{"id":19420,"date":"2022-02-27T15:43:41","date_gmt":"2022-02-27T18:43:41","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19420"},"modified":"2022-05-30T19:28:10","modified_gmt":"2022-05-30T22:28:10","slug":"aperitivopalavraii-23","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavraii-23\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA DOR AO AMOR \u00c0 LIBERDADE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><em>Por Vinicius de Oliveira <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/capa-Levante.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19422\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/capa-Levante.jpg\" alt=\"\" width=\"287\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/capa-Levante.jpg 287w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/capa-Levante-191x300.jpg 191w\" sizes=\"auto, (max-width: 287px) 100vw, 287px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro da gram\u00e1tica dos tambores das escolas de samba, existem, em geral, tr\u00eas surdos que marcam o ritmo bin\u00e1rio do samba. O surdo de primeira marca o tempo forte do segundo tempo do compasso; o surdo de segunda marca o tempo fraco no primeiro tempo do mesmo compasso. Como o samba \u00e9 um ritmo sincopado, o surdo de terceira preenche o espa\u00e7o entre o primeiro e segundo tempo, conferindo o balan\u00e7o sincopado que move o corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na d\u00e9cada de 30, as escolas de samba, que eram comunidades predominantemente negras, contavam a hist\u00f3ria de gente branca. Isso porque o regulamento previa enredos de interesse nacional, os quais eram compostos por temas de grandes personagens p\u00e1trios, de feitos extraordin\u00e1rios do Brasil e de natureza exuberante, todos eles dialogando com a hist\u00f3ria oficial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O historiador Luiz Ant\u00f4nio Simas chama o fen\u00f4meno do surdo de terceira de \u201cadequa\u00e7\u00e3o transgressora\u201d.\u00a0 O enredo contado atrav\u00e9s da palavra, que narrava a hist\u00f3ria de \u201cgente branca vencedora\u201d, era contraposto pela gram\u00e1tica dos tambores, que entre a normalidade da primeira e da segunda batida, surge o surdo transgressor que vai estabelecer contraponto entre os sons previs\u00edveis. Um outro exemplo de transgress\u00e3o \u00e9 o toque de base da Portela, que enquanto o enredo exaltava os grandes vencedores, a bateria tocava o Aguer\u00ea, que \u00e9 a marcha para Ox\u00f3ssi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nessa disputa de vozes que <em>Levante<\/em>, de Henrique Marques Samyn, nos fornece versos potentes que narram a dor de um per\u00edodo da nossa hist\u00f3ria que parece que ainda n\u00e3o passou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro \u00e9 composto por 75 poemas, dividido em cinco partes: Desterro, Cativeiro, Ancestralidade, Resist\u00eancia, Heran\u00e7a e Liberdade, todas dialogam, a um s\u00f3 tempo, com o passado e com a contemporaneidade, e tamb\u00e9m com o projeto gr\u00e1fico do livro, que come\u00e7a com tons escuros em desterro, vai clareando at\u00e9 atingir tons amarelados em Liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Desterro, Samyn conta em versos o horror da travessia do Atl\u00e2ntico. Se os livros de hist\u00f3ria e pesquisas arqueol\u00f3gicas contam, documentalmente, que o continente africano exportou, durante s\u00e9culos, pessoas para servirem de m\u00e3o de obra escrava para o mundo, o poema <em>Cria<\/em> penetra no horror do subsolo imprimindo luto ao verso. \u201cEmbarcai tamb\u00e9m as crias: as de peito e as de p\u00e9. Pouco \u00e9 o espa\u00e7o que ocupam. Pouco valem \u2013 estas, de peito, costumam morrer facialmente; as outras, que podem andar, talvez sobrevivam. Que seja: pouco \u00e9 o espa\u00e7o que ocupam. Pouca a nossa despesa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez o termo mais correto para falar da hist\u00f3ria do povo negro \u00e9 o silenciamento. Termo mais adequado do que apagamento. Se a hist\u00f3ria oficial n\u00e3o conta, n\u00e3o significa que um determinado fato n\u00e3o tenha existido. Nesse sentido, n\u00e3o h\u00e1 de se falar em dar a voz, mas sim em dar visibilidade. Henrique faz mais do que isso: ao dar visibilidade, reverencia aqueles que transformaram a dor em direcionamento para seguir. \u201cN\u00e3o mais somos vossos cativos, mas nada esqueceremos &#8211; nossa mem\u00f3ria \u00e9 profunda: fazemos da nossa dor nosso alento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na terceira parte do livro, intitulada Ancestralidade, o poeta homenageia nomes que fazem parte da resist\u00eancia do povo negro ao longo de cinco s\u00e9culos. Samyn, que \u00e9 professor de Literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde coordena o Grupo de Estudos Letras Pretas, abre e fecha a parte Ancestralidade, homenageando Aquatune, a princesa africana e av\u00f3 de Zumbi dos Palmares, sem a qual n\u00e3o existiria Zumbi dos Palmares. \u201cNo in\u00edcio estavas. E sem ti, rainha, que ser\u00edamos n\u00f3s? Por isso, agora, a teus p\u00e9s prostramos: nossas vidas a ti devemos. Ouve, nesta hora\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poeta lan\u00e7a m\u00e3o do horror como mat\u00e9ria po\u00e9tica, para nos lembrar da dor de quem experienciou a escravid\u00e3o. Mas n\u00e3o apenas. \u00a0A pot\u00eancia dos versos do poema <em>Senzala<\/em> mostra, como talvez n\u00e3o se encontra em nenhum livro de hist\u00f3ria, espa\u00e7o de gera\u00e7\u00e3o de vida, de amizade e de resist\u00eancia na senzala, espa\u00e7o onde s\u00f3 deveria haver dor e sofrimento. \u201cNessa casa sem janela, com as portas bem trancadas, habitam muitas fam\u00edlias &#8211; muitas vidas amontoadas. Aqui se houve muitas l\u00ednguas, aqui hist\u00f3rias s\u00e3o narradas, amizades s\u00e3o tecidas, aqui vidas s\u00e3o geradas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00faltima parte do livro, intitulada Liberdade, \u00e9 composta por poemas que s\u00e3o numerados: se nas partes anteriores cada poema era identificado por um t\u00edtulo, seja para nomear personagens importantes, seja para dar pistas do que o leitor encontrar\u00e1 ao longo da leitura, agora, os nove poemas que comp\u00f5e a se\u00e7\u00e3o Liberdade s\u00e3o apenas numerados, indicando tempo presente que, ao mesmo tempo que dialoga com o passado, constr\u00f3i o futuro. \u201cNo deserto que nos deixaram, verdejaremos &#8211; dos espinhos que nos rasgaram, floresceremos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse di\u00e1logo temporal que o livro <em>Levante <\/em>conta a hist\u00f3ria do povo negro, do desterro imposto pelo horror do tr\u00e1fico negreiro, passando pela resist\u00eancia de her\u00f3is negros ao sistema escravista, at\u00e9 ancorar na contemporaneidade, apontando n\u00e3o um repouso, mas sim para a permanente mem\u00f3ria dos que deram vida por liberdade e apontando, tamb\u00e9m, para a luta por liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote><p><strong><em>Vinicius Gaud\u00eancio de Oliveira<\/em><\/strong><em> \u00e9 carioca formado em Letras\/Literatura.\u00a0 Atua como cr\u00edtico liter\u00e1rio nas tem\u00e1ticas sobre produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e culturais cariocas.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cLevante\u201d, livro de Henrique Marques Samyn, \u00e9 o foco de Vinicius de Oliveira<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19421,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4106,2533],"tags":[11,3743,4113,4114,159,4111,189,1464,4112,3775],"class_list":["post-19420","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-147a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-escravidao","tag-henrique-marques-samyn","tag-levante","tag-poemas","tag-povo-negro","tag-resenha","tag-samba","tag-silenciamento","tag-vinicius-de-oliveira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19420","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19420"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19420\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19493,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19420\/revisions\/19493"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19421"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19420"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19420"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19420"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}