{"id":18817,"date":"2021-05-27T10:10:55","date_gmt":"2021-05-27T13:10:55","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18817"},"modified":"2021-05-31T19:16:14","modified_gmt":"2021-05-31T22:16:14","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-77","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-77\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Elis Matos <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Artistas como <strong>Tereza S\u00e1<\/strong> nos fazem compreender que algumas almas expandem a vida imaginativa em v\u00e1rias nuances, porque desde muito cedo foram expostas ao m\u00e1ximo de realidade poss\u00edvel. Entendendo os atravessamentos dos que vieram antes, bem como a import\u00e2ncia das refer\u00eancias que lhe foram apresentadas durante a inf\u00e2ncia, ela se declara resultado da for\u00e7a de gera\u00e7\u00f5es anteriores, em sua fam\u00edlia. Mulher negra, professora, poeta e atriz, filha do professor e poeta El\u00e9us Leonardo de S\u00e1 e de Tereza Soares de S\u00e1, m\u00e3e de \u00c8bano Bencos e de Luan Bencos, a entrevistada da <em>Pequena sabatina ao artista<\/em> \u00e9 ilheense, Graduada em Letras\/Espanhol e Pedagogia (UESC), Especialista em Leitura e Produ\u00e7\u00e3o Textual e Educa\u00e7\u00e3o e Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-raciais (UESC), Mestranda em Ensino e Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-raciais (UFSB). Atualmente, Tereza S\u00e1 faz parte da Cia Trapizonga de Teatro e do Coletivo Afro em Cena (UFSB), que trabalha na perspectiva do teatro negro, tendo o corpo negro tamb\u00e9m como protagonista da cena. Al\u00e9m disso, ela integra a Colet\u00e2nea Liter\u00e1ria e Fotogr\u00e1fica de mulheres: Profundan\u00e7as 3. Seja com express\u00f5es faciais fortes, em<em> performances<\/em> marcantes; ou versos intrigantes, em poemas bastante atuais, Tereza S\u00e1 mostra que h\u00e1 mais para se ver e interpretar em suas express\u00f5es art\u00edsticas. Com uma carreira que inclui o concurso de poesia da Revista Bras\u00edlia, que lhe rendeu o pr\u00eamio da categoria &#8220;destaque&#8221; e a publica\u00e7\u00e3o coletiva no livro Valores Liter\u00e1rios do Brasil, Volume XV(1992), a artista conta \u00e0 Diversos Afins sobre sua trajet\u00f3ria art\u00edstica, suas experi\u00eancia de vida e como tem pensado a arte no atual cen\u00e1rio pand\u00eamico, no Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18824\" aria-describedby=\"caption-attachment-18824\" style=\"width: 489px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem-02.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18824 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem-02.jpg\" alt=\"\" width=\"489\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem-02.jpg 489w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem-02-293x300.jpg 293w\" sizes=\"auto, (max-width: 489px) 100vw, 489px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18824\" class=\"wp-caption-text\">Tereza S\u00e1 \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Mulher negra, ilheense, professora, poeta e atriz. Co-autora do Projeto &#8220;Mulher Negra: a for\u00e7a que se explica&#8221;, na Escola Municipal Them\u00edstocles Andrade, no Teot\u00f4nio Vilela, em Ilh\u00e9us. Tereza S\u00e1, a sua biografia em constantes transforma\u00e7\u00f5es e atravessamentos, em alguma medida, se explica pela sua \u00e1rvore geneal\u00f3gica? Quais influ\u00eancias, dos que a antecederam, voc\u00ea consegue identificar em seus percursos individuais e coletivos? Mais, quais as diverg\u00eancias e desconstru\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TEREZA S\u00c1 &#8211; <\/strong>Sim. Eu posso afirmar que a constitui\u00e7\u00e3o do que eu sou \u00e9 inteiramente atravessada pela for\u00e7a dos que me antecederam. Sempre me vi fortalecida pela refer\u00eancia individual e tamb\u00e9m coletiva de pessoas que muito contribu\u00edram e contribuem para a forma\u00e7\u00e3o da mulher que me constitui. Como crian\u00e7a negra, conheci desde muito cedo os percal\u00e7os que o racismo nos coloca. Foram justamente essas refer\u00eancias que me encorajaram no processo de enfrentamento ao racismo, sexismo e tantos dilemas que envolvem o ser mulher negra. Sinto-me uma mulher m\u00faltipla, intensa, cheia de sonhos e projetos. Minha influ\u00eancia primeira acontece dentro de casa. Meu pai, intelectual negro, professor de Esperanto, sempre nos possibilitou contato com a cultura e a arte. Fomos expostos ainda crian\u00e7as a ambientes onde o po\u00e9tico e o est\u00e9tico se estabeleciam, mesmo diante das dificuldades que a vida nos impunha. Cresci ouvindo meu pai tocando bandolim, recitando poesias, escrevendo artigos em jornais e participando de colet\u00e2neas po\u00e9ticas. Minha m\u00e3e sempre precisa em cobrar, de n\u00f3s, leituras. \u00a0Era certo que em algum momento eu enveredaria pelos caminhos das artes para al\u00e9m do lugar de expectadora. Essas refer\u00eancias iniciais foram decisivas para as minhas proje\u00e7\u00f5es, a curto e longo prazo, e com o passar do tempo foram somadas a novas experi\u00eancias, novos contatos com pessoas, em sua maioria mulheres negras, que influenciaram e me encorajaram a seguir na composi\u00e7\u00e3o das coisas que acredito. Certamente seria muito mais dif\u00edcil para eu caminhar e crescer sem os di\u00e1logos que se estabeleceram, o exemplo e principalmente os ensinamentos dessas pessoas para que eu persistisse nos sonhos e na coragem de ser feliz. As diverg\u00eancias encontradas se deram mais precisamente no campo da ra\u00e7a e do g\u00eanero. Ainda que n\u00e3o fosse dito com palavras, desde a inf\u00e2ncia j\u00e1 esbarrava na imposi\u00e7\u00e3o de um lugar para a mulher negra na sociedade e, por mais que meu ambiente familiar me desse suporte de supera\u00e7\u00e3o, eu me vi por diversas vezes afetada por impedimentos do sistema de opress\u00e3o e viol\u00eancia que me colocaram em condi\u00e7\u00e3o de silenciamento e in\u00e9rcia, em diversas situa\u00e7\u00f5es. A escrita liter\u00e1ria foi uma delas. Por muito tempo me tranquei para o ato da escrita acreditando n\u00e3o ser esse meu lugar. Mas a minha trajet\u00f3ria \u00e9 de lutas e a for\u00e7a da ancestralidade sempre me colocou no trilho da hist\u00f3ria, renovando as \u00e1guas da minha exist\u00eancia. Tenho caminhado e seguido os passos de nossos antepassados que resistiram para que pud\u00e9ssemos (re)existir e ocupar todos os espa\u00e7os que nos foram negados. Os desafios s\u00e3o muitos e as redes de apoio estabelecidas entre as mulheres negras v\u00eam fortalecendo nossa consci\u00eancia ancestral, nos fazendo revisitar mem\u00f3rias, que nos encorajam a um constante movimento em busca de estabelecer nossas trajet\u00f3rias enquanto mulheres negras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u201cSinto-me uma mulher m\u00faltipla\u201d, esta \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o sua sobre a composi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de sua identidade, no mundo. Outro dado importante de sua biografia \u00e9 o fato de ter sido criada em ambientes onde o po\u00e9tico e o est\u00e9tico se comunicavam. Como \u00e9 poss\u00edvel, em retrospecto, identificar os contornos est\u00e9ticos constru\u00eddos na e a partir de seus escritos? Quais as refer\u00eancias visuais e liter\u00e1rias ganham sentido e materialidade nas suas constru\u00e7\u00f5es art\u00edsticas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TEREZA S\u00c1 &#8211;<\/strong> A palavra realmente se fez a for\u00e7a motriz no que me constitu\u00ed. Minha mem\u00f3ria remota aos sons impactantes, seja vinda dos prov\u00e9rbios proferidos por minha m\u00e3e, seja atrav\u00e9s das m\u00fasicas que meus irm\u00e3os ouviam na \u201cradiola\u201d. Eu gostava de ouvir os discos de vinil lendo os encartes que acompanhavam as m\u00fasicas. Lembro de um disco de Raimundo Fagner intitulado <em>Eu canto<\/em> (quem viver chorar\u00e1) e, dentre todas que gostava, uma me chamava aten\u00e7\u00e3o e dizia: \u201cEu canto porque o instante existe\/e a minha vida est\u00e1 completa. \/ N\u00e3o sou alegre nem sou triste:\/sou poeta.\u201d Eu deveria ter uns dez anos. Essa can\u00e7\u00e3o me consumia os instantes. N\u00e3o sei se por conta da letra ou da interpreta\u00e7\u00e3o do cantor. S\u00f3 mais tarde tomei conhecimento de Cec\u00edlia Meireles como poeta. E assim eu cresci consumida pela palavra cantada e reconhecendo tamb\u00e9m essa for\u00e7a na escrita. A minha consci\u00eancia da escrita veio muito sutilmente e n\u00e3o era nada compuls\u00f3rio. Aconteceu ainda na inf\u00e2ncia, justamente nessa \u00e9poca em que era afetada por can\u00e7\u00f5es e bord\u00f5es de minha m\u00e3e. J\u00e1 na fase adulta eu compreendi que o que eu escrevia era poesia, mas uma poesia que n\u00e3o se atrelava a uma est\u00e9tica especifica. Meu pai, que era trovador, ao perceber que eu escrevia, passou a me orientar sobre a m\u00e9trica da trova. Arrisquei os versos rimados dentro da m\u00e9trica, mas confesso que sempre tive dificuldade com aquele processo matem\u00e1tico e, ao tentar encaixar pensamento\/sentimento na m\u00e9trica, sempre fracassava. Isso foi um dos fatores tamb\u00e9m que me travaram no processo do escrever, pois papai me dizia que a forma com que eu escrevia era coisa da modernidade e deixava transparecer que n\u00e3o era muito \u201celegante\u201d. Mais adiante, aprendi sobre versos livres, poesia concreta, entre outras coisas da \u201cmodernidade\u201d que me permitiram mais liberdade. E eu continuei a escrever da forma que os poemas me vinham e registrava. Apenas isso. Registrava, guardava e muitas vezes os revisitava, da mesma forma que revisitava os poemas de Cecilia Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira&#8230; Note que a literatura que eu consumia era majoritariamente masculina. Posso garantir que muito do que escrevi inicialmente (e muitas vezes atualmente) foi afetada por essa literatura. Atualmente reconhe\u00e7o a riqueza da escrita de mulheres, principalmente das escritoras negras e fico triste com o tempo em que essa literatura esteve t\u00e3o distante do alcance de minhas m\u00e3os. Hoje sou afetada pela escrita de Mirian Alves, Esmeralda Ribeiro, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, entre tantas que os Cadernos Negros me apresentaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O teatro me chegou paulatinamente e sei que seu pren\u00fancio se deu na inf\u00e2ncia quando ainda na pr\u00e9-escola eu decorava os versos para o dia das m\u00e3es e outros eventos. Sentia prazer naquilo, mas n\u00e3o sabia que me acompanharia para a vida toda. Foi no Ensino Fundamental, nas atividades para as Feiras de Ci\u00eancias que eu compreendi o quanto o palco me tornava imensa e que queria muito aquilo. Busquei cursos de teatro na cidade, que s\u00f3 fortaleceram a certeza de que representar era algo fundamental pra mim. Tive poucas experi\u00eancias com teatro cl\u00e1ssico.\u00a0 As oportunidades me levaram \u00e0s t\u00e9cnicas de Boal e ao teatro de rua. Poder atuar ao lado de Jorge Batista, M\u00f4nica Franco, Telma S\u00e1, Rita Santana, Val Kakau, Tereza Dam\u00e1sio, Justino Viana, Ester Santana e Jo\u00e3o Marcelino, no <em>Grupo Caras e M\u00e1scaras<\/em> nos finais dos anos 80 em Ilh\u00e9us, foi algo imenso e revelou em mim a atriz. Nosso repert\u00f3rio textual era referendado pela m\u00fasica popular e a literatura brasileira, fortes dispositivos para nossa atua\u00e7\u00e3o enquanto teatro de\/na rua, de dire\u00e7\u00e3o coletiva. Os artistas da regi\u00e3o foram grandes influenciadores na arte em que me propus navegar. Os grupos <em>Macuco<\/em>, de Buerarema, <em>Arte em cena<\/em>, de Itabuna, e os atores e atrizes, como Carlos Bet\u00e3o, Ramon Vane, Marcos Cristiano, Alba Cristina, Eva Lima, s\u00e3o figuras que introjetaram o gosto e a possibilidade de fazer teatro no Sul da Bahia e s\u00e3o as refer\u00eancias mais marcantes, pois reverberam at\u00e9 hoje em minhas constru\u00e7\u00f5es art\u00edsticas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Interessante pensar que sua biografia transita por v\u00e1rias artes, como uma esp\u00e9cie de tessitura que desenha um conjunto muito singular. No fazer teatral, temos uma infinidade de formas de atua\u00e7\u00e3o e composi\u00e7\u00e3o de cena, a <em>performance <\/em>\u00e9 uma delas. O teatro de rua, digo a <em>performance <\/em>realizada na rua \u2013 encontra sempre o contingente, o inesperado, tal qual a vida. Como voc\u00ea descreveria a rela\u00e7\u00e3o entre este espet\u00e1culo de rua, seu percurso de vida e a troca com o p\u00fablico espectador? Esta rela\u00e7\u00e3o sempre foi a mesma sempre? Quais as variantes?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TEREZA S\u00c1 &#8211; <\/strong>O teatro de rua foi um grande divisor de \u00e1guas para mim e acredito que para todos os integrantes do <em>Grupo<\/em> <em>Caras e M\u00e1scaras<\/em>, pois viv\u00edamos em um processo decisivo no que se refere \u00e0 entrega de sermos atores\/atrizes, mas nos depar\u00e1vamos com a dificuldade de n\u00e3o termos diretor e, por estarmos frequentemente ausentes do palco, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9ramos convidades a atuar em espet\u00e1culos. Acreditamos por muito tempo que para um grupo existir de fato deveria contar com a presen\u00e7a de um diretor para desempenhar \u00fanica e exclusivamente essa fun\u00e7\u00e3o. S\u00f3 quando passamos a entender que o teatro poderia acontecer em espa\u00e7o n\u00e3o convencional e que poder\u00edamos dinamiz\u00e1-lo em uma dire\u00e7\u00e3o coletiva, foi que realizamos nosso sonho de atuar. Isso foi engrandecedor. Fizemos da rua nosso palco e essa rela\u00e7\u00e3o se estabeleceu por muitos anos, movimentando a cidade e nossas vidas. Esse teatro foi para mim uma escola e o aprendizado se estende at\u00e9 hoje. Aprendi a reinventar-me sempre. No teatro de rua eu aprendi a perseguir sonhos, criar meu pr\u00f3prio jogo de cena, superar obst\u00e1culos. Sinto a vida como um verdadeiro espet\u00e1culo, no qual estamos constantemente performando as diversas vers\u00f5es de n\u00f3s. Eu, por exemplo, tenho a sala de aula, o teatro, a poesia, entre tantos pap\u00e9is sociais a desempenhar. A vida tem me surpreendido ultimamente com situa\u00e7\u00f5es de desafios. Tenho vencido esses desafios como quem entra em cena naquele teatro de rua de outrora, na certeza de que nem todos que cruzam meus caminhos s\u00e3o meros transeuntes. Muitos aparecem justamente para formar a rede de apoio, id\u00eantico como acontecia naquela \u00e9poca com o <em>Caras e M\u00e1scaras<\/em>, que sempre contava com uma plateia que colaborava com sil\u00eancios, risos, gargalhadas e at\u00e9 l\u00e1grimas. Ela aparecia em determinada pra\u00e7a ou rua porque sabia que nossa trupe estaria l\u00e1.\u00a0 Er\u00e1mos impelidos\/as por esse encorajamento e sempre foi fortalecedor contar com o apoio de tanta gente boa naquela \u00e9poca em que fazer teatro sempre foi muito desafiador pra n\u00f3s. Com isso eu acabei aprendendo a ser m\u00faltipla e a desempenhar papeis distintos que exigiriam de mim muita dedica\u00e7\u00e3o num mesmo tempo\/espa\u00e7o. Como no teatro, aprendi a ser intensa em todos eles. Lembro-me de um fato em minhas experi\u00eancias teatrais em que eu, ainda em resguardo do parto do meu primeiro filho, j\u00e1 estava em cena ensaiando a pe\u00e7a \u201cO fiscal e a Fateira\u201d, sob a dire\u00e7\u00e3o de \u00c9quio Reis. Em determinados momentos, parava para amamentar e retomava os ensaios. Isso porque eu nunca consegui fragmentar em mim a m\u00e3e, poeta, atriz e professora. Esses papeis sociais s\u00e3o a minha motricidade e um fortalece o outro. Tenho buscado intensidade em tudo o que me proponho e agora com uma certa dose de suavidade. A sala de aula sempre foi para mim espa\u00e7o de reconstru\u00e7\u00e3o e de po\u00e9ticas. As trocas que comumente estabele\u00e7o ali est\u00e3o para al\u00e9m da grade curricular e, por conta disso, a professora exigiu mais perman\u00eancia em cena. Ali\u00e1s, a sala de aula consumiu a poeta e a atriz (na ordem apontada) desproporcionalmente. Sempre foi dif\u00edcil viver de arte em nossa cidade. Sair em busca de novas possibilidades quando j\u00e1 se tem dois filhos era algo bem longe de minhas expectativas. Agarrei a carreira docente, mas de certa forma fui vivendo \u201ctudo ao mesmo tempo agora\u201d, como canta a banda Tit\u00e3s. Assim, eu vivi intensamente a gravidez\/maternidade imbricada na aprova\u00e7\u00e3o do vestibular e tamb\u00e9m na atua\u00e7\u00e3o como professora da educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica; a segunda gradua\u00e7\u00e3o conectada ao Mestrado, este, por sua vez, integrado \u00e0 participa\u00e7\u00e3o no Coletivo de teatro negro <em>Afro (en) Cena<\/em> e paralelo \u00e0 <em>Cia Trapizonga de Teatro<\/em>. Sem contar essas \u00faltimas atua\u00e7\u00f5es, concomitante com a participa\u00e7\u00e3o como poeta no livro virtual <em>Profundan\u00e7as 3<\/em>. Ufa! Parece que falta folego, n\u00e9? \u00c0s vezes, falta. Mas \u201cme recomponho\/ feito rabo de lagartixa\u201d, como afirma a cantora e compositora ilheense Eloah Monteiro. Minha trajet\u00f3ria \u00e9 assim: pulsa num emaranhado de variantes que refor\u00e7am meu existir. S\u00e3o minhas escolhas e n\u00e3o deu para escolher uma em detrimento de outra. E assim, sigo intensa, sendo acolhida e fortalecia por uma rede de mulheres negras que me revigoram e seguram em minha m\u00e3o o tempo todo para que eu tenha certeza de que a vida continua e o espet\u00e1culo n\u00e3o pode parar. Como diz Arlindo Cruz: \u201co show tem que continuar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18825\" aria-describedby=\"caption-attachment-18825\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/IImagem-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18825 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/IImagem-01.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/IImagem-01.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/IImagem-01-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18825\" class=\"wp-caption-text\">Tereza S\u00e1 \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Quando voc\u00ea diz que nunca conseguiu fragmentar em sua identidade a m\u00e3e, a poeta, a atriz e a professora, sinto que h\u00e1 uma integridade na express\u00e3o, que \u00e9 corroborada pelos relatos que se seguem na sua narrativa. Voc\u00ea poderia falar um pouco dos atravessamentos que o ser \u201cmulher\u201d na contemporaneidade imp\u00f5e? Partindo de suas experi\u00eancias, desde o seu l\u00f3cus social, conte um pouco para a <em>Diversos Afins<\/em> sobre estas intersec\u00e7\u00f5es que atravessam sua exist\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TEREZA S\u00c1 \u2013 <\/strong>Historicamente, a condi\u00e7\u00e3o do feminino sempre foi marcada sem o m\u00ednimo de dignidade humana, exclu\u00edda de todo e qualquer processo pol\u00edtico, sociocultural, em ambiente violento, predominantemente racista e machista. O espa\u00e7o que lhe fora reservado foi o da marginalidade, amarga heran\u00e7a da domina\u00e7\u00e3o colonial que espoliou a condi\u00e7\u00e3o dos colonizados de se colocarem como sujeitos e autores de pensamento e de conhecimento.\u00a0 Mas as mulheres v\u00eam assumindo uma postura de ruptura frente a essa imposi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que por tanto tempo nos colocou em condi\u00e7\u00f5es de subalternidade. Estamos assumindo postura de enfretamento \u00e0s desigualdades, reinventando nosso lugar hist\u00f3rico e criando a cada dia condi\u00e7\u00f5es para garantir participa\u00e7\u00e3o ativa em todas as esferas da sociedade. Isso tem exigido de n\u00f3s muito enfrentamento no combate \u00e0s desigualdades e resist\u00eancia para garantir conquistas e valida\u00e7\u00e3o de nossas escolhas. Mas n\u00e3o nos intimidamos, ao contr\u00e1rio, temos marcado fortemente nossas presen\u00e7as em movimentos de diferentes lutas pelo fim de opress\u00f5es e conquistas de direitos. Sabemos que toda a conjuntura de nossa sociedade se estruturou com base no patriarcado e consequentemente sustentou-se em ideologias heteronormativas, sexistas, racistas, profundamente segregacionistas. Mesmo com tantas lutas j\u00e1 conquistadas pelas mulheres, muitas desigualdades ainda precisam ser superadas, dentre elas a mais urgente \u00e9 justamente a desigualdade racial. As mazelas da escravid\u00e3o ainda nos atingem em cheio e a presen\u00e7a negra no movimento de mulheres \u00e9 de grande import\u00e2ncia, pois exige amplitudes nas lutas, traz para evid\u00eancia a necessidade de combate \u00e0s mais variadas formas de opress\u00e3o, al\u00e9m de impulsionar a mobiliza\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais equ\u00e2nime. Ser mulher negra nesse contexto demarca situa\u00e7\u00e3o muito mais desafiadora, pois exige a defesa de territ\u00f3rio do ser mulher e negra, condi\u00e7\u00f5es extremamente marginalizadas socialmente. Eu, como mulher negra, o tempo inteiro vivi os atravessamentos dessas marginaliza\u00e7\u00f5es. Desde a inf\u00e2ncia at\u00e9 os dias atuais. E, como toda preta, aprendi desde muito cedo que nossa luta \u00e9 muito mais complexa, fazendo com que estejamos em milit\u00e2ncia o tempo todo, em constante alerta para diariamente nos defendermos contra todo tipo de discrimina\u00e7\u00e3o e ass\u00e9dio. Tenho me comprometido com lutas antirracistas em sala de aula e atrav\u00e9s do teatro. A minha poesia tamb\u00e9m se apresenta como uma forma de combate e tenho feito uso dela como dispositivo para contribuir nas reflex\u00f5es das quest\u00f5es de g\u00eanero\/ra\u00e7a, somando minha voz a de muitas mulheres em um grande movimento que marca a inser\u00e7\u00e3o de nossas presen\u00e7as em espa\u00e7os tidos no passado como inacess\u00edveis para n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Por falar em poesia, no poema <em>Profundeza<\/em>, voc\u00ea encerra da seguinte maneira: \u201cJ\u00e1 n\u00e3o possuo superf\u00edcie\/Sou toda profundeza\u201d. O fazer po\u00e9tico envolve inspira\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m t\u00e9cnica e processos variados. Conte-nos um pouco sobre seus processos criativos, suas inspira\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas e, caso queira, fale um pouco sobre este poema em espec\u00edfico.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TEREZA S\u00c1 &#8211; <\/strong>Eu sempre percebi o fazer po\u00e9tico como um movimento antecipado de imagens, cores, sons, desvelo criativo, entre tantas subjetividades que podem ser tecidas por quem escreve. Antes de se consubstanciar-se em poema, a poesia j\u00e1 \u00e9 movimento na ess\u00eancia do\/a poeta e a sua corporifica\u00e7\u00e3o \u00e9 o resultado da cumplicidade entre o sentir e a decis\u00e3o de externar. O processo de escrita \u00e9 um po\u00e7o profundo e secreto que nutre todos os atravessamentos e inquieta\u00e7\u00f5es que povoam o existir. J\u00e1 mencionei que n\u00e3o sigo uma linha t\u00e9cnica espec\u00edfica no processo de escrita, mas certamente quando a poesia em mim se apresenta, traz em sua configura\u00e7\u00e3o uma roupagem entrela\u00e7ada com linguagem liter\u00e1ria e a carga emocional. De certa forma, percebo que embora n\u00e3o haja, at\u00e9 ent\u00e3o, uma escolha consciente com determinada t\u00e9cnica liter\u00e1ria, essa escrita \u00e9 bastante influenciada pelas autoras e autores que leio. Por ter contato constante com v\u00e1rios textos po\u00e9ticos, na condi\u00e7\u00e3o de leitora e tamb\u00e9m de professora, sou afetada intimamente pelas diversas est\u00e9ticas liter\u00e1rias dos\/as autores\/as que devoro. Isso certamente influencia em minhas subjetividades. Escrever \u00e9 tamb\u00e9m aprendizado. Tenho aprendido muito nessa constru\u00e7\u00e3o de aceitar-me como poeta. Sinto que a t\u00e9cnica vai se apresentando, mas n\u00e3o quero que ela represente limita\u00e7\u00e3o para minhas enuncia\u00e7\u00f5es criativas. Quero seguir no registro de minhas inspira\u00e7\u00f5es, me comprometendo mais e mais na cumplicidade com o est\u00e9tico, me permitir ser atravessada pela palavra sem tantas cobran\u00e7as. Escrevo por prazer, por impulso, mas noto tamb\u00e9m que em muitos discursos narrativos certas estruturas textuais aos poucos acabam se manifestando, sendo utilizadas porque cabem melhor em determinados poemas que em outros. Isso tem se apresentado naturalmente com a presen\u00e7a de met\u00e1foras, meton\u00edmias, sonoridade, sinestesia, que d\u00e3o fluxo aos versos que arrisco. Ultimamente, tenho me dedicado mais a apropria\u00e7\u00e3o da palavra escrita, como registro de sentimentos, me permitido brincar mais com essas palavras num jogo de escolhas e adequa\u00e7\u00e3o das mesmas na disposi\u00e7\u00e3o do processo criativo que tem insistido em se apresentar. \u00a0 Em <em>Profundeza<\/em> eu trago o car\u00e1ter intimista de encorajamento e desprendimento da po\u00e9tica. Um poema em primeira pessoa, que traz um tra\u00e7o bem caracter\u00edstico de minha escrita: muitas vezes uso a palavra com brevidade, como na capoeira regional, que ataca e defende em golpes precisos, que crescem, dilatam-se, destrincham-se, at\u00e9 se conclu\u00edrem como um s\u00f3 f\u00f4lego, ou um trago.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; (&#8230;) <em>H\u00e1 lugares que se instalam e me adentram como ostra na pedra fi(n)cam mesmo quando n\u00e3o estou. H\u00e1 lugares que em mim habitam e me povoam do que j\u00e1 sou.<\/em> Em <em>Perten\u00e7a<\/em>, voc\u00ea se refere \u00e0 influ\u00eancia que a localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica tem na (des)constru\u00e7\u00e3o da identidade do seu eu po\u00e9tico. Como este processo de identifica\u00e7\u00e3o se deu em sua biografia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TEREZA S\u00c1 &#8211; <\/strong>Na verdade, tudo \u00e9 muito um processo de constru\u00e7\u00e3o. Como falei, n\u00e3o d\u00e1 para fragmentar a multiplicidade do que sou. O mesmo ocorre com o processo de escrita. Tenho feito muitas andan\u00e7as e elas t\u00eam me conectado a dimens\u00f5es cartogr\u00e1ficas que t\u00eam interferido de forma ativa em minha constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria e consequentemente em meu processo criativo. Elas me fortalecem \u00e0 medida que revelam pessoas e lugares que tra\u00e7am os paralelos e meridianos que me constituem. Trazem-me os campos hist\u00f3ricos da minha ess\u00eancia de mulher afrodescendente. \u00c9 um rico processo de (re)afirma\u00e7\u00e3o que se completa com o sentimento de perten\u00e7a que adentra as narrativas justamente porque me atravessa. Sinto que vivo um momento abundante, de \u00e1guas cujos rios confluem e se completam. A for\u00e7a ancestral que determinados lugares e determinadas pessoas me transmitem, me conduz ao engajamento com essas for\u00e7as que s\u00e3o\/est\u00e3o em mim, fortalecendo a mem\u00f3ria coletiva que muitas vezes \u00e9 ressignificada em minha inteireza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18826\" aria-describedby=\"caption-attachment-18826\" style=\"width: 333px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem-03.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18826 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem-03.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem-03.jpg 333w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Imagem-03-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18826\" class=\"wp-caption-text\">Tereza S\u00e1 \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; <em>Tenho feito muitas andan\u00e7as e elas t\u00eam me conectado a dimens\u00f5es cartogr\u00e1ficas<\/em>, isso antes da pandemia ou mesmo neste momento? Sabemos que o artista, o criador tem as experi\u00eancias do cotidiano como respiros para a vida, de maneira geral, e mem\u00f3ria criativa de forma espec\u00edfica para as artes. Como t\u00eam sido lidar com este momento t\u00e3o delicado? H\u00e1 alguma cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica deste per\u00edodo, em seu repert\u00f3rio? E mais: criticamente, como voc\u00ea visualiza as dificuldades oriundas do momento pand\u00eamico para a classe art\u00edstica?\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TEREZA S\u00c1 \u2013 <\/strong>Infelizmente, esse tempo pand\u00eamico fez uma ruptura nessas andan\u00e7as. As rotas foram interditadas, mas boa parte das trocas permaneceu e at\u00e9 se fortaleceu. Realmente \u00e9 um momento de extrema delicadeza e n\u00e3o t\u00ednhamos propor\u00e7\u00e3o do quanto ele remexeria nossas vidas. Eu fui extremamente afetada por essa situa\u00e7\u00e3o. Passei momentos dif\u00edceis, inclusive precisei de ajuda profissional para superar. \u00c9 triste perceber que o momento de crise, incertezas e instabilidades em v\u00e1rios setores do pa\u00eds est\u00e3o atrelados a falta de a\u00e7\u00e3o efetiva e seriedade pol\u00edtica no enfretamento \u00e0 Covid-19 por parte de nosso governante, em esfera federal. A classe art\u00edstica foi bastante prejudicada, pois foi atingida em cheio por conta do isolamento social. As casas de espet\u00e1culos e os espa\u00e7os ligados \u00e0 cultura foram os primeiros a serem interditados, possivelmente ser\u00e3o os \u00faltimos a retomarem. Muitos trabalhos foram interrompidos, projetos adiados. Tem uma frase que \u00e9 atribu\u00edda a Che Guevara, mas n\u00e3o sei se realmente \u00e9 dele, que diz: \u201chay que endurecerse pero sin perder la ternura\u201d. De certa forma, isso nos descreve, nessa cat\u00e1strofe. N\u00f3s n\u00e3o perdemos a capacidade de sonhar. Fomos verdadeiramente golpeados pela pandemia e toda sua conjuntura nos deixou um tanto endurecidos\/as diante de tanto caos. Mas percebi tamb\u00e9m que em certo momento foram acontecendo determinadas atitudes isoladas e, aos poucos, como onda, foi-se ampliando e contagiando o coletivo. A classe come\u00e7ou a se mobilizar para fazer atuar como dava. Todo mundo se virando, usando a internet a seu favor. Isso nos trouxe novas e desafiadoras possibilidades de fazer arte. N\u00e3o retomamos o f\u00f4lego ainda, pois o processo se estende e n\u00e3o temos a real dimens\u00e3o de como\/quando tudo vai se resolver, mas os artistas se reinventaram nesse cen\u00e1rio, o que foi muito bom. Aprendemos muito com tudo isso, principalmente a n\u00e3o desistir. Sabemos que o aux\u00edlio emergencial contribuiu em alguns aspectos, mas faltam pol\u00edticas p\u00fablicas mais eficazes nesse setor. Eu sempre afirmo que produzo no caos. Sempre tive dificuldade em afirmar-me como poeta, principalmente por n\u00e3o ter uma disciplina r\u00edgida com a escrita. N\u00e3o sou das que organiza tempo\/ambiente. Geralmente, sou arrebatada pela poesia e me flagro criando em momentos inusitados de bastante ebuli\u00e7\u00e3o de atividades. A pandemia me pegou em um momento de conclus\u00e3o de escrita de mestrado, o que gerou em mim ansiedade descontrolada. Ainda assim produzi alguns poemas. Um deles, inclusive, foi postado como v\u00eddeo-poema na p\u00e1gina do Profundan\u00e7as: <em>Influxo. <\/em>Al\u00e9m disso, junto com um grupo de vision\u00e1rios, fomos contemplados com Edital emergencial do Calend\u00e1rio das Artes, que resultou no trabalho Corpos Negros Insurgentes. E mais, produzi outros v\u00eddeo-poemas para @amataode e Teatro Popular de Ilh\u00e9us, em 2020. Sigo viva sonhando com novos momentos de encontros, abra\u00e7os e aplausos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Pensando neste momento delicado que requer de n\u00f3s fortaleza e lucidez, mas tamb\u00e9m capacidade de olhar al\u00e9m de si, em dire\u00e7\u00e3o ao outro, como voc\u00ea concebe o valor das palavras humanidade e futuro, na sua cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e, de forma mais ampla, no sentimento do mundo?\u00a0 A arte pode ser motriz de mudan\u00e7as necess\u00e1rias neste e em outros cen\u00e1rios? Se sim, de que forma? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TEREZA S\u00c1 &#8211; <\/strong>A arte tem nos dado respostas, \u201cr\u00e9gua e compasso\u201d, n\u00e3o apenas para esse momento, mas em todas as circunst\u00e2ncias de crise tem oportunizado condi\u00e7\u00f5es de supera\u00e7\u00e3o tanto para quem produz, quanto para quem consome. Nessa situa\u00e7\u00e3o atual, ela vem, sim, como motriz da vida e do sonho. Dessa forma, edifica e liberta a alma do artista e de quem aprecia e a valoriza. O momento delicado, como disse, fez com que a arte se reinventasse para se fazer chegar ao p\u00fablico, j\u00e1 que a aglomera\u00e7\u00e3o de afetos, talentos e aplausos est\u00e1 restrita. Mas o poder criativo n\u00e3o est\u00e1. A humanidade experimentou o medo, a ang\u00fastia e de fato a morte. Mas a arte vem como alternativa de vida, fazendo aflorar n\u00e3o apenas sensibilidade do artista, aumentando seu poder criador, mas ascende o sentido da esperan\u00e7a. Esperan\u00e7a no futuro para o p\u00fablico em geral. A arte afeta de forma demasiada. Leva a refletir, entret\u00e9m, eleva&#8230; O amanh\u00e3 se viu amea\u00e7ado, mas o presente se viu validado e isso \u00e9 bom. A arte \u00e9 motriz de mudan\u00e7as quando ela mesma muda sua configura\u00e7\u00e3o para chegar ao p\u00fablico sem perder a forma e a est\u00e9tica, quando aborda temas atualizados aumentando perspectivas e dando vaz\u00e3o \u00e0s neuroses que aumentaram muito nesses tempos. A arte alerta que o que se externa pela priva\u00e7\u00e3o \u00e9 uma ess\u00eancia que pode ser melhorada. A arte sinaliza que o belo pode florir e libertar mentes e cora\u00e7\u00f5es. N\u00e3o est\u00e1 f\u00e1cil para ningu\u00e9m, mas o artista consegue renascer das cinzas. Ali\u00e1s, Mateus Aleluia nos afirma que \u201co amor h\u00e1 de renascer das cinzas\u201d. Eu acredito nisso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Elis Matos<\/em><\/strong><em> \u00e9 doutoranda em Linguagens e Representa\u00e7\u00f5es, mestra em Linguagens e Representa\u00e7\u00f5es (2019), especialista em Gest\u00e3o Cultural (2017), bacharela em Comunica\u00e7\u00e3o Social (2013), licenciada em Filosofia (2009), pela UESC. Com pesquisa voltada \u00e0 guerrilha liter\u00e1ria empreendida pela escrita de mulheres em obras produzidas colaborativamente, a partir da perspectiva da An\u00e1lise de Discurso materialista. Pesquisadora, professora, produtora, feminista, antifascista, acredita na constru\u00e7\u00e3o coletiva de um mundo justo e livre.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No multifacetado caminho da arte, Elis Matos entrevista a poeta e atriz Tereza S\u00e1 <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18828,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4013,16,2539],"tags":[177,1111,3482,63,364,8,65,4014],"class_list":["post-18817","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-144a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-arte","tag-bahia","tag-elis-matos","tag-entrevista","tag-ilheus","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-sabatina","tag-tereza-sa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18817","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18817"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18817\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18827,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18817\/revisions\/18827"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18817"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18817"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18817"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}