{"id":19023,"date":"2021-08-03T10:16:34","date_gmt":"2021-08-03T13:16:34","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19023"},"modified":"2021-11-13T18:17:04","modified_gmt":"2021-11-13T21:17:04","slug":"aperitivopalavraii-22","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavraii-22\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p><strong>Entre o Rio e a Riviera<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><em>Por Gustavo Rios<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/CAPA-RIVIERA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19025\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/CAPA-RIVIERA.jpg\" alt=\"\" width=\"308\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/CAPA-RIVIERA.jpg 308w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/CAPA-RIVIERA-205x300.jpg 205w\" sizes=\"auto, (max-width: 308px) 100vw, 308px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou mais um que acredita no poder de uma boa hist\u00f3ria. E quando falo em acreditar, me refiro \u00e0quele tipo de encantamento simples e direto que flui numa boa, num tipo de literatura em que tudo se encaixa e funciona, tamb\u00e9m de forma simples e direta, de acordo com as escolhas feitas pelo autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considero-me um escritor. Diante disso, declaro ter sido esse o motivo principal (ler uma boa hist\u00f3ria) que me fez querer ser um. Obviamente, com o decorrer dos anos, e o significativo aumento de livros em minha estante, algumas vezes derrapei na pista. Tentei ser mais \u201ccabe\u00e7a\u201d, mais sabido, envolvido pelo suposto poder da palavra em detrimento ao que realmente interessa: a vida, no sentido mais franco do termo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em vez de seguir reto na boa estrada da clareza, andei pegando uns atalhos. Atitude que, no fim, apenas confundiu os meus pouqu\u00edssimos leitores (e n\u00e3o enxerguem ironia aqui). Pois ainda que lhes pare\u00e7a piegas falar sobre vida, esse \u00e9 o \u00fanico fundamento que resguarda e mant\u00e9m a melhor literatura existente no mundo: Henry Miller, Bukowski, Hermilo Borba Filho e Kerouac n\u00e3o me deixam mentir \u2013 s\u00f3 para citar alguns, pois a lista \u00e9 imensa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi ent\u00e3o que percebi claramente: independente da forma usada num texto, precisamos estar ligados ao entorno (a vida, no caso) para que uma obra se mostre verdadeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim <em>foi <\/em>e <em>\u00e9<\/em> com <em>Riviera.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Francamente n\u00e3o sei se Rodrigo Melo alguma vez em sua trajet\u00f3ria, que envolve dois livros de contos (<em>Jogando dardos sem mirar no alvo<\/em> e <em>O sangue que corre nas veias<\/em>) e um de poesia (<em>Enquanto o mundo dorme<\/em>), embarcou nessa viagem de experimentar e se perder. <em>Riviera<\/em>, romance publicado em 2020 pela editora Mondrongo, \u00e9 a primeira coisa que leio dele. E, ainda que Rodrigo tenha supostamente derrapado em algum momento de sua carreira, coisa que repito n\u00e3o saber, acho que <em>Riviera<\/em> poder\u00e1 o redimir. Colocando-o de novo na reta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Michel Rodrigues, o protagonista, \u00e9 um cara apaixonado. E o nome dela \u00e9 Sandra D\u2019Angelo. Sandra, uma poeta (ou poetisa, nunca sei direito) do tipo que curte saraus, praias e outras ondas, depois de viver um romance de ver\u00e3o com nosso her\u00f3i, na Bahia, acaba voltando para sua cidade, o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed \u00e9 que Michel Rodrigues, o apaixonado, resolve correr atr\u00e1s dela algum tempo depois. Munido de um n\u00famero de telefone, ele pega uma grana com um primo agiota, se despede da m\u00e3e, e segue reto, ou nem t\u00e3o reto assim. \u00c9 quando o encontramos j\u00e1 na primeira p\u00e1gina, num <em>\u201cfinal de uma tarde de domingo\u201d<\/em>, sobre a Ponte Rio-Niter\u00f3i, em que o <em>\u201casfalto tremulava por conta do morma\u00e7o e o c\u00e9u rebentava em uma mistura de azul claro, cor de rosa e laranja\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com base no resumo dos par\u00e1grafos anteriores (quase uma sinopse fuleira de Netflix), o autor inicia sua bela jornada. Junto ao protagonista, Michel. Logo, e fazendo jus \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o dos bons livros que, em ess\u00eancia, se resumem a poucos elementos principais (o amor, as descobertas e uma viagem, no caso de <em>Riviera<\/em>), mas que crescem e se dignificam no percurso, Rodrigo nos conduz por essa estrada (ou ponte). No que ficamos gratos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre influ\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o creio que Rodrigo ficar\u00e1 ofendido se eu disser que John Fante foi uma das grandes refer\u00eancias. Claro, n\u00e3o estamos aqui reduzindo sua escrita a uma \u00fanica fonte, visto que outros matizes surgiram na leitura que fiz. Entretanto, as semelhan\u00e7as e as <em>converg\u00eancias<\/em> (um tipo de zona comum aos dois em que, suponho, Knut Hansum reside) com Fante s\u00e3o claras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E isso \u00e9 bom, em minha opini\u00e3o. Ainda mais inferindo que a \u201cforma\u201d desse grande escritor n\u00e3o foi aceita de maneira premeditada e infantil, aquela coisa em que o autor imita determinado estilo na cara dura, tentando disfar\u00e7ar sua incompet\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo Melo escreve bem, muito bem. Por m\u00e9ritos pr\u00f3prios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que o Fante tenha tido l\u00e1 sua import\u00e2ncia no chamado \u201c<em>paiol de influ\u00eancias\u201d<\/em> de Melo, como bem afirmou Marcus Borg\u00f3n na orelha de <em>Riviera<\/em>, essa influ\u00eancia, quando surgiu, foi algo que ele soube dosar e aproveitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos o protagonista incondicional e cr\u00e9dulo, na acep\u00e7\u00e3o mais legal das palavras. Temos os di\u00e1logos bem estruturados e sem firulas, al\u00e9m de um elenco de personagens marcantes com suas caracter\u00edsticas e particularidades, meio que gravitando ao redor do protagonista em situa\u00e7\u00f5es e cen\u00e1rios em que Melo se mostra bastante \u00e0 vontade, num tom aparentemente confessional \u2013 suspeito que alguns trechos s\u00f3 puderam existir gra\u00e7as \u00e0s experi\u00eancias de vida do seu autor; ainda assim, n\u00e3o posso bater o martelo e dizer que <em>Riviera <\/em>\u00e9 uma obra fortemente autobiogr\u00e1fica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No conjunto do livro existem descri\u00e7\u00f5es que se equilibram bem entre a beleza pungente, que define o nosso her\u00f3i e o mundo que o cerca, e a riqueza de detalhes, que nos coloca dentro de determinada cena sem nunca nos deixar enfadados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Das ruas de uma cidade em que os \u201c<em>pr\u00e9dios gritavam por conta de tanta hist\u00f3ria para contar\u201d<\/em>, aos c\u00f4modos de um im\u00f3vel pronto para venda, em <em>Riviera <\/em>nada-nos-agride-e-tudo-nos-agrada (Pignatari gostaria dessa frase). Acompanhar Michel em sua busca, \u201c<em>arrebatado pela vastid\u00e3o da cidade que se espalhava ao seu redor: maior e mais fren\u00e9tica do que imaginara, mas que, de fato, existia, porque estava bem ali\u201d<\/em> \u00e9 uma das formas de confirmar a qualidade do livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa discuss\u00e3o de termos ou n\u00e3o muito de autobiogr\u00e1fico, me fez lembrar outro escritor estadunidense, o grandioso Nathanael West. Lembran\u00e7a trazida pelo pr\u00f3prio Rodrigo numa entrevista recente a uma r\u00e1dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">West, que se utilizou da pr\u00f3pria vida em prol de seus livros, tendo sido um grande observador nos per\u00edodos em que trabalhou em hot\u00e9is baratos em Manhattan, tamb\u00e9m pode ser identificado na \u201crealidade\u201d mostrada em <em>Riviera<\/em>, bem como nas escolhas do autor: para mim, o romance de Melo possui muito da po\u00e9tica e da tamb\u00e9m famosa carga imag\u00e9tica, tanto no sentido da imagem transformada, quanto no sentido de descri\u00e7\u00e3o pura e simples.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o estilo da escrita de Rodrigo tamb\u00e9m pode ser comparado ao de Nathanael, de v\u00e1rias formas. Da escolha de um hotel como um dos cen\u00e1rios, local que, nas palavras de um tal Brad Darrach, para West era como <em>\u201czoos de fracasso, enfermarias terminais cheias de \u2018inocentes desmantelados\u2019\u201d<\/em>, aos par\u00e1grafos que, apesar da fluidez, s\u00e3o seguros e bem estruturados, e visam atingir em cheio o leitor, Rodrigo tamb\u00e9m n\u00e3o se importou em escutar mais essa \u201cvoz\u201d \u2013 uma das mais agu\u00e7adas da literatura, em minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nathanael West, que foi considerado pelo Nabokov (o \u201cpai\u201d da Lolita) um <em>\u201cfen\u00f4meno visual\u201d<\/em>, foi certamente mais uma figura a ajudar o autor baiano em sua escrita. Tanto na quest\u00e3o das imagens que constroem e determinam o andamento de um bom romance, bem como no belo jogo de met\u00e1foras, eufemismos e similares. Recursos que embelezam demais a escrita de ambos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Imag\u00e9tica <em>versus<\/em> poesia?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>O leve arranhar sobre os trilhos, o pulsar da fera de metal que cortava a cidade com o seu rugido silencioso e veloz. Botafogo, Flamengo, Catete, Gl\u00f3ria, Cinel\u00e2ndia, Carioca, Central do Brasil&#8230; A cada esta\u00e7\u00e3o, as pessoas iam se transformando, ganhavam outras caras e jeitos. Em vez de madames e jovens com fones de ouvido, Michel passou a ver office boys, vigias, vendedoras da Avon, caixas de supermercados e toda aquela gente que vivia nas sombras dos cart\u00f5es postais, enchendo filas, morrendo nas ruas e em corredores de hospitais.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Grosso modo, a prosa, ao menos a que considero boa, quando cont\u00e9m em si elementos da poesia (eufemismos legais, met\u00e1foras certeiras e ritmo), ganha bastante com isso \u2013 e notem que essa \u00e9 uma opini\u00e3o que se repete em minhas an\u00e1lises. Ent\u00e3o, desconsiderando a obviedade terr\u00edvel do que acabei de escrever, venho pedir desculpas afirmando apenas o seguinte: quando o escritor possui talento e compet\u00eancia, o uso da imag\u00e9tica, da poesia e de quaisquer outros expedientes n\u00e3o p\u00f5e em risco seu trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo tem a manha. Ele \u00e9 o tipo de artista que, acima de tudo, enxerga o lado humano na literatura. E o coloca em primeiro lugar, entendendo que uma escrita sincera e direta n\u00e3o deve ser necessariamente tosca e simpl\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filosofando um pouco durante a leitura, algumas perguntas surgiram em minha cachola: de que adiantaria usar a tal \u201ccarga imag\u00e9tica\u201d sem sacar um tanto de poesia? E o contr\u00e1rio disso, daria certo? Como encantar o leitor sem p\u00f4r no livro figuras humanas, mas humanas-de-verdade, do tipo que se presta ao salto, \u00e0 busca e a felicidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o d\u00e1 para ficar imune \u00e0 for\u00e7a de um Michel Rodrigues, por exemplo. Bem como n\u00e3o h\u00e1 como fingir que n\u00e3o viu Louis Buade de Frontenac, o franc\u00eas boa pra\u00e7a, vizinho de quarto de nosso her\u00f3i, s\u00f3 para ficar no b\u00e1sico de s\u00e9rie, por enquanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como j\u00e1 dito antes, o rol de personagens, bem como o uso de seu \u201c<em>paiol de influ\u00eancias\u201d<\/em>, ainda que lembrem o West ou o Fante, ou qualquer outro, \u00e9 formado por figuras arrancadas da cuca, da viv\u00eancia e, com certeza, do cora\u00e7\u00e3o (arrisco, sim, uma boa pieguice!) de Rodrigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso de Melo, eu at\u00e9 consigo imagin\u00e1-lo numa noite insone, naquele tipo de luta que s\u00f3 escritores bons travam, tentando reescrever, encaixar, fazer surgir ou mesmo comemorando efusivamente uma boa p\u00e1gina ou um vacilo de nosso Michel, justamente por esse vacilo conter muito de ingenuidade, sentimento, beleza e, principalmente, busca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ter essa imagem em minha mente j\u00e1 justifica esse trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suas inser\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas s\u00e3o exatas, firmes, sem pieguices nem choramingos. E quando lemos algo que chega perto daquele sentimentalismo barato (que no fundo muitos de n\u00f3s curtimos), tal trecho ou frase se revela somente um importante mecanismo que visa dar fala e personalidade ao jovem Rodrigues:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cSiga em frente, \u00f3, contrafeito taxista \u2014 Michel pensou \u2014, uma vez que todo homem tem direito \u00e0 gl\u00f3ria e estou prestes a alcan\u00e7\u00e1-la. Se quisesse, poderia passar um longo tempo falando sobre a pessoa que encontrarei, n\u00e3o no hotel para onde me leva, pois j\u00e1 \u00e9 tarde e a felicidade nos for\u00e7a a certas prova\u00e7\u00f5es: uma admir\u00e1vel e encantadora poeta de nome Sandra D\u2019Angelo, ou simplesmente Sandy.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o trecho seguinte, destacando a parte em que lemos <em>\u201calma esquiva e saturada\u201d, <\/em>talvez eu consiga fazer uma boa compara\u00e7\u00e3o entre a po\u00e9tica usada para dar voz ao Michel (acima e, digamos, piegas) e a usada pelo narrador para seguir com o livro (abaixo e, digamos, mais madura):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEra uma morena baixa com os cabelos negros at\u00e9 a cintura. Seus olhos transitavam entre uma mal\u00edcia dissimulada e algum tipo de t\u00e9dio ou cansa\u00e7o, como se o tempo inteiro estivesse prestes a abandonar o palco ou a gritar. Mas ela n\u00e3o gritou, apenas continuou a rebolar e a tirar as pe\u00e7as de roupa, enquanto Tina Charles cantava \u201cLove to Love\u201d. Por vezes, seu gingado n\u00e3o batia com o ritmo da m\u00fasica, talvez r\u00e1pida demais para o estado de esp\u00edrito em que se encontrava (&#8230;). Ela se agarrou ao poste e come\u00e7ou a girar. Possu\u00eda uma boa elasticidade, mas nada parecia muito natural. Somente a repeti\u00e7\u00e3o de um movimento que aprendeu, a saga de uma alma esquiva e saturada.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para encerrar, ainda falando sobre o imag\u00e9tico e o examinando de forma isolada, arrisco dizer que ele embasa e justifica todo o livro \u2013 dentro do equil\u00edbrio e da beleza j\u00e1 descritas nas linhas anteriores. Na descri\u00e7\u00e3o da cidade ou na cena de sexo num banheiro de escrit\u00f3rio, tudo se mostra visceral. Afinal de contas, Rodrigo quer nos falar de vida, antes de tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante disso, quem leva a melhor mais uma vez \u00e9 o leitor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arco narrativo e tigelas de a\u00e7a\u00ed<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerando o entendimento de que arco narrativo \u00e9 simplesmente a divis\u00e3o de uma hist\u00f3ria em partes ou cap\u00edtulos (uma ideia simples, apesar do nome marrento), <em>Riviera<\/em> tem, sim, o seu arco. E ele funciona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Valendo-me desse jarg\u00e3o (arco), usado largamente para analisar livros e para fundir nossa cabe\u00e7a nas aulas de geometria, acredito que o risco que todo autor mediano corre ao usar o seu \u201carco\u201d \u00e9 o de se perder em algum \u201cponto da curva\u201d (o \u201cmediano\u201d se atrapalhando no \u201cradiano\u201d?), pois, ainda que os cap\u00edtulos n\u00e3o precisem ser fundamentalmente lineares, a coer\u00eancia ajuda no entendimento geral. Seja na trama, seja no estilo, ou mesmo na defini\u00e7\u00e3o clara da personalidade do protagonista e de todos os outros \u201cparticipantes\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, afirmo sem gaguejar que, ao longo dos 25 cap\u00edtulos, Melo n\u00e3o derrapa nesse quesito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do franc\u00eas \u00e0 tia amargurada; do corretor de im\u00f3veis Aldo Lomma (n\u00e3o sei se uma sutil homenagem ao Alto Loma Hotel, que se erguia <em>\u201cnuma colina, l\u00e1 na crista de Bunker Hill\u201d<\/em>) \u00e0 Arlete, Melo segura bem a onda. Na base da simplicidade que busca a fluidez na leitura e a cumplicidade do leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois para todo artista, sempre existe o risco do erro, ao se firmar a personalidade e a voz de cada pessoa que habita o seu trabalho, j\u00e1 que muitas vezes nos deparamos com obras onde n\u00e3o identificamos o ponto de muta\u00e7\u00e3o de determinado personagem, muito menos a transi\u00e7\u00e3o de algo que ocorreu com ele. Transi\u00e7\u00e3o que, \u201cnoves fora\u201d, foi somente uma derrapada do artista, no arco, na tangente ou mesmo na reta, certamente preocupado com sutilezas, concretismos e bricolagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, quando numa boa hist\u00f3ria a forma linear \u00e9 quebrada sem aviso pr\u00e9vio \u2013 o que seria legal quando temos uma proposta adequada e um escritor com moral para tanto -, nos deixando confusos e perdidos, \u00e9 nessa hora que geralmente abandonamos o livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso n\u00e3o ocorre com <em>Riviera<\/em>. Independente da situa\u00e7\u00e3o ou da ruptura, temos o estilo que se preserva e n\u00e3o nos engana de forma grosseira, mudando somente quando o livro exige, no caso do andamento da trama e das experi\u00eancias de Michel. Dessa maneira, temos um jovem se transformando, sentindo medo, vacilando feio e devorando tigelas de a\u00e7a\u00ed, al\u00e9m de seguir apaixonado, tentando encontrar a sua poetisa (ou poeta, nunca sei direito) em meio <em>\u201ca complexidade da tal Cidade Maravilhosa\u201d<\/em>, conforme K\u00e1tia Borges citou no posf\u00e1cio, no que ela tamb\u00e9m chamou de <em>\u201cmescla de para\u00edso tropical e pesadelo\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como conclus\u00e3o, digo que <em>Riviera<\/em> segue seu rumo (ou estrada, ou ponte&#8230;), pois n\u00e3o s\u00e3o poucos os que consideram o livro interessante, ainda que, por conta da pandemia e por conta do fato de Rodrigo Melo n\u00e3o residir no chamado eixo, o romance <em>ainda<\/em> n\u00e3o tenha alcan\u00e7ado o seu devido status.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Status que o deve colocar como um grande lan\u00e7amento de 2020, no m\u00ednimo. Al\u00e9m de coloc\u00e1-lo tamb\u00e9m como uma obra bel\u00edssima, franca e humana. Bem ao gosto do que todos n\u00f3s precisamos em tempos t\u00e3o bicudos, toscos, demorados e doentios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Gustavo Rios<\/strong><\/em><em>\u00a0\u00e9 baiano e autor do livro Raps\u00f3dia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A leitura atenta de Gustavo Rios para \u201cRiviera\u201d, livro de Rodrigo Melo <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19024,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4041,2533],"tags":[11,2411,149,189,2291,3899,991],"class_list":["post-19023","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-145a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-gustavo-rios","tag-prosa","tag-resenha","tag-rio-de-janeiro","tag-riviera","tag-rodrigo-melo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19023","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19023"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19023\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19127,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19023\/revisions\/19127"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19024"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19023"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19023"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19023"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}