvel<br \/>\npois s\u00f3 me vem \u00e0 cabe\u00e7a o ant\u00f4nimo que \u00e9 lembrar a todo segundo<br \/>\ne quase implorar para algu\u00e9m me ensinar<br \/>\ncomo se faz para esquecer o que \u00e9 gostar de voc\u00ea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">sombras teu contorno cobre p\u00e1ginas as palavras falam sobre ele<br \/>\nou sobre n\u00f3s \u00e9 dif\u00edcil ter certeza sobre mim e sobre o que s\u00e3o apenas<br \/>\nsombras observo tudo o que h\u00e1 em n\u00f3s sob uma camada de sombras<br \/>\nsombras na esquina da loja me assusto com algumas sombras<br \/>\ne de volta para casa corro sozinha pois me vejo envolta por sombras<br \/>\nno frio do apartamento n\u00e3o te enxergo em meio \u00e0s sombras e pela janela<br \/>\no gato branco se perde sorrateiro entre sombras sua bicicleta me corta<br \/>\njogada em sombras num emaranhado de cacos e roupas e lixo e tantas<br \/>\noutras sombras mentiras e sombras a corda despejada me amarra<br \/>\ne me revela minhas pr\u00f3prias sombras o escuro e o som da chuva<br \/>\nme confundem pois seu rosto est\u00e1 repleto de sombras sombras<br \/>\nquando caminho pelas ruas vejo apenas sombras sombras e na mente<br \/>\nde cada pessoa sombras sombras no metr\u00f4 prevejo abismos onde<br \/>\npotencialmente existem sombras sombras ou apenas sombras<br \/>\nat\u00e9 que ponto h\u00e1 sombras h\u00e1 profundidade nas sombras e as sombras<br \/>\ne os planos s\u00e3o apenas sombras se os pensamentos t\u00e3o escuros<br \/>\nest\u00e3o apenas no meio das sombras sombras quanto mais a sombra<br \/>\n\u00e9 dif\u00edcil de entender nas sombras que caminham ao meu lado<br \/>\ne se s\u00e3o sombras ou apenas sombras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nessas f\u00e9rias comi bem.<br \/>\nEstive ocupada, te garanto,<br \/>\npor isso n\u00e3o respondi nenhuma das suas mensagens.<br \/>\nPerambulei por lombadas diversas que me chamaram,<br \/>\nsem rotina, sem dever. Li o que meu professor<br \/>\nescreveu sobre sexo e mais um tanto<br \/>\nde introdu\u00e7\u00f5es e coisas incompletas.<\/p>\n<p>O notici\u00e1rio estava dif\u00edcil, as noites \u00e0s vezes<br \/>\nmais, o vinho intrag\u00e1vel embora delicioso.<br \/>\nMatei a curiosidade ao quase me afogar<br \/>\nentre ondas que, ao se partirem ao meio,<br \/>\nacariciaram minha bochecha esquerda.<\/p>\n<p>Encontrei no c\u00e9u um laranja t\u00e3o aberto<br \/>\nque n\u00e3o podia ser verdade; na mata,<br \/>\no sopro da noite; na \u00e1gua, a divis\u00e3o do mundo;<br \/>\nvi ao longe (n\u00e3o t\u00e3o longe) uma mulher<br \/>\nde mai\u00f4 branco e me vi de mai\u00f4 preto.<br \/>\nLembrei de voc\u00ea e de voc\u00ea e de voc\u00ea,<br \/>\nmeus p\u00e9s \u00e0s vezes emergiam e avistei<br \/>\nat\u00e9 um caranguejo sendo levado pela mar\u00e9.<\/p>\n<p>O p\u00eassego estragou, mas comi alguns,<br \/>\no maracuj\u00e1 que ia virar bolo tamb\u00e9m.<br \/>\nTudo bem; tenho o corpo abastecido,<br \/>\nminha barriga se dobra em conforto,<br \/>\nmeu cora\u00e7\u00e3o saciado<br \/>\npois nessas f\u00e9rias comi bem,<br \/>\nembora voc\u00ea n\u00e3o tenha me comido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hoje em dia \u00e9 com o coiote que transo,<\/p>\n<p>embora haja ainda um resqu\u00edcio<br \/>\na mem\u00f3ria de canto de olho<br \/>\ndas chaves lubrificadas pelo frio<br \/>\nescorregando no bolso do peito<br \/>\nda respira\u00e7\u00e3o que pintava o escuro<br \/>\ndos pelos eri\u00e7ados<br \/>\ne meus passos que lambiam gelo.<\/p>\n<p>De noite<br \/>\no olho do coiote brilha<br \/>\nmilhares de vezes em cada folha \u00famida<br \/>\nestrelas negras flutuantes<br \/>\nna rua que tentava ser uma velha amiga<br \/>\nonde uma mulher emergia dos arbustos<br \/>\nonde um homem deslizava de bicicleta<br \/>\nonde eu caminhava sem querer ser vista.<\/p>\n<p>Hoje em dia estou na mesma rua<br \/>\nhoje em dia o corredor n\u00e3o se esquece<br \/>\nhoje em dia a casa n\u00e3o chega<br \/>\nas chaves est\u00e3o perdidas<br \/>\nno pega-pega infinito de uma ca\u00e7ada<\/p>\n<p>e meus passos doem<\/p>\n<p>e meus olhos ardem.<\/p>\n<p>Naquela rua n\u00e3o havia um coiote<br \/>\nEle n\u00e3o se escondia<br \/>\nEle n\u00e3o me enganava.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Helena Aranha<\/em><\/strong><em> (1991) \u00e9 designer, nascida em S\u00e3o Paulo, onde reside atualmente. Em seu est\u00fadio na capital paulista, desenvolve experimentos art\u00edsticos com poesia e artes visuais, al\u00e9m de projetos de design gr\u00e1fico e ilustra\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As possibilidades da palavra reveladora de Helena Aranha <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18705,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3980,9],"tags":[4000,3999,2225,107,159],"class_list":["post-18704","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-143a-leva","category-janelas-poeticas","tag-designer","tag-helena-aranha","tag-ilustracao","tag-janela-poetica","tag-poemas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18704","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18704"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18704\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18759,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18704\/revisions\/18759"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18705"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}