{"id":19070,"date":"2021-08-04T12:03:48","date_gmt":"2021-08-04T15:03:48","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19070"},"modified":"2021-11-13T18:16:15","modified_gmt":"2021-11-13T21:16:15","slug":"aperitvopalavrai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitvopalavrai\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p><strong>DIZERES ALEGRES<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><em>Por Sandro Ornellas<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/CAPA-PULSARES.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19074\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/CAPA-PULSARES.jpg\" alt=\"\" width=\"298\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/CAPA-PULSARES.jpg 298w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/CAPA-PULSARES-199x300.jpg 199w\" sizes=\"auto, (max-width: 298px) 100vw, 298px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pulsares<\/em> \u00e9 o segundo livro de L\u00edlian Almeida, primeiro em versos, pois o anterior, <em>Todas as cartas de amor<\/em>, foi uma fic\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Publicado em 2019 pela Caramur\u00ea, divide-se em tr\u00eas partes: \u201cPulsares\u201d, \u201cSidera\u00e7\u00f5es\u201d e \u201cEclipses\u201d. S\u00e3o poemas curtos, \u00e0 maneira de pequenos quadros carregados de lirismo e de certa forma organizados tematicamente em cada uma das partes. Cada uma delas parece desenhar uma mitologia espec\u00edfica da poeta, embora tamb\u00e9m possuam tra\u00e7os em comum na brevidade, nos versos curtos, no ritmo das imagens, sempre tendendo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma cosmologia po\u00e9tica muito pessoal, mas ao mesmo tempo intelig\u00edvel pelo leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira parte, a maior delas e hom\u00f4nima ao livro \u2013 ou seja, de alguma maneira a que orienta as demais ao longo da leitura \u2013 \u00e9 onde percebemos alguns dos elementos mais caracter\u00edsticos do lirismo de L\u00edlian nesse livro: uma busca por associar, pelas palavras, o sujeito a elementos da natureza. N\u00e3o que aquele seja constitu\u00eddo por estes, mas que ambos s\u00e3o aproximados como semelhan\u00e7a em suas constitui\u00e7\u00f5es, como em \u201cA imensid\u00e3o das folhas \/ \u00e9 sil\u00eancio de palavras\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a presen\u00e7a da natureza na poesia de L\u00edlian n\u00e3o se limita a elementos do ambiente. Sua subjetiva\u00e7\u00e3o se d\u00e1 <em>pari-passu<\/em> a certos rimos e processos naturais, como no poema que abre o livro, \u201cCris\u00e1lida\u201d: \u201cGr\u00e1vida do ser que me habita \/ vou parir a mim mesma. \/ Outra. \/\/ Quando a lua anunciar negruras \/ j\u00e1 serei o que sou. \/\/ [&#8230;]\u201d; ou em \u201cFiat lux\u201d: \u201cA vida \u00e9 o acender \/ e o apagar \/ da luz\u201d; ou ainda em \u201cTuaregue\u201d: \u201cTempestade de areia \/ a\u00e7oita a alma \/ em desafio. \/\/ O sentido de seguir \/ inalien\u00e1vel \/ \u00e0 revelia de qualquer intemp\u00e9rie. \/\/ Viver \u00e9 deserto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa cosmologia se aterrar\u00e1 na segunda parte do livro \u201cSidera\u00e7\u00f5es\u201d. Antes, no entanto, quero ainda me deter nos dois \u00faltimos poemas de \u201cPulsares\u201d, intitulados \u201cContempla\u00e7\u00e3o do infinito I e II\u201d, nos quais percebemos um pouco da t\u00e9cnica de composi\u00e7\u00e3o de L\u00edlian. No primeiro, vemos tr\u00eas breves fragmentos se sucedendo e montando quadros que n\u00e3o se seguem ao modo de uma narrativa, mas se sobrep\u00f5em ao modo de fotografias em discreto di\u00e1logo, tanto que poderiam funcionar independentes, uma estrofe da outra, quanto em conjunto: \u201cFugaz passar de nuvens \/ em cora\u00e7\u00e3o de menino. \/\/ Olhar pousado \/ em passado presente \/ de tanto chorar. \/\/ O azul derrama mem\u00f3rias \/ guardadas \/ no peito do c\u00e9u\u201d. Mas mesmo n\u00e3o construindo narrativas, a poesia de L\u00edlian formula o que posso chamar de imagens em movimento, como na primeira estrofe do segundo poema da s\u00e9rie, onde lemos: \u201cLevita na tarde \/ um cora\u00e7\u00e3o azul \/ mas rubro\u201d, lembrando-nos que poesia \u00e9 precisamente esse uso m\u00e1gico da linguagem \u2013 \u201cum cora\u00e7\u00e3o azul \/ mas rubro\u201d \u2013 fazendo um cora\u00e7\u00e3o mudar de cor bem diante dos nossos olhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disse acima que a cosmologia da primeira parte se aterraria na segunda, \u201cSidera\u00e7\u00f5es\u201d. Pois \u00e9 quando \u201ca mem\u00f3ria \/ das estrelas\u201d, do poema que abre a segunda parte se transforma no primeiro verso do poema seguinte \u201cSaudade\u201d: \u201ch\u00e1 um cheiro de saudade nesta casa\u201d. Da mem\u00f3ria para a saudade, das estrelas para a casa, a ancestralidade ausente se faz presente no \u201cch\u00e3o\u201d, \u201cno varal\u201d, \u201cnas roupas\u201d, nas \u201cm\u00e3os da mulher\u201d, \u201cna cidade alba\u201d, \u201cna rua marechal mallet\u201d, nos \u201cpneus dos autom\u00f3veis\u201d. Afinal, toda ancestralidade, bem como toda poesia que se preze, \u00e9 sempre o instante da \u201cPresen\u00e7a\u201d: \u201cOs meus passados \/ passam-me \/ de tr\u00e1s para frente \/ em busca de futuros \/ cheios de agora.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso em \u201cSidera\u00e7\u00f5es\u201d, pois um poema como \u201cCapoeira\u201d ratifica o que disse anteriormente sobre os quadros montados pelos versos de L\u00edlian: \u201cO golpe girou no ar. \/\/ A\u00e7oite nas pernas \/ \u2013 velocidade e precis\u00e3o. \/ Dorso no ch\u00e3o, \/ p\u00e9s no alto: \/ rendi\u00e7\u00e3o\u201d. Quase hom\u00f4nimo de \u201co capoeira\u201d, de Oswald de Andrade, a \u201cCapoeira\u201d de L\u00edlian Almeida possui em seus tr\u00eas \u00faltimos versos a mesma imagem em movimento do poema oswaldiano no verso derradeiro. Tanto o \u00faltimo de Oswald (\u201cpernas e cabe\u00e7as na cal\u00e7ada\u201d), quanto os \u00faltimos de L\u00edlian (\u201cDorso no ch\u00e3o, \/ p\u00e9s no alto: \/ rendi\u00e7\u00e3o\u201d) n\u00e3o possuem qualquer verbo, malgrado imporem ao olhar do leitor uma forte impress\u00e3o de movimento dos substantivos que os comp\u00f5em.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora a terceira parte do livro, \u201cEclipse\u201d, \u00e9 claramente a se\u00e7\u00e3o er\u00f3tica do poema, lembrando-me em alguns momentos a poesia da angolana Paula Tavares na conjun\u00e7\u00e3o er\u00f3tica entre elementos naturais e o corpo feminino: \u201cConcha aberta \/ engole mar proeminente. \/\/ P\u00e9rolas l\u00edquidas cintilam \/ mist\u00e9rios gozosos \/ ao entardecer\u201d. Mas o erotismo da poesia de L\u00edlian \u00e9 muito mais intenso do que o de Paula, com \u201cExplos\u00e3o de mares \/ em pernas fendidas \/ fundadas \/ no espesso amor \/ sobre os len\u00e7\u00f3is.\u201d O que se tem a\u00ed \u00e9 uma poesia er\u00f3tica, e por isso, transgressora de leis morais que historicamente ligam o corpo da mulher a um territ\u00f3rio controlado pela sociedade patriarcal. L\u00edlian Almeida toma posse do seu corpo e das palavras para diz\u00ea-lo sem esses interditos, como em \u201cAurora\u201d: \u201cfloriu vermelho \/ meu sexo \/ na tua boca \/ de vontades azuis\u201d. Ao romper os limites do interdito, L\u00edlian faz da sua palavra po\u00e9tica instrumento para ditos alegres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o importando o assunto de um poema, todo bom poema \u00e9 sempre feito de dizeres alegres, pois rompe com a mera fun\u00e7\u00e3o de comunicar o que quer que seja e vai ao cerne da palavra tirar dela o que h\u00e1 de mais vivo e mais comum, n\u00e3o o comum da comunica\u00e7\u00e3o, mas o uso comum da linguagem, aquele absolutamente livre de um sentido \u00fanico, uma reta, um \u00fanico uso. O uso comum \u00e9 um uso qualquer. \u00c9 justo a\u00ed que percebo a alegria da poesia de L\u00edlian: pequenas frases, versos, estrofes e poemas que s\u00e3o como pot\u00eancias indicadoras de caminhos luminosos, como diz seu pr\u00f3prio t\u00edtulo <em>Pulsares<\/em>.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Sandro Ornellas<\/em><\/strong><em> \u00e9 poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sandro Ornellas trilha vias em \u201cPulsares\u201d, livro de L\u00edlian Almeida <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19071,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4041,2533],"tags":[11,4060,107,3784,159,3969,158],"class_list":["post-19070","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-145a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-dizeres-alegres","tag-janela-poetica","tag-lilian-almeida","tag-poemas","tag-sandro-ornellas","tag-versos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19070","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19070"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19070\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19129,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19070\/revisions\/19129"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19071"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19070"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19070"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19070"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}