{"id":19247,"date":"2021-11-08T09:56:55","date_gmt":"2021-11-08T12:56:55","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19247"},"modified":"2022-02-28T19:10:43","modified_gmt":"2022-02-28T22:10:43","slug":"aperitivo-da-palavraii-23","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavraii-23\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p><strong>UM CARA CHAMADO JO\u00c3O <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><em>Por Gustavo Rios <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/CAPA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19265\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/CAPA.jpg\" alt=\"\" width=\"330\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/CAPA.jpg 330w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/CAPA-198x300.jpg 198w\" sizes=\"auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Geralmente, \u00e9 assim: o escritor, num ato solit\u00e1rio e meio transcendente, trabalha para, num outro extremo, ser lido por algu\u00e9m que muitas vezes nunca o encontrar\u00e1, mas que precisa ser um c\u00famplice, apesar da dist\u00e2ncia. Dessa forma, suponho ser assim tamb\u00e9m com o cronista que, entre outras coisas, mistura fatos com percep\u00e7\u00f5es e sentimentos para seguir em frente com seu trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resolvida a introdu\u00e7\u00e3o desta resenha, venho dizer que <em>Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo<\/em>, do jornalista e escritor Jo\u00e3o Mendon\u00e7a, pode, sim, ser considerado um bom livro de cr\u00f4nicas conforme a sua cataloga\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o apenas isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas 122 p\u00e1ginas da obra, publicada em 2018 pela Via Litterarum Editora, temos o protagonista que se mostra solit\u00e1rio e que usa do expediente comum aos cronistas (o trivial como inspira\u00e7\u00e3o) para escrever. Como o autor afirmou em seu site, <em>Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo<\/em> foi todo produzido <em>\u201csem a inten\u00e7\u00e3o de transform\u00e1-lo em livro. Todo ele foi escrito entre 2015 e 2017. Nesse per\u00edodo, eu adquiri o h\u00e1bito de escrever antes de dormir, deitado na cama\u201d<\/em>, atitude que cabe numa boa nesse g\u00eanero textual de poss\u00edvel origem francesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro, por\u00e9m, \u00e9 evidente a busca pelo melhor texto, o que refuta um pouco a tese defendida por ele sobre n\u00e3o ter a inten\u00e7\u00e3o de public\u00e1-lo. Mesmo que essa busca seja algo inconsciente, naquele esquema do fluxo, enxergamos claramente uma vontade, por assim dizer. Al\u00e9m de percebermos um encadeamento de escolhas e gostos, principalmente na rela\u00e7\u00e3o de Mendon\u00e7a com a cidade que o cerca e, de forma mais particular, com o seu bairro, o tradicional\u00edssimo Corredor da Vit\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Usando como ponto de partida uns bocados de seu cotidiano \u2013 frequentar a banca de jornais; tentar conversar com um italiano antip\u00e1tico, enquanto a baiana do acaraj\u00e9 trabalha; a visita de um sobrinho -, conforme uma das \u201cregras\u201d da cr\u00f4nica, desse mesmo ponto de partida surge uma escrita que se mostra muitas vezes et\u00e9rea. Os textos do Mendon\u00e7a tendem ao po\u00e9tico, meio no sentido cl\u00e1ssico da coisa (plenitude, essas coisas), talvez ligados a um dos conceitos gregos de <em>poi\u00e9sis<\/em> que fala sobre a disposi\u00e7\u00e3o em criarmos algo belo a partir do sentimento e da imagina\u00e7\u00e3o (1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois, conforme o pr\u00f3prio Mendon\u00e7a, as \u201c<em>palavras quando s\u00e3o colocadas de maneira errada precisam ser corrigidas antes da primavera<\/em>\u201d, no que conclui: <em>\u201cO erro da palavra \u00e9 o erro da vida\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caso prefira, o leitor pode ficar com a ideia do Quintana que fala sobre os poemas (uma das manifesta\u00e7\u00f5es da tal <em>poi\u00e9sis<\/em>) terem ritmo <em>\u201cpara que possas profundamente respirar\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso de Mendon\u00e7a, respira-se bem. Muito bem, por sinal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Poesia, ainda<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixando um pouco de lado esse papo envolvendo gregos, troianos e \u201cquintanas\u201d, outro ponto forte do trabalho \u00e9 justamente a liberdade. Principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem propriamente dita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro de 89 textos, dividido em partes (<em>\u201cDel\u00edrios de uma alma abstrata\u201d<\/em>, de tratamento mais subjetivo; <em>\u201cAfetos, aus\u00eancias e fragmentos\u201d<\/em>, mais autobiogr\u00e1fico, e <em>\u201cA vontade que tenho de abra\u00e7ar o mundo\u201d<\/em>, sentimental e franco<em>),<\/em> o autor baiano extrapola a \u201csimplicidade\u201d comum \u00e0s cr\u00f4nicas &#8211; entendendo \u201csimplicidade\u201d como algo corriqueiro captado pelo olhar de um autor, que se converte em algo belo e comovente, mas que busca o entendimento sem cair em hermetismos. Da\u00ed que a escolha de Jo\u00e3o \u00e9 acertada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele n\u00e3o se priva de viajar um tanto aqui, outro acol\u00e1, sempre calcado na beleza do texto. Seus devaneios fogem da descri\u00e7\u00e3o direta, se estendem. E, ainda que o leitor se pergunte o que ele realmente quis dizer com determinada frase, a pergunta se perde na fundamental cumplicidade que esse mesmo leitor dever\u00e1 ter com o autor para seguir em frente. Cumplicidade que deve se manter, j\u00e1 que n\u00e3o devemos esperar a todo instante fechamentos ou conclus\u00f5es, daquele tipo de frase que encerra algo (uma ideia, um sentimento, um efeito). O compromisso de Jo\u00e3o Mendon\u00e7a \u00e9 com a escrita.\u00a0 Com as possibilidades dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso viajar com Jo\u00e3o, antes de tudo. Enxergar que seus caminhos s\u00e3o internos, abstratos, metaf\u00f3ricos, bonitos pacas e baseados em verdades e em sentimentos bem pessoais. Na rela\u00e7\u00e3o marcante com o pai, ou mesmo com amigos, parentes, com a cidade e com as namoradas \u2013 est\u00edmulos do mundo exterior -, Mendon\u00e7a nos d\u00e1 a dica: sempre confie no que escrevo, n\u00e3o nos fatos causadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fatos s\u00e3o <em>\u201cmolduras novas para meus quadros\u201d<\/em>, como ele mesmo diz na p\u00e1gina 35. Por sinal, a mesma p\u00e1gina em que afirma: <em>\u201cj\u00e1 deixei a poesia se livrar de mim. Ela precisa voar\u201d <\/em>(tendo como base o conceito de <em>poi\u00e9sis <\/em>exposto acima, e considerando que tal compara\u00e7\u00e3o feita por mim valha algum Real, sequer um Dracma).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Possivelmente, a ideia de trabalhar sem o intuito de converter sua escrita em livro tenha o feito derrapar em alguns momentos. Em miudezas de seu cotidiano, como a liga\u00e7\u00e3o de um amigo que se mudou para Londres, por exemplo, o leitor poder\u00e1 se perguntar o porqu\u00ea daquilo, pois nesses exemplos a poesia n\u00e3o brota e o ritmo falha. Frases como <em>\u201cO acaraj\u00e9 \u00e9 a h\u00f3stia de quem mora em Salvador\u201d <\/em>(um pouco estereotipia),<em> \u201dUma flor sombria busca incansavelmente sua pigmenta\u00e7\u00e3o mirando-se para o sol\u201d<\/em> (alitera\u00e7\u00e3o), podem n\u00e3o agradar tanto ao leitor. E quem as l\u00ea pode achar um tanto esquisito.<em>\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, assim como toda viagem tem l\u00e1 seus trechos de paisagem modesta, cabe mais uma vez ao leitor confiar que logo adiante a coisa melhora. E muito. Al\u00e9m do mais, e curiosamente, n\u00e3o consigo imaginar <em>Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo<\/em> sem essas paisagens-passagens mais simples, digamos. Talvez por sacar que elas fazem parte da vontade do escritor e do caminho escolhido por ele. Um caminho firme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o demora e Mendon\u00e7a retoma ao devaneio que comove. \u00c9 quando ele, autor de <em>O Sol Partido<\/em>, dentre outros, nos surpreende com frases longas, sutis, belas, meio herm\u00e9ticas e ritmadas (olha o Quintana de novo!), tais como:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cJ\u00e1 fui ao Iraque e n\u00e3o te vi na balaustrada perfurada pelas crateras do tempo. Volto sempre ao mar que grita teu nome. Volto sozinho e esperan\u00e7oso. Nunca mais entregarei a caixa de bombom sem o endere\u00e7o correto da \u00faltima casa em que moraste no fim do grande vazio.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aforismos legais para mesas de bar (ou para umas camisetas <em>hype<\/em>)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em minha opini\u00e3o, quando um escritor nos d\u00e1 alguma frase boa e curta, daquelas que nos orgulhamos em repetir em mesas de bar, geralmente ele est\u00e1 no caminho certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente, tais frases-de-efeito devem ser o resultado de depura\u00e7\u00e3o, de um processo coerente, de literatura boa e da reflex\u00e3o. No caso de Jo\u00e3o Mendon\u00e7a, identifiquei algumas dessas p\u00e9rolas. E em todos os casos as tais frases me trouxeram a certeza de que o livro dele \u00e9 bom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tempos de \u201clacra\u00e7\u00f5es\u201d e \u201cmemes\u201d, pode ser perigoso destacar algo do tipo num escritor. Todavia, considerando o contexto a que essas frases (bacanas e eficientes) est\u00e3o submetidas e o efeito direto que elas podem causar, acho que vale a pena arriscar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que eu n\u00e3o poderia fingir n\u00e3o ter visto coisas como as que seguem: <em>\u201cAssim \u00e9 a vida: uma sensa\u00e7\u00e3o de d\u00favida intermitente\u201d; \u201dA saudade \u00e9 o sonho na contram\u00e3o\u201d; \u201cO mundo transformou-se numa m\u00e1quina quebrada que se repete contra a vontade dos homens\u201d; \u201cO vento \u00e9 a chave que transp\u00f5e portas\u201d; <\/em>n\u00e3o esquecendo a j\u00e1 citada, <em>\u201cO erro da palavra \u00e9 o erro da vida\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabendo que tais aforismos n\u00e3o surgiram de forma isolada e n\u00e3o surgiram para serem \u201caforismos\u201d, e que eles s\u00e3o, antes de tudo, consequ\u00eancias de par\u00e1grafos bem trabalhados, concluo que a inten\u00e7\u00e3o de Mendon\u00e7a n\u00e3o foi \u201clacrar\u201d. A coisa meio que brotou como final, meio, mote ou princ\u00edpio; como boa prosa, boa poesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, esse autor baiano, al\u00e9m de nos agraciar com um texto flu\u00eddo e bacana, nos oferece pensamentos que valem uma dessas camisas legais que a mo\u00e7ada usa em saraus \u2013 ainda que eu ande meio desconfiado com essa turma; coisa de quem est\u00e1 beirando os cinquenta-de-idade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ponto a ser destacado \u00e9 o olhar de Mendon\u00e7a que tamb\u00e9m parece capaz de enxergar a conjuntura social e pol\u00edtica (acho que as manifesta\u00e7\u00f5es de 2016 mexeram com ele de alguma forma), muitas vezes reagindo a ela quase imediatamente (ele caminha pela cidade e v\u00ea; depois, em seu quarto, discorre sobre). Rea\u00e7\u00e3o trabalhada com a mesma pegada po\u00e9tica e metaf\u00f3rica de sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Ontem, o fogo queimou lojas e as pra\u00e7as foram fechadas por precau\u00e7\u00e3o. O menino de rua viu tudo do alto da \u00e1rvore da vida. A mesma \u00e1rvore que testemunhou in\u00fameros massacres contra o povo desarmado de \u00f3dio e \u00e1vido por lutar. O menino viu tudo e n\u00e3o contou a ningu\u00e9m porque ele vivia sozinho e nesse mundo estranho ele s\u00f3 conhecia a ele mesmo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O fogo se alastrou com for\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s margens dos pal\u00e1cios dos brancos. Logo o acusaram e seu rosto parecido ao de tantos bandidos certificava que ele se tratava de um bandido mesmo. A pol\u00edcia foi atr\u00e1s dele porque lugar de menino \u00e9 atr\u00e1s das grades.\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inf\u00e2ncia como tema \u00e9 tamb\u00e9m algo presente. E marcante. No caso de Mendon\u00e7a, boa parte dos trechos mais comoventes nasce da\u00ed:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cDeixei ent\u00e3o a p\u00e1 encostada na parede e comecei a cavar com as minhas pr\u00f3prias m\u00e3os. Logo percebi que tinha anoitecido rapidamente, desde cedo est\u00e1vamos cavando. Foi quando comecei a encontrar os primeiros objetos.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O rel\u00f3gio preto que meu pai me deu de presente quando fiz dez anos, a foto de minha primeira namorada, a bola de basquete, o badogue com que eu brincava atirando pedras, o murro que eu levei na cara do meu melhor amigo, os carrinhos de ferro que eu colecionava, o grito da professora, meu sonho de ser astronauta, meus \u00f3culos quebrados, a imagem que tinha de Deus, o medo da morte, todos os fantasmas que vinham me atormentar \u00e0 noite, as m\u00fasicas de Moraes Moreira, o fim do mundo, o mendigo que morreu na porta do meu pr\u00e9dio, o sorriso de minha irm\u00e3, minhas primeiras observa\u00e7\u00f5es sobre o sol, o escuro das escadas vazias, as mulheres velhas que me assustavam, as cores dos potes de tinta com que eu pintava, a barraquinha de camping&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Continuamos cavando, at\u00e9 que meu sobrinho olhou para tudo aquilo que estava exposto e disse: \u2018Todas essas coisas n\u00e3o s\u00e3o mais suas. De quem s\u00e3o?\u2019.<\/em>\u201d \u00a0\u00a0\u00a0 <em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de longo, defendo que o trecho acima \u00e9 digno de ser lembrado; vamos combinar?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Breves compara\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No quesito paralelos-e-compara\u00e7\u00f5es (estou tentando ser did\u00e1tico, tenham paci\u00eancia), outros autores e livros me vieram \u00e0 mente na leitura de <em>Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo<\/em>: Lupeu Lacerda e seus \u201cprosoemas\u201d, pela vontade de romper a coura\u00e7a da linguagem a partir de observa\u00e7\u00f5es \u201cpuxadas\u201d do trivial; Jos\u00e9 Agrippino de Paula e seu <em>PanAm\u00e9rica<\/em>, pela liberdade na cria\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios, cenas, percep\u00e7\u00f5es e possibilidades; e, finalmente, Richard Brautigan, com seu livro <em>Pescar truta na Am\u00e9rica<\/em>, pela atemporalidade, pela carga metaf\u00f3rica e pelo tema \u201cvida adulta\u201d. O livro de Jo\u00e3o Mendon\u00e7a tamb\u00e9m me remeteu a outro publicado no Brasil em 1995 pela Jos\u00e9 Olimpo, chamado <em>Primeiro o amor, depois o desencanto (e o resto de nossas vidas)<\/em>, do canadense Douglas Coupland. Embora ambos sejam bem diferentes na forma e nas inten\u00e7\u00f5es (2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor canadense nos mostra uma face bem melanc\u00f3lica da vida, todavia. Jo\u00e3o, apesar de tudo (incluo a\u00ed a homenagem a um tio, no que suponho algo marcante e talvez grave), nos traz alguma esperan\u00e7a. Com uma boa dose de leveza e outro tanto de espiritualidade n\u00e3o no sentido religioso, mas da transcend\u00eancia, Mendon\u00e7a se afasta da tristeza v\u00e3 e segue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, e esquecendo um pouco essa coisa minha de comparar-para-parecer-um-g\u00eanio, ainda que o <em>Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo<\/em> tenha sido catalogado como cr\u00f4nica, eu n\u00e3o o vejo dessa forma \u2013 n\u00e3o simplesmente. Nesse g\u00eanero textual e liter\u00e1rio (por que n\u00e3o?), em que nomes como Sabino, Rubem Braga e, aqui em nossa vizinhan\u00e7a, K\u00e1tia Borges (tamb\u00e9m poeta e jornalista), s\u00e3o refer\u00eancias de pompa, creio que o Jo\u00e3o Mendon\u00e7a se sairia bem. Entretanto, a sua habilidade em ampliar a linguagem acabou transformando seu livro num trabalho de maior alcance \u2013 ainda mais sabendo que as 89 \u201ccr\u00f4nicas\u201d foram selecionadas entre cerca de 300 textos prontos, num trabalho que contou com a ajuda preciosa do escritor e fot\u00f3grafo Tom Correia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, afirmo que mesmo que o leitor se depare vez ou outra com abstra\u00e7\u00f5es, sugiro se deixar levar pela beleza e pela poesia contida neles, pois, assim como qualquer viagem, muitas vezes esbarramos em horizontes aparentemente confusos, mas n\u00e3o menos necess\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para mim, parceiros, a viagem com Jo\u00e3o valeu cada minuto. Assim como valeram tamb\u00e9m as passagens. Tanto a de ida quanto a de retorno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>(1) S\u00e3o muitos os conceitos e suas deriva\u00e7\u00f5es. Da\u00ed que usei uma ideia bem simpl\u00f3ria, tipo voo rasante. Tenho pouqu\u00edssima bagagem no quesito \u201cFilosofia\u201d (seria Plat\u00f4nico supor que eu manjo do assunto), mas acho que d\u00e1 para o gasto.\u00a0<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>(2) Tais analogias seguem guardadas-as-devidas-propor\u00e7\u00f5es e n\u00e3o s\u00e3o limitadores para a leitura de nenhum dos escritores citados, incluindo nosso querido Mendon\u00e7a. Antes, podem servir como tentativas minhas de compreender esses trabalhos. Al\u00e9m do mais, as semelhan\u00e7as podem n\u00e3o estar evidentes para voc\u00ea, leitor, pois minha cachola n\u00e3o tem a mesma precis\u00e3o sacal dos algoritmos (algu\u00e9m digita a palavra \u201camor\u201d e o Google indica mot\u00e9is, flores em promo\u00e7\u00e3o, perfumes Jequiti e caixas de Lexotan).<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Gustavo Rios <\/em><\/strong><em>\u00e9 baiano e autor do livro Raps\u00f3dia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo Rios revela impress\u00f5es sobre as cr\u00f4nicas de Jo\u00e3o Mendon\u00e7a<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19263,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4069,2533],"tags":[298,2411,4085,4086,189],"class_list":["post-19247","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-146a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-cronicas","tag-gustavo-rios","tag-joao-mendonca","tag-poiesis","tag-resenha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19247","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19247"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19247\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19342,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19247\/revisions\/19342"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19263"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19247"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19247"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19247"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}