{"id":19198,"date":"2021-11-04T09:26:22","date_gmt":"2021-11-04T12:26:22","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19198"},"modified":"2021-11-13T18:21:37","modified_gmt":"2021-11-13T21:21:37","slug":"aperitivo-da-palavra-i-29","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-29\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TESTEMUNHO DO LABIRINTO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><em>Por <\/em><em>Sandro Ornellas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/INTERNA-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19234\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/INTERNA-3.jpg\" alt=\"\" width=\"329\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/INTERNA-3.jpg 329w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/INTERNA-3-219x300.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 329px) 100vw, 329px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Assim na terra como no selfie<\/em> (2021) \u00e9 o sexto livro de poemas de Alex Sim\u00f5es, contando o segundo, uma plaquete com versos e fotos, e o quinto, um livro artesanal de poemas visuais criados (livro e poemas) em colabora\u00e7\u00e3o com outros artistas. Quem acompanha o trabalho de Alex sabe como ele tem caminhado do exerc\u00edcio do soneto para o verso livre, que se percebe no seu caso dever muito \u00e0 pr\u00e1tica daquele. Refiro-me ao ritmo do fraseado nos versos de Alex e, por extens\u00e3o, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o sint\u00e1tica, \u00e0quilo que algu\u00e9m famosamente disse tratar-se da hesita\u00e7\u00e3o entre o som e o sentido. Pois \u00e9 por a\u00ed que come\u00e7o a falar desse novo livro de Alex. Da hesita\u00e7\u00e3o. At\u00e9 porque ele, \u00e0 semelhan\u00e7a de <em>Trans formas s\u00e3o<\/em> (2018), re\u00fane sonetos, versos livres, poemetos e brincadeiras espaciais \u2013 embora em menor incid\u00eancia do que naquele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo faz trocadilho com um famoso princ\u00edpio herm\u00e9tico contido tamb\u00e9m no \u201cPai nosso\u201d cat\u00f3lico e, junto com a leitura de muitos poemas, deixam claro tratar-se de um livro escrito (ao menos boa parte de seus poemas) durante o per\u00edodo mais tenso do primeiro isolamento social na pandemia da Covid-19. Nesse per\u00edodo, foi comum ver pelas redes a classe m\u00e9dia trocar o selfie em sorridentes festas e viagens tur\u00edsticas pelos selfies das cantorias com vizinhos, aprendizados culin\u00e1rios e rotinas de isolamento. Tudo sempre acompanhado da indefect\u00edvel hashtag \u201c#ficaemcasa\u201d \u2013 com seu tom imperativo. Hoje, um ano e meio ap\u00f3s a deflagra\u00e7\u00e3o do isolamento no Brasil, tudo mudou. Ou nada, talvez. Mas o livro de Alex me chega \u00e0s m\u00e3os como testemunho dessa viagem. E o que leio nesse testemunho?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leio a hesita\u00e7\u00e3o entre o som e o sentido dos versos nos sonetos de Alex se disseminarem por outros fraseados oracionais e certas posi\u00e7\u00f5es do sujeito da enuncia\u00e7\u00e3o, embora tamb\u00e9m permane\u00e7am l\u00e1, nos sonetos. O \u201c43\u201d, em que o sujeito circula em casa por rotinas que sobrep\u00f5em trabalho e laser, movimento e t\u00e9dio, idas e vindas: \u201ctapioca e caf\u00e9 todos os dias \/ cedo pela manh\u00e3 antes da escrita \/ que precede a visita \u00e0 toalete \/ para depois as redes, as not\u00edcias \/ e revisar e planejar e cozer \/ e irrigar as plantas e dar aulas \/ \u00e0s vezes viajar \u00e0s vezes n\u00e3o\u201d. H\u00e1 nesse e em outros poemas qualquer coisa de pacifica\u00e7\u00e3o no sentimento do poeta diante da circularidade dom\u00e9stica dos dias e afazeres durante o isolamento. Ou mesmo antes dele. Mas uma pacifica\u00e7\u00e3o cuja respira\u00e7\u00e3o \u00e0s vezes hesita com certa ansiedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A melhor imagem para figurar essa <em>paz ansiosa<\/em> vivida por muitos durante a pandemia me parece o labirinto. H\u00e1 alguns deles nesse livro de Alex, mas a \u201cCama de gato\u201d, misto de brincadeira e passatempo, me parece exemplar. Ainda mais como analogia criada pelo poeta para a pr\u00f3pria poesia de quem coloca a vida em suspens\u00e3o no gesto de escrever: \u201ceu fa\u00e7o versos como quem \/ faz uma cama \/ de gato\u201d. Mas n\u00e3o somos apenas n\u00f3s que jogamos com a poesia e a cama de gato. Somos tamb\u00e9m jogados pela rede do acaso que insistimos em ignorar com o mesmo promete\u00edsmo que disseminou o atual e outros v\u00edrus. Chamamos \u201ccama de gato\u201d e \u201cpoesia\u201d nossas ferramentas l\u00fadicas; mas, ao que n\u00e3o temos nome e tememos, Alex nomeia \u201ctraquitanas\u201d: \u201cn\u00e3o consigo p\u00f4r ordem na casa \/ porque n\u00e3o h\u00e1 nenhum sentido em p\u00f4r ordem \/ menos ainda em progresso. \/ [&#8230;] \/ o caos n\u00e3o \u00e9 meu, \/ \u00e9 nosso\u201d. Pois \u00e9 mais ou menos assim que o poeta segue hesitante entre o desejo de ordem (\u201ctapetum lucidum\u201d, \u201chaikai n\u00e3o cai\u201d, \u201cSoneto do isolamento social\u201d, \u201cno ferry\u201d, \u201co amor ao mar em meio \u00e0 pandemia\u201d, \u201caquela a esperar\u201d, \u201cum poema para Ox\u00f3ssi\u201d) e o sentimento de desordem (\u201c47\u201d, \u201c45\u201d, \u201cA educa\u00e7\u00e3o pela pedrada\u201d, \u201cassim na terra como no selfie\u201d, \u201co que me resta de uma casa\u201d, \u201cvolver\u201d, \u201csess\u00e3o de poesia para a tropa\u201d). Talvez por isso o t\u00edtulo soe como uma ir\u00f4nica ora\u00e7\u00e3o dirigida aos que acreditam que haja salva\u00e7\u00e3o, embora s\u00f3 vivamos como condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas essa ironia de Alex tamb\u00e9m resvala para algo de autoironia, quando leio \u201cdaqui da torre\u201d, onde o poeta diferencia a torre em que se encontra isolado (\u201cvendo tudo daqui, da torre\u201d) da cl\u00e1ssica e classista \u201cturris eburnea\u201d: \u201cn\u00e3o \u00e9 numa <em>turris eburnea<\/em> \/ indiferente aos fatos\u201d. Mas eu diria que apesar da aten\u00e7\u00e3o, consci\u00eancia, informa\u00e7\u00e3o, altivez e lucidez que o poeta diz ter diante dos \u201cfatos\u201d, h\u00e1 um limite para tudo isso diante da realidade concreta que \u00e9 arremessada para o alto de seus olhos na torre: h\u00e1 um espa\u00e7o intranspon\u00edvel e causador de \u201cvertigem\u201d. Uma hora, n\u00e3o basta \u201cmesmo estando bem no alto \/ saber bem muito bem ao ch\u00e3o\u201d. Esse olhar desde a torre, desde o alto, \u00e9 o que testemunha o labirinto em que poeta, posto no alto, e mundo, c\u00e1 embaixo, se meteram. E Alex sabe \u201cbem muito bem\u201d disso, j\u00e1 que ap\u00f3s o t\u00fanel, segundo ele, sempre vem outro t\u00fanel: \u201csei bem de tatear e atravessar o t\u00fanel \/ at\u00e9 chegar a luz que me anuncia, \/ em forma de cegueira tempor\u00e1ria, \/ que logo outro t\u00fanel h\u00e1 de vir, \/ vivendo nesse eterno entre-e-sai \/ do mito da caverna redivivo. \/ se eu fico dando voltas, \u00e9 que a vida \/ \u00e9 feita de volutas pros que ficam \/ com as vistas treinadas pra enxerg\u00e1-las\u201d. Ou seja: o t\u00edtulo do livro soa tamb\u00e9m como um enigma que o poeta coloca para ele pr\u00f3prio tentar resolver (ou apenas se divertir, quem sabe?): estar na terra, estar no ch\u00e3o e estar no t\u00fanel, tanto quanto ele se sabe selfie, na torre e na l\u00facida luz. Testemunho da hesita\u00e7\u00e3o labir\u00edntica entre o som e o sentido, ou divertimento l\u00fadico com que o poeta ironiza a si mesmo na <em>persona<\/em> de modesto: \u201cmod\u00e9stia, \/ aparte o que me cabe \/ neste latif\u00fandio. \/ d\u00ea-me um canto qualquer \/ do tamanho do mundo, \/ nem que seja este \/ canto \/ mudo, \/ mundo \/ meu\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde mais percebo esse labirinto no livro de Alex \u00e9 na sintaxe de alguns poemas, como em \u201cn\u00e3o h\u00e1 mal\u201d, que lembra qualquer coisa da t\u00f3pica do \u201cdesconcerto do mundo\u201d, por ser um ajuste de contas com a moral \u2013 antes, moral em desconcerto; c\u00e1, moral como acerto de contas. Escreve Alex: \u201cn\u00e3o h\u00e1 mal \/ nenhum em desejar \/ o mal a quem \/ mal desejou \/ e o j\u00e1 realizou \/ o mal a quem \/ se mal lhe fez \/ foi t\u00e3o somente \/ o de encarnar o mal \/ [&#8230;]\u201d. Nesse jogo moral de soma zero entre a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o, a terra e o selfie, a tela e o mundo, o eu e o outro se fundem na mesma ora\u00e7\u00e3o de Alex Sim\u00f5es. Ora\u00e7\u00e3o maldita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, h\u00e1 qualquer coisa de maldi\u00e7\u00e3o neste livro de Alex. Mesmo que a contrapelo. Justamente por isso. Como todo maldito, Alex se contradiz em grande parte de <em>Assim na terra como no selfie<\/em>. N\u00e3o de modo evidente e convencional. N\u00e3o basta ironizar Baudelaire, Drummond e Cabral para ser um maldito contempor\u00e2neo. N\u00e3o basta posar de rebelde insubmisso para ser um maldito contempor\u00e2neo. N\u00e3o basta tacar pedras para ser um maldito contempor\u00e2neo (a \u201clacra\u00e7\u00e3o\u201d tornou essa \u201cmaldi\u00e7\u00e3o\u201d tamb\u00e9m convencional). N\u00e3o bastam muitas outras coisas que Alex diz e faz em seu \u00faltimo livro. \u00c9 preciso se contradizer. E poesia pode ser tudo, principalmente escapar do controle de qualquer que venha a ser dita: poeta s\u00f3 vale essa designa\u00e7\u00e3o se for contradit\u00f3rio contra a sua pr\u00f3pria vontade. Talvez, nesse livro, com uma \u00fanica exce\u00e7\u00e3o (\u201ca\u00ed peguei meu rumo na exce\u00e7\u00e3o\u201d, escreve ele em \u201co amo ao mar em meio \u00e0 pandemia\u201d), que n\u00e3o \u00e9 o mar \u2013 mas a m\u00e3e, no bel\u00edssimo soneto \u201c44\u201d, que se fecha lindamente com \u201cminha vida \u00e9 um baile entre seus bra\u00e7os\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os bra\u00e7os da m\u00e3e s\u00e3o o que h\u00e1 de mais preciso nesse livro de hesita\u00e7\u00f5es labir\u00ednticas de Alex Sim\u00f5es. Quase como o contraponto inicial ao an\u00fancio de que \u201cpoesia \/ para quem \/ precisa \/ de coisas sem precis\u00e3o\u201d: o que se realizar\u00e1 ao longo de todo o livro e que ao fim \u00e9 a enuncia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de Alex, seu testemunho po\u00e9tico, o mais fiel que pode \u00e0s incertezas que hoje est\u00e3o arremessadas \u00e0 nossa cara (para quem quiser ver). Nesse livro, Alex abre a porta do labirinto, entra nele e joga fora (ou perde intencionalmente) a chave para escrever poemas por seus corredores sem sa\u00edda. E sem precis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Sandro Ornellas<\/em><\/strong><em> \u00e9 poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Em obras (poesia, Editora Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (estudos, Editora LiberArs, 2015), dentre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O olhar de Sandro Ornellas visita o novo livro do poeta Alex Sim\u00f5es<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19199,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4069,2533,16],"tags":[2860,11,4079,4078,17,189,3969],"class_list":["post-19198","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-146a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-alex-simoes","tag-aperitivo-da-palavra","tag-assim-na-terra-como-no-selfie","tag-labirinto","tag-poesia","tag-resenha","tag-sandro-ornellas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19198","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19198"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19198\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19328,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19198\/revisions\/19328"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19199"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}