{"id":19394,"date":"2022-02-27T12:25:43","date_gmt":"2022-02-27T15:25:43","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19394"},"modified":"2022-02-28T19:07:16","modified_gmt":"2022-02-28T22:07:16","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-80","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-80\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser um criador \u00e9 sentir-se atravessado pelos movimentos do mundo. \u00c9 percorrer a condi\u00e7\u00e3o humana retendo dela os est\u00edmulos necess\u00e1rios para o olhar cr\u00edtico sobre a realidade. Pode ser tamb\u00e9m o gesto de compreender as mudan\u00e7as pelas quais somos incessantemente desafiados. \u00c9 pot\u00eancia manifesta. Ato de insubmiss\u00e3o. Ser e n\u00e3o ser no territ\u00f3rio das palavras e imagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez as ideias evocadas no par\u00e1grafo acima sirvam para situar um pouco a presen\u00e7a de um algu\u00e9m como <strong>Alex Sim\u00f5es <\/strong>entre n\u00f3s. Suas fei\u00e7\u00f5es de poeta e performer dizem muito sobre esse ato espantado que \u00e9 o estar no mundo, colossal ambiente onde reconhecer-se humano \u00e9 colocar-se o tempo todo \u00e0 prova. E o poeta em comento n\u00e3o nos entrega versos de m\u00e3o beijada, posto que nos convida a extrair do caminho po\u00e9tico \u00edmpetos de di\u00e1logo constante com esse Outro que, ao fim e ao cabo, somos todos n\u00f3s, leitores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aceitar o di\u00e1logo com Alex significa tamb\u00e9m acolher a partilha sens\u00edvel de todo o assombro que est\u00e1 no mundo, como nos revela aqui o pr\u00f3prio autor. Tal gesto propositivo denota um movimento que chama aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o pelo ato em si, mas pela perspectiva que este encerra, qual seja a de que o artista, despindo-se de qualquer afeta\u00e7\u00e3o pela aura que o of\u00edcio supostamente poderia sugerir, opta por caminhar com simplicidade no meio de seus iguais: eu, voc\u00ea, todos n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ficar nos exemplos mais recentes, as vias po\u00e9ticas de Alex foram capazes de nos ofertar obras do quilate de \u201cContrassonetos: catados &amp; via v\u00e2ndala\u201d (Ed. Mondrongo, 2015) e <em>\u201ctrans formas s\u00e3o\u201d\u00a0<\/em>(Ed. Organismo, 2018), todas elas a demarcar a import\u00e2ncia desse autor na cena liter\u00e1ria brasileira dos \u00faltimos anos. Conhecedor da tradi\u00e7\u00e3o, o poeta sabe transgredir as formas a favor de um engenho criativo que, sem negar refer\u00eancias de outrora, aponta para o reconhecimento da presen\u00e7a de outros modos can\u00f4nicos no horizonte da poesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de reflex\u00f5es sobre seu novo livro, \u201cassim na terra como no selfie\u201d (paraLeLo13S, 2021), lan\u00e7ado em pleno contexto pand\u00eamico que nos assola, Alex Sim\u00f5es acolhe a Diversos Afins para mais uma entrevista, pontuando impress\u00f5es sobre o turbilh\u00e3o contempor\u00e2neo em que vivemos, al\u00e9m de descortinar trajetos ligados \u00e0 literatura e \u00e0 arte. E \u00e9 preciso ressaltar o quanto o artista est\u00e1 imerso nas quest\u00f5es de seu tempo, n\u00e3o se furtando a abordar tamb\u00e9m os matizes pol\u00edticos e sociais sobre os quais a atualidade de nossos dias orbita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19479\" aria-describedby=\"caption-attachment-19479\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Foto-Edgard-Oliva-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-19479 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Foto-Edgard-Oliva-I.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Foto-Edgard-Oliva-I.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Foto-Edgard-Oliva-I-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19479\" class=\"wp-caption-text\">Alex Sim\u00f5es \/ Foto: Edgard Oliva<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;Assim na terra como no selfie&#8221;, seu mais recente livro, traz algo que \u00e9 uma marca registrada de sua produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, qual seja a capacidade de olhar para nossa contemporaneidade com movimentos de inquietude e provoca\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante para voc\u00ea ser um poeta que desacomoda as coisas diante do confronto com o seu tempo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEX SIM\u00d5ES &#8211; <\/strong>\u201cassim na terra como no selfie\u201d \u00e9 um livro que tem tamb\u00e9m outra marca registrada de minha produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica: o trabalho art\u00edstico relacional, dial\u00f3gico. \u00c9 o resultado de uma conversa com as editoras Milena Britto e Sarah Kersley, que fizeram uma sele\u00e7\u00e3o de poemas com o objetivo de mostrar as muitas facetas dessa produ\u00e7\u00e3o. Eu tendo a reconhecer mais a inquietude do que a provoca\u00e7\u00e3o no que fa\u00e7o. Creio que provoco, sim, mas menos no sentido de desacomodar do que no de demandar retornos, leituras, respostas, resultantes de estrat\u00e9gias que ao fim e ao cabo querem estabelecer di\u00e1logo. Di\u00e1logo explicitado nas muitas dedicat\u00f3rias e refer\u00eancias nos poemas\/par\u00f3dias\/pastiches.\u00a0Esse olhar para a nossa contemporaneidade \u00e9 inquieto porque parte da constata\u00e7\u00e3o de como as coisas s\u00e3o e est\u00e3o desacomodadas\u00a0 e quer compartilhar esse assombro diante do mundo, diante deste tempo, que \u00e9 o nosso tempo. \u00c9 um olhar que, lembrando Agamben, adere a, e ao mesmo tempo toma dist\u00e2ncia deste tempo. Quando tomo dist\u00e2ncia n\u00e3o por nostalgia sen\u00e3o para entender melhor este tempo em que vivo, vejo as coisas desacomodadas e passeio por elas escrevendo poemas, fazendo poemas visuais e performances.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O nosso presente traz todo um contexto pand\u00eamico que nos atravessa. E seu livro tamb\u00e9m est\u00e1 marcado por esse estado de coisas. Enquanto poeta e artista, como tem sido a experi\u00eancia de lidar com uma atmosfera que impacta nossa condi\u00e7\u00e3o humana de forma t\u00e3o avassaladora?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEX SIM\u00d5ES &#8211; <\/strong>Sim, uma parte significativa do livro foi produzida em plena pandemia e em contexto de isolamento bem restrito, o que inevitavelmente aparece em alguns poemas. Tive o privil\u00e9gio de poder ficar em casa, trabalhar e receber delivery sem precisar sair, sem precisar usar transporte p\u00fablico. Mesmo Uber eu levei um ano para usar, porque nas poucas vezes que me desloquei no primeiro ano foi de bicicleta. O impacto foi muito forte porque perdi alguns amigos queridos e a sensa\u00e7\u00e3o de que a morte estava me rondando era muito n\u00edtida, embora seja uma rara exce\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o teve perda na fam\u00edlia por causa da COVID. Pessoalmente, foi um momento em que me vi com mais privil\u00e9gios do que supunha e me redescobri menos soci\u00e1vel do que supunha.\u00a0Tive a sorte de ter remunera\u00e7\u00e3o como artista\/agente de cultura, em boa parte por meio de editais financiados pela Lei Aldir Blanc, resultado de mobiliza\u00e7\u00e3o nacional nossa, apesar desse horror de desgoverno que espero esteja no fim do mandato. Al\u00e9m das atividades como profissional de Letras, que revisa textos, d\u00e1 aulas particulares e atua em projetos que permitiram que eu tivesse alguma tranquilidade para seguir. Fa\u00e7o todas essas ressalvas para dizer que, apesar de tudo isso, n\u00e3o foi nada f\u00e1cil, n\u00e3o est\u00e1 sendo f\u00e1cil. O luto n\u00e3o cessa e a sensa\u00e7\u00e3o de viver \u00e0 deriva, sob um governo que performa o descontrole e a incompet\u00eancia enquanto deixa passar a boiada de agenda neoliberal, genocida e ecocida n\u00e3o cessa. Continuo sem saber como lidar, mas muito desconfiado que precisamos reaprender formas de fazer junto, de dialogar e tornar nossos discursos e a\u00e7\u00f5es mais acess\u00edveis e fact\u00edveis. Ou aprendemos a saber distinguir com quem de fato podemos contar e a flutuar no bote salva-vidas nos acomodando de modo a n\u00e3o desequilibrar ou mesmo rasgar a embarca\u00e7\u00e3o, ou afundamos todas, todos e todes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em 2016, quando voc\u00ea nos concedeu outra<span style=\"color: #008000;\">\u00a0<\/span><\/strong><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-44\/\"><span style=\"color: #0000ff;\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\"><span style=\"color: #339966;\"><span style=\"color: #99cc00;\"><span style=\"color: #008000;\">entrevista<\/span><\/span><\/span><\/span><\/strong><\/span><\/a><strong>, est\u00e1vamos vivendo os efeitos de um golpe, consequ\u00eancias estas que nos arrastaram at\u00e9 o cen\u00e1rio de destrui\u00e7\u00e3o atual. E vimos muita gente saindo do arm\u00e1rio e mostrando sua face truculenta, reacion\u00e1ria e fascista em pra\u00e7a p\u00fablica. O Brasil sempre foi isso e n\u00f3s que fing\u00edamos n\u00e3o ver?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEX SIM\u00d5ES &#8211; <\/strong>O Brasil foi sempre isso, aquilo e aquilo outro. Somos um pa\u00eds fundado no genoc\u00eddio e na explora\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios e dos povos for\u00e7osamente transplantados de \u00c1frica para c\u00e1. E que desde que virou Rep\u00fablica, n\u00e3o num passe de m\u00e1gica, mas em um golpe militar,\u00a0 tem tido alguns intervalos de (re)democratiza\u00e7\u00e3o em um moto cont\u00ednuo de um devir que nos prometem desde sempre: Brasil, o pa\u00eds do futuro. Mas somos um pa\u00eds de resist\u00eancia desses povos, de seus descendentes e de contradi\u00e7\u00f5es nesses processos que intercalam ditadura e acenos para a democracia, para processos radicais de transforma\u00e7\u00e3o social tamb\u00e9m. E tem beleza nessas contradi\u00e7\u00f5es, tem possibilidades. De fato, para alguns de n\u00f3s nunca foi poss\u00edvel n\u00e3o ver o fascismo que nos circunda, que nos habita, que nos funda. N\u00e3o foi no golpe contra Dilma Roussef nem no governo Bolsonaro que o racismo, a lgbtfobia, o machismo e o classismo apareceram para nos assustar. Mullheres, lgbtqiap+, pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, negros, ciganos, pessoas com defici\u00eancia e alguns de n\u00f3s que trazemos mais de uma dessas marcas identit\u00e1rias sabemos bem que se o gigante acordou, alguns de n\u00f3s nunca pudemos nem sequer dormir sossegados.\u00a0Mas de fato houve um empoderamento dos que trazem marcas identit\u00e1rias hegem\u00f4nicas, e fingem n\u00e3o ter, para se afirmar, para reagir a qualquer possibilidade de mudan\u00e7a.\u00a0 E \u00e9 muito sintom\u00e1tico que reajam atribuindo aos outros o que s\u00e3o e o que fazem. Houve uma quebra do pacto do silenciamento e isso n\u00e3o tem mais como voltar. O mito da democracia racial teve que se reinventar e chamar os negros de racistas. Os defensores da ditadura militar justificam a lgbtfobia como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura gay. Os machistas justificam suas falhas tr\u00e1gicas com o poder que atribuem \u00e0 mulher de lhes provocar. Os extremistas religiosos usam sua f\u00e9 para justificar o \u00f3dio que precisam externar. E o politicamente correto \u00e9 um problema maior que o fato de 84,9 milh\u00f5es de pessoas no Brasil n\u00e3o terem comida e\/ou n\u00e3o saberem se v\u00e3o comer amanh\u00e3. Esse empoderamento foi uma rea\u00e7\u00e3o a alguns t\u00edmidos avan\u00e7os que n\u00e3o tem como segurar. Voc\u00ea mencionou 2016 e eu preciso lembrar que em 2013 foram gestados alguns inc\u00f4modos que ainda n\u00e3o fomos capazes de entender e que resultaram em parte no golpe de 2016. As contradi\u00e7\u00f5es nos constituem e precisamos conversar com\/sobre elas. E decidir que projeto de pa\u00eds queremos, se \u00e9 que queremos um pa\u00eds. Eu quero, com as contradi\u00e7\u00f5es e com as possibilidades de conversar com sobre elas. E \u00e9 importante lembrar: o nosso pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 sozinho nessa, o planeta est\u00e1 precisando fazer DR.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 um qu\u00ea de mem\u00f3ria afetiva permeando &#8220;assim na terra como no selfie&#8221;. Na sua vis\u00e3o, qual o papel que os afetos t\u00eam diante de um mundo que parece n\u00e3o se importar muito com a singularidade das experi\u00eancias de vida?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEX SIM\u00d5ES &#8211; <\/strong>Sim, tem muito de mem\u00f3ria afetiva nesse livro. E mesmo em alguns poemas em que lan\u00e7o m\u00e3o de recursos da escrita n\u00e3o-criativa, buscando povoar a l\u00edrica com polifonia, com outras vozes que n\u00e3o a minha, tem afeto e tem mem\u00f3ria envolvidos.\u00a0Por exemplo, no poema ready-made \u201csess\u00e3o de poesia para a tropa\u201d, em que transcrevo uma parte do depoimento \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade por Gilberto Natalini, que foi barbaramente torturado pelo Comandante Ustra na ditadura militar,\u00a0 eu trago a mem\u00f3ria de um outro permeada de dores para um poema porque \u00e9 o meu modo de agir no mundo, de demonstrar empatia e me posicionar sobre o horror.\u00a0T.S. Eliot, no ensaio \u201cA fun\u00e7\u00e3o social da poesia\u201d, defende que o poeta tem um compromisso radical com a l\u00edngua,\u00a0 porque a poesia trata de nossa capacidade de sentir numa l\u00edngua, que \u00e9\u00a0 mais do que expressar sentimentos numa l\u00edngua. Se temos afeto, afei\u00e7\u00e3o, se afetamos e nos sentimos afetados por coisas e pessoas, \u00e9 porque temos um repert\u00f3rio que nos foi ofertado pela poesia. E claro que quando me refiro \u00e0 poesia, estou tratando da m\u00e3e das artes. As artes nos ensinam a sentir. Quanto mais limitado for o nosso repert\u00f3rio art\u00edstico, menos capazes somos de nos sentir afetados e de sentir numa l\u00edngua. E n\u00e3o pense algu\u00e9m que n\u00e3o me conhece e esteja lendo esta entrevista que falo de um repert\u00f3rio can\u00f4nico, da alta cultura, para os eleitos. A amplitude de repert\u00f3rio art\u00edstico passa pelo popular e pelo erudito, pelas linguagens art\u00edsticas e por tudo aquilo que estiver fora da minha bolha. Um pa\u00eds que d\u00e1 as costas para a sua riqueza cultural, o faz porque esse gesto acompanha um desd\u00e9m para tudo o que promove essa riqueza, que \u00e9 a pluralidade.\u00a0O papel dos afetos diante desse mundo insensibilizado me remete ao Padre Julio Lancelotti pegando uma marreta e quebrando as pedras que colocaram embaixo do viaduto para impedir que as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua pudessem se deitar.\u00a0 Ele, que n\u00e3o \u00e9 um artista, mas um sacerdote, performou um gesto de quem se sente afetado e afeta na a\u00e7\u00e3o. Uma parte do pa\u00eds que n\u00e3o percebe a import\u00e2ncia e a urg\u00eancia desse gesto n\u00e3o tem repert\u00f3rio art\u00edstico que lhe permita\u00a0 acessar essa grandeza. Este pa\u00eds precisa ouvir mais Rap, mais pontos de candombl\u00e9 e umbanda, precisa voltar a escutar os prov\u00e9rbios (lembro aqui do conceito de literatura-terreiro, de Henrique Freitas), ler mais autoras negras e LGBTQIAP+, frequentar mais museus como quem anda nas ruas e aprender a olhar as ruas como quem visita um museu, transitar pelas diferen\u00e7as, tendo as artes como b\u00fassola.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Numa <\/strong><span style=\"color: #ff0000;\"><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-29\/\"><strong><span style=\"color: #008000;\">resenha<\/span><\/strong><\/a><\/span><strong> publicada aqui na Diversos Afins, Sandro Ornellas vislumbra seu livro tamb\u00e9m como um labirinto de hesita\u00e7\u00f5es. No seu engenho com as palavras, lhe soa\u00a0atraente a ideia de um se deixar ir, mergulhar fundo, estar perdido, voltar ou at\u00e9 mesmo desdizer o ontem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEX SIM\u00d5ES &#8211; <\/strong>O autor do fabuloso \u201cd\u00f3i-me este mundo de violentas esperan\u00e7as\u201d \u00e9 um grande poeta e conhecedor de poesia e, para a minha sorte, conhecedor tamb\u00e9m das coisas que eu escrevo-fa\u00e7o. Sandro Ornellas vem fazendo, entre muitas outras coisas lindas, um trabalho de leitura cr\u00edtica de seus conterr\u00e2neos-contempor\u00e2neos, que \u00e9 digno de nota. E quando ele evoca a ideia de Valery da hesita\u00e7\u00e3o entre som e sentido, ele aponta numa dire\u00e7\u00e3o que cai muito bem para definir o que tenho tentado fazer.\u00a0 Ter o controle para perd\u00ea-lo, cartografar por n\u00e3o saber ler mapas, apoiar-me em formas fixas para implodi-las, ter como estilo a falta de estilo, \u201cser superficial, no fundo\u201d. Eu cada vez menos sei escrever poemas e fazer livros. E vou fazendo, porque \u201c\u00e9 mais dif\u00edcil do que n\u00e3o fazer\u201d. Por um lado, tem a s\u00edndrome de impostor envolvida porque, de fato, tem muita poesia incr\u00edvel j\u00e1 feita e que est\u00e1 se fazendo e eu leio sempre muito menos do que deveria e estou sempre me perguntando se vale mesmo a pena escrever e gastar papel e tinta para publicar o que escrevo. Por outro lado, tem uma alegria em abandonar o desejo de abandonar o barco e seguir navegando \u00e0 deriva, sem remos. Tem um gosto pelo fazer sem saber aonde vai dar, que com muita frequ\u00eancia n\u00e3o d\u00e1 em nada mesmo, mas que de vez em quando vira poema, livro, performance, poema-objeto, derivas. No poema \u201ca mulher de Lot \u00e9 um artista\u201d, falo um pouco de um dos meus fasc\u00ednios, que \u00e9 observar a rela\u00e7\u00e3o do m\u00fasico com o seu instrumento, uma rela\u00e7\u00e3o concreta entre o corpo e um objeto, que se amalgamam a ponto de nos parecer sem esfor\u00e7o, intuitivo. Eu n\u00e3o sei se consigo, mas tento me relacionar com a vida, com a arte-vida, assim. Assim como? Do que mesmo eu estava falando?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19480\" aria-describedby=\"caption-attachment-19480\" style=\"width: 426px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Foto-Edgard-Oliva-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-19480 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Foto-Edgard-Oliva-2.jpg\" alt=\"\" width=\"426\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Foto-Edgard-Oliva-2.jpg 426w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Foto-Edgard-Oliva-2-256x300.jpg 256w\" sizes=\"auto, (max-width: 426px) 100vw, 426px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19480\" class=\"wp-caption-text\">Alex Sim\u00f5es \/ Foto: Edgard Oliva<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Autores escrevem para os outros ou para si mesmos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEX SIM\u00d5ES &#8211; <\/strong>N\u00e3o saberia dizer para quem as autoras e os autores escrevem. Mas desconfio que os textos que s\u00e3o escritos por elas e eles e ilus se comunicam entre si e n\u00e3o se bastam porque demandam que outras pessoas os leiam para que existam, para que fa\u00e7am sentido. Jo\u00e3o Cabral vai aparecer de novo nessa conversa porque ele escreveu para o leitor Ningu\u00e9m, com quem me identifico. As autoras e os autores que me interessam\u00a0 costumam escrever com muitos outros e consigo mesmos. Por exemplo, Luciany Aparecida e Itamar Vieira J\u00fanior, cada um(a) a seu modo, trazem muitos outros e outras em seus textos sem se perder.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sobretudo nos \u00faltimos anos, com o avan\u00e7o do digital, mais e mais autores se lan\u00e7aram ao desafio de expor seus textos. Ao lado disso, vimos tamb\u00e9m o surgimento de editoras independentes por todos os cantos do pa\u00eds, oportunizando vozes das mais diversas. Est\u00e1 todo mundo certo no desejo voraz de ser publicado ou, na sua vis\u00e3o, a matura\u00e7\u00e3o das obras \u00e9 algo que anda se dissolvendo no meio da pressa contempor\u00e2nea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEX SIM\u00d5ES &#8211; <\/strong>A Internet sem d\u00favida promoveu o \u201cescribicionismo\u201d, sobretudo com o advento dos blogs, que um pouco antes das redes sociais deram voz e vez a pessoas que queriam expor seus textos para o mundo. Bastava ter computador e ideias para compartilhar em forma de textos. Claro est\u00e1 que vivemos no Brasil e que o acesso \u00e0s tecnologias digitais e mesmo \u00e0s tecnologias da escrita ainda s\u00e3o muito restritas. Dentro dessa bolha que vivemos, os blogs e as redes sociais possibilitaram novas formas de divulgar e distribuir seus textos, o que por si \u00e9 incr\u00edvel. Eu confesso que ainda hoje tenho um certo deslumbramento diante da web, no que ela significa em termos de acesso \u00e0s e compartilhamento das informa\u00e7\u00f5es. Milton Santos j\u00e1 havia apontado, por exemplo, sobre o impacto que as lan houses provocaram nas comunidades perif\u00e9ricas. A internet mudou nosso modo de olhar o mundo e por consequ\u00eancia nosso modo de olhar e ler os livros. Esse boom de editoras independentes est\u00e1 relacionado com este tempo.\u00a0Neste pa\u00eds que historicamente sempre teve uma faixa muito restrita da popula\u00e7\u00e3o com amplo acesso ao livro e \u00e0 leitura, as possibilidades que a internet e as editoras independentes oferecem s\u00e3o motivos de celebra\u00e7\u00e3o por si s\u00f3. As pessoas est\u00e3o mais expostas a situa\u00e7\u00f5es de letramento e mais expostas aos livros, que n\u00e3o podem mais ser entendidos apenas em sua configura\u00e7\u00e3o f\u00edsica.\u00a0Mas esse acesso \u00e0 internet tamb\u00e9m impactou o modo como nos relacionamos com os livros. A\u00a0 experi\u00eancia da leitura, do contato com os autores e com o objeto-livro tem sido mais que nunca valorizada, especialmente no contexto da pandemia. Ningu\u00e9m fala mais em morte do livro f\u00edsico e isso se deve em boa parte ao trabalho incr\u00edvel promovido por editoras independentes em todo o Brasil, que n\u00e3o s\u00f3 atrav\u00e9s de redes sociais e sites, como tamb\u00e9m em feiras e eventos de publica\u00e7\u00e3o. Temos c\u00edrculos de leituras e redes de leitores em diversas a\u00e7\u00f5es que valorizam escritoras, literatura negra e perif\u00e9rica, literatura lgbtqiap+, h\u00e1 uma revaloriza\u00e7\u00e3o da literatura de cordel ao mesmo tempo que h\u00e1 uma intensa produ\u00e7\u00e3o de poesia\/literatura contempor\u00e2nea. E temos tamb\u00e9m uma rede de bibliotecas comunit\u00e1rias que v\u00eam fazendo uma revolu\u00e7\u00e3o silenciosa no processo de forma\u00e7\u00e3o de leitores. Eu prefiro olhar pra essas cenas que despontam e que parecem estar mais vinculadas a esfor\u00e7os coletivos e de forma\u00e7\u00e3o do que pensar na matura\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria das obras. O tempo urge e mais que nunca precisamos pensar em formar leitores desde a tenra inf\u00e2ncia, preparando-os para ler livros e telas, aprendendo a filtrar informa\u00e7\u00f5es para desenvolver senso cr\u00edtico. Ali\u00e1s, essa deveria ser a t\u00f4nica de pol\u00edticas p\u00fablicas para o livro e o leitor, mas no momento n\u00e3o temos governo federal. O que as editoras e os c\u00edrculos de forma\u00e7\u00e3o e todas as iniciativas de promo\u00e7\u00e3o do livro e da leitura v\u00eam fazendo \u00e9 muito e precisa ser valorizado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Salvador lhe deu r\u00e9gua e compasso?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEX SIM\u00d5ES &#8211; <\/strong>A Cidade da Bahia me deu r\u00e9gua e compasso, sim. N\u00e3o por acaso meu novo livro se chama \u201cminha terra tem ladeiras\u201d (Caramur\u00ea, no prelo), que \u00e9 uma refer\u00eancia expl\u00edcita a essa cidade. Nesse livro e no pen\u00faltimo (no meu corpo o canto: #experimentoscomletrasurbanas) a cidade de Salvador \u00e9 mais que tema, \u00e9 moldura dos poemas discursivos e visuais. Para o bem e para o mal, meu modo de ser est\u00e1 sempre georreferenciado nessa origem. \u00c9 a cidade que me p\u00f4s no mundo, que me ensinou um modo de circular pelas ruas, de relacionar com as pessoas e que passa muito pelas artes. A minha crian\u00e7a cresceu ouvindo os tropicalistas e foi apresentado aos modernistas, aos p\u00f3s-modernistas, a uma mir\u00edade de poetas com Caetano, Gil, Beth\u00e2nia e Gal, que se escutava muito na minha casa. Quando li Greg\u00f3rio de Matos na escola, eu j\u00e1 sabia \u201cTriste Bahia\u201d de cor. Ter nascido e criado em um bairro de periferia, de configura\u00e7\u00e3o urbana, foi definitivo tamb\u00e9m para entender desde muito cedo que eu precisava me mover naquele folclore que tentavam me vender como Bahia terra da alegria. \u00c9 um habitat de contradi\u00e7\u00f5es que odeio amar e amo odiar. D\u00e1 muita raiva de viver numa cidade racista, classista, mis\u00f3gina, mas eu olho a Ba\u00eda de Todos os Santos e passa. A imagem que projeto de Salvador quando estou fora e tenho saudades diz muito dessa contradi\u00e7\u00e3o: \u00e9 vista da Bahia com a Ilha de Itaparica ao fundo. Quando nado na ba\u00eda, me sinto em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Apesar das coisas que lhe afetam e incomodam, Alex Sim\u00f5es olha para a vida hoje com mais serenidade e esperan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEX SIM\u00d5ES &#8211; <\/strong>H\u00e1 uma paci\u00eancia revolucion\u00e1ria que estou aprendendo a cultivar. Tenho tido mais consci\u00eancia do que n\u00e3o sei, do que n\u00e3o posso e principalmente do que n\u00e3o quero fazer. A paci\u00eancia revolucion\u00e1ria j\u00e1 traz em si a esperan\u00e7a, que nunca deixei de ter. Acho que o que tem mudado \u00e9 que estou mais paciente comigo mesmo e mais atento para ler os n\u00e3os, os sil\u00eancios, os desvios de rota, as rupturas, as derivas. E eu adoro derivas, o que tamb\u00e9m traz embutida uma esperan\u00e7a.\u00a0As muitas coisas horr\u00edveis que acontecem neste pa\u00eds e neste mundo n\u00e3o s\u00e3o novas. Talvez a novidade esteja no modo como alguns de n\u00f3s as estamos vendo e como estamos nos vendo em rela\u00e7\u00e3o a essas coisas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Afinal, por que escrever? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALEX SIM\u00d5ES &#8211; <\/strong>Esta resposta est\u00e1 no poema \u201cO artista inconfess\u00e1vel\u201d, de Jo\u00e3o Cabral. Todos os dias me fa\u00e7o esta pergunta e escrevo, mesmo quando n\u00e3o escrevo, porque nos dias \u201cn\u00e3o\u201d me pergunto por que n\u00e3o estou escrevendo e me sinto mais desconfort\u00e1vel do que quando leio com algum desconforto o que escrevo e penso que poderia ser muito melhor daquilo que pude escrever. Porque tem um ritmo, uma imagem, uma ideia que eu persigo e que eventualmente consigo dar uma forma, uma possibilidade de exist\u00eancia, e porque sou atravessado por ritmos, imagens e ideias que muitas outras e outres e outros criaram e criam e me provocam a seguir atravessado e atravessando. Porque ainda n\u00e3o sei escrever e, por isso, escrevo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em> \u00e9 frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfar\u00e7a no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pautada por reflex\u00f5es contempor\u00e2neas, uma entrevista com o escritor Alex Sim\u00f5es <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19476,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4106,16,2539],"tags":[2860,63,8,17,65,412],"class_list":["post-19394","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-147a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-alex-simoes","tag-entrevista","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-poesia","tag-sabatina","tag-transgressao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19394","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19394"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19394\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19483,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19394\/revisions\/19483"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19476"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19394"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19394"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19394"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}