{"id":19039,"date":"2021-08-03T11:19:01","date_gmt":"2021-08-03T14:19:01","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19039"},"modified":"2021-11-13T18:16:51","modified_gmt":"2021-11-13T21:16:51","slug":"dedos-de-prosaiii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosaiii\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Marcus Vin\u00edcius Rodrigues<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19109\" aria-describedby=\"caption-attachment-19109\" style=\"width: 435px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Do-interior.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-19109 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Do-interior.jpg\" alt=\"\" width=\"435\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Do-interior.jpg 435w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Do-interior-261x300.jpg 261w\" sizes=\"auto, (max-width: 435px) 100vw, 435px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19109\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Paula de Aguiar<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>EU NUNCA ATRAVESSEI O RIO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu nunca atravessei o rio Almada. Estive sempre em sua margem brincando no raso enquanto meus irm\u00e3os se aventuravam mais fundo, onde meus p\u00e9s n\u00e3o alcan\u00e7avam. Um fundo ainda raso porque, embora maiores, eles eram, como eu, crian\u00e7as. Mas podiam nadar e mergulhar por baixo das canoas. Penso que poderia, tamb\u00e9m, fazer aqueles mergulhos. Uma vez eu tentei, mas parecia t\u00e3o larga aquela canoa. N\u00e3o tive coragem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minhas brincadeiras eram naquela beirinha em que o cobre do rio ficava mais transparente, como se um pouco de mel tivesse sido dissolvido na \u00e1gua. Eu sentava sentindo o sol nas costas e a \u00e1gua fresca nas pernas. \u00a0Ali as piabas chegavam bem perto. Eu tentava cerc\u00e1-las como quem pastoreia vacas no curral. Elas eram mais r\u00e1pidas. Escapavam como as galinhas do quintal de minha av\u00f3, mas sem algazarra. Espantadas e silenciosas. Escorregavam pelos meus dedos como a \u00e1gua do rio talvez escorresse para o mar. Sim. Talvez. De meu raso eu n\u00e3o percebia a correnteza do meio do rio. O \u00fanico movimento eram as ondas do mar no horizonte, onde o rio finalmente despejava suas \u00e1guas castanhas no azul espumoso do oceano. Eu achava um mist\u00e9rio aquelas ondas que n\u00e3o terminavam na praia como acontecia na praia do Malhado. Que sabia eu, t\u00e3o crian\u00e7a, sobre o movimento dos rios? O rio Almada n\u00e3o corria \u00e0 porta da minha casa. Para mim ele estava parado. Eu n\u00e3o conhecia o rio Cachoeira do outro lado daquele grande ilh\u00e9u que era minha cidade. Sabia da ponte que atravessava para o Pontal, onde morava minha av\u00f3. Mas aquela era uma \u00e1gua vista de longe, de dentro de um carro. No Pontal, havia a praia salgada e os navios encalhados na areia. Nada que lembrasse um rio. O Almada, na porta da minha casa, era aquele rio que parava antes do mar. Im\u00f3vel. Para sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentado no meu raso, descansei as m\u00e3os no fundo, espalmadas para cima como se, em posi\u00e7\u00e3o de ioga, esperassem a energia do mundo penetrar por elas. Minha calma atraiu, enfim, algumas piabas. Uma nadou por sobre minha m\u00e3o e, de surpresa, consegui agarr\u00e1-la. Que delicado o toque daquele corpo min\u00fasculo e saltitante. Fiz das minhas m\u00e3os duas conchas que se fecharam suavemente em torno. Ela pulsava ali dentro como um cora\u00e7\u00e3o. Gelado, escorregadio. Fazia c\u00f3cegas. Eu me senti poderoso por conquistar aquela vida para mim. O peixinho n\u00e3o pertencia mais ao rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era meu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quis mostrar para meus irm\u00e3os. Chamei os dois. Procurei entre as canoas. N\u00e3o estavam mais na \u00e1gua. J\u00e1 subiam o barranco para a nossa casa ali em frente, na vila militar. O almo\u00e7o. Eu queria ficar com a minha piaba, mas eles, parados no meio do caminho, gritavam a ordem de subir. N\u00e3o podiam ir sem mim. Eu n\u00e3o podia ficar. \u00a0Fui atr\u00e1s, resignado. Era um dia de domingo. Eu sabia que poderia descer no meio da tarde. Eles voltariam para o futebol e mais mergulhos. Eu voltaria com meus carrinhos para a beira da \u00e1gua, para os peixes, para o meu peixe. Bastava guardar o meu tesouro em um lugar seguro, para que ningu\u00e9m pegasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o contei a ningu\u00e9m do meu tesouro. O almo\u00e7o foi lento. As conversas em volta da mesa. Eu quase n\u00e3o falei. Tinha um segredo. Qualquer palavra que dissesse poderia deixar escapar o peixe de minhas m\u00e3os em concha. Ele saltitava dentro de mim como uma alegria. Brincava na minha imagina\u00e7\u00e3o dando saltos de um lado a outro da \u00e1gua. Eu fazia t\u00faneis com as m\u00e3os, barreiras com as pernas&#8230; a piaba nadava veloz pelos labirintos do meu corpo, mais \u00e1gua do que peixe. Bastava esperar a tarde. Bastava guardar o segredo. O sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas aquela n\u00e3o seria uma tarde de domingo silenciosa. Antes de acabar o almo\u00e7o, vieram gritos do rio. Algu\u00e9m veio chamar meu pai. Um alvoro\u00e7o se espalhou pela rua. Minha m\u00e3e nos proibiu de sair. Ela saiu. Meus irm\u00e3os cuidariam de mim. Ficamos a tarde inteira sozinhos vendo a televis\u00e3o com seus chuviscos dissonantes. Era meu pai quem movia a antena at\u00e9 a imagem estabilizar. Da rua n\u00e3o vinha nenhuma not\u00edcia. Todos estavam na beira do rio. De casa n\u00e3o pod\u00edamos ver. O barranco. Dali, nossa vis\u00e3o do rio era a outra margem, onde havia um grupo de pessoas observando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algu\u00e9m se afogou, meu irm\u00e3o mais velho disse. Aquela frase instaurou uma realidade de medo em mim. Algu\u00e9m tinha ido para a parte funda do rio e tinha se afogado. Eu sabia que aquilo podia acontecer. Minha m\u00e3e sempre nos prevenia para n\u00e3o nadar para o fundo, onde n\u00e3o dava p\u00e9. Pod\u00edamos nos afogar. Disso eu sabia. Eu n\u00e3o sabia exatamente o que era se afogar, mas n\u00e3o era algo bom. Eu sabia o que era fundo. Era onde meus irm\u00e3os nadavam quando brincavam nas canoas. Com a revela\u00e7\u00e3o, meu corpo tremeu. Meus irm\u00e3os podiam se afogar. Voc\u00eas j\u00e1 se afogaram? Eu perguntei preocupado. Eles riram de mim. Claro que n\u00e3o. Fiquei com raiva das risadas e da goza\u00e7\u00e3o, mas aliviado porque eles n\u00e3o se afogaram. Eu nunca tinha me afogado. N\u00e3o ia nunca para o fundo. Voltei a pensar na minha piaba. Ela tamb\u00e9m n\u00e3o se afogava. Estava sempre no raso como eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passamos toda tarde em espera. A noite chegou e minha m\u00e3e voltou. Eu procurei o medo em seus olhos, aquele de quando ela avisava do afogamento. Mal consegui ver. Ela nos disse que estava tudo bem, que nada tinha acontecido. Meu pai? Estava resolvendo alguma coisa de trabalho. O qu\u00ea? \u00c9 verdade que algu\u00e9m se afogou? N\u00e3o era assunto de crian\u00e7a. N\u00f3s dev\u00edamos fazer os deveres da escola. Meus irm\u00e3os n\u00e3o tinham feito. Eu j\u00e1 tinha pintado os desenhos do meu livro com o cuidado de n\u00e3o sair das linhas. Era preciso dormir para a escola cedo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu j\u00e1 estava na cama quando ouvi a hist\u00f3ria toda entre os meus sonhos. Eram vozes de meu pai e mais algu\u00e9m \u2014 minha m\u00e3e ouvia entre solu\u00e7os. Depois, meus irm\u00e3os repetiram a hist\u00f3ria no quarto. Havia um menino no fim da rua, na primeira casa da vila. J\u00e1 era grande&#8230; tr\u00eas pescadores&#8230; a rede se enroscou em alguma coisa no fundo do rio&#8230; a m\u00e3o dele estava presa&#8230; os amigos tentaram salvar, mas n\u00e3o conseguiram&#8230; gritaram. S\u00f3 \u00e0 noite conseguiram tirar o menino de l\u00e1. Os peixes j\u00e1 estavam come\u00e7ando a comer. Meu irm\u00e3o disse aquilo muito assustado. Eu quis acordar e perguntar como o menino estava.\u00a0 As feridas do\u00edam? Foi ent\u00e3o que ele falou respondendo a pergunta que n\u00e3o fiz: morreu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu nunca tinha imaginado que, se algu\u00e9m se afogasse, morria. Morrer era ir para debaixo da terra. Mas o rio&#8230;? Fechei muito os olhos para n\u00e3o ver o menino dentro da \u00e1gua sendo comido pelos peixes. N\u00e3o queria ver a cara dele faltando peda\u00e7o. Os olhos abertos. Em algum momento eu dormi e senti a \u00e1gua acobreada do rio me envolvendo. Cobrindo minhas pernas, avan\u00e7ando pela barriga, pelo peito, pelo pesco\u00e7o. Eu estava completamente mergulhado \u2014 as piabas em volta. Abri a boca e a \u00e1gua entrou. Bebi muito, sem querer, sem poder resistir. A barriga ficou cheia. Eu pensei que era daquele jeito que a gente se afogava. Achei que ia morrer, mas tinha vontade de fazer xixi. E fiz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha m\u00e3e n\u00e3o me deixou ir \u00e0 escola naquele dia. Tinha acordado no meio da noite gritando e chorando. Era melhor ficar em casa. Ficamos sozinhos os dois. No meio da manh\u00e3 a casa se encheu das mulheres da rua. Elas come\u00e7aram a conversar sobre o afogado. Eu queria escutar as conversas, saber dos detalhes, mas minha me mandou brincar no quintal. Nada de ir para a rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi a primeira coisa que fiz. Desci o barranco e fui atr\u00e1s da minha piaba. Por sorte, tinha deixado atr\u00e1s de uma pedra. Mesmo com toda a confus\u00e3o, eu tinha certeza de que ningu\u00e9m tinha encontrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela estava l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o estava saltitante como antes. Nem molhada. Estava seca e dura. Peguei com cuidado em minhas m\u00e3os e levei para a \u00e1gua. Ela afundou como uma pedra. Im\u00f3vel. O rio tamb\u00e9m n\u00e3o se movia naquele meu raso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o entrei na \u00e1gua naquele dia, nem depois. Ficamos proibidos de nadar no rio e, quando o ano acabou, n\u00f3s nos mudamos. Sa\u00edmos de Ilh\u00e9us e nunca mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adulto, voltei \u00e0 vila, ao rio, mas sempre passei apenas de carro. Nunca mais desci o barranco que, na verdade, era apenas uma descida muito curta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rio Almada. Ele vem do interior muito mais ao norte, mas des\u00e1gua no oceano. Vira-se para a direita e percorre um longo caminho paralelo \u00e0 praia. Ele resiste a entrar no mar, ele n\u00e3o quer morrer se misturando \u00e0s \u00e1guas claras e salgadas do atl\u00e2ntico. Na frente da minha casa, enfim, dobra-se para a esquerda, contorce o corpo desenhando uma interroga\u00e7\u00e3o de cabe\u00e7a para baixo. \u00c9 ali, em frente \u00e0 casa da minha inf\u00e2ncia, que ele morre \u2014 todos os dias \u2014 murmurando seu porqu\u00ea sem resposta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Marcus Vin\u00edcius\u00a0Rodrigues<\/em><\/strong><em> nasceu em Ilh\u00e9us-Ba e mora em Salvador. Publicou, entre outros, os livros O mar que nos abra\u00e7a (contos, Ed. Caramur\u00ea, 2019); Manual para composi\u00e7\u00e3o de Vitrais (poesia, Selo Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro da Funda\u00e7\u00e3o Greg\u00f3rio de Mattos, 2019); Caf\u00e9 Molotov (contos, Editora 7Letras, 2018); A eternidade da ma\u00e7\u00e3 (contos, Editora 7Letras, 2016) \u2014 vencedor do Pr\u00eamio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016; Arquivos de um corpo em viagem (poesia, Editora Mondrongo, 2015) e Cada dia sobre a terra (contos, EPP Publica\u00e7\u00f5es e Publicidade, 2010). \u00c9 membro da Academia de Letras da Bahia.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sens\u00edvel fio da mem\u00f3ria no conto in\u00e9dito de Marcus Vin\u00edcius Rodrigues<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19108,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4041,2535],"tags":[1111,81,41,364,252,684,149,4063],"class_list":["post-19039","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-145a-leva","category-drops-da-setima-arte","tag-bahia","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-ilheus","tag-marcus-vinicius-rodrigues","tag-memoria","tag-prosa","tag-rio-almada"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19039","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19039"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19039\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19128,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19039\/revisions\/19128"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19108"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19039"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19039"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19039"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}