{"id":19000,"date":"2021-08-02T10:58:49","date_gmt":"2021-08-02T13:58:49","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19000"},"modified":"2021-08-20T19:29:20","modified_gmt":"2021-08-20T22:29:20","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-78","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-78\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O of\u00edcio po\u00e9tico \u00e9 esse debru\u00e7ar sobre a vida que acontece, constata\u00e7\u00e3o dos instantes, explos\u00e3o de sentidos e mist\u00e9rios. \u00c9 dado ao poeta pensar sobre seu tempo, sua realidade, seus desvarios. \u00c9 dado ao poeta, tamb\u00e9m, esculpir em palavras o espanto e o estranhamento que perpassam o ato de existir. Quem escreve sabe que o tempo imp\u00f5e desafios, modulando cargas que se equilibram ou n\u00e3o na din\u00e2mica das emo\u00e7\u00f5es, ora fugidias ora permanentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por mais que especulemos sobre as raz\u00f5es do engenho com os versos, empreendendo toda sorte de an\u00e1lises particulares sobre uma determinada obra, nada substitui o di\u00e1logo direto com o autor. Nesse gesto de escuta, talvez o melhor resultado seja aquele que opera dentro da l\u00f3gica da provoca\u00e7\u00e3o. E o que seria isso? \u00c9 um deixar que o escritor transite livre pelas suas ideias, mas n\u00e3o sem antes ser estimulado a movimentar territ\u00f3rios inquietantes em mat\u00e9ria de pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele que entrevistamos por agora na revista n\u00e3o tem o perfil de fugir \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es e parece estar bem \u00e0 vontade quando um eixo filos\u00f3fico se desenha no horizonte das falas. Trata-se do poeta capixaba <strong>Jorge Elias Neto<\/strong>, a quem poder\u00edamos definir como uma esp\u00e9cie de art\u00edfice da palavra. E dizer isso do autor \u00e9 ir al\u00e9m da ideia de que nele est\u00e1 o c\u00e1lculo arquitetado para fazer eclodir a forma em seus versos. Um olhar para sua obra nos permite dizer que seus poemas emanam epifanias abundantes da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jorge \u00e9, de fato, um poeta de inquieta\u00e7\u00f5es. Quando um tema o assola, \u00e9 capaz de mergulhar fundo em toda sorte de leituras adicionais que o fa\u00e7am movimentar compreens\u00f5es mais robustas. Est\u00e1 atento aos sinais da exist\u00eancia e, tanto em suas falas aqui presentes quanto em seus poemas, notamos um caminho de busca: sentir a experi\u00eancia humana como um protagonista face aos cen\u00e1rios. Dessa maneira, ele \u00e9 um algu\u00e9m que n\u00e3o se furta em saborear os enfrentamentos da vida, refletindo sobre nossa condi\u00e7\u00e3o de seres que interferem a todo tempo no transcurso da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dono de uma trajet\u00f3ria que contempla a escritura de livros como \u201cVerdes Versos\u201d (Flor&amp;Cultura, 2007), \u201cRascunhos do absurdo\u201d (Flor&amp;Cultura, 2010), \u201cGlacial\u201d (Patu\u00e1, 2014), \u201cSonetos em crise\u201d (Mondrongo, 2020), dentre outros, Jorge Elias Neto atravessa agora nossos sentidos com o seu pungente e provocador \u201cManual para estilha\u00e7ar vidra\u00e7as\u201d, recentemente lan\u00e7ado pela Editora Cousa. Seu novo rebento po\u00e9tico \u00e9 verdadeiro roteiro para cutucar uma cole\u00e7\u00e3o de sobressaltos da contemporaneidade com vara curta. Ou, como o pr\u00f3prio poeta nos diz, \u201cuma alternativa de salva\u00e7\u00e3o\u201d. De todo o dito, a entrevista serviu, sobretudo, para tamb\u00e9m mostrar um autor que presentifica o seu lugar no mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19087\" aria-describedby=\"caption-attachment-19087\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMAGEM-III.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-19087 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMAGEM-III.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"332\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMAGEM-III.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMAGEM-III-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19087\" class=\"wp-caption-text\">Jorge Elias Neto \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;Manual para estilha\u00e7ar vidra\u00e7as&#8221; \u00e9 uma verdadeira reuni\u00e3o de modos de existir. Sob o manto da provoca\u00e7\u00e3o, a obra desfila cen\u00e1rios distintos da experi\u00eancia humana. O que dizer de tais caminhos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE ELIAS NETO &#8211; <\/strong>Fabr\u00edcio, esta nova oportunidade de ser entrevistado por voc\u00ea, para publica\u00e7\u00e3o nesta que foi a primeira revista eletr\u00f4nica que divulgou minha obra e uma <a href=\"http:\/\/diversos-afins.blogspot.com\/2009\/09\/\"><strong>entrevista<\/strong><\/a>, isso no ano de 2009, quando eu me encontrava finalizando o meu segundo livro, \u201dRascunhos do absurdo\u201d, me despertou a necessidade de reler a nossa conversa da \u00e9poca. Foram poucas as entrevistas que dei nestes quase 20 anos de produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e a releitura que ora acabo de fazer me causou algumas surpresas. A primeira foi descobrir o momento no qual iniciei a abordar um tema espec\u00edfico para escrever poemas e, como no caso do \u201cManual para estilha\u00e7ar vidra\u00e7as\u201d, um livro. Naquela \u00e9poca, ap\u00f3s a finaliza\u00e7\u00e3o do livro, ocorreram os eventos em Gaza e o poeta, e atualmente editor da Mondrongo, Gustavo Felic\u00edssimo, me prop\u00f4s um desafio: escrever uma trilogia sobre o tema. Foi algo que fiz com muito prazer e se transformou no embri\u00e3o para algo que se mostra recorrente em minha obra. Depois veio o convite do saudoso Pipol, editor do Portal Eletr\u00f4nico Cron\u00f3pios, que resolveu convidar 50 poetas brasileiros para escrever um poema para um livro em homenagem ao \u00c9der Jofre. Sentei, estudei o tema e, de impulso, escrevi 43 poemas. Enviei para o Pipol, que me prop\u00f4s incluir como um caderno especial dentro do livro. Infelizmente ele faleceu. Mas Eduardo Lacerda, editor da Patu\u00e1, resolveu public\u00e1-lo com o t\u00edtulo de \u201cBreve dicion\u00e1rio (po\u00e9tico) do boxe\u201d. Depois vieram \u201cGlacial\u201d, \u201cCabotagem\u201d e agora o \u201cManual\u201d&#8230; Trago para o \u201cManual para estilha\u00e7ar vidra\u00e7as\u201d quest\u00f5es rotineiras, irrelevantes, executadas, muitas das vezes, de forma mec\u00e2nica por todos n\u00f3s. J\u00e1 alguns poemas lidam com conflitos existenciais, abordam as quest\u00f5es que norteiam e creio permanecer\u00e3o ao longo dos meus escritos. Boa parte dos poemas foram escritos em um curto espa\u00e7o de tempo; escrevi 11 poemas em uma noite.\u00a0 Alguns temas foram enumerados antes da escrita. Outros partiram de imagens que me ocorreram ao longo das horas que fiquei imerso na busca da estrutura\u00e7\u00e3o dos poemas. Quando escrevo tenho como primeiro objetivo o leitor que sou. Desta forma, o intrincado das imagens, um certo grau de hermetismo involunt\u00e1rio \u00a0(e que, creio, afasta muitos leitores de minha escrita) e a proposta de trabalhar muito com as ideias acabam prevalecendo. Como &#8220;tenho uma ideia&#8221; do local que cada palavra ocupa em meu inconsciente, sinto-me confort\u00e1vel quando revisito os poemas. J\u00e1 o leitor, e isto aprendemos com o tempo, tem suas leituras particulares e muitas vezes, com convic\u00e7\u00e3o (e isso j\u00e1 \u00e9 sabido de todos), nos sinaliza interpreta\u00e7\u00e3o imensamente distantes do que busquei no poema. E \u00e9 isso, no \u201cManual\u201d, ora falando s\u00e9rio, ora com ironia, proponho uma reflex\u00e3o sobre o cotidiano, tento usar da palavra para dizer da irrelev\u00e2ncia dos nossos atos, da insignific\u00e2ncia relativa de nossa vida e, como nos diz o poeta e psicanalista \u00cdtalo Campos no posf\u00e1cio do livro:\u00a0\u00a0 <em>Para ler bem o\u00a0Manual Para Estilha\u00e7ar Vidra\u00e7as\u00a0\u00e9 preciso faz\u00ea-lo sem pressa e com cuidado. Em muitos casos ele apenas \u201cprega uma pe\u00e7a\u201d. Ele \u00e9 ora um espanto, ora um acalanto, mas em ambos os casos seu prop\u00f3sito \u00faltimo \u00e9 o de estilha\u00e7ar sentidos. O leitor se surpreende ora com o inusitado, ora com o humor, deixando-se flagrar pela trapa\u00e7a que o poeta faz com o senso comum, embora nada esteja desarticulado<\/em>. O poema \u00e9 minha forma de rebeldia contra o cotidiano. Este livro \u00e9 uma proposta alternativa que somente o olhar po\u00e9tico para a vida \u00e9 capaz de nos dar, uma alternativa de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Rebelar-se contra o cotidiano atrav\u00e9s do engenho po\u00e9tico \u00e9 desacomodar certezas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE ELIAS NETO &#8211; <\/strong>Aqui se imp\u00f5e discutir duas quest\u00f5es fundamentais: o papel da arte em minha vida e algo muito mais pr\u00e1tico neste momento hist\u00f3rico, a rela\u00e7\u00e3o entre certeza e d\u00favida. Costumo dizer que cumpro com os p\u00e9s o que \u00e9 devido e cubro com sonhos o desmedido. Penso que todo percurso \u00e9 uma ilus\u00e3o necess\u00e1ria, e a arte \u00e9 meu ato, sim, de rebeldia; a arte \u00e9 o cosseno, o obsceno e outras perip\u00e9cias. A minha experi\u00eancia como m\u00e9dico ao longo dos \u00faltimos 30 anos me fez ver e ouvir muito e construir uma certa paz no remendar das imagens e das palavras. Eu vou apreendendo as palavras e guardando-as no sil\u00eancio. E chega o dia que o poema se faz dos fiapos destas recorda\u00e7\u00f5es, ajeitadas aqui e ali com algum enchimento, com algum artif\u00edcio adquirido, ou mesmo com algum v\u00edcio repetido. Talvez\u00a0 este \u201cManual para estilha\u00e7ar vidra\u00e7as\u201d seja a tradu\u00e7\u00e3o deste meu \u201cato de rebeldia\u201d, como voc\u00ea bem diz. Por isso digo que primeiramente escrevo para mim. Sei que serei um dos poucos, talvez o \u00fanico, que ter\u00e1 o interesse em folhear o manual no futuro. Nada como uma cartilha para iluminar e evitar que nos desgarremos ainda mais neste cotidiano de ilus\u00f5es multimidi\u00e1ticas. Passando j\u00e1 para o segundo ponto, acho que voc\u00ea foi muito feliz quando utilizou a express\u00e3o \u201cdesacomodar certezas\u201d. Quando jovem, sempre me senti inferior aos demais por n\u00e3o ter certeza de nada. Hoje digo que a d\u00favida \u00e9 o alicerce de minhas convic\u00e7\u00f5es. Penso ser necess\u00e1rio resgatar o valor da d\u00favida&#8230; Mas isso valeria se a d\u00favida n\u00e3o fosse algo anacr\u00f4nico para a sociedade atual. Existe uma suposta raz\u00e3o, uma \u201cverdade\u201d que encobre as d\u00favidas dos homens. Vivemos um tempo de desperd\u00edcios e de bandeiras. No meu caso,<strong>\u00a0<\/strong>aprendi que a ci\u00eancia \u00e9 um divino manancial de\u00a0 verdades fluidas e d\u00favidas eternas. Tamb\u00e9m aprendi que a certeza \u00e9 est\u00e1tica e a d\u00favida \u00e9 din\u00e2mica. Fico ent\u00e3o com a d\u00favida. E como \u201cdesacomodo a certeza\u201d? Convivendo com a ideia que, do \u00fatero \u00e0 morte, seguimos renascendo. Afinal, o principal conflito humano \u00e9 mediado pelo nada. A morte \u00e9 parteira dos desesperados e desespero dos inocentes. E a paz \u00e9 um corte na carne da convic\u00e7\u00e3o, o osso aparente na trincheira criada pela for\u00e7a da humildade. Tento, com os meus poemas, como no caso do \u201cManual\u201d, lembrar ao homem que ele \u00e9 um deus que se perde na encruzilhada da aus\u00eancia. Da\u00ed o poema que d\u00e1 nome ao livro dizer da sombra e da escurid\u00e3o. Proponho ao leitor o confronto com a sombra, pois ela \u00e9 a experi\u00eancia di\u00e1ria da morte, o ato introdut\u00f3rio do homem no esquecimento. A sombra sinaliza ao homem o poder da luz que n\u00e3o nos deixa esquecer que estar de p\u00e9 \u00e9 uma circunst\u00e2ncia, uma transitoriedade. A sombra \u00e9 a seta que o c\u00e9u projeta sobre a soberba da consci\u00eancia b\u00edpede.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Ao que parece, temos alguma dificuldade em nos compreendermos como sendo simultaneamente luz e sombra. Seguimos engendrando verdades e inventando vers\u00f5es para narrar nosso imperfeito trajeto no mundo. Na sua vis\u00e3o, quem \u00e9 esse sujeito contempor\u00e2neo?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE ELIAS NETO &#8211; <\/strong>H\u00e1 alguns anos li um livro que me intrigou muito, \u201cA nega\u00e7\u00e3o da morte\u201d, parecia que eu conseguia estabelecer uma liga\u00e7\u00e3o t\u00e3o procurada com minhas leituras da obra de Nietzsche, Camus e Emil Cioran.\u00a0 Nele, o antrop\u00f3logo Ernest Becker me apresentava a obra de um dos grandes disc\u00edpulos de Freud, Otto Rank. Busquei os livros de Rank e encontrei uma interessante descri\u00e7\u00e3o do papel da sombra na hist\u00f3ria da humanidade. E a sombra passou a ser t\u00e3o importante que me ocorreu escrever um livro que denominei \u201cXXI &#8211; Di\u00e1logo das sombras\u201d, ainda in\u00e9dito. Nele trato especificamente do sujeito contempor\u00e2neo e este di\u00e1logo com a sua sombra, esse duplo Rankiano. E para estabelecer uma liga\u00e7\u00e3o entre sua pergunta e minha opini\u00e3o deixo aqui um aforismo po\u00e9tico que escrevi: <em>N\u00e3o identifiquei entre os destro\u00e7os nenhuma sombra de d\u00favidas. <\/em>No meu entendimento, mantendo sempre como lastro a d\u00favida, tem sido fundamental a leitura das obras produzidas a partir da segunda metade do s\u00e9culo XVIII e, principalmente, a obra do s\u00e9culo XIX. E n\u00e3o posso deixar de sinalizar a minha admira\u00e7\u00e3o pessoal pelos autores russos. Ler Gogol, Turgu\u00eaniev, Tolstoi e Dostoi\u00e9vski tem sido fundamental para entender a transi\u00e7\u00e3o para o s\u00e9culo XX e fazer uma liga\u00e7\u00e3o com a produ\u00e7\u00e3o da obra de Marx, Engels, Feuerbach, com a efervesc\u00eancia de Darwin, as proposi\u00e7\u00f5es de Freud e por a\u00ed em diante. Foi a partir da\u00ed que busquei entender toda a frusta\u00e7\u00e3o quando ficou claro que, por detr\u00e1s de todas as propostas de uma sociedade mais justa, existia o homem, e que os \u201cle\u00f5es\u201d insanos rugem mais forte&#8230; Adoro retic\u00eancias&#8230; Elas dizem do inacabado das d\u00favidas&#8230; Nesse momento, muitos, como Oct\u00e1vio Paz, indagaram se adiantavam essas pedras empilhadas apoiando precip\u00edcios?\u00a0De que vale a rosca e o parafuso no vazio? Entenderam perfeitamente que o \u00f3dio n\u00e3o \u00e9 fonte, \u00e9 desperd\u00edcio. Era o momento do homem medir os seus fantasmas pela hora do dia que admirava a sua pr\u00f3pria sombra. E esta sombra tornou-se imensa. S\u00f3 que\u00a0a visita das sombras tem um pio ingrato,\u00a0\u00e9 a cor branca da culpa nos delatando por nossas atrocidades, nossa vaidade, nossa hipocrisia. \u00c9 dif\u00edcil aceitar que existe um lado obscuro na fronteira\u00a0imposta pelos que buscam o para\u00edso terrestre. Mas, no meu entendimento, na volta devemos percorrer o caminho da sombra. Mas\u00a0a mentira seguiu sendo um t\u00f4nico revigorante&#8230; Um assunto t\u00e3o denso tomaria muito tempo do leitor, por isto prefiro deixar aqui um poema in\u00e9dito que talvez sintetize meu olhar sobre este \u201csujeito contempor\u00e2neo\u201d e sua sombra. Afinal, o poema \u00e9 o um esfor\u00e7o de sil\u00eancio de meus olhos cansados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Retorno ao rascunho do mundo<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Eis o inerte,<\/em><br \/>\n<em>o sucumbido,<\/em><br \/>\n<em>aquele antes do instante<\/em><br \/>\n<em>em que se dissipou a paz.<\/em><\/p>\n<p><em>Desperta homem,<\/em><br \/>\n<em>v\u00ea a grandeza do seu nome<\/em><br \/>\n<em>e o N\u00e3o, imposto ao seu destino.<\/em><\/p>\n<p><em>A p\u00e1gina leve n\u00e3o tem a tessitura do seu caminho<\/em><br \/>\n<em>e o que lhe resta \u00e9 o estampido<\/em><br \/>\n<em>ou um pilar qualquer que te convide ao abismo.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Madeixas das sombras<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>O Eu apagado, descrente,<\/em><br \/>\n<em>o crucifixo do outro<\/em><br \/>\n<em>e toda nudez<\/em><br \/>\n<em>do medo.<\/em><\/p>\n<p><em>Meu mart\u00edrio:<\/em><br \/>\n<em>esta fogueira que n\u00e3o vesti.<\/em><\/p>\n<p><em>Se restam fagulhas,<\/em><br \/>\n<em>s\u00e3o versos roubados,<\/em><br \/>\n<em>p\u00e9s trocados<\/em><br \/>\n<em>de outros passos<\/em><br \/>\n<em>no sil\u00eancio das cinzas.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19088\" aria-describedby=\"caption-attachment-19088\" style=\"width: 281px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMAGEM-IV.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-19088 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMAGEM-IV.jpg\" alt=\"\" width=\"281\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMAGEM-IV.jpg 281w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMAGEM-IV-169x300.jpg 169w\" sizes=\"auto, (max-width: 281px) 100vw, 281px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19088\" class=\"wp-caption-text\">Jorge Elias Neto \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No atual estado de hiperconex\u00e3o em que estamos mergulhados, talvez tenhamos perdido a capacidade de nos recolhermos em n\u00f3s mesmos, de sermos sil\u00eancio para\u00a0 frui\u00e7\u00e3o das coisas e sentimentos. Em que medida tamanha absor\u00e7\u00e3o com consequente efeito de dispers\u00e3o interfere, por exemplo, na pr\u00e1tica liter\u00e1ria de leitores e escritores?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE ELIAS NETO &#8211; <\/strong>Nos \u00faltimos anos tenho escrito alguns pequenos ensaios abordando, dentre outros temas, este \u201ctempo sem tempo\u201d que permeia a realidade das rela\u00e7\u00f5es interpessoais e consigo mesmo do homem contempor\u00e2neo. Sempre digo de minha condi\u00e7\u00e3o de altern\u00e2ncia entre um pessimismo e um realismo entusiasmado (uma migra\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o entre um olhar mais c\u00e9tico de Cioran e do brasilian\u00edssimo Suassuna). Isto me levou ao \u201cOrnitorrinco do pau oco\u201d, nome do meu livro publicado pela editora Cousa em 2018. Tomo a liberdade de incluir aqui alguns esclarecimentos sobre esse ser inusitado:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>H\u00e1 que se entender ou n\u00e3o o ornitorrinco do pau oco? <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00c9 chegado o tempo em que o sil\u00eancio e a contempla\u00e7\u00e3o passaram a fazer parte do comportamento de um transgressor. \u00c9 o que conclama a balb\u00fardia multimidi\u00e1tica de nossos dias.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>Na verdade, nada mais ef\u00eamero que o conceito num\u00e9rico dos dias: um ou dois d\u00edgitos n\u00e3o preenchem o vazio do homem p\u00f3s-moderno.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>E os \u201cvencedores\u201d prop\u00f5em: Falemos do caos bin\u00e1rio, j\u00e1 que se tornou \u201cfeio\u201d falar do Sol e da Lua.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>O choque. O homem e o tempo, com seus instantes vendidos em m\u00f3dulos. Uma overdose de est\u00edmulos de dura\u00e7\u00e3o ef\u00eamera. Eis a droga que carece ser discutida, esta que alimenta o corpo fluido e seus receptores cerebrais carentes de imagens.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, se faz necess\u00e1rio estender o conceito de sil\u00eancio para a vis\u00e3o. E isso serve para os leitores e, infelizmente,\u00a0 tamb\u00e9m para muitos escritores. O homem se esqueceu que o sil\u00eancio \u00e9 o ponto de partida e de chegada. \u00c9 o nosso \u201cburaco negro\u201d individual. E imerso neste caos se incluem tamb\u00e9m escritores e leitores. Tenho a sensa\u00e7\u00e3o de uma \u201cbolha\u201d liter\u00e1ria. Algo como grupos de\u00a0<em>whatsapp<\/em>, de\u00a0<em>Facebook<\/em>, onde se posta e se aguarda, com urg\u00eancia, o reconhecimento de nossa obra. Uma busca constante de\u00a0<em>feedback<\/em>\u00a0positivo. Mas conviver com os homens \u00e9 a forma mais popular de isolar-se de si mesmo. Somos indiv\u00edduos comuns ambicionando a gl\u00f3ria do instante. Mas este tempo desperdi\u00e7ado hoje, essa busca da gl\u00f3ria di\u00e1ria, \u00e9 o tempero da fome de amanh\u00e3. \u00c9 uma \u201cverdade\u201d requentada dia ap\u00f3s dia. Perdemos muitas vezes o senso cr\u00edtico, maximizamos nossos desejos e potencializamos nossas frusta\u00e7\u00f5es. Entretanto, o Mundo \u00e9 regido de tal forma que ficou f\u00e1cil estender as coisas no sem tamanho da ambi\u00e7\u00e3o humana. O mutilado se satisfaz com uma miragem da perfei\u00e7\u00e3o. Vejo uma linha do tempo que j\u00e1 teme o rastilho do fogo, um presente como uma presen\u00e7a perdida no instante, um sufocamento da poesia. Mas a palavra tem seu tempo e as horas sorriem durante o sono dos homens. Acredito que o nada resplandece no sil\u00eancio e que h\u00e1 de se buscar a paz em algum ponto impreciso entre a contempla\u00e7\u00e3o e a convic\u00e7\u00e3o da conquista. \u00c0 paz da in\u00e9rcia sou mais o atropelo do sil\u00eancio. E o que pode fazer um ornitorrinco nestas circunst\u00e2ncias? Trabalhar, silencioso, o naufr\u00e1gio do homem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seria apocal\u00edptico demais dizer que, em escala global, estamos experimentando um processo de desumaniza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE ELIAS NETO &#8211; <\/strong>N\u00e3o tenho pretens\u00e3o de conseguir com palavras dizer de minha vis\u00e3o apocal\u00edptica para o futuro da humanidade. Por mais que eu insista, os dias s\u00e3o mais ir\u00f4nicos que as palavras. Mas agrade\u00e7o que assim seja e que eu perceba a limita\u00e7\u00e3o de que elas, as palavras, reproduzam a realidade humana. Trabalho com tecnologia, realizo procedimentos em minha profiss\u00e3o que utilizam recursos altamente sedutores, com imagens impressionantes e, principalmente, com alto grau de resolutividade e de seguran\u00e7a. Ora, ent\u00e3o eu deveria ser um porta-voz incondicional dos avan\u00e7os cient\u00edficos. Outro ponto, n\u00e3o tenho religi\u00e3o. Ent\u00e3o eu deveria ser um herdeiro natural da vis\u00e3o positivista e materialista. Devia acreditar, em termos sociais, na morte de Deus. Mas a necessidade me fez ambidestro. Hoje mantenho o h\u00e1bito de usar ambas as m\u00e3os para escrevinhar minhas d\u00favidas. E, como disse acima, elas me levaram a buscar entender esta transi\u00e7\u00e3o fundamental do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX. E antes de falar minha impress\u00e3o sobre o mundo atual, gostaria apenas de dizer o nome de um poeta que me ajudou a ver toda ang\u00fastia contida na dicotomia inserida naquele momento hist\u00f3rico: Augusto dos Anjos. N\u00e3o. O punhal tem duas faces: a que brota e a que geme. N\u00e3o vou recorrer \u00e0s minhas anota\u00e7\u00f5es, \u00e0s minhas leituras, vou recorrer ao meu descontentamento. Como ambientalista e como defensor dos preceitos da responsabilidade propagados por Hannah Arendt e Vaclav Havel, s\u00f3 consigo ver com muita tristeza o futuro, n\u00e3o s\u00f3 do homem, mas, principalmente, para o Planeta. Onde come\u00e7a o fio? No novelo ou na farsa dos dias? A farsa cuidadosamente lapidada pelos ditos \u201cengenheiros do caos\u201d j\u00e1 se desgarrou do novelo da hist\u00f3ria e estes veem crescer, exponencialmente, o seu poder, e j\u00e1 ocupam o lugar vago deixado por Deus e pelo Estado. Muitos j\u00e1 escreveram sobre a terceira revolu\u00e7\u00e3o industrial. Outros, neste momento de pandemia, sinalizam para a quarta revolu\u00e7\u00e3o. Informa\u00e7\u00e3o, imagem, consumo, ef\u00eamero, que palavras d\u00fabias. \u00c9 por isto que penso que um retorno ao triplo transcendental (o bem, o belo e a verdade), uma retomada da religiosidade, seria uma possibilidade, uma alternativa mais realista, mais acess\u00edvel aos homens, em geral, de evitar um futuro dist\u00f3pico para a humanidade. Da mesma forma n\u00e3o creio que o p\u00f3s-humanismo ou mesmo o neo-animismo sejam uma vis\u00e3o aglutinadora. N\u00e3o acredito que o \u201cbig-data\u201d seja uma panaceia para a humanidade. Fosse o p\u00f3 o essencial da escultura, a mat\u00e9ria valeria mais que a arte e o vazio seria a verdade celebrada por todos. Mas essa vis\u00e3o m\u00edope aliciou uma parte significativa da humanidade. \u00c9 preciso entender que dentro do absurdo existe um reino de perdas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No que se refere a pensar o escritor como leitor de seus pr\u00f3prios poemas, haveria uma esp\u00e9cie de margem para, numa mirada autocr\u00edtica, mudar aquilo que j\u00e1 foi publicado? A atitude revisionista n\u00e3o causaria certa instabilidade \u00e0 obra do autor?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE ELIAS NETO \u2013 <\/strong>Sabe, Fabr\u00edcio, a palavra tem seu tempo, tem seu espa\u00e7o na vida das pessoas. E no poema, quando ela se instala de forma definitiva em um livro, seja com perfei\u00e7\u00e3o ou meio impositiva, empurrando para os lados as demais, o poeta deve respeitar esta disposi\u00e7\u00e3o como definitiva. Publicado o livro, passo a ser leitor. E mesmo, como acontece muitas vezes, ao me deparar com uma palavra ou mesmo versos que me pare\u00e7am imperfeitos e desagradem, raramente os altero. Pois j\u00e1 \u00e9 outro o poeta, j\u00e1 \u00e9 \u201coutra\u201d a palavra. Se a ordem, os versos, n\u00e3o se alteram, prevalece o impulso criativo do momento da cria\u00e7\u00e3o do poema; ou o de sua lapida\u00e7\u00e3o. Em suma, eu me sentiria desonesto alterando um poema. Posso roubar um verso antigo, ou us\u00e1-lo como ep\u00edgrafe, isto fa\u00e7o sem pudor, mas respeito as palavras. Alterar o poema seria, no meu entendimento, uma tentativa artificial de torn\u00e1-lo atemporal. Talvez tudo seja uma busca de estetiza\u00e7\u00e3o da vida \u00a0\u0336\u00a0 \u00a0retorno aqui ao que disse acima sobre a urg\u00eancia de resultado \u00a0\u0336 , um superdimensionamento de nossa obra, o que traduziria o qu\u00e3o brilhante e singulares somos enquanto indiv\u00edduos. Mas o meu sentimento \u00e9 que o poder da flor est\u00e1 no voo da p\u00e9tala. \u00c9 neste desgarrar da beleza que se atinge a amplid\u00e3o do infinito, \u00e9 um distanciamento que tento alcan\u00e7ar. \u00c9 esse voo, que independe de n\u00f3s, que dar\u00e1 alguma relev\u00e2ncia a nossa obra. As pedras marroadas sempre guardam um espa\u00e7o para os nossos p\u00e9s. Segue abaixo um poema que trata da rela\u00e7\u00e3o obra e autor. Coloca, em verso, como tento entender esta quest\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A obra<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Do artista<\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/span>\u2013 a obra,<\/em><br \/>\n<em>o todo<\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>\u2013 da obra.<\/em><\/p>\n<p><em>Mesmo que um segundo<\/em><br \/>\n<em>apenas, seja o tempo<\/em><br \/>\n<em>para a derrocada do homem,<\/em><br \/>\n<em>cabe o feito<\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>definitivo,<\/em><br \/>\n<em>traduzindo o gesto, o<\/em><br \/>\n<em>desfecho do combate.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o se apegue<\/em><br \/>\n<em>ao her\u00f3i erguido aos c\u00e9us<\/em><br \/>\n<em>na gl\u00f3ria do instante,<\/em><br \/>\n<em>reafirmo:<\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>\u2013 veja a obra.<\/em><\/p>\n<p><em>A arte,<\/em><br \/>\n<em>as m\u00e3os,<\/em><br \/>\n<em>tamb\u00e9m se expressam<\/em><br \/>\n<em>fechadas, sufocando<\/em><br \/>\n<em>o ar no ex\u00edguo espa\u00e7o<\/em><br \/>\n<em>da tens\u00e3o dos dedos.<\/em><\/p>\n<p><em>O artista do palco,<\/em><br \/>\n<em>do ringue,<\/em><br \/>\n<em>persiste na imagem<\/em><br \/>\n<em>que desaba<\/em><br \/>\n<em>e se rasga.<\/em><\/p>\n<p><em>Atenha-se ao di\u00e1logo<\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>\u2013 com a obra.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19089\" aria-describedby=\"caption-attachment-19089\" style=\"width: 353px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMAGEM-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-19089 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMAGEM-II.jpg\" alt=\"\" width=\"353\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMAGEM-II.jpg 353w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/IMAGEM-II-212x300.jpg 212w\" sizes=\"auto, (max-width: 353px) 100vw, 353px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19089\" class=\"wp-caption-text\">Jorge Elias Neto \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 limites para o autobiogr\u00e1fico no horizonte da poesia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE ELIAS NETO &#8211; <\/strong>\u00c9 na prosa que o autobiogr\u00e1fico habitualmente se apresenta. O poema \u00e9 territ\u00f3rio do \u201ceu l\u00edrico\u201d, um rebelde, fingidor, um subversor da sintaxe (como sempre diz o linguista e amigo Jos\u00e9 Augusto Carvalho). Mas toda grafia tem um recorte da alma de quem escreve e n\u00e3o me cabe julgar os poetas que se mantenham na primeira pessoa em seus poemas. Afinal, cada ilh\u00e9u traz uma concha guardada a sussurrar saudades. De in\u00edcio, para discutir essa quest\u00e3o como leitor de poesia, deixo de lado aqueles poetas que se confundem com a sua obra. Autor e obra n\u00e3o coexistem em equil\u00edbrio de perfei\u00e7\u00e3o, quando o autor n\u00e3o se apercebe disso, geralmente a obra perde. Brinco com meus amigos que a biografia mais fiel deveria ser escrita pelo psicanalista&#8230; Agora, quando o poeta consegue dizer do \u201ceu universal\u201d, equilibrando entre os versos todos os recursos de linguagens que tem a sua disposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel resgatar no seu passado mem\u00f3rias que permitam um di\u00e1logo com o leitor. Os grandes poetas podem tudo em seu &#8220;eu l\u00edrico&#8221; \u2013 esse \u201cser de papel\u201d. O que podemos dizer no \u201cEu\u201d de Augusto dos Anjos, e na obra imensa de Fernando Pessoa e seus heter\u00f4nimos. Drummond e Minas Gerais, Ad\u00e9lia Prado e a religiosidade, Ferreira Gullar e o seu retorno ao mercadinho no Maranh\u00e3o&#8230; Como nos diz o Ant\u00f4nio Miranda citando Lejeune:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pode haver uma coexist\u00eancia da biografia do autor na medida em que o poeta faz do \u201ceu\u201d da poesia l\u00edrica o \u201ceu\u201d da autobiografia. Por outro lado, ainda diz Lejeune, a poesia torna-se uma escritura segunda, isto \u00e9, aquela na qual o escritor reconverteu, ao volt\u00e1-la para si mesmo, a escritura que ele havia anteriormente elaborado para \u201cdizer o mundo\u201d. N\u00e3o haveria, por isso, a possibilidade de a experi\u00eancia po\u00e9tica ser contradit\u00f3ria com o projeto de uma \u201cnarrativa\u201d autobiogr\u00e1fica.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando falo de minha produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, este di\u00e1logo com o passado est\u00e1 mais presente nos meus dois primeiros livros: \u201cVerdes versos\u201d e \u201cRascunhos do absurdo\u201d. Em \u201cGlacial\u201d, o \u201ceu\u201d que se apresenta \u00e9 uma caminhante que atravessa os Andes em uma busca pelo sentido da exist\u00eancia. J\u00e1 em \u201cCabotagem\u201d resgato a cidade de Vit\u00f3ria de minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. Mas se eu tivesse de escolher um poema no qual vejo um equil\u00edbrio entre a palavra, o passado e o Universal, \u00e9 o poema \u201cCristo de p\u00e3o\u201d. Um evento ocorrido na mais tenra inf\u00e2ncia que ficou guardado e serviu como uma met\u00e1fora de minha, da nossa, rela\u00e7\u00e3o com Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Cristo de p\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Herdei de meu pai<\/em><br \/>\n<em>esse Cristo forjado em miolo de p\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Esse crucifixo que, pacientemente,<\/em><br \/>\n<em>foi moldado no almo\u00e7o de domingo;<\/em><br \/>\n<em>em seus dedos, amassado,<\/em><br \/>\n<em>em seus l\u00e1bios umedecido.<\/em><\/p>\n<p><em>Um Deus criado<\/em><br \/>\n<em>pelo provedor de minha casa<\/em><br \/>\n<em>durante o eterno sil\u00eancio<\/em><br \/>\n<em>comigo repartido.<\/em><\/p>\n<p><em>E eu aprendi que da bolinha de massa<\/em><br \/>\n<em>se forja um \u00eddolo.<\/em><\/p>\n<p><em>Ao final da refei\u00e7\u00e3o, meu pai me estendeu<\/em><br \/>\n<em>o Cristo na cruz.<\/em><\/p>\n<p><em>Eu o peguei<\/em><br \/>\n<em>e ele se partiu.<\/em><\/p>\n<p><em>Foi duro para mim<\/em><br \/>\n<em>ver Deus quebrar-se em minhas m\u00e3os.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A Literatura \u00e9 um perfeito territ\u00f3rio de ilus\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE ELIAS NETO &#8211; <\/strong>Guimar\u00e3es Rosa escreveu que \u201c&#8230; livro, a ser certo, devia de se confei\u00e7oar da parte de Deus, depor paz para todos, virtude de enganar com um clareado a fantasia da gente, empuxar a coragens\u201d. Sempre senti na arte a possibilidade de um legado sem trag\u00e9dia; o mais pr\u00f3ximo que posso chegar, talvez com menor risco, do legado humano e do porvir. Uma perspectiva de alguma sanidade. A grande literatura \u00e9 uma das grandes fontes poss\u00edveis de ilus\u00e3o. E com as suas coirm\u00e3s: m\u00fasica e artes pl\u00e1sticas s\u00e3o a maior possibilidade de nos levar pr\u00f3ximos \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o da Natureza. Sabemos que, em graus vari\u00e1veis, o disfarce da \u00f3rbita \u00e9 desviar-se do \u00f3bvio. E que \u201ca arte existe pois a vida n\u00e3o basta\u201d.\u00a0 Afinal, em que pernas poder\u00edamos apoiar esta exist\u00eancia no sem sentido? Como disse em um ensaio que escrevi sobre Augusto dos Anjos, \u201c(&#8230;) hoje, fa\u00e7o parte dos poetas que procura este olhar insuborn\u00e1vel, perdido na aus\u00eancia. Procuro a nobreza desse olhar entardecido de uma ilus\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>O que se arrepende \u00e9 o avesso do nome<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>A morte \u00e9 zelosa em sua for\u00e7a, <\/em><br \/>\n<em>e aprecia a fragilidade no arremate do erro,<\/em><br \/>\n<em>no estampido do verbo,<\/em><br \/>\n<em>no testemunho do assombro,<\/em><br \/>\n<em>no lento embuste dos passos catados.<\/em><\/p>\n<p><em>Digital falsa<\/em><br \/>\n<em>no contorno das letras<\/em><br \/>\n<em>que se desprendem nas entrelinhas.<\/em><\/p>\n<p><em>O flerte do verso com o abismo,<\/em><br \/>\n<em>o encantamento da bruma sobre os len\u00e7\u00f3is,<\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/span>o suborno do medo.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Afinal, por que escrever?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JORGE ELIAS NETO &#8211; <\/strong>Eu poderia usar da escrita como um lamento, parodiando o grande poeta, dizendo do drama existencialista p\u00f3s-moderno, mostrando assim uma das facetas do por que escrever:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>De que vale a vida se a tela \u00e9 pequena, e de que vale o Mundo se n\u00e3o para viajar e registrar em um\u00a0Smartphone\u00a0a minha felicidade fluida e postar no\u00a0Instagram, no\u00a0Facebook\u00a0e nos meus grupos de\u00a0zap&#8230;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exerc\u00edcio cr\u00edtico da vida \u00e9 uma das minhas justificativas para escrever. Poderia dizer que, por vezes, escrever \u00e9 um ato de desespero, um v\u00edcio que assombra. Na verdade, ao longo de minha vida, a escrita paira, e sua raz\u00e3o de existir se apresenta de v\u00e1rias formas. E confesso que tenho um\u00a0<em>ghost-writer<\/em>, o hemisf\u00e9rio cerebral direito com suas pinguelas sobre a mar\u00e9 alta vazante&#8230; Escrever \u00e9 um refugiar-se na s\u00edntese contornando a sintaxe, \u00e9 uma terapia, \u00e9 um jogo de <em>videogame<\/em> com possibilidades infinitas. A eternidade<em>\u00a0<\/em>\u00e9 uma met\u00e1fora que j\u00e1 n\u00e3o me ilude. Mas como me disse certa vez um psicanalista e amigo \u201ch\u00e1 de se relativizar a morte, de tangenci\u00e1-la\u201d. E embora saiba que a<strong>\u00a0<\/strong>esperan\u00e7a \u00e9 uma simples quest\u00e3o de instinto de sobreviv\u00eancia, todo artista persiste vasculhando sua particular caixa de pandora. Em 2013, ingressei na Academia Esp\u00edrito-santense de Letras. Naquela oportunidade, em meu discurso de posse, tentei trazer o porqu\u00ea da escrita e a quest\u00e3o da imortalidade para o centro de minha fala. Tomo a liberdade de reproduzir aqui alguns trechos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>Digam-me, com a experi\u00eancia humana no s\u00e9culo XX, quanto nos afastamos deste deslumbramento com a capacidade humana de criar, descobrir \u2013 desse potencial do homem para atingir os c\u00e9us com seu g\u00eanio, tornando-se o centro do Universo. Um deus a servir-se do inesgot\u00e1vel entornado em seus p\u00e9s?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>\u00c9 certo que muito ocorreu \u2012 perdemos a inoc\u00eancia \u2012 , mas nada foi capaz de alterar a condi\u00e7\u00e3o primeira da exist\u00eancia consciente: o desejo de transcend\u00eancia da alma.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;<\/span>E como reagir quando Albert Camus nos lan\u00e7a na face que \u201cA raz\u00e3o n\u00e3o explica tudo, mas n\u00e3o existe nada al\u00e9m da raz\u00e3o\u201d. Isto atordoa. E resplandece perante os nossos olhos \u2013 a Morte. O que faz a consci\u00eancia com sua extrema maleabilidade, sua capacidade de se moldar perante o abismo? O que faz, como se justifica o indiv\u00edduo, em especial aquele mais c\u00e9tico e realista, aquele que se intitula um homem do absurdo, com sua exist\u00eancia lan\u00e7ada no rosto?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;.<\/span> <\/em><em>E o poeta responde a Albert Camus:<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Parte-se do esquecimento.<\/em><br \/>\n<em>Caminha-se para o esquecimento.<\/em><br \/>\n<em>Disso dou testemunho.<\/em><\/p>\n<p><em>Tamanha consci\u00eancia da morte vindoura<\/em><br \/>\n<em>nomeia encantamentos<\/em><br \/>\n<em>em cada trecho de aurora.<\/em><\/p>\n<p><em>E, se, em algum momento,<\/em><br \/>\n<em>falta ao punho o sustento,<\/em><br \/>\n<em>recolho-me ao verso que apoia.<\/em><\/p>\n<p><em>Eis a dura lida que ao poeta condena.<\/em><br \/>\n<em>Mas apesar do tormento da finitude certa,<\/em><br \/>\n<em>tem no poema \u2013 puls\u00e3o de vida \u2013 rumo ao esquecimento.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel, trabalhar e sonhar. \u00c9 poss\u00edvel a conviv\u00eancia do cientista com o poeta.\u00a0Afinal, a quanto dista o zelo do cientista do abuso apaixonado do poeta com a palavra? Pois a poesia come\u00e7a assim:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Emprenhar-se de miudezas;<\/em><br \/>\n<em>deixando as m\u00e3os rendidas aos gestos costumeiros.<\/em><\/p>\n<p><em>E quando a luz se aperceber, desmembrada<\/em><br \/>\n<em>pelo estalo da palavra,<\/em><br \/>\n<em>jogar-se nos trilhos<\/em><br \/>\n<em>para salvar a flor.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em> \u00e9 frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfar\u00e7a no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00f5es contempor\u00e2neas marcam a entrevista com o poeta Jorge Elias Neto<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19085,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4041,16,2539],"tags":[63,137,154,8,17,158],"class_list":["post-19000","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-145a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-jorge-elias-neto","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-poesia","tag-versos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19000","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19000"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19000\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19133,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19000\/revisions\/19133"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19085"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19000"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19000"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19000"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}