{"id":19453,"date":"2022-02-28T10:49:37","date_gmt":"2022-02-28T13:49:37","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19453"},"modified":"2022-05-30T19:27:40","modified_gmt":"2022-05-30T22:27:40","slug":"dedos-de-prosa-ii-75","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-75\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Adriano B. Esp\u00edndola Santos <\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_19455\" aria-describedby=\"caption-attachment-19455\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/it-hurts_BiancaGrassi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-19455 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/it-hurts_BiancaGrassi.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/it-hurts_BiancaGrassi.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/it-hurts_BiancaGrassi-300x300.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/it-hurts_BiancaGrassi-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19455\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Bianca Grassi<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mais um<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia, longe das vistas de Bernardo, uma verdadeira col\u00f4nia de formigas carn\u00edvoras que se formava, com justiceiros que sa\u00edam de suas covas; mulheres e suas crian\u00e7as, indicando que viriam da escola, ou de um passeio matinal; sem contar a quantidade de desocupados que, na falta do que fazer, alarmavam ao vento: \u201cVenha! Acudam! Ainda est\u00e1 vivo!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cautelosamente, marchando em passos tr\u00f4pegos e cansados, assomavam-se tr\u00eas policiais: o primeiro, de cal\u00e7a frouxa, raqu\u00edtico, roupas abandonadas num corpo debilitado, su\u00ed\u00e7as e olhos profundos, entretinha-se em mascar o chiclete que tirara do bolso, guardado para os momentos de afli\u00e7\u00e3o; o segundo, de ombros largos, com peitoral empinado de galo, mostrava, igualmente impactante, as pernas e o contraste com o resto do corpo, o dito casquinha de sorvete, sem contar a patente moleza de cora\u00e7\u00e3o, para acompanhar a trag\u00e9dia, muito diferente do habitual \u2013 aproximava-se com os olhos vendados pelas m\u00e3os; o terceiro, mais malandro, rechonchudo, cara lisa, ostentando um pequeno bigode safado, regozijava-se com a aglomera\u00e7\u00e3o \u2013 era tanto que batia o cacetete na m\u00e3o esquerda, fren\u00e9tico, para excitar a tara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela altura, j\u00e1 n\u00e3o havia quarteir\u00e3o; uma massa parava em frente ao monumento, para fotografar, inclusive, e debater sobre o ocorrido; que teriam, propositalmente, provocado o agravo; que, nessa terra, n\u00e3o teria mais espa\u00e7o para gente de pouca ou nenhuma estirpe; que, bem feito, o agressor fizera um favor, para livrar o governador de ser cognominado de negligente, ou mesmo carrasco, por tentar limpar a cidade do mal das drogas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto Bernardo se acercava, temeroso, com receio do que poderia ver e escutar, tocou os ombros de um senhor pouco-caso, parado num poste, a cerca de cinco metros do ocorrido, para tomar p\u00e9 da situa\u00e7\u00e3o: \u201cO senhor saberia dizer o que aconteceu? Que alvoro\u00e7o \u00e9 esse?\u201d. O homem, com o semblante impass\u00edvel, mirou fixamente o rosto do rapaz, perturbado pela incerteza, e soltou uma gargalhada: \u201cE eu l\u00e1 sei? Estou aqui como voc\u00ea, para passar o tempo\u201d. E continuou rindo, embolando a voz, com palavras pouco compreens\u00edveis, de onde se podia extrair, com muito esfor\u00e7o: \u201cbandido\u201d, \u201clixamento\u201d, \u201cjusti\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo se aproximou mais, afastando alguns seres plantados, desnorteados, como se estivessem entregues a uma seita. Vislumbrou-se a imagem de um menino, doze a quinze anos \u2013 n\u00e3o se podia precisar, dada a magreza e a aus\u00eancia de express\u00e3o \u2013, com um corte profundo na cabe\u00e7a, de onde, ainda, vertia sangue, recebendo chutes nas pernas, na barriga, menos na cabe\u00e7a, j\u00e1 deteriorada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gritou um homem, muito pronto, de palet\u00f3, do meio da multid\u00e3o: \u201cTem de pagar! Eu conhe\u00e7o esse marginalzinho. De santo n\u00e3o tem nada. Passa o dia cheirando cola, roubando; levou at\u00e9 um rel\u00f3gio meu, decerto pra trocar por droga!\u201d. Seguindo de murm\u00farios e urras: \u201cIsso! Isso! Tem de aprender!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas estavam entorpecidas de \u00f3dio, com os olhos vermelhos, fulminantes, aplicando grosserias e pontap\u00e9s no miser\u00e1vel, que n\u00e3o se mexia mais. Da\u00ed, Bernardo, por impulso, pensando que teria de reagir, jogou a bolsa no ch\u00e3o e gritou: \u201cVoc\u00eas est\u00e3o loucos! N\u00e3o existe lei neste pa\u00eds? Voc\u00eas n\u00e3o podem sair matando as pessoas! Senhor policial, por favor, temos de chamar a ambul\u00e2ncia, urgente!\u201d. Foi engolido por uma avalanche de dejetos: \u201cCala a boca, desgra\u00e7a! Leva ele pra casa! Bandido! Comunista safado!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro policial, ao qual Bernardo havia se dirigido, querendo mostrar algum servi\u00e7o, para colocar ordem, disse: \u201cSaiam! Saiam da frente! O senhor tem raz\u00e3o. Pode ser que ainda viva. Chame voc\u00ea mesmo a ambul\u00e2ncia. Nossa fun\u00e7\u00e3o \u00e9 dar cobertura\u201d. Bernardo, para n\u00e3o ser enleado na hist\u00f3ria, deu alguns passos para tr\u00e1s e se p\u00f4s pr\u00f3ximo a uma senhora que chorava, contida. \u201cMeu filho, eu s\u00f3 n\u00e3o liguei ainda porque n\u00e3o tenho essas coisa de celular\u2026 Que maldade!\u201d. E, ao mesmo tempo em que Bernardo tentava se comunicar, a mulher ia debulhando uma ladainha sofrida, que seu filho tamb\u00e9m estaria nas ruas, que esse poderia ser o seu\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que n\u00e3o deformassem o corpo, o robusto policial se colocou de prontid\u00e3o em sua frente, largando o cacetete nas pernas dos que, ainda, tentavam atingi-lo, para deixarem a sua marca da dita justi\u00e7a. \u201cC\u00eas querem mais o que? N\u00e3o est\u00e3o satisfeitos? Morreu, seus monstros! V\u00e3o procurar o que fazer!\u201d. Vociferaram: \u201cPolicial comunista! Comunista!\u201d. Este policial, no ato, apesar de dez anos de corpora\u00e7\u00e3o, foi surpreendido pela s\u00fabita lembran\u00e7a do irm\u00e3o, morto numa chacina no Morro dos Prazeres, quando ainda era pequeno, porque, segundo relatado na ficha, teria rela\u00e7\u00f5es com o tr\u00e1fico. Teve um ligeiro impulso de chorar, mas, sabendo da admoesta\u00e7\u00e3o dos companheiros e da popula\u00e7\u00e3o sedenta por vingan\u00e7a, baixou a cabe\u00e7a, demonstrando cansa\u00e7o e resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do outro lado, o policial sorvete tentava se comunicar, tamb\u00e9m, com o resgate, mas n\u00e3o conseguia verbalizar, inteira, uma palavra. Esfor\u00e7ou-se e conseguiu declarar o ocorrido. Estava afetado pela como\u00e7\u00e3o. Contudo, dissimulava postura s\u00f3lida, intranspon\u00edvel, desferindo, por obriga\u00e7\u00e3o, alguns golpes de cacetete para que dispersassem e deixassem o canto vazio, para a entrada da ambul\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trinta e cinco minutos depois do primeiro contato, a ambul\u00e2ncia chegou. Os param\u00e9dicos foram r\u00e1pidos nos primeiros socorros. Apesar disso, n\u00e3o havia sinal vital. Declararam a morte, possivelmente por m\u00faltiplas fraturas, dilacera\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os e hemorragia interna. Os que ainda acompanhavam mais de perto espalharam para os de tr\u00e1s, com sorrisos no rosto, at\u00e9 formar uma onda de excita\u00e7\u00e3o, resultando no un\u00edssono grito: \u201cMenos um. Uhhrruu!!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perderam o encanto. J\u00e1 haviam se fartado. Partiram em debandada para completar novos servi\u00e7os esp\u00farios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Adriano B. Esp\u00edndola Santos<\/em><\/strong><em> \u00e9 natural de Fortaleza, Cear\u00e1. Em 2018 lan\u00e7ou seu primeiro livro, o romance \u201cFlor no caos\u201d, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, \u201cCont\u00edculos de dores refrat\u00e1rias\u201d e \u201co ano em que tudo come\u00e7ou\u201d, e em 2021 o romance \u201cEm mim, a clausura e o motim\u201d, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em revistas liter\u00e1rias nacionais e internacionais. \u00c9 advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir \u2013 sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Liter\u00e1ria. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. \u00c9 dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o cora\u00e7\u00e3o inquieto. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A face atroz do mundo no conto de Adriano B. 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