{"id":1924,"date":"2012-07-02T17:15:58","date_gmt":"2012-07-02T20:15:58","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=1924"},"modified":"2012-07-02T20:51:16","modified_gmt":"2012-07-02T23:51:16","slug":"dedos-de-prosa-iii-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-2\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1926\" aria-describedby=\"caption-attachment-1926\" style=\"width: 258px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Mulher-1menor.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1926\" title=\"Mulher \" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Mulher-1menor.jpg\" alt=\"\" width=\"258\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Mulher-1menor.jpg 258w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Mulher-1menor-129x300.jpg 129w\" sizes=\"auto, (max-width: 258px) 100vw, 258px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1926\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Rui Cavaleiro<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>AY, ESTE AZUL<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Teofilo Tostes Daniel<\/em><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u00a0S\u00f3 outro sil\u00eancio. O senhor sabe o que o sil\u00eancio \u00e9? \u00c9 a gente mesmo, demais.<\/em><br \/>\n(Guimar\u00e3es Rosa \u2013 Grande Sert\u00e3o: Veredas)<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Um caos de formas, cores, luzes e gentes. Vozes chamam incessantemente para um embarque imediato. E ela, ali sentada, simplesmente aguarda. Aguarda e observa, espectadora que \u00e9. Ouve conversas, torrentes de palavras, que se desgarram de seus contextos para habitarem novos sentidos dados pela escuta flutuante daquela mulher, em contemplativa postura diante do ruidoso turbilh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anita era aquele tipo de pessoa que se destaca pelo sil\u00eancio. N\u00e3o exatamente pelo sil\u00eancio, mas por um consciente mutismo, op\u00e7\u00e3o sua desde que descobrira a vaniloquacidade de quaisquer palavras. Conhecia bem a inutilidade do verbo diante de argumentos de for\u00e7a. Por essa raz\u00e3o, era lac\u00f4nica e precisa, como um haikai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali, imersa em seu sil\u00eancio, a beber o mundo com os olhos, estava, quando um homem lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o. A familiaridade daquele rosto, perdido no tempo, seria certamente reconhecida em meio a qualquer multid\u00e3o. Aqueles olhos\u2026 Num impulso, levantou-se e foi at\u00e9 ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Com licen\u00e7a. Provavelmente voc\u00ea n\u00e3o me reconhe\u00e7a. Ali\u00e1s, eu nem sei se voc\u00ea \u00e9 voc\u00ea. Quero dizer, se voc\u00ea \u00e9 quem eu estou pensando que \u00e9. Qual o seu nome?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disse tudo como uma tempestade, com a antiga eloqu\u00eancia perdida. Abdicada. As palavras quase montavam umas sobre as outras, para sair mais c\u00e9leres. Eram como animais acuados que, num repentino rompante, encontram um ponto de fuga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ro\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, era ele. Anita jamais esqueceria aqueles olhos do mais belo azul turquesa que j\u00e1 tinha visto na vida. A medida de sua mudez se ligava estreitamente \u00e0queles olhos, que ela havia conhecido quando tinha entre oito ou nove anos, na escola. Estavam \u00e0s v\u00e9speras da festa junina e ela iria dan\u00e7ar com Rog\u00e9rio, o dono daquele azul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A turma se via mergulhada nos ensaios da coreografia da quadrilha, com seus pulos, gritos e t\u00faneis, em que todos os pares seguiam os noivos. Anita chegou a ser cogitada para o papel da noiva, mas abdicou. O noivo j\u00e1 estava escolhido de antem\u00e3o, e ela n\u00e3o queria dan\u00e7ar com aqueloutro menino antip\u00e1tico e metido, dono de est\u00fapidos olhos, verdes e demais convencidos de si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anita era s\u00f3 \u00e2nsia. Queria logo vestir-se de caipira e dan\u00e7ar, mergulhada naquela imensid\u00e3o que sequer intu\u00eda, num azul que s\u00f3 parecia existir na intersec\u00e7\u00e3o entre c\u00e9u e mar. E naqueles olhos\u2026 A roupa j\u00e1 estava escolhida. A maquiagem, de bochechas vermelhas, sardas e dente preto-faltante, era testada quase todo dia. Arriscava acabar com o estojo inteiro de maquiagem da m\u00e3e antes de chegar o dia da festa. E como demorava para chegar esse dia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por mais que uma imin\u00eancia demore, no entanto, ela sempre chega. Porque os \u00fanicos tempos simb\u00f3licos s\u00e3o o futuro e o passado. O presente n\u00e3o se enxerga, nem se apercebe. Ningu\u00e9m coloniza o hoje. O presente simplesmente \u00e9 \u2013 liga\u00e7\u00e3o entre a mem\u00f3ria e o sonho. E, gozosa ou desgra\u00e7adamente, \u00e9 nele que se vive. Assim, a festa, que existia como futuro, de repente chegou defronte do portal do agora, pronta para habitar o passado. E foi no agora, no instante, no presente que tudo aconteceu. Mas Anita s\u00f3 se apercebeu de tudo quando a festa j\u00e1 era passado. Pret\u00e9rito imperfeito: j\u00e1 era.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco antes da apresenta\u00e7\u00e3o da dan\u00e7a, quando estavam se alinhando os pares, a diretora da escola cismou que aquilo n\u00e3o estava direito. Como puderam deixar uma menina t\u00e3o alta ensaiar esse tempo todo com um menino t\u00e3o diminuto? Teriam que rearranjar os pares. A professora chegou a esbo\u00e7ar alguma defesa da desordem j\u00e1 estabelecida, mas n\u00e3o teve jeito. A diretora colocou Anita para dan\u00e7ar com um menino comprido e desengon\u00e7ado, de olhos foscos, ba\u00e7os. J\u00e1 Rog\u00e9rio deveria dan\u00e7ar com uma menininha ruiva e sardenta, de olhos muito grandes e negros, semelhantes a uma noite sem lua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Indignada, Anita bradou contra aquela arbitrariedade. Apesar de sua pouca idade, sabia argumentar bem. N\u00e3o se intimidava diante de autoridades que n\u00e3o se mostravam leg\u00edtimas. Questionou de todas as formas poss\u00edveis a diretora. Indagou o porqu\u00ea do imp\u00e9rio m\u00e9trico criado para a apresenta\u00e7\u00e3o, quando tudo sairia melhor se cada pessoa dan\u00e7asse com quem tem afinidade. Al\u00e9m disso, mudan\u00e7as naquele instante, quase na hora da apresenta\u00e7\u00e3o, poderiam confundir a todos. Mas a diretora era irredut\u00edvel. N\u00e3o era est\u00e9tico combinar pares t\u00e3o desproporcionais, como eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto discutia com a diretora, Anita procurava os olhos de Rog\u00e9rio. O menino diminuto permanecia com o rosto inclinado para o ch\u00e3o, mas a olhava, vez em quando. Seu olhar, quase s\u00faplice, parecia pedir que ela desistisse daqueles questionamentos todos, pois aquilo n\u00e3o daria em nada. Como quem falasse \u201cdeixa, deixa para l\u00e1\u2026\u201d \u2013 e ela n\u00e3o deixava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somente quando a diretora afirmou, quase aos berros, que era ela quem mandava ali e seria do jeito que ela determinasse, \u00e9 que Anita percebeu que todas as suas palavras foram in\u00fateis. Contra argumentos de for\u00e7a, de poder, as palavras valem nada. Intuiu isso e calou. Calou as palavras, a voz e o choro. Dan\u00e7ou com o menino alto, desengon\u00e7ado e de olhos ba\u00e7os. Em sil\u00eancio. S\u00f3 n\u00e3o calou as l\u00e1grimas, que insistiam em lavar seu rosto. A maquiagem ia ficando cada vez mais borrada pelos caminhos abertos por esse choro silencioso, brotado quase \u00e0 revelia da dona do pranto. Ao fim da dan\u00e7a, em sil\u00eancio, se retirou. N\u00e3o havia mais festa. Nunca houve. N\u00e3o para ela, que tanto a havia esperado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No banheiro, lavou o rosto. Retirou toda aquela maquiagem sem sentido. Tinha vontade de trocar aquela roupa, aquele vestido florido, comprado especialmente para a festa que n\u00e3o houve. Com os olhos vermelhos e inchados, obstinadamente lacrimais, chegou s\u00e9ria perto da m\u00e3e. Disse que n\u00e3o queria mais estudar naquele col\u00e9gio. A m\u00e3e quis saber por qu\u00ea. Ao se ver defrontada com a necessidade de explicar o que houve, Anita chorou alto. Agarrou-se \u00e0 m\u00e3e e pediu, por favor, que a trocasse de escola. E nunca mais pisou ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u2026berto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Como?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Roberto \u2013 repetiu, um pouco mais articulado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o era ele. Mas como podia ter aqueles olhos? Nunca havia visto olhos iguais, at\u00e9 aquele dia. Anita n\u00e3o sabia muito o que fazer com aquilo. Nem saberia o que fazer, caso realmente encontrasse com Rog\u00e9rio. Pensou que o verdadeiro dono daquele azul fosse ainda um menino, talvez. Um menino que ficou preso ao passado. Talvez fosse nela, para sempre, aquele menino que ela nunca mais vira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea. Digo, n\u00e3o \u00e9 quem eu pensava que fosse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anita notou o semblante daquele Roberto. Parecia abatido. E ela parecia perder a eloqu\u00eancia, novamente. Mas ainda tentou se agarrar a um resto de palavras que lhe vinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Desculpe, Roberto. Devo estar te aborrecendo com isso. Voc\u00ea est\u00e1 indo viajar e aparece uma louca\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Imagine, \u00e9 que estou um pouco atordoado. Na verdade, estou chegando de viagem. \u00c9 a primeira vez que viajo de avi\u00e3o. Segunda, a primeira foi a ida. E ainda trago na bagagem as cinzas do meu irm\u00e3o, que eu mal cheguei a conhecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acenou um adeus, mas n\u00e3o conseguiu diz\u00ea-lo. N\u00e3o conseguiu, tamb\u00e9m, encontrar palavras para falar ao desconhecido, diante de tudo quanto ele havia dito. Mas quem consegue encontrar palavras diante da vida, do incomunic\u00e1vel, do desconhecido, da aus\u00eancia, da morte?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que dizer para a pr\u00f3pria finitude?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<em>(<\/em><em><strong><a href=\"http:\/\/teofilotostes.wordpress.com\/\">Teofilo Tostes Daniel<\/a><\/strong> \u00e9 um carioca, nascido em 1979, que vive em S\u00e3o Paulo. Formado em Produ\u00e7\u00e3o Editorial pela UFRJ, trabalha com comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Lan\u00e7ou seu primeiro livro, &#8220;Poemas para serem encenados&#8221;, em 2008. Participa da colet\u00e2nea &#8220;Hist\u00f3ria \u00cdntima da Leitura&#8221; (no prelo). Seus escritos s\u00e3o o produto de seu sil\u00eancio perplexo ante o mundo)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No conto de Teofilo Tostes Daniel, a marca indel\u00e9vel do sil\u00eancio <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1925,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[407,2534],"tags":[81,41,442,441,149,440,439],"class_list":["post-1924","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-69a-leva-6o-aniversario","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-historia-intima-da-leitura","tag-poemas-para-serem-encenados","tag-prosa","tag-silencio","tag-teofilo-tostes-daniel"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1924","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1924"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1924\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2114,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1924\/revisions\/2114"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1925"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1924"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1924"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1924"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}