{"id":19407,"date":"2022-02-27T13:23:21","date_gmt":"2022-02-27T16:23:21","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19407"},"modified":"2022-02-28T19:07:26","modified_gmt":"2022-02-28T22:07:26","slug":"dedos-de-prosa-i-83","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-83\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Susana Fuentes<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19409\" aria-describedby=\"caption-attachment-19409\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/interna-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-19409 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/interna-2.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/interna-2.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/interna-2-300x300.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/interna-2-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19409\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Bianca Grassi<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Reden\u00e7\u00e3o (\u00e0 luz de Tarkovski e Bach)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00e1gua escorre sem pressa de correr o mundo. O rio respinga gotas no vestido e quero tornar-me rio para dar petelecos na \u00e1gua. Vejo o c\u00e9u e quero ser assim, t\u00e3o azul (e garboso e tranquilo). Mas, quando chove, passo a achar que o mais belo \u00e9 a chuva e a\u00ed despenco do c\u00e9u (e visto-me de branco p\u00e9rola). Embrenhada no verde, quero ser pedra, \u00e1rvore, e servir de anteparo a esta chuva que tomba. Acaricio a chuva porque ali vejo seu rosto. As l\u00e1grimas de seus olhos serpenteiam frouxas nas bochechas enxutas. Gostaria de impedi-las em seu percurso, para lhe conservar a face seca. Gostaria que meus afagos a fizessem sorrir, para ver um riso frouxo tra\u00eddo na boca. Ao inv\u00e9s, sua l\u00edngua escapa pelos l\u00e1bios entreabertos e de lado colhe uma gota, e outra, aparando os pingos j\u00e1 em ritmo de enxurrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando estou no seu jardim, a\u00ed quero tornar-me chuva. E, como chuva, devolver \u00e0 sua pele a festa de suas m\u00e3os segurando a minha, quando um dia estive doente e voc\u00ea me trouxe o conforto absoluto de um afago nos dedos tristes sem pouso. Voc\u00ea colheu estes dedos no ar, sua m\u00e3o em concha inventou-lhes um abrigo j\u00e1 que iam em sua dire\u00e7\u00e3o. E eu caberia inteira ali, por toda a noite, por toda uma vida, vida t\u00e3o longa como a noite n\u00e3o dormida quando senti a aus\u00eancia desta m\u00e3o. T\u00e3o doce como a noite em que voc\u00ea esteve em meu sonho. Noite inventada para que eu coubesse na vida mesmo sem ter voc\u00ea por perto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como voc\u00ea ama l\u00edrios, flor-de-lis, a\u00e7ucena, para sempre estarei \u00e0 sua mesa. E voc\u00ea, longe, olhar habitado por uma chama, me far\u00e1 sorrir \u2013 a cada vez que a vela brilhar contra a tampa da panela. Tampa que serve de anteparo \u00e0 concha e sobrevoa a mesa&#8230; para n\u00e3o desperdi\u00e7ar nada sobre a toalha. A tampa em suas m\u00e3os recolher\u00e1 os pingos e guiar\u00e1 a concha \u2013 com peda\u00e7os de maxixe, inhame, batata doce, baroa e aipo \u2013 em seguran\u00e7a ao colorido dos pratos. Como uma flor no jarro sobre a mesa, eu escutarei as conversas. Uma s\u00f3 mesa para o av\u00f4 e para o neto. <em>Como era voc\u00ea?<\/em>, a crian\u00e7a perguntar\u00e1 ent\u00e3o. E eu apontarei, com as palavras, para a chama veloz de seus olhos despertos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Su\u00edte<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Numa Su\u00edte, a Sarabande desliza sem pressa&#8230; e ocupa o centro<\/em><br \/>\n<em>do poema. \u00c9 como se dissesse: N\u00e3o vou suprimir os floreios,<\/em><br \/>\n<em>s\u00f3 encurt\u00e1-los. <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A beleza de Sarabande: Beleza que cresce com o Tempo. Sarabande se entrega ao Tempo e ele a toma pelas m\u00e3os e diz: voc\u00ea ser\u00e1 minha eleita. Gentil, ela se inclina como dama e aproveita o instante para admirar as margaridas \u2013 <em>como s\u00e3o belas nesta \u00e9poca do ano, como s\u00e3o queridas!<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sarabande, no esfor\u00e7o de ocupa\u00e7\u00f5es singelas: trocar a \u00e1gua dos colibris, limpar o cantinho do espelho, varrer a soleira da porta. A pele salpicada de suor sob os olhos. Femina, com um paninho, chega at\u00e9 bem perto e a conforta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Intermezzo d\u00e1 de ombros, fita Sarabande&#8230; e desfaz de Femina o encanto, em zombaria: <em>veja esta, que mimos inventados para chegar at\u00e9 voc\u00ea.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zorina olha Sarabande de perto. Tomada de recato, nem se atreve a toc\u00e1-la: olha, t\u00e3o transtornada, que se esquece ali, perdida. E esquece tudo que pensou quando n\u00e3o estava t\u00e3o perto. Quando podia respirar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sarabande fala e n\u00e3o para de falar. Todas escutam, atentas: Zorina, Apog\u00e9e, Intermezzo e Femina. Do que fala Sarabande? De meninices. De matreirices. E ela s\u00f3 faz lembrar e deslembrar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sarabande, a curva dos seus dedos aponta para fora, para o alto. O que caber\u00e1 em seus pensamentos, os que desconhe\u00e7o, e os de que fa\u00e7o parte? De p\u00e9, junto ao port\u00e3o, vejo partir suas lembran\u00e7as. Levam-me at\u00e9 a menina radiante de vida. Sarabande ainda pequena. Menina que j\u00e1 passou pelos caminhos que percorri (e muitos, muitos outros) tantos passos \u00e0 frente, ser\u00e1 que entrei por algum atalho, para agora lhe encontrar na mesma estrada? Quero apresent\u00e1-la \u00e0 Noite, mas ela j\u00e1 conhece seus olhos, seu nome. O Sol, a Chuva, o Dia, chamo para que eles a conhe\u00e7am, mas eles me respondem: quem, aquela? J\u00e1 a temos entre n\u00f3s faz dias. Anos. Voc\u00ea nem tinha nascido. Falo de Sarabande com susto de perd\u00ea-la, e chamo a Vida para que a conserve a meu lado. A Raz\u00e3o manda que eu me cale, mas o Amor, que olha tudo com bons olhos, acha natural que eu esteja deste lado do port\u00e3o e me convida ao jardim onde vivem, ent\u00e3o, as cinco rosas: Zorina, Apog\u00e9e, Femina, Intermezzo e Sarabande.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zorina, para Sarabande: se eu pudesse alcan\u00e7ar suas folhas&#8230;<br \/>\nApog\u00e9e, bem prosa: afasto suas mechas curtas, Sarabande, porque a\u00ed chego at\u00e9 seus olhos.<br \/>\nIntermezzo: sopro a brisa que passa, Sarabande \u2013 porque a\u00ed beijo as suas p\u00e1lpebras.<br \/>\nE Femina, num susto, embola o cobertor: n\u00e3o se resfrie no sono, Sarabande, est\u00e1 bem?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Femina se espanta quando Sarabande conta uma hist\u00f3ria. Se fala da menina de cabelos de vento, seus bra\u00e7os (de Sarabande) escapam pela camiseta, longos, finos, dan\u00e7antes, e os cabelos sem rumo \u00e9 como se dan\u00e7assem tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sarabande tem velhas amigas. Quando as encontra, ela tem pena de que estejam t\u00e3o velhinhas. E pensa se n\u00e3o est\u00e1 assim tamb\u00e9m. Zorina a acha linda, e nada diz, porque nem sabe o que dizer. Apog\u00e9e, absolutamente da mesma opini\u00e3o que Zorina, sorri de lado e silencia, pois imagina que nem lhe dar\u00e3o cr\u00e9dito. Intermezzo, galante, com protestos da mais alta estima, discursa sobre a Beleza e a For\u00e7a. Mas logo vem Femina com um espelho e cobre Sarabande de beijos. E Sarabande ri e fica feliz assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Altas horas, Zorina n\u00e3o quer ir embora. Sarabande leva todos at\u00e9 o port\u00e3o e se despede: Intermezzo lhe acena com medida, Apog\u00e9e palpita que j\u00e1 \u00e9 chegada a Noite, e Femina discretamente plantou-se de mala e cuia num canto do jardim. Zorina morde-se de inveja de Femina mas n\u00e3o fala nada. A\u00ed Sarabande se aproxima e lhe d\u00e1 um abra\u00e7o. Zorina sente o corpo na altura do ventre e ent\u00e3o se desmancha e se derrete. E Intermezzo a carrega dentro da bolsa at\u00e9 a Noite que chegou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carta de Zorina, que fugiu, foi-se embora: <em>Adieu<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* * *<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sarabande, de menina atrevida. Descabriolada, descaraminholada. Cabelos revoltos, ombros descobertos, bra\u00e7os pendem para o lado, esquecidos da vida, Sarabande vendo estrelas, bichos, \u00e1rvores, cheirando o c\u00e9u e descobrindo o rosto sem pressa de abandonar o dia. De repente, Sarabande diz: estou cega. N\u00e3o vejo nada. Estou cega. Zorina: n\u00e3o \u00e9 nada, n\u00e3o se assuste. Apog\u00e9e: olhe para frente e fa\u00e7a um exerc\u00edcio de olhos. Intermezzo: que inven\u00e7\u00e3o, voc\u00ea anda muito impressionada. A\u00ed, vem Femina. E, com jeito, lhe ajeita um cacho que bandeirolava nas bochechas. E Sarabande volta a si com a maior discri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chamo a Noite, minha amiga azulada, com seu rosto de lobo celeste, cintilante e gelada. Ou a Tarde morna e rubra, com seus olhos de cobre, essa dama que escurece. Cada uma j\u00e1 sabe de longa data quem \u00e9 Sarabande. J\u00e1 lhe renderam os dias quando a carregavam pequena, pernas ligeiras correndo entre as casas e entre arbustos das rosas. Dos arbustos deslizavam p\u00e9talas que o vento pousava em seus cabelos. Que sua m\u00e3e escovava intermitente, com a paci\u00eancia de n\u00e3o atropelar os fios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando apresento Sarabande \u00e0 Chuva, os pingos riem que j\u00e1 conhecem seu rosto. Vou lhe ensinar a Chuva, e Sarabande nem tem pressa em dizer que o Trov\u00e3o foi ela que pintou de azul. E deixa molhar seus cabelos, ainda soltos sem rumo. Vou lhe ensinar o Trigo, e Sarabande j\u00e1 dan\u00e7ou horas seguidas quando eu nem tinha nascido e os p\u00e9s de Sarabande eram redondos de rodopios. Quando falo: Pedra, quero que conhe\u00e7a este rosto, a Pedra me mostra as curvas que copiou de suas costas, de sua nuca, quando voc\u00ea, Sarabande, suspendia os cabelos e revelava os brincos de princesa escorrendo de dois fios. Mas vejo que me despe\u00e7o do jardim, Sarabande, a cada vez que repito seu nome, porque a\u00ed me revelo e voc\u00ea se encolhe de medo, ou de espanto, e se volta para a Noite (que \u00e9 a sua Noite) e para a Tarde (que \u00e9 a sua Tarde), e se pergunta o que esta menina tola (que sou eu) est\u00e1 fazendo l\u00e1, em seu jardim. S\u00f3 me resta cruzar o port\u00e3o em despedida, o que fa\u00e7o inconsol\u00e1vel, mas, antes, fecho-me silenciosa atr\u00e1s de um pequeno arbusto e ou\u00e7o as conversas. Em torno de Sarabande, com homenagens, dengos e solu\u00e7os, minuetam Zorina, Apog\u00e9e, Intermezzo e Femina. (Ser\u00e1 que num descuido deixo-me ficar no jardim?)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Salve<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Saaalve. Mestre Tinh\u00f4, preso fic\u00f4, Ai &#8230;tem d\u00f3, indon\u00e9 <\/em><br \/>\n<em>sete meninos \u00e0 toa deix\u00f4, Ai&#8230; tem d\u00f3, indon\u00e9<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As palavras sa\u00edam, obedientes mas borradas na borda lisa da pequena folha. O l\u00e1pis que usava era feito de cera, por isso sua ponta grossa e espiralada ia cedendo ao calor. E a extremidade de um l\u00e1pis assim se derretendo era a coisa mais descabida para quem, em inspira\u00e7\u00e3o s\u00fabita, estava t\u00e3o decidida a criar sobre o papel. A-la-me-das r\u00e1-pi-das desenham a estrada con-tra as va-ran-das de portas aber-tas a le-var a ren-da das toalhas e as p\u00e9-ta-las se-cas de seu lei-to de pa-lha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No p\u00e1tio da escola, \u00faltima tentativa de refrescar-se. Lol\u00f3 agachou-se na terra molhada e afastando as pedras, desenterrou algumas folhas. Suas m\u00e3os firmes eram bem desenhadas, o talhe \u00e0 galope de um grilo. Quando conseguiu separar a lama de todo o resto, mergulhou a palma em concha e trouxe uma por\u00e7\u00e3o para si. Colocou-a em um pano grosso, que torceu e enrolou na cintura. Andando em volta do pr\u00e9dio cinza e quente, de po\u00e7a em po\u00e7a os p\u00e9s descal\u00e7os se coloriam ao afundar na grama, charco que a terra, saciada e pregui\u00e7osa, resistia em absorver. A folhagem ca\u00eda infinita para uma tarde t\u00e3o curta que, inquieta e indecisa, quebrava-se sempre outra. E quem n\u00e3o acompanhasse as mudan\u00e7as imaginaria a tarde constante e quieta como o som das crian\u00e7as brincando na rua e o cair das flores da velha \u00e1rvore roxa. Barranco acima as casas multiplicadas lajeavam a silhueta da montanha. S\u00f3 as pipas surpreendiam o previs\u00edvel das formas mas, quem podia notar? Ningu\u00e9m viu quando Lol\u00f3 caiu no passo da bala contra o peito. Aviso de que os l\u00e1 do morro est\u00e3o \u00e0 procura do irm\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lol\u00f3 ali parada, na terra quente, sua fisionomia devia estar debilmente distorcida pois dona Dita foi logo gritando que se sentasse enquanto buscava um copo d\u2019\u00e1gua. Pendeu de lado a cabe\u00e7a, focou a folha na m\u00e3o. As letras riscadas \u00e0 sua frente tamb\u00e9m j\u00e1 iam disformes. A claridade na folha debandava. Agora era a cera preta do l\u00e1pis perdida no escuro da sala, estava ela na sala do professor talvez? Sala t\u00e3o bonita, n\u00e3o se recorda, j\u00e1 tinha ali pregado as bandeirinhas? Al-a-me-das r\u00e1-pi-das. Um impulso impensado moveu a menina atrav\u00e9s do corredor. Con-tra as va-ran-das. Sobre p\u00e9s pequenos demais, inspirou um ar carregado num frenesi quase alegre atravessando os ombros e o peito. A le-var a ren-da. Por instantes sentiu-se t\u00eanue chama, pronta a apagar sem mesmo precisar do empurr\u00e3ozinho de um vento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Boba essa Lol\u00f3. Contam hist\u00f3rias, passam cantigas, mas s\u00f3 o que ela quer saber \u00e9 daquela que a crian\u00e7ada canta na hora do recreio. O padre da Indon\u00e9sia esbraveja que vai mandar todo mundo lavar a boca com sab\u00e3o. Lol\u00f3 ri e canta mais alto, mais alto, com uma convic\u00e7\u00e3o que tem guardada, que s\u00f3 sentiu uma vez, quando cantou o hino da bandeira e ia bem longe da escola e via aquelas letras que nem bandeirola de S\u00e3o Jo\u00e3o, qual pend\u00e3o colorido. Lol\u00f3 debulhava, escolhia as palavras. Pur\u00edssimo varonil peito amada. Sagrado? Serve. Encerra. \u00c9, bonita. Encerra varonil peito. Amada varonil encerra. E assim ia, deixando cair as bandeirinhas, apanhando as mais bonitas, mais sonoras, escondendo algumas no bolso, outras nas p\u00e1ginas do livro. <em>Quando abro este livro, tem vento. Aposto que o vento j\u00e1 estava a\u00ed, escondido no bolso. N\u00e3o. \u00c9 ventania de livro mesmo, veja s\u00f3: voa at\u00e9 palavra. Mas a poeira. <\/em>Lol\u00f3 sacode e espirra. Espirra de boba. <em>Dona Dita&#8230; me conta uma coisa&#8230; \u00e9 verdade que mestre Tinh\u00f4 t\u00e1 preso? <\/em>Na pia do banheiro, Lol\u00f3 assoa o nariz, deixa a \u00e1gua escorrer, faz bolhas de sab\u00e3o. <em>\u00c9, Lol\u00f3. Foi se meter com o que n\u00e3o devia &#8230;\u00d3 l\u00e1, dona Dita &#8230;<\/em> Lol\u00f3 pensou nas bandeirolas. Esfregou as palmas. Sacudiu as m\u00e3os e meteu-as no bolso. As palavras guardadas a sete chaves e tr\u00eas bot\u00f5es espiavam do escuro. Faltava cozer uma casinha que estava por um fio. Volta e meia, fio e meio, um deslize, uma rajada de vento e uma danada escapulia. Volta, dona va. Aqui, seu to. N\u00e3o descuida, n\u00e3o, \u00f4 sa. Ah, tudo de novo, n\u00e3o saio daqui. O recreio pela metade e mal dava para catar todas. Saaalve. Na fila do hospital ningu\u00e9m viu a m\u00e3o que contava palavras e colhia as l\u00e1grimas choradas sobre o corpo frio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Susana Fuentes<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritora, atriz, doutora em literatura comparada pela Uerj. \u00c9 autora de Escola de gigantes (7Letras, contos, 2005), Luzia (7Letras, 2011), romance finalista do Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura em 2012, Anota\u00e7\u00f5es de Berlim (Megam\u00edni, 2016) e Carta ao Sol (Funarte, contos, 2020). Escreveu a pe\u00e7a teatral Prel\u00fadios, em quatro caixas de lembran\u00e7as e uma can\u00e7\u00e3o de amor desfeito, solo em que atua (selecionado para o The New York International Fringe Festival). E Olavo, le chat (Edi\u00e7\u00e3o do autor, 2016).\u00a0 \u00a0Seu novo livro, A gaivota ou a vida em torno do lago [tema para uma pe\u00e7a curta], foi lan\u00e7ado pela 7Letras (poesia, 2021). Pesquisa a literatura russa e brasileira e ministrou oficinas de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria na Uerj, UFRJ e durante o Printemps Litt\u00e9raire Br\u00e9silien na Universit\u00e9 Paris-Sorbonne.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sens\u00edveis nuances da vida nos contos de Susana Fuentes <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19408,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4106,2534,16],"tags":[419,41,2086,149,4110],"class_list":["post-19407","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-147a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-narrativas","tag-prosa","tag-susana-fuentes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19407","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19407"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19407\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19414,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19407\/revisions\/19414"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19408"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19407"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}