{"id":19550,"date":"2022-05-25T11:04:30","date_gmt":"2022-05-25T14:04:30","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19550"},"modified":"2022-05-30T19:24:32","modified_gmt":"2022-05-30T22:24:32","slug":"dedos-de-prosa-i-84","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-84\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Wellington Am\u00e2ncio da Silva<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19552\" aria-describedby=\"caption-attachment-19552\" style=\"width: 333px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/INTERNA-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-19552 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/INTERNA-1.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/INTERNA-1.jpg 333w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/INTERNA-1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19552\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Gilucci Augusto<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O homem invis\u00edvel<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Mas On\u00e3, que sabia que essa posteridade n\u00e3o seria dele, maculava-se por terra cada vez que se unia \u00e0 mulher do seu irm\u00e3o, para n\u00e3o dar a ele posteridade<\/em>. \u2014 G\u00eanesis 38:9<\/h6>\n<p style=\"text-align: right;\">\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>O beijo de um tempo frio em minha testa\/ Alguma luz na \u00e1gua\/ O reflexo do meu rosto\/ A poesia \u00e9 meu \u00fanico amor sincero\/ A poesia \u00e9 meu \u00faltimo amor sincero..<\/em>. \u2014 Jo\u00e3o Maceno<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estive envolvido profundamente com a literatura. Li muitas obras importantes e tamb\u00e9m escrevi umas coisas, por influ\u00eancia dessas obras, como quase todo mundo. O que fiz com tudo isso eu ainda n\u00e3o sei. Confesso que n\u00e3o me importo muito pelos resultados, porque os processos, os m\u00e9todos, me envolvem sem que deles possa sair; estes me levam para longe, e qualquer trabalho finalizado se perde no horizonte distante. Sobre o of\u00edcio? Ah, dia ap\u00f3s dia, sentava-me para escrever, at\u00e9 anoitecer; n\u00e3o sa\u00eda de casa sequer para comprar um p\u00e3o. Com esse exerc\u00edcio medonho aprendi a fazer umas coisas. Todavia, logo que me aperfei\u00e7oei um tanto me deparei com aqueles velhos problemas inerentes \u00e0 fic\u00e7\u00e3o. Minha terr\u00edvel agrura: as personagens se misturavam muito \u00e0s minhas hist\u00f3rias pessoais e com boa parte do meu car\u00e1ter \u2014 o que \u00e9 p\u00e9ssimo&#8230; porque verdadeiramente, no final das contas, eu n\u00e3o sabia em quem bater primeiro, se neles ou em mim mesmo. Com o tempo, me especializei nesta arte de me perder no universo das personagens, de modo que eu n\u00e3o pude nunca mais desvencilhar uns dos outros, isto \u00e9, eu deles. Como escritor eu trabalhava demais, digo, no sentido de n\u00e3o parar nem para comer um brioche de geladeira! Neste universo, a minha imers\u00e3o era tamanha, eu trabalhava tanto! que estive sempre indiferente \u00e0s demandas fisiol\u00f3gicas do meu corpo e \u00e0 fam\u00edlia \u2014 era o esp\u00edrito da literatura que regia minha exist\u00eancia para n\u00e3o sei onde, noite e dia \u2014, todavia, depois me apareceram s\u00e9rios problemas&#8230; N\u00e3o posso me culpar, eu j\u00e1 me perdoei, hoje eu pago por isso e assumo minhas culpas, estou quite com meus personagens e comigo mesmo. Porque para alguns escritores, sua rela\u00e7\u00e3o com a literatura se configurava tal a uma condi\u00e7\u00e3o de \u201caprofundamento singular\u201d \u2014 este termo \u00e9 de Ludwig Vaander-Stelmmer \u2014 porque a literatura, devo dizer, \u00e9 o grande culto! Em outras palavras, eu nunca me preocupei com o tempo do meu corpo, enquanto estive convicto da import\u00e2ncia do tempo do esp\u00edrito. A realidade exterior apenas tem sentido quando incorporada sem pretens\u00f5es, quando a deixamos perambular pelo labirinto da mem\u00f3ria, para em seguida reescrev\u00ea-la, n\u00e3o em busca dos \u201cfatos\u201d, mas em busca do \u201ccomo se\u201d \u2014 esta \u00e9 a nossa salva\u00e7\u00e3o&#8230; Eles disseram, depois do ciclo de palestras: \u201cVai com calma, Jo\u00e3o!\u201d. Eu retruquei (muito embora n\u00e3o estivesse de todo convicto): \u201cEu sei o que fa\u00e7o, meus colegas&#8230; eu sei o que fa\u00e7o&#8230;\u201d. Escrevi uns versos e quase os publiquei em livros, a experi\u00eancia de escrev\u00ea-los ficou para sempre, mas a obra se perdeu. Eu vivo tentando&#8230; Vivi um tempo de livro quase conclu\u00eddos, em eternas revis\u00f5es \u2014 \u00e9 isto o escritor, n\u00e3o se engane! No final das contas eu carregava sempre alguma d\u00favida se os publicaria ou n\u00e3o, visto que da\u00ed em diante eu poderia ser elogiado ou difamado; n\u00e3o me animava a possibilidade de tornar-me reconhecido enquanto houvesse o precedente da difama\u00e7\u00e3o, que \u00e9 aquele estigma que mesmo ap\u00f3s a morte perduraria (meus filhos teriam vergonha de mim). Eu escrevia, mas carregava as minhas d\u00favidas \u2014 e por causa destas eu n\u00e3o parava de escrever. Por\u00e9m, d\u00favida boa \u00e9 aquela que possui uma cratera t\u00e3o grande em seu arcabou\u00e7o, que pensamento incomodado infla, e se torna maior que a cratera. Hoje, gostaria demasiadamente de precisar alguns pormenores sobre a minha vida \u2014 se \u00e9 que interessa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nasci na cidade de Penedo, nas Alagoas, em 12 de janeiro de 1962, sob o nome de Roberto Rabocha dos Santos, e n\u00e3o de Jo\u00e3o Maceno, meu pseud\u00f4nimo.\u00a0 Aos 22 anos resolvi enfrentar o destino em S\u00e3o Paulo, e por l\u00e1, em alguns aspectos, me dei bem. Aos 32 anos tornei-me profissional da comunica\u00e7\u00e3o, redator de uma revista considerada e arrisquei-me pela liter\u00e1rio da mesma revista. Neste ambiente de papel e de letras encontrei a mulher que me tolerava e que enxergava alguma beleza em mim \u2014 n\u00e3o vi nenhum feito em seu car\u00e1ter. Casamos em 1996, e em 14 anos de casados e tivemos duas filhas \u2014 Clarisse, 05 anos; Alice, 11 anos. Vivemos como num sonho bom, por\u00e9m, de s\u00fabito, aos 48 anos eu estava sozinho num quarto meio mofado de casa alugada a pouco dinheiro; sim, eu fiquei sozinho, porque sem a esposa as filhas escolheram, obviamente, morar com a m\u00e3e ou com a av\u00f3&#8230; (n\u00e3o quero tratar de detalhes do fim do meu casamento, mas adianto que h\u00e1 uma tem\u00e1tica tr\u00e1gica, sobretudo \u201cpat\u00e9tica\u201d envolvida, e da minha parte&#8230;). Ora, sinceramente n\u00e3o tenho \u00f3dio ou m\u00e1goas contra ningu\u00e9m. O \u00f3dio sem destinat\u00e1rio \u00e9 arte. Mas, deixa eu te dizer uma coisa: por outro lado, n\u00f3s amamos e sabemos que amamos, examinamos nossos pensamentos e atos sobre a pessoa amada e cremos que amamos, todavia ela pensa que ainda \u00e9 pouco, ou desconfia que \u00e9 bobagem ou engana\u00e7\u00e3o. O que n\u00f3s sentimos \u00e9 tudo o que temos para aquela pessoa, e ela acha pouco ou in\u00fatil&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o div\u00f3rcio, desvencilhei-me da maioria dos compromissos dom\u00e9sticos, ainda bem. Resolvi me debru\u00e7ar, com o devido empenho sobre o que me restou de fato, aos meus textos. Certo dia, ao acordar disposto, explorei o velho arm\u00e1rio cheio de pap\u00e9is, de algumas tra\u00e7as e \u00e1caros; tentei dar ordem ao que reencontrei. Seis sacolas de supermercado contendo manuscritos velhos, seis poss\u00edveis livros que eu abandonara. Muitos pap\u00e9is, e ao folhe\u00e1-los, de imediato retomei ao fio da meada daqueles anos passados; eram quase livros, ali, e somente eu estava ciente de que sabia o que escrevera, porque quando se diz a verdade ningu\u00e9m acredita. Mas, n\u00e3o eram ainda livros, antes de reuni-los, sob a ordem de temas correspondentes. Havia certa desconex\u00e3o (mesmo as melhoras frases, as que soavam bem, ainda n\u00e3o continham uma verdade). Grandes obst\u00e1culos enfrentados, num trabalho intermin\u00e1vel, tentei encontrar ou inventar liames. Para alguns textos escrevi coisas que depois chamei de \u201cemendas\u201d e lutei em v\u00e3o contra outros tantos. \u00c0s vezes temos frases aparentemente perfeitas, mas que n\u00e3o passam, no final, de um engodo. Os manuscritos \u201cn\u00e3o aproveit\u00e1veis\u201d, aqueles que por si s\u00f3 n\u00e3o forneciam sa\u00eddas, eu os comi, os umedeci com \u00e1gua ou refrigerante, pus pimenta calabresa e os comi; o texto imposs\u00edvel n\u00e3o me dava outra sa\u00edda sen\u00e3o traz\u00ea-lo para dentro de mim por simbiose, incorpor\u00e1-lo pelo est\u00f4mago, j\u00e1 que n\u00e3o sedia ao intelecto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final de 2013, eu os tinha organizado todos e atribu\u00eddo t\u00edtulos chamativos, tais como, \u201cDiurnos\u201d, \u201cO Caso 64\u201d, \u201cAs Aspira\u00e7\u00f5es de um Equilibrista\u201d, \u201c\u00c2mago Translucido\u201d, \u201cA Paix\u00e3o Segundo Margarete\u201d, \u201cManto Frondoso\u201d e \u201cPiramundo\u201d.\u00a0 Editar tudo me custou muito caro. Trabalhar pelas madrugadas me adoeceu. Emagreci em demasia, houve queda de cabelo e tornei ainda mais impotente. Cara caveirosa e olhos fundos, os l\u00e1bios descorados, sem brilho. As cal\u00e7as caiam um tanto, as camisas folgaram-se. Neste per\u00edodo, eu pensava ter desenvolvido diabetes.\u00a0 A sorte \u00e9 que depois de um tempo de folga e de paz \u2014 digo, n\u00e3o pensar em nada, n\u00e3o fazer nada \u2014 melhorei sobremaneira. A sa\u00fade se restabeleceu e se estabilizou. Eu estava grato pela sa\u00fade aparente. Pensei em me casar novamente, mas desde sempre fora casado com a literatura; na verdade, fiquei sozinho, ainda bem; eu n\u00e3o queria dar trabalheira a mais ningu\u00e9m. Eu quis resolver de uma vez por todas, aquela tend\u00eancia inc\u00f4moda \u00e0 vida a dois. Me lembrei de Kant, solteir\u00e3o, quem sabe apaixonado pela Filosofia. Me lembrei do padre Sim\u00e3o, solteiro, quem sabe apaixonado pela f\u00e9. E eu, talvez pudesse estar solteiro, quem sabe, para escrever, porque escrever toma tempo e \u00e9 a boa solid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em grande medida, meu casamento acabou porque vivia para o trabalho e para a escrita autoral, e foi por causa destes dois universos que me lasquei. O primeiro, abandonei, j\u00e1 que perdera algo mais importante: a presen\u00e7a da minha esposa e filho. Acabei aposentado por invalidez. E o segundo? N\u00e3o tive for\u00e7as para abandon\u00e1-lo, devido \u201cao tamanho absurdo e a densidade insustent\u00e1vel da sua iner\u00eancia dentro em mim\u201d \u2014 tal frase parece clich\u00ea, mas na verdade eu nunca quis deixar a literatura; a viol\u00eancia sem destinat\u00e1rio \u00e9 arte&#8230; Literatura, deste of\u00edcio n\u00e3o se despede; vive-o at\u00e9 o fim, e quem sabe, depois (mas n\u00e3o sou religioso, n\u00e3o penso o \u201cdepois\u201d para al\u00e9m de um gracejo). Diante deste quadro, resolvi radicalizar alguns aspectos da minha vida; havia algo dentro de mim que me \u201croubava\u201d certa parcela da minha concentra\u00e7\u00e3o. Disse a minha m\u00e3e que iria morar sozinho e que cuidasse das meninas com o aux\u00edlio da maior parte do meu dinheiro (o que n\u00e3o era suficiente); as meninas gostam mais dela do que de mim e da m\u00e3e \u2014 digo isto sem m\u00e1goas pela op\u00e7\u00e3o delas; tamb\u00e9m n\u00e3o acho oportuna tal op\u00e7\u00e3o. Por conseguinte, comprei uma bela ch\u00e1cara em Ara\u00e7oiaba da Serra (por sinal, mal-assombrada, mas eu ignorava visitantes de toda sorte). Por l\u00e1 me aperfei\u00e7oei ao meu gosto. Escrevi novos sonetos, escrevi odes, s\u00e1ficos, gaitas galegas, e outras dezenas de decass\u00edlabo; escrevi alexandrinos e b\u00e1rbaros, enquanto os pardais tentavam chamar minha aten\u00e7\u00e3o \u00e0 janela; reinventei a m\u00e9trica e a dilu\u00ed em anarquias criativas que me faziam gargalhar pelas altas madrugadas, sem que as corujas noturnas, pousadas num galho \u00e0 janela, me compreendessem. Mas percebi, com o tempo, haver em meu corpo uma demanda, que mesmo sendo menos ind\u00f4mita que a fome e a sede, e estando ao largo, ainda me incomodava; era uma ansiedade genital, a maldita libido: ora, eu a sentira muito sutilmente e difusa, muito de longe, muito de leve, porque estava enceguecido pelos versos; mesmo pela manh\u00e3, ao acordar eu notava sua presen\u00e7a e a sentia tal a um leve inc\u00f4modo, que mobilizava dentro de mim certos pensamentos luxuriosos (e eu nem escrevia sobre o tema&#8230;). Antes, aquela coisa vol\u00e1til, sem nome e sem nexo, reverbera vapor dentro, no calor cego da virilha, sem diretamente perceb\u00ea-la, at\u00e9 que uma noite, devo dizer, depois de algumas perscruta\u00e7\u00f5es, me incomodou, porque eu me alegrei com a lembran\u00e7a voluptuosa de antiga amiga da universidade. Imaginei-nos em mil e uma manobras sensuais, e por causa de pensamentos persistentes enfrentei duas semanas sem escrever um verso, at\u00e9 me libertar razoavelmente. Desde muito cedo, entre outras puls\u00f5es medianas, a sexualidade me era enfadonha; casei-me porque me vi obrigado, coitada&#8230;; eu muito jovem quis experimentar, me apaixonei e amei, todavia, acabou&#8230;. Para o sexo, nunca uma mulher me atraiu, nem homem, nem quaisquer outras das variantes&#8230; sempre tive medo desse calor ex\u00f3tico e testicular, desse exerc\u00edcio medonho sobre superf\u00edcies macias, colch\u00f5es sofredores. A libido sem destinat\u00e1rio \u00e9 arte, eu sei, mas eu n\u00e3o tenho este dom, nunca quis arriscar de fato, na cama fui um fingidor. Para mim, o sexo era a pr\u00e1tica dos bichos que espumam pela boca, dos c\u00e3es e das aves, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 escrita, algo muito lento e calmo e que se faz sobre superf\u00edcies duras, escrivaninhas felizes. Quando casado, me cansava muito deste exerc\u00edcio \u2014 seus jogos, as caras e bocas, as m\u00e3os bobas, os sons monossil\u00e1bicos incompreens\u00edveis, os l\u00e1bios derreados, as convuls\u00f5es moment\u00e2neas, a dedica\u00e7\u00e3o ao gosto do outro, \u00e0s frustra\u00e7\u00f5es das precocidades, minhas insufici\u00eancias, e a trai\u00e7\u00e3o que ignorava, porque, como disse, o sexo e suas variantes me eram enfadonhas \u2014 na verdade, eu gostava quando minha esposa voltava feliz, porque ela sinalizava discretamente que somente neste aspecto eu n\u00e3o me tornara um suficiente. Sei que mesmo a pequena rela\u00e7\u00e3o se constitui numa d\u00edvida de monta, e <em>as asas daquele que voava sozinho se desfaz pelo caminho do matrim\u00f4nio <\/em>\u2014 me perdoem por usar esta met\u00e1fora t\u00e3o felpuda. Ah, s\u00f3 mais uma coisa: a cama \u00e9 tudo! N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que falam tanto da cama quando se fala de relacionamento. Na cama ocorre o \u201cefeito da presen\u00e7a\u201d, eu j\u00e1 disse uma vez, de quando dormindo ou acordado a gente sente a presen\u00e7a forte do outro, a gente acorda para olhar o outro dormindo, ouvir sua voz e sua respira\u00e7\u00e3o, olhar seu rosto sempre in\u00e9dito, dormindo&#8230; isto \u00e9 o amor. Por\u00e9m, quando o outro desaparece na cama, se torna parte da cama, tal a uma almofada grande com p\u00e9s e m\u00e3os, e nos sentimos como quem dorme s\u00f3, acabou o amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todo modo, tomei uma decis\u00e3o definitiva, porque a literatura era a minha vida. Era o of\u00edcio! Sim! At\u00e9 o final da minha vida, como dizia o pessoal do Romantismo europeu. E, um tipo de prescri\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia \u2014 e eu achava melhor considerar coisas do tipo do que a vida dom\u00e9stica. Na verdade, a literatura \u00e9 um modo de existir, \u00e9 um horizonte, um portal em aberto, um plano existencial cujo alcance \u00e9 infinito e maior do que a mente. \u201cA literatura \u00e9 mais extensa do que a natureza\u201d \u2014 uma vez nos disse Eleanor Mannoir. A literatura \u00e9 um plano extensivo, enorme, onde o mundo recosta a cabe\u00e7a em busca de algum al\u00edvio. E \u00e9 a\u00ed, neste orbe imenso, que eu queria viver e morrer. Deste modo, decidi conversar sobre o assunto com o meu m\u00e9dico; j\u00e1 a minha psiquiatra concordou de imediato. Como \u00e9 de imaginar, o assunto demandou muitas outras reuni\u00f5es (e a psiquiatra fartava a sua curiosidade&#8230;), porque a\u00ed, no \u00e2mbito de uma longa confronta\u00e7\u00e3o, que se enredou entre eu e o m\u00e9dico, havia um aspecto \u00e9tico que ele denegou por um tempo; somente a muito custo consegui convenc\u00ea-lo. Ora, \u00e9 bom saber que em todo tempo da minha exist\u00eancia eu me reconhecia n\u00e3o sendo heterossexual ou homossexual, ou qualquer outra condi\u00e7\u00e3o sexual. Na verdade, relativamente ao sexo, como pr\u00e1tica eu n\u00e3o tinha g\u00eanero, eu nunca tomei gosto pelo ato em si, embora de quando em quando meu corpo \u201cse aquecesse\u201d&#8230;, e, \u00edntegro desta minha apatia por mim conhecida e compreendida, ainda que no meio desse \u201cfogo\u201d, perseverei; tempos depois, consegui do m\u00e9dico o que queria \u2014 a castra\u00e7\u00e3o, que \u00e9 parecida \u00e0 vasectomia, por\u00e9m, com extra\u00e7\u00e3o testicular; eu n\u00e3o queria ficar simplesmente inf\u00e9rtil, eu queria ser como um <em>Castrato<\/em> italiano ou um <em>Eunuco<\/em> judeu e me libertar da libido, ter paz de esp\u00edrito, enfim. Tal escolha seria para mim um gesto de viol\u00eancia? O que \u00e9 a viol\u00eancia? A viol\u00eancia sem destinat\u00e1rio \u00e9 arte. Ali\u00e1s, meu pai falava que a natureza nos acha uns idiotas: para manter o ciclo da esp\u00e9cie, pela fecunda\u00e7\u00e3o, ela nos obriga a copular a pre\u00e7o de esmola, o gozo. Mas eu n\u00e3o quero falar sobre isto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, pesquisando, eu n\u00e3o encontrei nada sobre castra\u00e7\u00e3o humana nos dias atuais; num dicion\u00e1rio comum, est\u00e1 escrito que \u201c<em>A \u2018castra\u00e7\u00e3o\u2019 no Brasil \u00e9 um dos procedimentos mais realizados em pequenos animais. Evita diversos problemas de sa\u00fade, melhora o comportamento, e \u00e9 das medidas mais importantes para controle populacional de c\u00e3es e gatos. O procedimento n\u00e3o costuma ser complicado, por\u00e9m exige certos cuidados antes e ap\u00f3s a cirurgia<\/em>\u201d. Apresentei este pequeno texto ao meu m\u00e9dico e ele riu; disse que precisava pesquisar&#8230; confessou que nunca realizara tal cirurgia. Duas semanas depois, estava eu em seu consult\u00f3rio; me despi ali mesmo e vesti uma camisola hospitalar aberta nas costas. Numa sala pequena e branca, cer\u00e2mica at\u00e9 o final da parede, deitaram-me numa maca estreita. Uma enfermeira aplicou Clonazepan na entrada de um cateter na venosa do bra\u00e7o, porque eu estava um pouco hipertenso e nervoso. Um homem grande me pediu para sentar, ordenando que n\u00e3o me mexesse e aplicou a anestesia raquidiana em algum lugar da minha coluna servi\u00e7al. Logo eu estava paralisado da cintura para baixo. O doutor Arist\u00f3teles, meu m\u00e9dico, estirou uma pequena cortina, lado a lado \u00e0 minha cintura e eu n\u00e3o vi mais meus p\u00e9s, at\u00e9 ele erguer as minhas pernas sobre dois pedestais. Os tr\u00eas come\u00e7aram a conversar sobre coisas banais, ou seja, era o sinal, a cirurgia havia iniciado. Em vinte minutos ele me mostrou meus test\u00edculos na palma da sua m\u00e3o, e eu n\u00e3o pude segurar as l\u00e1grimas, num choro copioso, porque me senti como se houvesse perdido o elemento ancestral da minha exist\u00eancia e que me fez ver ali os rostos saudosos do meu pai e do meu av\u00f4. O m\u00e9dico disse que eu deveria parar de chorar, porque aquelas convuls\u00f5es em meu ventre poderiam desencadear uma hemorragia no local da cirurgia, durante o processo. Ele me costurou por baixo, enquanto eu enxugava minhas l\u00e1grimas; realizou seu \u00faltimo ponto e me disse: \u201cMiss\u00e3o cumprida, meu caro&#8230; De hoje em diante voc\u00ea ser\u00e1 para sempre um homem indiferente ao sexo\u201d. A enfermeira me olhava triste. Por quest\u00f5es \u00e9ticas talvez o m\u00e9dico mantivesse segredo quanto ao meu caso, por isso ela me olhava triste. Se manteve segredo eu ainda n\u00e3o saberia entender aquela express\u00e3o de tristeza nos olhos impec\u00e1veis da enfermeira. Nos dias seguintes acordei taciturno demais, de modo que levantava tarde da cama e n\u00e3o conseguia realizar a menor tarefa em meu cotidiano. Meu consolo foi ouvir Pink Floyd e os \u00e1lbuns <em>Zeit<\/em> e <em>Alpha Centauri<\/em> do Tangerine Dream, o dia inteiro, semanas a fio, at\u00e9 sarar. Nos quinze dias seguintes \u00e0 cirurgia, eu n\u00e3o pude beber vinho e isto me foi aterrador, torturante, porque a embriaguez em momentos decisivos sempre me foi uma grande salva\u00e7\u00e3o, quase uma salva\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica. Eu sentia uma tristeza persistente e difusa, que estava n\u00e3o somente dentro de mim, mas em tudo ao meu redor, como quando se perde um ente querido; a minha tristeza estava nas paredes, nos m\u00f3veis, na voz dos transeuntes, na r\u00e9stia empoeirada que riscava o ch\u00e3o, no chilrear dos pardais, no cinzeiro de lat\u00e3o, nas cuecas sujas dentro do cesto de pl\u00e1stico, na reprodu\u00e7\u00e3o de um nu art\u00edstico de Toulouse-Lautrec em minha parede, na forma quadrada da janela, sobretudo no encarnado soturno do arrebol de fim de tarde. Eu pensei que ia morrer de tristeza. N\u00e3o havia ombro amigo nem outro consolo, porque ningu\u00e9m sabia do meu caso, e o m\u00e9dico n\u00e3o me ligou nem para desejar boa sorte. Somente Deus sabia da minha situa\u00e7\u00e3o, mas Ele talvez n\u00e3o gostasse da minha literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos meses seguintes me sucedeu uma calmaria. Meu lar tornou-se mais claro, no espelho meus olhos tornaram-se mais inocentes, meu rosto rejuvenesceu-se uns dez anos, e minhas m\u00e3os tornaram-se mais dignas. Minha concentra\u00e7\u00e3o nas coisas era precisa, meus pensamentos tornaram-se irrepreens\u00edveis, minha autoestima subiu, as ideias flu\u00edam em enxurradas (e eu anotava tudo!); eu conseguia articular pensamentos e conceitos complexos com grande coer\u00eancia, e mesmo um ser de luz, um homem vestido de branco, rosto luminoso, olhos esfogueados, de uns dois metros e meio de altura, conversou comigo a noite inteira, em minha sala, sentado em meu sof\u00e1, e at\u00e9 tomou um ch\u00e1 de boldo comigo \u2014 disse-me coisas inef\u00e1veis que deveras n\u00e3o \u00e9 l\u00edcito narrar agora. Meu corpo tornou-se como corpo de menino; meus ombros se encolheram, minhas pernas afinaram-se, meus pelos ca\u00edram, minha testa ampliou-se para cima e para os lados, minhas rugas desapareceram, meu maxilar tornou-se harmonioso e gracioso, meus incisivos retra\u00edram-se dentro da minha boca, e brotou uma flor em meu peito, deixei de ser carn\u00edvoro. Meu p\u00eanis tornou-se ainda mais \u201csanfonado\u201d, de modo que encolheu at\u00e9 quase desaparecer abaixo do umbigo, sobretudo nos dias frios (e como n\u00e3o me restaram test\u00edculos, minha virilha era tal a virilha lisa, sem protuber\u00e2ncias, de um inocente boneco de brinquedo, ou de um andr\u00f3gino). Passei a realizar <em>enemas<\/em> em mim mesmo, com o intuito de me libertar um pouco mais dos processos mais baixos do metabolismo animal inerentes a este corpo. S\u00e3o arte os empenhos sem destinat\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram tr\u00eas meses de inoper\u00e2ncia total, ap\u00f3s a castra\u00e7\u00e3o; emergi lentamente na escrita e nas leituras, isto de um modo quase sobrenatural, elevando estas duas ao patamar da mais leve e pacifica religi\u00e3o \u2014 confesso que eu estava euf\u00f3rico, excitado de esp\u00edrito; nunca uma liberta\u00e7\u00e3o f\u00edsica me trouxe tamanha gra\u00e7a espiritual. Vivi uma m\u00edstica nova, para al\u00e9m de qualquer recalque freudiano. A um s\u00f3 tempo estava liberto do pudor religioso e do cio dionis\u00edaco. Me arrebatei \u00e0s nuvens do vern\u00e1culo, e era tudo que eu queria, e l\u00e1 encontrei o divino, o numinoso, o plenamente suficiente, e escrevi bastante. Descobri que a maior emancipa\u00e7\u00e3o de um homem \u00e9 perder os instintos. Hoje o alvor dos versos de cam\u00f5es est\u00e1 plenamente apreendido em meu ser. Posso dizer que vivo um n\u00edvel outro de exist\u00eancia. Estou absolutamente convencido que as puls\u00f5es do animal no corpo do humano (sexo, pavor da morte, medo do imprevis\u00edvel, agressividade, excre\u00e7\u00e3o) s\u00e3o um terr\u00edvel estorvo diante do alto n\u00edvel de humanidade que se descortina no tempo presente, e do qual sou o primeiro e \u00fanico representante. Eu sou o <em>\u00fcbermensch<\/em> de Nietzsche. Amigo, \u00e9 preciso elevar nossa humanidade at\u00e9 patamares nunca antes imaginados \u2014 e tal liberta\u00e7\u00e3o somente se far\u00e1 pela liberta\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es, e o sexo \u00e9 a pior delas! Todas as guerras e todos os males t\u00eam sua raiz na transa, t\u00eam seu aspecto corrupto tamb\u00e9m nas puls\u00f5es diversas! \u00c9 preciso elevar o <em>logos <\/em>aos planos antes inimagin\u00e1veis! Libertemo-nos a n\u00f3s mesmos da velha senten\u00e7a aristot\u00e9lica do \u201chumano como animal\u201d! O \u201cbicho\u201d no corpo \u00e9 uma cifra diminuta no calcanhar da exist\u00eancia, e o humano \u00e9 todo o cosmo! Podemos ser como os santos anjos. Um dia nos aproximaremos daquilo que os antigos orientais denominavam de deuses (e os ocidentais de Sofia)! A busca sem destinat\u00e1rio \u00e9 arte. E, que todo homem se castre por amor a si e ao devir, e escreva belos poemas, no intuito de libertar a Natureza dos nossos equ\u00edvocos milenares.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Wellington Am\u00e2ncio da Silva<\/em><\/strong><em>\u00a0nasceu em 1979, em Delmiro Gouveia, Alagoas. \u00c9 professor graduado em Pedagogia e Filosofia, e tem mestrado em Ecologia Humana. Editor das <a href=\"http:\/\/www.edicoesparresia.com.br\"><strong>Edi\u00e7\u00f5es Parresia<\/strong><\/a>. \u00c9 membro da equipe editorial da Revista Utsanga \u2014 Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Em literatura, publicou-se: Apoteose de Dermeval Carmo-Santo (2019), O Reneval (2018), O Quasi-Haikai (2017), Epifania Amarela (2016), Dist\u00edmicos e Extrusivos (2016), Di\u00e1logos com Sebastos (2015), Primeiros poemas soturnos (2009) e Elegia da Imperfei\u00e7\u00e3o (2001).\u00a0\u00a0<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O engenho poderoso das palavras no conto de Wellington Am\u00e2ncio da Silva <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19551,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4131,2534,16],"tags":[81,41,4135,4034],"class_list":["post-19550","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-148a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-o-homem-invisivel","tag-wellington-amancio-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19550","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19550"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19550\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19559,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19550\/revisions\/19559"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19551"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19550"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19550"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19550"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}