{"id":19058,"date":"2021-08-04T11:18:31","date_gmt":"2021-08-04T14:18:31","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19058"},"modified":"2021-11-13T18:16:30","modified_gmt":"2021-11-13T21:16:30","slug":"dedos-de-prosa-ii-73","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-73\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Adriano B. Esp\u00edndola Santos<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19105\" aria-describedby=\"caption-attachment-19105\" style=\"width: 354px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Paula-de-Aguiar-6.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-19105 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Paula-de-Aguiar-6.jpg\" alt=\"\" width=\"354\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Paula-de-Aguiar-6.jpg 354w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Paula-de-Aguiar-6-212x300.jpg 212w\" sizes=\"auto, (max-width: 354px) 100vw, 354px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19105\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Paula de Aguiar<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Divina<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Divina, com o nome que faz jus, era a apoteose do escal\u00e3o dos deuses. E a redund\u00e2ncia, que ati\u00e7a os sentidos, \u00e9 justamente pela aus\u00eancia de palavras que a descrevam: divina. Digo, com a pureza de uma nascente, ela foi a minha primeira e verdadeira paix\u00e3o. Sim, dos tempos de escola \u2013 que extrapolou para a vida. Alguns at\u00e9 me chamavam de louco: \u201cComo pode, Seb\u00e1, voc\u00ea amar uma mulher vinte anos mais velha?!\u201d. Mam\u00e3e, no entanto, achava bonitinho, um amor infantil, quando, mal sabia, me contorcia ind\u00f3cil no banheiro, sentindo o seu cheiro penetrar por todos os meus poros, do qual guardo a ess\u00eancia, presentemente, o perfume de jasmim. Papai, provocado pelo \u00e2nimo de ter um filho macho, \u201cra\u00e7udo\u201d, como dizia, atolava-me com revistas de mulher pelada; uma cole\u00e7\u00e3o de fazer inveja ao Marcos, que se vangloriava de seu pai fazer a assinatura da <em>Playboy<\/em>. Eu n\u00e3o queria saber nada daquilo; sexos escancarados, sodomizados, que me deixavam penalizado, amuado, com o sofrimento daquelas mulheres em posi\u00e7\u00f5es circenses. Para mim, somente Divina. Maria Divina Assis dos Santos, seu nome completo. Foi a minha professora de portugu\u00eas, na quinta e sexta s\u00e9ries. E, por ela e para ela, me converti num leitor contumaz, num crente da religi\u00e3o liter\u00e1ria, para demonstrar-lhe do que era capaz. Mal ela chegava em sala e j\u00e1 me avocava, com um leve sinal, para saber qual era a novidade, que leitura estava fazendo no momento. Para impression\u00e1-la, lia os cl\u00e1ssicos da literatura brasileira, de Machado a Lispector, e me atrevia, ainda, aos grandes da literatura mundial, sobretudo dos s\u00e9culos XIX e XX, como Dostoi\u00e9vski, Tchekhov e Woolf. A professorinha, a mais linda dos s\u00e9culos e s\u00e9culos, posso acreditar, parava a aula para dizer aos meus coleguinhas que seguissem o meu exemplo e se dedicassem a ler n\u00e3o s\u00f3 a literatura recomendada pela escola, mas buscassem almejar \u201cnovos campos; verdes e imensos\u201d; que dev\u00edamos conhecer os sabores e as liberdades conferidas pelo universo das letras. Houve um tempo em que o meu estado de ansiedade ultrapassou o razo\u00e1vel, com o que estava acostumado; podia ver-me, claramente, para al\u00e9m das nuvens, at\u00f4nito: Divina estava doente e n\u00e3o viria \u00e0 escola por, pelo menos, duas semanas ou, qui\u00e7\u00e1, um m\u00eas. N\u00e3o nos comunicaram qual era a maldita doen\u00e7a; o que poderia suceder dessa cat\u00e1strofe. Eu tentava elucidar, pelas m\u00ednimas sugest\u00f5es, e em tudo me vinha \u00e0 mente a gravidade de um problema card\u00edaco, pois que era muito l\u00edvida e mi\u00fada, pequenina e bonita como um l\u00edrio. Ant\u00f4nio, o mais espevitado dos garotos, logo que percebeu o meu tormento relatou uma mentira das grandes, mas que me fez cair ainda mais no po\u00e7o da disc\u00f3rdia interior: Divina estava no hospital, sofrendo com as dores do parto. Mas como, se ela nem demonstrara estar gr\u00e1vida ou coisa do tipo? Que canalha a teria deflorado, t\u00e3o pura que era? O carrasco queria mesmo me agoniar, como se ela tivesse e fosse dada a qualquer sujeitinho. E essa tro\u00e7a r\u00e1pido se desfez, porque a constata\u00e7\u00e3o veio em forma de circular, direcionada aos pais. \u201cPrezados pais, a Sra. Maria Divina dos Santos, professora de l\u00edngua portuguesa, das turmas da quinta e sexta s\u00e9ries, est\u00e1 acometida por uma forte gripe e ficar\u00e1 afastada, para a sua seguran\u00e7a e tamb\u00e9m dos alunos, por cerca de um m\u00eas, at\u00e9 desaparecem todos os sintomas e, por conseguinte, os riscos. Contudo, no per\u00edodo, os discentes ser\u00e3o assistidos de perto pela dire\u00e7\u00e3o do col\u00e9gio, pela professora e coordenadora Mirtes, sem qualquer preju\u00edzo no conte\u00fado. Gratos pela aten\u00e7\u00e3o, a Dire\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cQue troca absurda!\u201d \u2013 pensei, revoltado. Mirtes teria sido minha professora em dois momentos, na segunda e quarta s\u00e9ries, nas disciplinas de ci\u00eancias e estudos sociais. Ela tinha um qu\u00ea militar, e, o pior, de megera desalmada. Tratava-nos com o mesmo prest\u00edgio que se trata um rebanho de bois. Quando ministrava as suas aulas, no mais das vezes, n\u00e3o levantava sequer os olhos para nos encontrar; aplicava os exerc\u00edcios de maneira indiscriminada, para ganhar tempo, e, no fim, fazia-nos passar vergonha, tendo de ir \u00e0 frente da sala explicar, tintim por tintim, sobre o que ter\u00edamos entendido do material. Vale salientar: em regra, o citado material era um calhama\u00e7o de vinte p\u00e1ginas, no m\u00ednimo, artigos cient\u00edficos, que, por vezes, n\u00e3o chegavam \u00e0 compreens\u00e3o do mais esfor\u00e7ado dos alunos: eu. Olhavam-me com olhos de ajuda, suplicantes para que os tirasse da enrascada. Eu tinha pena e me juntava aos menos favorecidos, aos exclu\u00eddos e discriminados pela falta de aten\u00e7\u00e3o. Jeferson, C\u00e1ssio e T\u00e2nia, por exemplo, apesar de serem espertos \u2013 n\u00e3o bagunceiros, propriamente \u2013, demonstravam certa dificuldade de concentra\u00e7\u00e3o, por isso se ligavam a mim. Sempre eu e mais um ou uma fic\u00e1vamos com a incumb\u00eancia de esclarecer \u00e0 turma o conte\u00fado dos trabalhos cient\u00edficos. Ainda assim, por mais que nos esfor\u00e7\u00e1ssemos, n\u00e3o ser\u00edamos capazes de decifrar os signos eg\u00edpcios, se nem ao menos t\u00ednhamos base para isso. Quando os trabalhos degringolavam, Mirtes, como um furac\u00e3o, ca\u00eda sobre n\u00f3s, dizendo que \u00e9ramos lerdos e desinteressados; e, com isso, alertava-nos que ter\u00edamos uma \u201cprovinha\u201d na pr\u00f3xima aula. E qual era o conte\u00fado? Ci\u00eancias e estudos sociais; nada de portugu\u00eas. Bem, numa dessas, me safei com palavras dif\u00edceis, como a algoz gostava. Ou seja, nem mesmo ela entendia o que tinha perguntado. Ped\u00edamos aos c\u00e9us com tanto ardor, para que a nossa mestra voltasse, pela sua recupera\u00e7\u00e3o, que fomos consideradas as crian\u00e7as rezadeiras. Havia um revezamento na capelinha da escola, nos intervalos e nas horas da sa\u00edda. Num dia radiante, Divina nos surpreendeu no meio de uma aula ma\u00e7ante da Mirtes. Apareceu como uma luz: divina. E disse que estava morrendo de saudade. E que j\u00e1 estaria conosco no segundo per\u00edodo do dia; lembro at\u00e9 hoje dessa data: cinco de setembro de 1994. Nada mais que a agoniante Mirtes falava valia a pena. As provas e os castigos seriam apagados com o sopro celestial de nossa deidade maior. O meu al\u00edvio, especialmente, foi em reconhecer em Divina a esperan\u00e7a, o amor renascido. Ela estava espl\u00eandida, com roupas mais leves, encantadas, que me levavam a outro plano. No retorno do recreio, n\u00e3o consegu\u00edamos nos acalmar com a m\u00fasica de acolhida, que era uma estrat\u00e9gia aplicada pela dire\u00e7\u00e3o para esfriar os nervos. Olh\u00e1vamos para ela, felizes e gratos, com sorrisos que eram propriamente abra\u00e7os \u2013 eu ainda mais. Ela entendeu e nos cobriu de paz, com o poema Regresso, de Miguel Torga. Sab\u00edamos que, ali, est\u00e1vamos enfim seguros. Mas, a mim, desandou o calor de uma partida, pois que o ano estava terminando. S\u00f3 eu, com as minhas \u00edntimas afli\u00e7\u00f5es, fiquei enterrado na cadeira, quando a hora da aula acabou. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o ficou feliz com a minha volta, Sebasti\u00e3o?\u201d. \u201cSim, professora; sim! Mas lembrei que o ano est\u00e1 terminando, e\u2026\u201d. \u201cN\u00e3o se preocupe, querido, estarei sempre aqui. E a literatura ser\u00e1 a nossa m\u00e3e protetora\u201d. Deu-me um beijo demorado na testa, que, at\u00e9 hoje, estala entre desejos e vontades. Onde estar\u00e1 o meu amor, Divina?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Adriano B. Esp\u00edndola Santos<\/em><\/strong><em> \u00e9 natural de Fortaleza, Cear\u00e1. Em 2018 lan\u00e7ou seu primeiro livro, o romance \u201cFlor no caos\u201d, pela Desconcertos Editora; e em 2020 os livros de contos, \u201cCont\u00edculos de dores refrat\u00e1rias\u201d e \u201co ano em que tudo come\u00e7ou\u201d, ambos pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas liter\u00e1rias nacionais e internacionais. \u00c9 advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir \u2013 sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Liter\u00e1ria. Membro do Coletivo de Escritores Delirantes. \u00c9 dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o cora\u00e7\u00e3o inquieto. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um fio de lembran\u00e7as no conto de Adriano B. 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