{"id":19191,"date":"2021-11-03T11:43:29","date_gmt":"2021-11-03T14:43:29","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19191"},"modified":"2021-11-13T18:14:03","modified_gmt":"2021-11-13T21:14:03","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-79","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-79\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trajet\u00f3ria de um artista n\u00e3o se mede apenas pela quantidade de feitos constru\u00eddos em sua caminhada, mas principalmente pela capacidade que seu trabalho tem de impactar a audi\u00eancia que lhe interessa. Ao longo dos anos, as viv\u00eancias pela arte v\u00e3o engendrando saberes e sabores, moldando os \u00edmpetos criativos, impulsionando novas ideias. E quando falamos especialmente de teatro, supomos de imediato a for\u00e7a que se estabelece na rela\u00e7\u00e3o entre obras e o p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A arte teatral prima pela captura do instante, momento em que as aten\u00e7\u00f5es do espectador se voltam para todo o conjunto que lhes \u00e9 ofertado. Seu efeito \u00e9 instant\u00e2neo, um gozo do ef\u00eamero em quem est\u00e1 experimentando a recep\u00e7\u00e3o da mescla entre texto e encena\u00e7\u00e3o. Assim, o legado maior desse m\u00faltiplo territ\u00f3rio de sensa\u00e7\u00f5es busca abrigo na mem\u00f3ria, sua relevante aliada. Sobretudo agora, no per\u00edodo pand\u00eamico que nos acomete, nunca fez tanta falta vivenciar o ato de estar diante de um espet\u00e1culo teatral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o s\u00e3o poucos os nomes que historicamente edificaram o teatro brasileiro, fizeram desta nobre arte um territ\u00f3rio rico em possibilidades e, acima de tudo, ideias que movimentam sensa\u00e7\u00f5es das mais diversas. No contexto baiano, \u00e9 imposs\u00edvel falar de teatro sem lembrar de algu\u00e9m como <strong>Paulo Atto<\/strong>. E falar desse dramaturgo \u00e9 reverberar sua pot\u00eancia criativa para al\u00e9m dos espa\u00e7os regionais e brasileiros, posto que sua contribui\u00e7\u00e3o para a arte c\u00eanica encontra tamb\u00e9m abrigo em paragens internacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o teatro a que Paulo Atto se prop\u00f5e fazer perpassa a reflex\u00e3o pungente sobre a condi\u00e7\u00e3o humana em suas variadas formas de acep\u00e7\u00e3o. Interessa ao artista apresentar em seu trabalho a vis\u00e3o multifacetada que a humanidade pode sugerir. Combinando elementos oriundos da poesia a um forte eixo filos\u00f3fico, Paulo marca sua obra com o signo da inquietude diante de um mundo que nos oferta mais d\u00favidas que certezas. Para mencionar apenas alguns aspectos, vemos brotar em seu of\u00edcio o tra\u00e7ado da sofistica\u00e7\u00e3o textual, a agilidade e intelig\u00eancia dos di\u00e1logos de seus personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja como diretor, dramaturgo e produtor cultural, dentre outras atribui\u00e7\u00f5es, Paulo trilha seu caminho na seara art\u00edstica h\u00e1 quase 40 anos. Em sua trajet\u00f3ria, dirigiu mais de 30 espet\u00e1culos, muitos deles tamb\u00e9m apresentados nos Estados Unidos, Am\u00e9rica Latina e Europa, al\u00e9m de ter participado de in\u00fameros festivais, semin\u00e1rios e programas em v\u00e1rios pa\u00edses. S\u00e3o de sua autoria os livros \u201cAt\u00e9 Delirar\u201d, \u201cDesmontando Shakespeare\u201d e, mais recentemente, \u201cAtto em 3 atos &amp; mem\u00f3rias da censura\u201d, este \u00faltimo assinalando pontos marcantes de sua carreira. Pelo texto dram\u00e1tico \u201cA Travessia do Gr\u00e3o Profundo\u201d, foi agraciado com o Pr\u00eamio Selo Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro \u2013 Ano III. Seu engajamento como diretor art\u00edstico do N\u00facleo Caatinga da Cia de Teatro Avatar e do Festival Internacional de Teatro da Caatinga revela um esp\u00edrito incans\u00e1vel em seus prop\u00f3sitos. E \u00e9 este personagem mobilizador quem protagoniza agora uma conversa com a Diversos Afins. Nela, fica registrado um recorte sens\u00edvel e inteligente sobre a caminhada de Paulo, esse art\u00edfice que, principalmente a partir das exposi\u00e7\u00f5es contidas no seu mais recente livro, fala de suas experi\u00eancias, percep\u00e7\u00f5es do presente, al\u00e9m de dar sentido renovado ao ato de resistir atrav\u00e9s da arte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19253\" aria-describedby=\"caption-attachment-19253\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/interna-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19253\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/interna-01.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/interna-01.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/interna-01-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19253\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Waldson Alves<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Para al\u00e9m de uma nuance autobiogr\u00e1fica, &#8220;Atto em 3 atos &amp; mem\u00f3rias da censura&#8221; \u00e9 um verdadeiro recorte hist\u00f3rico do teatro baiano. Ali est\u00e3o relatos pessoais, mat\u00e9rias jornal\u00edsticas e tr\u00eas pe\u00e7as fundamentais de sua carreira. A predile\u00e7\u00e3o pelo registro dessa mem\u00f3ria vem tamb\u00e9m marcada por um impulso de sobreviv\u00eancia da arte?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO ATTO &#8211; <\/strong>O teatro \u00e9 uma arte milenar, que j\u00e1 sobreviveu a revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, a guerras, a pestes, mesmo com seu car\u00e1ter eminentemente fugaz e ef\u00eamero. Em parte, pela for\u00e7a do encontro essencialmente humano que promove tocando em muitos aspectos da vida e da alma humanas; por outro lado, pelo registro que dele ficou, primeiro em livros, os textos dram\u00e1ticos gregos s\u00e3o um grande exemplo disso; tamb\u00e9m pelos registros e mem\u00f3rias que muitos artistas de teatro nos legaram. Acredito que tudo isso me mova no sentido de produzir esse registro\u00a0 num pa\u00eds que despreza a mem\u00f3ria em geral e a arte em particular, sobretudo neste momento constrangedor, obscurantista, no qual a ignor\u00e2ncia ganha espa\u00e7o. \u00c9 um projeto ambicioso de, nos pr\u00f3ximos anos, quando completarei 40 de of\u00edcio, poder deixar registrada toda a mem\u00f3ria do meu trabalho e o contexto no qual ele aconteceu, na medida do poss\u00edvel. No Brasil estamos passando por um momento terr\u00edvel para os artistas. Em geral, \u00e9 necess\u00e1rio primeiro que os artistas sobrevivam para que a arte seja produzida e permane\u00e7a. Ent\u00e3o, nesse sentido, sim, \u00e9 tamb\u00e9m um impulso para a perman\u00eancia da arte.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Um aspecto importante do seu livro \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o integral do texto de algumas de suas pe\u00e7as, produ\u00e7\u00f5es naturalmente marcadas por um determinado contexto criativo e temporal. Em que medida esse gesto pode ser entendido como um est\u00edmulo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de sentidos por parte do leitor de hoje?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO ATTO &#8211; <\/strong>Totalmente. E esse \u00e9 o meu desejo como autor,\u00a0 que\u00a0o leitor\u00a0 desempenhe um papel ativo com suas infer\u00eancias e percep\u00e7\u00f5es, com seu entendimento sobre a obra. Portanto, cada leitor tem um papel relevante na amplia\u00e7\u00e3o de seus significados,\u00a0gerando novos\u00a0sentidos\u00a0no\u00a0momento desta intera\u00e7\u00e3o leitor\/autor. Considerando ainda que juntamente com os textos, que por si s\u00f3 j\u00e1 representam um universo a ser desvendado com seus personagens e enredos, eu publico um memorial de imprensa, todo o material gr\u00e1fico das montagens com os programas, convites, cartazes e diversos outros registros que denomino de memorial afetivo. Onde tamb\u00e9m se encontram uma carta que Paulo Autran me escreveu sobre \u201cA Confiss\u00e3o\u201d, certificados de censura, um bilhete da atriz Andreia Elia no encerramento de uma temporada, um texto que escrevi para a Diversos Afins quando Paulo Autran morreu, anota\u00e7\u00f5es sobre minhas ideias e viv\u00eancias sobre as montagens. Acredito que o leitor fica ainda mais estimulado a construir novos sentidos sobre os aspectos relacionais\u00a0entre a obra liter\u00e1ria, a montagem produzida naquele tempo\/lugar e a mem\u00f3ria que trago atrav\u00e9s de todos estes registros.\u00a0Al\u00e9m de oferecer a minha contribui\u00e7\u00e3o para a\u00a0 constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria do teatro na Bahia, acredito que levo o leitor a entender estas produ\u00e7\u00f5es no seu tempo e a imagin\u00e1-las com todos estes est\u00edmulos e registros,\u00a0 produzindo significados para si mesmo neste nosso momento, nessa nossa atualidade. Assim, falamos de hoje atrav\u00e9s do registro sobre a nossa viv\u00eancia naquele tempo. Nossa, digo, minha como dramaturgo\/diretor, com meus atores e equipes de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Por falar em produ\u00e7\u00e3o de sentidos pelo leitor, ao lermos, por exemplo, o texto de &#8220;A Confiss\u00e3o&#8221;, sentimos que o eixo tem\u00e1tico da pe\u00e7a n\u00e3o se desbota, pois vemos ali assuntos que se perpetuam no tempo. Um deles \u00e9 perceber os aparatos de poder atuando para limitar as liberdades individuais no n\u00edvel do corpo e dos desejos. O fato \u00e9 que nossa sociedade n\u00e3o deixou de efetuar tais controles e n\u00e3o tem como n\u00e3o pensar em Foucault numa hora dessas. O que dizer sobre essa atmosfera? Alguma vez passou pela sua cabe\u00e7a remontar esse espet\u00e1culo e ofert\u00e1-lo ao p\u00fablico dos dias atuais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO ATTO &#8211; <\/strong>Acredito que \u201cA Confiss\u00e3o\u201d seja um texto atemporal pois toca exatamente na quest\u00e3o do Poder e seus mecanismos de controle, seus aparatos de vigil\u00e2ncia e puni\u00e7\u00e3o, afinal a \u00faltima fronteira que o poder quer chegar \u00e9 ao n\u00edvel dos corpos, do controle da rela\u00e7\u00e3o dos corpos na intera\u00e7\u00e3o social, cultural, biol\u00f3gica, com uma profunda carga de sexualidade e religi\u00e3o. \u201cA Confiss\u00e3o\u201d \u00e9 o resultado de uma imensa pesquisa, de muitas leituras, de muitas fontes. Foucault foi, sem d\u00favida, de fundamental import\u00e2ncia, fizemos tamb\u00e9m uma leitura psicanal\u00edtica\u00a0do texto norteada pelas ideias e vis\u00f5es de Freud e Lacan.\u00a0 H\u00e1 uma influ\u00eancia, ainda que em segundo plano, do chamado Teatro do Absurdo em sua linguagem. A atmosfera do espet\u00e1culo traduziu a claustrofobia do texto, o jogo de espelhos dos personagens, o vazio da ret\u00f3rica dos discursos de domina\u00e7\u00e3o, a tortura como estrat\u00e9gia da verdade a qualquer pre\u00e7o, a desumaniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es e a morte como destino inescap\u00e1vel\u00a0para todos. Eu tinha 24 anos quando escrevi, e hoje, lendo o texto, \u00e0s vezes penso: &#8220;O que se passava na cabe\u00e7a deste jovem?&#8221; (risos). \u00c9 um texto muito forte com um tra\u00e7o cl\u00e1ssico, o que inclusive foi apontado na \u00e9poca pelo jornalista e cr\u00edtico Marcelo Dantas. Jamais pensei em remont\u00e1-lo. Na verdade, chegamos a trabalhar num projeto audiovisual com nossa saudosa atriz Regina Dourado, no papel de A Morta, e um elenco maravilhoso. Infelizmente, por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e recursos o projeto n\u00e3o avan\u00e7ou\u00a0apesar de termos gravado praticamente 70% das cenas no Castelo Garcia D&#8217;\u00c1vila \u00e0 noite. Agora pensando no nosso momento, percebo como este texto \u00e9 atual, ele n\u00e3o envelheceu mesmo depois de 34 anos. Acredito que ele possa falar da realidade brasileira hoje e toda a sua estupidez, seu atraso, essa pretensa moral tenebrosa, essa postura retr\u00f3gada e obscurantista. Acredito que hoje ele teria uma repercuss\u00e3o imensa. Acho que \u201cA Confiss\u00e3o\u201d hoje causaria muito mais inc\u00f4modo porque tocaria fundo na ess\u00eancia do nosso engano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19254\" aria-describedby=\"caption-attachment-19254\" style=\"width: 333px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/interna2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19254\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/interna2.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/interna2.jpg 333w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/interna2-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19254\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Waldson Alves<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Esse mesmo jovem que foi capaz de criar um trabalho importante em &#8220;A Confiss\u00e3o&#8221; tamb\u00e9m era reconhecido num determinado momento como algu\u00e9m dedicado \u00e0 poesia. Diga-se de passagem, o texto de &#8220;At\u00e9 Delirar&#8221; e &#8220;O Banquete&#8221; evidencia esse car\u00e1ter po\u00e9tico de sua escrita. H\u00e1 ainda um Paulo poeta em torno do qual podemos esperar algo em mat\u00e9ria de versos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO ATTO &#8211; <\/strong>Realmente eu comecei a minha aventura com as palavras pela poesia. Eu continuo cometendo poemas embora n\u00e3o os venha publicando. Digo que o dramaturgo \u00e9 um poeta ao avesso. A poesia exige s\u00edntese e a dramaturgia\u00a0 o excesso. Mas o dramaturgo n\u00e3o deixa de ser um construtor de po\u00e9ticas. Tenho vontade de voltar a publicar poemas depois de tantos anos, na verdade essa vontade me perseguiu durante todo esse tempo e acho que o canal da poesia verteu no oceano do drama, mas continuo sim experimentando a poesia na constru\u00e7\u00e3o de poemas sempre. Acredito que avan\u00e7ando nesse projeto editorial de lan\u00e7ar toda a minha obra dram\u00e1tica, que j\u00e1 \u00e9 um esfor\u00e7o imenso,\u00a0 haver\u00e1 espa\u00e7o para publicar sim um novo livro de poemas, quem sabe at\u00e9 mais de um (risos). Na verdade, foi o meu primeiro livro de poemas chamado \u201cAt\u00e9 delirar\u201d que originou um roteiro c\u00eanico que veio a se constituir no espet\u00e1culo \u201cAt\u00e9 delirar\u201d e tamb\u00e9m na obra teatral \u201cO Banquete\u201d, como est\u00e1 apresentado no livro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Um outro ponto importante de seu novo livro s\u00e3o os relatos das suas experi\u00eancias com a censura. Na sua impress\u00e3o, os censores eram figuras totalmente apartadas do conhecimento sobre a arte ou pairava alguma esp\u00e9cie de cinismo ideol\u00f3gico que correspondia meramente aos ditames do regime vigente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO ATTO &#8211; <\/strong>A censura de que eu falo no livro \u00e9 uma censura institucional onde funcion\u00e1rios p\u00fablicos eram pagos com o dinheiro dos nossos impostos para cercear a liberdade de express\u00e3o, impedir a realiza\u00e7\u00e3o de qualquer atividade art\u00edstica ou cultural que, na cabe\u00e7a dos censores, fosse uma amea\u00e7a ao regime, \u00e0 ordem institu\u00edda ou a algum valor moral. Os crit\u00e9rios eram muito nebulosos porque, quando voc\u00ea tinha uma censura ou um corte, os censores explicitavam os motivos e quando voc\u00ea examina as raz\u00f5es dessas a\u00e7\u00f5es de censura verifica que s\u00e3o muito difusas,\u00a0 que n\u00e3o s\u00e3o crit\u00e9rios objetivos, ao contr\u00e1rio, depende muito da impress\u00e3o daquele indiv\u00edduo, ent\u00e3o s\u00e3o as raz\u00f5es mais disparatadas e absurdas. De um lado, voc\u00ea tem uma falta de crit\u00e9rios objetivos e do outro tem a extrema ignor\u00e2ncia desse corpo de censores, que eram pessoas sem absolutamente nenhum conhecimento nem de cultura nem de arte, nem de nada. Eram \u00e0s vezes funcion\u00e1rios de carreira colocados naquela fun\u00e7\u00e3o ou mesmo contratados para exercer o papel de censor. Portanto, voc\u00ea tinha a uni\u00e3o de dois fatores muito ruins: de um lado, um temor infundado e quase sempre paran\u00f3ico e, do outro, a total falta de conhecimento, chegando muitas vezes \u00e0 incapacidade de interpreta\u00e7\u00e3o de texto. O que de outro modo \u00e0s vezes era positivo,\u00a0 porque como eles n\u00e3o conseguiam entender o que se apresentava, passavam coisas que, pela sofistica\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o po\u00e9tica ou da linguagem empregada na cena, eles n\u00e3o conseguiam apreender o sentido real do que se queria dizer, e em alguns casos era uma cr\u00edtica direta ao regime ou \u00e0 situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica daquele momento. Acho que para as novas gera\u00e7\u00f5es de artistas do teatro essa seja uma experi\u00eancia que eles n\u00e3o consigam nem mensurar, embora n\u00f3s vejamos nesse momento uma volta, um ensaio de retorno de uma censura, ainda que n\u00e3o seja totalmente institucional, digo claramente institucional,\u00a0mas uma censura velada com orienta\u00e7\u00f5es sobre programa\u00e7\u00f5es. Isso tem acontecido e tem sido noticiado pela imprensa, inclusive espet\u00e1culos de teatro que haviam sido programados para espa\u00e7os geridos por \u00f3rg\u00e3os ligados ao governo e que foram impedidos de entrar em cartaz por causa de alguma tem\u00e1tica. Isso \u00e9 censura. Vemos tamb\u00e9m o movimento de algumas pessoas da sociedade, cidad\u00e3os que se arvoram em defensores da moral e dos bons costumes. Isso \u00e9 um asco. E justamente empregam os mesmos termos que foram muito utilizados nas alega\u00e7\u00f5es dos censores daquele per\u00edodo. Sem d\u00favida, n\u00f3s temos a\u00ed um retrocesso imenso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi quase imposs\u00edvel para mim falar desse per\u00edodo de in\u00edcio da minha trajet\u00f3ria teatral sem tocar no ponto da censura, porque ela esteve muito presente. As pe\u00e7as eram submetidas \u00e0 Pol\u00edcia\u00a0 Federal, pois existia dentro do minist\u00e9rio da justi\u00e7a uma divis\u00e3o de censura de divers\u00f5es p\u00fablicas, o famigerado DCDP,\u00a0e n\u00f3s t\u00ednhamos que enviar com muita anteced\u00eancia o texto que era lido por algum censor, que j\u00e1 poderia determinar cortes ou mesmo a proibi\u00e7\u00e3o do texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois eles iam assistir ao ensaio antes da estreia, e novamente poderiam decidir por novos cortes ou mesmo a proibi\u00e7\u00e3o daquela pe\u00e7a em todo territ\u00f3rio nacional. \u00c9 uma coisa inconceb\u00edvel para os artistas de hoje, os jovens sobretudo, imaginar que voc\u00ea teria que fazer um ensaio para um censor ou uma dupla de censores que poderiam decidir que isso aqui n\u00e3o vai poder ser apresentado ou que voc\u00ea tem que cortar uma cena inteira.\u00a0 Eu n\u00e3o cheguei a ter pe\u00e7as proibidas, mas tive entraves e narro isso no livro, os problemas que enfrentei com a censura que foram complicados de administrar. Pense que eu estou falando no per\u00edodo de redemocratiza\u00e7\u00e3o. Em 1988, foi promulgada uma nova constitui\u00e7\u00e3o onde a censura institucional foi extinta com todos os seus departamentos. Por isso, mesmo falando de algo que aconteceu h\u00e1 mais de 30 anos, eu termino falando do nosso momento atual, como um alerta para essa situa\u00e7\u00e3o de obscurantismo imenso que a gente est\u00e1 vivendo e de uma tentativa de censurar os meios de comunica\u00e7\u00e3o e a express\u00e3o art\u00edstica. Ent\u00e3o, infelizmente o meu discurso foi atualizado pelos fatos que estamos passando, a realidade brasileira atualizou o meu discurso de 30 anos atr\u00e1s. O que \u00e9 lament\u00e1vel e extremamente perigoso. Inclusive porque conta com o apoio e a anu\u00eancia de uma parcela significativa da nossa sociedade que se sente representada em sua ignor\u00e2ncia, em seu atraso e em sua estupidez. Poderia ser apenas um documento hist\u00f3rico, um retrato daquele momento, mas infelizmente estou falando tamb\u00e9m da nossa realidade hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nosso teatro tamb\u00e9m carece de uma aten\u00e7\u00e3o para o quesito forma\u00e7\u00e3o de plateia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO ATTO &#8211; <\/strong>A\u00ed est\u00e1 uma pergunta simples de resposta complexa. O teatro enquanto linguagem precisa de uma aprendizagem, de uma viv\u00eancia, de ser experienciado. H\u00e1 gente que diz que n\u00e3o gosta de teatro sem jamais ter visto uma pe\u00e7a (risos). Eu trabalhei em algumas oportunidades com crian\u00e7as, tanto ministrando oficinas, em projetos infanto-juvenis como em espet\u00e1culos infantis que dirigi, n\u00e3o foram muitos, acredito que uns sete espet\u00e1culos. Escrevi tr\u00eas textos para crian\u00e7as: Colombo, A incr\u00edvel viagem do Curupira e a Aventura da Descoberta. As crian\u00e7as naturalmente se expressam atrav\u00e9s da mimesis, constroem muito de sua expressividade atrav\u00e9s de jogos teatrais, ainda que sem perceber. Falando tudo isso, dever\u00edamos pensar que o teatro teria um p\u00fablico imenso. Entretanto, isso n\u00e3o acontece. Acredito mesmo que nas \u00faltimas d\u00e9cadas houve uma perda substantiva deste p\u00fablico que inclu\u00eda o teatro naturalmente em seu card\u00e1pio cultural, devido a uma s\u00e9rie de fatores: a viol\u00eancia nos centros urbanos gerou uma inseguran\u00e7a, o enfraquecimento da imprensa escrita que sempre foi o principal ve\u00edculo de nossa divulga\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo com o p\u00fablico; por outro lado, a perda de espa\u00e7o para divulga\u00e7\u00e3o nas redes de televis\u00e3o, os servi\u00e7os de streaming cada vez mais sofisticados e dispon\u00edveis a pre\u00e7os baixos, o fechamento de v\u00e1rios teatros, a migra\u00e7\u00e3o de artistas para fora do estado, que \u00e9 um fen\u00f4meno que, acredito, ainda n\u00e3o foi totalmente compreendido e mensurado. E ainda temos um trip\u00e9 perverso que vem do distanciamento do teatro do p\u00fablico, a qualidade do que \u00e9 apresentado, o amadorismo de diversas produ\u00e7\u00f5es e os editais p\u00fablicos em que houve e h\u00e1 um certo dirigismo cultural, onde muitas vezes o resultado do trabalho est\u00e1 muito aqu\u00e9m do discurso e da\u00a0proposta do projeto. S\u00e3o espet\u00e1culos de qualidade bem question\u00e1vel com um discurso lindo. Em todo este processo houve uma dissocia\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo teatral com o seu p\u00fablico. Tudo isso como introdu\u00e7\u00e3o para responder a sua pergunta &#8220;Nosso teatro carece de uma aten\u00e7\u00e3o para o quesito forma\u00e7\u00e3o de plateia?&#8221; A resposta \u00e9 sim. Mas n\u00e3o podemos imaginar que um programa de forma\u00e7\u00e3o de plateia, ainda que seja amplo e bem constru\u00eddo, ser\u00e1 suficiente para fazer o p\u00fablico retornar aos teatros. Sem ser saudosista, sou de um tempo em que fic\u00e1vamos em cartaz de quarta a domingo, na temporada de Morangos Mofados na Sala do Coro do TCA, em 1988, t\u00ednhamos filas para comprar ingresso e cambistas, um espet\u00e1culo baiano com cambistas, a dire\u00e7\u00e3o do TCA chegou a\u00a0\u00a0limitar a venda de ingressos por pessoa. Ficamos tr\u00eas anos em cartaz, realizamos uma turn\u00ea nacional por Bel\u00e9m do Par\u00e1, Fortaleza, Goi\u00e2nia, Aracaju, Recife, Macei\u00f3 e ainda uma temporada de um m\u00eas em S\u00e3o Paulo com casa cheia todos os dias, na \u00faltima semana foram duas sess\u00f5es por noite para dar conta do p\u00fablico. N\u00e3o t\u00ednhamos edital e nem financiamento p\u00fablico, a bilheteria nos mantinha. Fiz outros espet\u00e1culos com propostas para um p\u00fablico mais restrito como KAO, mas o espet\u00e1culo nos levou para o mundo em sucessivas turn\u00eas e apresenta\u00e7\u00f5es em festivais em mais de 10 pa\u00edses por 16 anos. Foram muitas outras quest\u00f5es que deixaram esta rela\u00e7\u00e3o teatro x p\u00fablico extremamente complexa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s temos uma experi\u00eancia incr\u00edvel de forma\u00e7\u00e3o de plateia com a realiza\u00e7\u00e3o, desde o ano de 2012, do Festival de Teatro da Caatinga, na cidade de Irec\u00ea, sert\u00e3o baiano. Cidade onde existe um movimento teatral pequeno, mas significativo, cidade que n\u00e3o possui teatros, e est\u00e1 distante da capital (500 km).\u00a0Nosso festival \u00e9 realizado atrav\u00e9s do edital setorial de Teatro da Funceb h\u00e1 seis edi\u00e7\u00f5es e conta com apoio da Prefeitura Municipal de Irec\u00ea. Em 2018, tornou-se internacional e tem um p\u00fablico cativo, que foi sendo constru\u00eddo ao longo dos anos. \u00c9 uma mostra de teatro a portas abertas que tem superlota\u00e7\u00e3o todos os dias com imensas filas na porta do Audit\u00f3rio do Col\u00e9gio Modelo, adaptado para converter-se numa sala de teatro. A repercuss\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande que o prefeito Elmo Vaz, atualmente no segundo mandato, em 2018 anunciou no palco do festival que iria solicitar junto ao governo do Estado da Bahia a constru\u00e7\u00e3o de um teatro. Este ano o governador Rui Costa assinou a ordem de servi\u00e7o para constru\u00e7\u00e3o e provavelmente em 2022 teremos um teatro na cidade. Outro lado \u00e9 o investimento na forma\u00e7\u00e3o e qualifica\u00e7\u00e3o profissional dos atores e t\u00e9cnicos. Muitos dos atores que participaram dos projetos de forma\u00e7\u00e3o do festival buscaram se aprimorar em cursos acad\u00eamicos de teatro na UFBA e na UNEB e mesmo em outros estados. Nosso programa de forma\u00e7\u00e3o de plateia est\u00e1 consolidado e apresenta resultados. Acredito que este seja um bom exemplo, mas muitas outras iniciativas v\u00eam acontecendo neste sentido em outras regi\u00f5es da Bahia. Formar o p\u00fablico \u00e9 fundamental, mas oferecer um trabalho de qualidade tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19255\" aria-describedby=\"caption-attachment-19255\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/interna3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19255\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/interna3.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/interna3.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/interna3-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19255\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Waldson Alves<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Agora nesse per\u00edodo de pandemia, testemunhamos experi\u00eancias de espet\u00e1culos online, sem p\u00fablico nos espa\u00e7os. At\u00e9 certo ponto esse gesto \u00e9 compreens\u00edvel, pois estamos falando tamb\u00e9m de formas de sobreviv\u00eancia para artistas e suas companhias. H\u00e1 quem veja essa alternativa se perpetuando mesmo ap\u00f3s as restri\u00e7\u00f5es pand\u00eamicas. N\u00e3o seria nocivo ao fazer teatral, em condi\u00e7\u00f5es de normalidade, ter isso como alternativa j\u00e1 que a arte \u00e9 feita muito fortemente da proximidade com sua audi\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO ATTO &#8211; <\/strong>O chamado teatro online, telepresen\u00e7a, web encena\u00e7\u00e3o, teatro digital ou qualquer nome que se queira dar, dada a falsa import\u00e2ncia de um r\u00f3tulo na nossa &#8220;desmodernidade&#8221;, n\u00e3o \u00e9 Teatro. N\u00e3o foi uma op\u00e7\u00e3o que n\u00f3s, realizadores, tivemos dentre outras, foi a \u00fanica poss\u00edvel. N\u00e3o havia outra sa\u00edda. H\u00e1 quem defenda que sim, apenas pelo gosto de dizer que \u00e9 Teatro e ponto. Vi coisas interessantes e lamentavelmente produ\u00e7\u00f5es pavorosas, recheadas de antigas ideias modernosas. Temos um audiovisual com uma linguagem teatral, por\u00e9m h\u00e1 uma c\u00e2mera por interm\u00e9dio, direcionando nosso olhar, temos as edi\u00e7\u00f5es, a sele\u00e7\u00e3o de cenas, os cortes, algo que n\u00e3o existe no Teatro, ainda que se alegue que a montagem teatral e a ilumina\u00e7\u00e3o possam de alguma forma dirigir o olhar do espectador.\u00a0 E isso pode realmente acontecer. Entretanto, a liberdade do espectador no teatro \u00e9 total para estabelecer os focos e os centros de sua aten\u00e7\u00e3o. E ainda poder ler os diversos planos, camadas, signos e sentidos que coexistem\u00a0 no palco, sem media\u00e7\u00e3o nenhuma a n\u00e3o ser a sua, ainda que tentemos fazer isso, nada supera a presen\u00e7a e o encontro de dois seres humanos, m\u00e1quina nenhuma, tecnologia nenhuma, pode suplantar ou oferecer isso. Falta a sensorialidade.\u00a0 Aqueles que defendem o tal &#8220;teatro digital&#8221; est\u00e3o sem saber desejando o seu fim, a perda de sua autonomia e de sua ess\u00eancia. Pode ser que esta &#8220;defesa&#8221; seja por interesse pr\u00f3prio, para promover algo que possa parecer uma moda, ou pela incompet\u00eancia em realizar o teatro de fato.\u00a0 J\u00e1 ouvi com muita arrog\u00e2ncia a frase: &#8220;\u00e9 teatro porque eu estou dizendo&#8221;. Sim, mas quem \u00e9 o interlocutor para dizer isso ignorando mais de 2 mil anos de hist\u00f3ria? Ignorando o que \u00e9 a linguagem do teatro. Cada linguagem foi sedimentada por s\u00e9culos, possui c\u00e2nones, possui mem\u00f3ria e t\u00e9cnica especifica. No final \u00e9 muito barulho por nada.\u00a0Eles ser\u00e3o superados pelo pr\u00f3prio Teatro, que n\u00e3o sucumbiu ao cinema, nem a TV, nem \u00e0s guerras, e nem sucumbir\u00e1 \u00e0 tecnologia. Se n\u00e3o se encaixam em nada disso, \u00e9 apenas imbecilidade pueril (risos). Os perdoo: eles n\u00e3o sabem nem o que fazem, e fazem mal. N\u00e3o pretendo desenvolver este tipo de proposta como teatro. Como audiovisual, acho interessante. Por\u00e9m, \u00e9 certo que ganhamos uma ferramenta de divulga\u00e7\u00e3o, de intera\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, de novas possibilidades de reuni\u00e3o, de estudo, de comunica\u00e7\u00e3o. Devemos aproveitar isso ao m\u00e1ximo, mas o que mais fez falta neste per\u00edodo pand\u00eamico \u00e9 justamente a\u00a0 aus\u00eancia do humano, do contato entre as pessoas, e \u00e9 sobre isso, em sua ess\u00eancia, que trata o Teatro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voltando a seu livro, o texto de &#8220;As M\u00e1quinas&#8221; parece dialogar muito com o que notamos hoje nessa\u00a0era de excesso de informa\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m de reprodu\u00e7\u00e3o padronizada de comportamentos. Podemos perceber muito disso a partir do &#8220;eu&#8221; espetacularizado que brota das redes sociais, por exemplo. Como \u00e9 que voc\u00ea observa esse sujeito contempor\u00e2neo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO ATTO &#8211; <\/strong>Quando eu escrevi o texto de As M\u00e1quinas ou A Trag\u00e9dia em desenvolvimento, era aluno do curso de Filosofia da UFBA e estava profundamente influenciado por temas ligados \u00e0 L\u00f3gica da linguagem. Meu professor Jo\u00e3o Salles, atual reitor da Universidade, al\u00e9m de professor excepcional, era um amigo com o qual repartia tardes em animadas conversas, das quais tamb\u00e9m participavam o meu querido e saudoso mestre professor Ubirajara Rebou\u00e7as e meus colegas e alunos Sandrinha Santana e Ricardo. Eram papos interessant\u00edssimos regados \u00e0 cerveja num boteco ali da Federa\u00e7\u00e3o. Tenho muitas saudades dessas conversas. Ali foi gerada a semente desse texto. Quando fui convidado para abrir o projeto de leituras dram\u00e1ticas da Escola de Teatro da UFBA, o\u00a0 Contexto C\u00eanico, escrevi o texto muito r\u00e1pido quase como se fosse um ensaio sobre aquelas ideias. Outra influ\u00eancia foi novamente o chamado Teatro do Absurdo, por excel\u00eancia um teatro sobre a incomunicabilidade humana. Certamente me assombra a atualidade do texto, \u00e9 atual\u00edssimo. Muitos leitores do livro j\u00e1 apontaram isso para mim. O fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo polon\u00eas Zygmunt Bauman, o qual admiro muito as ideias e reflex\u00f5es, fala de uma &#8220;n\u00e1usea da informa\u00e7\u00e3o&#8221; e acredito que estamos vivendo isso de maneira muito profunda. Os algoritmos, as chamadas &#8220;fake news&#8221;, o grau de desinforma\u00e7\u00e3o com o paradoxo de tanta informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, o obscurantismo, os retrocessos pol\u00edticos, talvez tenham como raiz essa n\u00e1usea e o perverso jogo dos algoritmos dominando as nossas escolhas. Outra ideia muito interessante est\u00e1 presente no livro de Bauman\u00a0\u201cVida para consumo: a transforma\u00e7\u00e3o das pessoas em mercadoria\u201d. \u00c9 incr\u00edvel como ele nos traduz nesta obra. Chegamos ao ponto em\u00a0 que a principal\u00a0mercadoria, diria at\u00e9 a mais comum dispon\u00edvel no mercado agora,\u00a0 s\u00e3o as pessoas.\u00a0Nos tornamos o principal produto do mercado de consumo, somos enfim a mercadoria. Isso vai desde os sites de encontros, de grupos, at\u00e9 as redes sociais onde as pessoas vendem a farsa de uma vida ideal,\u00a0 ut\u00f3pica, irreal. Fonte de ang\u00fastia e de frustra\u00e7\u00e3o. A cultura das artes tamb\u00e9m sofre muito com isso. Tudo \u00e9 cultura, h\u00e1 uma vulgariza\u00e7\u00e3o das artes, Arte e ind\u00fastria cultural de massas est\u00e3o perigosamente sendo confundidas. Enfim, estamos vivendo apenas para o consumo. Acho que no texto essas ideias v\u00e3o se desenhando a partir da fal\u00eancia da comunica\u00e7\u00e3o, dos modelos repetitivos e sem sentido do trabalho, das conven\u00e7\u00f5es mais absurdas, do sectarismo generalizado e da dissocia\u00e7\u00e3o entre a vida e a sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O fazer teatral em que voc\u00ea acredita tem algum compromisso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO ATTO &#8211; <\/strong>O Teatro, sempre digo, \u00e9 a vida mesma, \u00e9 um ensaio vivo sobre o humano por excel\u00eancia. Existem muitos teatros. O teatro no qual acredito, aquele que me d\u00e1 prazer em fazer e justifica a exist\u00eancia dele nas minhas trajet\u00f3rias pessoal e profissional,\u00a0 \u00e9 aquele em que eu possa falar para as pessoas do meu tempo, para esta humanidade, para este momento hist\u00f3rico e social. Nada para mim est\u00e1 dissociado deste mundo no qual vivemos. Quando encenei Shakespeare, nos espet\u00e1culos \u201cA Tempestade\u201d, logo depois \u201cA Terra de\u00a0 Caliban\u201d (inspirado na mesma pe\u00e7a), \u201cA Heran\u00e7a de Macbeth\u201d (a partir de Macbeth), com a Cia de Teatro Avatar,\u00a0 e ainda &#8220;Ant\u00f4nio e Cle\u00f3patra: o desencontro do olhar&#8221;, na Espanha, com a Cia Quasar Teatro de Ast\u00farias, em todos esses espet\u00e1culos estava dialogando com meu tempo atrav\u00e9s das hist\u00f3rias de Shakespeare. Me nego a fazer um teatro museol\u00f3gico, desligado da nossa realidade. Quando escrevi e dirigi \u201cA Travessia do Gr\u00e3o Profundo\u201d, meu \u00faltimo espet\u00e1culo, mergulhei no sert\u00e3o e sua realidade, sua simbologia, sua riqueza, seu imagin\u00e1rio, para falar de nossa diversidade cultural, da riqueza que a caatinga apresenta e esta hist\u00f3ria de perda do pai, tamb\u00e9m ainda presente nessa dimens\u00e3o sertaneja. Apresentar o humano em suas m\u00faltiplas faces \u00e9 o que me interessa, e \u00e9 com isso que estou comprometido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em> \u00e9 frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfar\u00e7a no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revisitando mem\u00f3rias especiais do seu caminho com o teatro, uma entrevista com o dramaturgo Paulo Atto <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19245,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4069,16,2539],"tags":[177,4082,4081,63,137,1350,4080,489,65,96,4083],"class_list":["post-19191","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-146a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-arte","tag-avatar","tag-caatinga","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-memorias","tag-paulo-atto","tag-pequena-sabatina","tag-sabatina","tag-teatro","tag-teatro-baiano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19191"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19191\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19257,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19191\/revisions\/19257"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19245"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}