{"id":18909,"date":"2021-05-30T14:22:28","date_gmt":"2021-05-30T17:22:28","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18909"},"modified":"2021-08-20T19:22:17","modified_gmt":"2021-08-20T22:22:17","slug":"dedos-de-prosa-ii-72","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-72\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Dheyne de Souza<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18911\" aria-describedby=\"caption-attachment-18911\" style=\"width: 281px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/LuBrito_Diversos_e_Afins_81.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18911\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/LuBrito_Diversos_e_Afins_81.jpg\" alt=\"\" width=\"281\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/LuBrito_Diversos_e_Afins_81.jpg 281w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/LuBrito_Diversos_e_Afins_81-169x300.jpg 169w\" sizes=\"auto, (max-width: 281px) 100vw, 281px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18911\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Lu Brito<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Doroteia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vi Doroteia uma \u00fanica vez. Assustei-a parece que para sempre. Mas desde ent\u00e3o, e isso j\u00e1 faz tr\u00eas dias, ela vem me perseguindo a lembran\u00e7a a ponto de conhec\u00ea-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gritei quando a vi. Na verdade, antes de v\u00ea-la. Apavoramo-nos ambas. Eu de ver um vulto estrangeiro cair atr\u00e1s de mim no momento em que movimento a porta e acendo a luz. Ela de perceber meu semblante aterrado movimentando a porta no mesmo instante de acender a luz. Corremos para cantos opostos. Acalmamo-nos, aparentemente. Fui eu quem deu o primeiro passo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sabia ainda o seu nome, Doroteia. Dei tr\u00eas passos e pude contemplar seu sil\u00eancio indescrit\u00edvel. Era t\u00e3o fiel sua aus\u00eancia completa de movimento que era mesmo poss\u00edvel acreditar que n\u00e3o estava ali, o que era justamente o que ela queria; era mais que percept\u00edvel, sens\u00edvel. Cometi nossa esp\u00e9cie mais chula de pecado e fingi que cri.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei exato. \u00c9 poss\u00edvel que tenha me dito seu nome, agora pensando bem, naquele tempo ali. Alguns minutos fiquei decorando a recorr\u00eancia de padr\u00f5es em sua pele. Fecho os olhos e posso rever sua textura. Jamais descrev\u00ea-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Busquei met\u00e1foras, perdi. Acredito agora tamb\u00e9m que n\u00e3o emiti som, tamb\u00e9m n\u00e3o acho que me lembre mais ultimamente o que \u00e9 isso de a voz ter fun\u00e7\u00e3o externa. Sei que tentei falar-lhe. Provavelmente \u2013 agora \u00e9 que isto me ocorre \u2013, falei na altura com que me falo todo dia bom dia, com que rego as plantas, bebo o caf\u00e9, vejo o notici\u00e1rio, abro a janela e volto \u00e0 cama. Telepatia, acho que \u00e9 essa a palavra que dizem. Diziam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Joguei fora uns passos na cozinha. Passei os dedos na mesa da sala. Pensei em lavar a cortina. Gastei uns segundos ou mais avaliando o gelo do congelador. Tirei duas batatas e carne mo\u00edda, que tenho deixado assim os ingredientes soltos na pia a ver se me dizem como preferem renascer. Conferi a chave na porta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltei ao meio da sala. Olhei para a porta onde Doroteia e eu nos esbarramos h\u00e1 pouco. Foi nessa ocasi\u00e3o, agora \u00e9 que me recordo, que elegi Doroteia como seu nome e acatei a ideia at\u00e9 ent\u00e3o sorrateira de t\u00ea-la como nos filmes, nos livros ou nalguma anedota antiga de vizinho, n\u00e3o tenho tido propens\u00e3o a exatificar as mem\u00f3rias, enfim, de t\u00ea-la como amiga. Comentar novelas. Reclamar dos pre\u00e7os. Bodejar \u00e0 toa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dei mais dois passos em dire\u00e7\u00e3o a ela, Doroteia. Estanquei avaliando a utilidade que seria. N\u00f3s duas feitas fraternas. Ela aparecer de repente, agarrada nas paredes. Fazer a pose de morta. Rir\u00edamos da primeira vez \u00e0 porta. Voc\u00ea me desculpe \u00e9 que n\u00e3o sabia. Eu que n\u00e3o sabia. Hahaha, hihihi. E aquela velha hist\u00f3ria de. Como \u00e9 que se diz o nome? Conviva, conveva, convisser. Enfim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se bem me lembro, ainda a vi uma vez. N\u00e3o, n\u00e3o foi. Sen\u00e3o come\u00e7aria mentindo. Sei que, mesmo deixando a porta aberta, a luz acesa, o grito calado, quando voltei, Doroteia n\u00e3o estava mais em lugar algum. Olhei atr\u00e1s, dentro e debaixo de todos os m\u00f3veis. Encontrei, inclusive, uma meia que havia abandonado seu par. Nem parecia infeliz. Nem eu me havia dado conta. De qualquer modo, levei a meia para a m\u00e1quina de lavar. N\u00e3o quis ligar, menos pela energia que j\u00e1 aumentou vinte por cento mesmo com toda essa loucura acontecendo l\u00e1 fora, mais porque ainda n\u00e3o sabia se Doroteia gostava de barulho alto. Ainda mais a essas horas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o. Agora eu tenho certeza porque, como j\u00e1 disse antes, embora ningu\u00e9m confie em nada ou nada seja digno de, eu comecei a conhec\u00ea-la melhor. Doroteia. Fiquei um tempo escorada na m\u00e1quina de lavar. Deixei a luz apagada. Ela tamb\u00e9m prefere assim. N\u00f3s combinamos t\u00e3o bem. \u00c9 uma pena que tenha durado t\u00e3o pouco. Ou n\u00e3o. Ainda n\u00e3o sei. Pode ser que ela esteja ainda em algum lugar, espreitando-me, conhecendo-me. N\u00e3o posso recriminar sua apreens\u00e3o. E eu gritei deveras alto. Doroteia n\u00e3o disse nada. Um sil\u00eancio dos mais elegantes. Mesmo quando eu a devorava com esses olhos desumanos, nunca perdeu a compostura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhando aqui essa sombra que cai na \u00e1rea de servi\u00e7o. Quando percebo, j\u00e1 estou imaginando Doroteia morando ali, uma cama perto do tanque, meio embaixo. Logo em seguida, pe\u00e7o milh\u00f5es de perd\u00f5es. Embora saiba que ela de modo algum vai desculpar esse desvio de conduta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Digo ent\u00e3o, e de novo creio que em mente, que Doroteia fique \u00e0 vontade para dormir, deitar, enfim, ter casa onde quiser apear. S\u00f3 n\u00e3o parta. N\u00e3o me abandone. N\u00e3o v\u00e1 pras ruas, \u00e9 perigoso. Olho as janelas. Chego a me mover para fech\u00e1-las, para que Doroteia n\u00e3o se exponha. Abandono o \u00edmpeto no ar. N\u00e3o sei se precisa voltar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Doroteia, quando digo esse nome, sai com uma p\u00e1 de saudade e outra pitada de dor. O frio chega de madrugada. Sento-me na beirada do sof\u00e1. Olho o vulto das nuvens atr\u00e1s dos pr\u00e9dios. Penso em cortar as unhas. Depois ouvir um vinil. Doroteia adora Bach. Ergo-me numa efus\u00e3o acelerante. Qual sua uva preferida, sen\u00e3o shiraz. Pe\u00e7o escusas, Doroteia, hoje n\u00e3o tenho espumante. Brindemos a isso que a vida nos proporciona cruamente. O tempo. Sim. Essa migalha de p\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 faz tanto que n\u00e3o fa\u00e7o uma massa. Podemos tentar. Doroteia escolhe nhoque. Ser\u00e1 uma pena sem s\u00e1lvia. Quem sabe no m\u00eas que vem, quando formos ao supermercado. Escolhemos um dia de sol. Um hor\u00e1rio mais pela tarde. Conferimos o movimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, dou um pulo. Eu me assusto. Corro pra m\u00e1quina de costura, sopro a poeira, escolho o retalho mais caro, procuro a linha azul da pr\u00fassia. Vou lhe fazer uma m\u00e1scara, Doroteia, bel\u00edssima. Voc\u00ea nem vai acreditar. N\u00e3o sei se sabe o que est\u00e1 havendo. Senta, escuta, vou lhe contar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/dheyne.wordpress.com\"><strong><em>Dheyne de Souza<\/em><\/strong><\/a><em> \u00e9 goiana. Vive atualmente em S\u00e3o Paulo (SP). \u00c9 doutoranda em Literatura Brasileira pela Universidade de S\u00e3o Paulo. Rec\u00e9m-publicou \u201cl\u00e2minas\u201d (poemas, pela Martelo Casa Editorial, 2020). Seu primeiro livro foi \u201cpequenos mundos ca\u00f3ticos\u201d (poemas, PUC\/Kelps, 2011). Mant\u00e9m ainda um <a href=\"http:\/\/dheyne.wordpress.com\"><strong>blog<\/strong><\/a> e um canal de leitura de poemas chamado <a href=\"http:\/\/youtube.com\/pequenosmundospoeticos\"><strong>Pequenos Mundos<\/strong><\/a>. \u00c9 membro do grupo goiano de vocaliza\u00e7\u00e3o de poesia Corpo de Voz.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A face silenciosa do encontro no conto de Dheyne de Souza<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18910,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4013,2534],"tags":[81,41,781,4035,3321,149,440],"class_list":["post-18909","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-144a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-dheyne-de-souza","tag-doroteia","tag-encontro","tag-prosa","tag-silencio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18909","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18909"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18909\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18927,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18909\/revisions\/18927"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18910"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18909"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18909"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18909"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}