{"id":19388,"date":"2022-02-25T11:49:07","date_gmt":"2022-02-25T14:49:07","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19388"},"modified":"2022-02-28T19:07:12","modified_gmt":"2022-02-28T22:07:12","slug":"aperitivo-da-palavra-i-30","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-30\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O TESTEMUNHO QUE RESTA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Sandro Ornellas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Capa-interna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19390\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Capa-interna.jpg\" alt=\"\" width=\"311\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Capa-interna.jpg 311w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Capa-interna-207x300.jpg 207w\" sizes=\"auto, (max-width: 311px) 100vw, 311px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Os vivos (?) e os mortos<\/em> (2021) \u00e9 o \u00faltimo livro do escritor, poeta e cineasta pernambucano Fernando Monteiro, publicado pela potiguar Sol Negro em uma cuidadosa edi\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m conta com a apresenta\u00e7\u00e3o do poeta e professor Sergio de Castro Pinto e ilustra\u00e7\u00f5es de Chico D\u00edaz, reconhecido ator de teatro, cinema e televis\u00e3o. Confesso ser o primeiro livro de Monteiro que leio, malgrado sua longa produ\u00e7\u00e3o, que, conforme Marcio Sim\u00f5es na orelha, tem nesse livro a continuidade de um projeto com \u201clongos poemas tem\u00e1ticos\u201d. E qual o \u201ctema\u201d, se pudermos assim designar, desse \u00faltimo livro? A chamada \u201ccasa da morte\u201d, resid\u00eancia na cidade de Petr\u00f3polis, no Rio de Janeiro, usada nos anos 1970 como centro de tortura do Regime Militar. Casa conhecida por dela ningu\u00e9m sair vivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dividido em seis partes, o poema deixa claro esse \u201ctema\u201d sem meias palavras, como conv\u00e9m a um texto que come\u00e7a denunciando o n\u00e3o tombamento dessa casa: \u201cAt\u00e9 hoje n\u00e3o tombada \/ como tenebroso patrim\u00f4nio \/ daquela parte horrenda \/ que por dentro habita no fundo \/ da nossa falta de alma\u201d. Poema den\u00fancia, diriam os incautos apressados, por desconhecerem a exist\u00eancia passada e hist\u00f3ria da casa. Mas arrisco dizer se tratar de um poema testemunho, por se esfor\u00e7ar em enunciar o horror inenarr\u00e1vel do que se passou naquela casa e conseguir articul\u00e1-lo \u00e0 atualidade de ascens\u00e3o de Jair Bolsonaro ao poder no Brasil. Ou seja, se a den\u00fancia de um acontecimento cabe ao texto jornal\u00edstico, que pode at\u00e9 optar pelo verso s\u00f3 para melhor enfatizar uma certa expressividade do autor na persuas\u00e3o afetiva do leitor, o testemunho sempre se dedica a falar do sil\u00eancio traum\u00e1tico deixado pelo horror e pela cat\u00e1strofe quando se abatem sobre uma coletividade. Esse esfor\u00e7o em falar de um sil\u00eancio traum\u00e1tico que resta e pode ser entendido como o lugar da poesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, na minha opini\u00e3o, a op\u00e7\u00e3o de Fernando Monteiro em escrever em versos. E, por isso, tamb\u00e9m coloquei aspas na palavra \u201ctema\u201d: o poema \u00e9 muito mais do que \u201capenas\u201d sobre a \u201cCasa da Morte\u201d. Ele \u00e9 sobre o sil\u00eancio instaurado pelo sofrimento e pelas mortes, ele fala sobre os mortos, com os mortos e pelos mortos que ali tiveram seu fim: \u201cfalo do esgoto que pode ser \/ levantado \/ [e foi] \/ naquela rua \/ ARTHUR BARBOSA, \/ N\u00daMERO 668 \/ \u2013 BAIRRO DE CAXAMBU, PETR&#8230; \/ *** \/ <em>Minuto de sil\u00eancio.<\/em> \/ *** \/ Minuto por todos os conduzidos \/ pelos carros militares \/ para a Casa hoje pintada de branco \/ e quase disfar\u00e7ada sob o n\u00famero \/ novo (&#8230;)\u201d. Embora fale para os \u201cvivos\u201d, que no t\u00edtulo s\u00e3o seguidos por uma interroga\u00e7\u00e3o, questionando se de fato estariam\/estar\u00edamos vivos. Isso porque o poeta amarra aquele tempo de horror ao nosso tempo cotidiano, com nossos contempor\u00e2neos mais prosaicos: \u201cAssim Lustradas as paredes, \/ ela nos observa com os mesmos olhos \/ de frieza da gente que nos examina \/ e d\u00e1 \u2018bom dia\u2019 nos elevadores, \/ debaixo de rilhados dentes, \/ as covas de olhos velados \/ pelos \u00f3culos escuros dos coron\u00e9is \/ Ustras e outros diabos \/ malditos para sempre, \/ mas compartilhando elevadores \/ e ruas com a gente\u201d. Sim, os \u201cvivos (?)\u201d s\u00e3o os que elegeram um cultor \u2013 \u201cbozo maldito\u201d \u2013 da mem\u00f3ria de um not\u00f3rio e assumido torturador como o Coronel do Ex\u00e9rcito Brasileiro Carlos Alberto Brilhante Ustra. Mas eu diria tamb\u00e9m que \u201cvivos (?)\u201d somos todos n\u00f3s, que n\u00e3o o elegemos, mas que durante trinta anos silenciamos o per\u00edodo sobre o qual Monteiro fala. \u00c9 como se o peso daquele momento fosse tamanho que esse pa\u00eds s\u00f3 conseguisse tratar dessa medusa sem olh\u00e1-la de frente. Por isso, Giorgio Agamben diz que \u201ca estrutura do testemunho e a possibilidade do poema\u201d e esse livro de Fernando Monteiro fala justo disso: da possibilidade de tratar do intrat\u00e1vel, de falar do sil\u00eancio calado fundo \u2013 e que nos trouxe at\u00e9 aqui como coletividade. Os \u201cvivos (?)\u201d somos todos n\u00f3s. E diariamente nos confundimos com \u201cos mortos\u201d. S\u00f3 que fingimos n\u00e3o nos confundirmos, atrav\u00e9s de tantos jogos de linguagem e consumo, de consumo da linguagem dos memes nas redes, e antes disso das tev\u00eas, ao inv\u00e9s de aprendermos a dura linguagem do poema que enuncia o sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 afirmando justo isso que Monteiro come\u00e7a a parte 4 do poema: \u201cFoi por <em>n\u00f3s<\/em>, \/ por essa gente assustada, \/ por este pa\u00eds doente \/ que assim <em>desapareceram<\/em> \/ tantos &amp; tantos \u2018desaparecidos\u2019 \/ durante os anos que mataram \/ o Brasil tamb\u00e9m a golpes \/ e golpes?\u201d. Isso depois de inscrever os nomes de \u201cCarlos Alberto Soares \/ FREITAS, \/ o nome do preso apagado \/ que aparece aqui quase com a anomia \/ dos sobrenomes brasileiros de rotina, \/ embora Carlos fosse \u2018um dirigente do VAR-Palmares\u2019 \/ (eu cito a sua ficha ensanguentada) \/ guerrilheiro \u2018interrogado\u2019, \/ esquartejado e depois sepultado \/ nas proximidades (?), \/ em fevereiro de 1971\u201d; \u201co meu colega de classe Humberto C\u00e2mara \/ est\u00e1 listado como um dos mortos do abismo \/ da diferen\u00e7a entre estudantes da d\u00e9cada \/ de mil novecentos e setenta \/ (&#8230;)\u201d; ou ainda \u201cEu tento ser igualmente direto \/ e claro no extremo desconforto, \/ embora n\u00e3o queira ser torturado \/ e assassinado conforme PPP \/ (aqui no Brasil significa \/ Pobre Padre Preto como Henrique, \/ o sacerdote eliminado \/ no Recife de Dom H\u00e9lder \/ pela ditadura das casas dos mortos). \/ Quem foi <em>esse<\/em> padre? \/ N\u00e3o foi ningu\u00e9m, \/ para os tempos de Agora.\u201d S\u00e3o alguns dos nomes em nome dos quais Monteiro fala para \u201cos vivos (?)\u201d de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebe-se nas palavras de Monteiro algo daquela vergonha que Primo Levi identifica nos sobreviventes de Auschwitz e que para ele s\u00e3o o maior motivo para se escrever. Vergonha por sobreviver ao horror diante do qual tantos tombaram. Vergonha sobreviver mesmo que em estado de pen\u00faria moral, que parece ainda restar daqueles tempos: \u201cPois o nosso \u00e9 um tempo de morte \/ na consci\u00eancia que se aplana\u201d. \u00c9, portanto, por isso que Monteiro escreve, para nomear quem n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m \u201cpara os tempos de Agora\u201d, dirigindo-se a n\u00f3s em nome do que n\u00e3o s\u00e3o \u201cningu\u00e9m\u201d, dos que n\u00e3o podem falar, silenciados e\/ou mortos. Seu texto \u00e9 esse ritual de exuma\u00e7\u00e3o dos ossos. N\u00e3o o rito jur\u00eddico dos homens, mas aquele \u2013 mais fundo \u2013 da mem\u00f3ria inumana que teimamos em matar e que, quando emerge, \u00e9 viol\u00eancia intestina. E est\u00e1 a\u00ed. Ao nosso lado. Em nossas m\u00e3os. Em nossa voz silenciosa: \u201cPor que estou escrevendo \/ um poema que n\u00e3o \u00e9 um poema (repito) \/ apenas para que se entenda \/ que estamos numa \u00e9poca muit\u00edssimo dura, \/ nesta dobra de dois-zero-dois- \/ zero de coragem temer\u00e1ria \/ dos que foram ca\u00e7ados e transportados \/ para a Casa da Morte\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o muitas as passagens desse poema que \u2013 oscilando entre a poesia e a prosa, o sublime e o grotesco, o raro e o comum, o discreto e o clamoroso, o vivo e o morto \u2013 desafia \u201cnosso \u00e2nimo que resta\u201d e que \u201cparece ser de recuo \/ e recusa de morrer para escapar \/ de viver apenas e t\u00e3o somente \/ por nada \/ ou quase nada \/ na espuma dos dias apagados\u201d, jogando na nossa cara nosso \u201cmal bem \u00e0s claras\u201d e \u201cretrucando a Adorno: \/ n\u00e3o, Theodor, n\u00e3o se tornou \/ \u2018imposs\u00edvel\u2019 \/ escrever versos para os vivos \/ que n\u00e3o estejam mortos \/ *** \/ Poesia ainda supera os fornos \/ e pode romper o jogo \/ dentro do logro \/ de jovens distra\u00eddos \/ pela dan\u00e7a do Ogro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E para quem conclui essa cat\u00e1base de Fernando Monteiro, resta ainda um suplemento para reabrir a ferida incicatriz\u00e1vel nesse livro de tantas m\u00e3os, bocas e olhos abertos pelas janelas, portas e brechas dos desenhos de Chico D\u00edaz. Refiro-me ao Anexo com \u201cMat\u00e9ria de Chico Ot\u00e1vio e Marcelo Rem\u00edgio publicada no Jornal <em>O Globo<\/em> em 17.03.2014\u201d. S\u00e3o apenas dois par\u00e1grafos em que os autores listam a identidade de alguns dos torturadores da Casa da Morte, gra\u00e7as \u00e0 mem\u00f3ria da sua \u00fanica sobrevivente, a ex-presa pol\u00edtica In\u00eas Etienne Romeu, que \u201cregistrou os codinomes de 19 torturadores durante os 96 dias de seu mart\u00edrio\u201d. Na mat\u00e9ria, o que diz o coronel reformado Paulo Malh\u00e3es n\u00e3o \u00e9 somente um sintoma, mas a prosa cotidiana que faz de n\u00f3s, \u201cos vivos (?)\u201d, t\u00e3o mortos quanto os mortos em nome dos quais Fernando Monteiro desce aos infernos com as palavras que In\u00eas Etienne Romeu usa como o testemunho que resta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Sandro Ornellas<\/em><\/strong><em> \u00e9 poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de \u201cEm obras\u201d (poesia, Editora Cousa, 2019), \u201cLinhas escritas, corpos sujeitos\u201d (estudos, Editora LiberArs, 2015), dentre outros. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sandro Ornellas resenha o emblem\u00e1tico \u201cOs vivos (?) e os mortos\u201d, livro de Fernando Monteiro <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19398,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4106,2533,16],"tags":[11,4107,4109,159,189,3969,4108],"class_list":["post-19388","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-147a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-aperitivo-da-palavra","tag-ditadura-militar","tag-fernando-monteiro","tag-poemas","tag-resenha","tag-sandro-ornellas","tag-tortura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19388","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19388"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19388\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19399,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19388\/revisions\/19399"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19398"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19388"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19388"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19388"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}