{"id":19575,"date":"2022-05-26T09:58:48","date_gmt":"2022-05-26T12:58:48","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19575"},"modified":"2022-05-30T19:24:47","modified_gmt":"2022-05-30T22:24:47","slug":"aperitivo-da-palavra-i-31","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-31\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p><strong>O livro azul de Wesley Peres &#8211; Apontamentos sobre<em> O corpo de uma voz despeda\u00e7ada<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Por Wilton Cardoso<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/capa-o-corpo-de-uma-voz-despedacada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19577\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/capa-o-corpo-de-uma-voz-despedacada.jpg\" alt=\"\" width=\"315\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/capa-o-corpo-de-uma-voz-despedacada.jpg 315w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/capa-o-corpo-de-uma-voz-despedacada-210x300.jpg 210w\" sizes=\"auto, (max-width: 315px) 100vw, 315px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O livro azul<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O corpo de uma voz despeda\u00e7ada<\/em>, de Wesley Peres, trata-se de um pequeno e impressionante livro sobre o tr\u00e1gico acidente do C\u00e9sio 137 em Goi\u00e2nia, ocorrido em 1987. \u00c9 impresso em letras azuis (como o p\u00f3 radioativo) numa \u00f3tima edi\u00e7\u00e3o da editora Martelo, que vem se notabilizando pela qualidade gr\u00e1fica e po\u00e9tica de seu cat\u00e1logo de poesia. As letras-part\u00edculas azuis remetem \u00e0 irradia\u00e7\u00e3o da palavra e da mem\u00f3ria, ressoando o acidente que, ao que parece, a cidade quer enterrar (recalcar) no esquecimento, como enterrados est\u00e3o os seus mortos e os detritos radioativos. A tarefa do poeta \u00e9 recuperar, com sua m\u00e1quina tormentosa de palavras, essa inc\u00f4moda mem\u00f3ria, em luta com os mecanismos de recalque da cidade:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>[&#8230;] \u00c9 preciso dar corpo \u00e0 voz eviscerada em peda\u00e7os, o corpo recalcado pelos s\u00f3lidos mecanismos da cidade goi\u00e2nia. [&#8230;] \u00c9 preciso construir a m\u00e1quina palavra gir\u00e2ndola repetitiva n\u00e3o de estrelas, mas de\u00a0 tormentas. [&#8230;]<\/em> (p. 43)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O corpo da voz: t\u00edtulo<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Wesley Peres \u00e9 um poeta rigoroso e experimental, que costuma torcer e distorcer a linguagem at\u00e9 os seus limites sonoros, sint\u00e1ticos e sem\u00e2nticos. O t\u00edtulo do livro n\u00e3o foge \u00e0 regra e j\u00e1 apresenta ao leitor uma paradoxal constru\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica, ao atribuir \u00e0 voz, signo da palavra, da linguagem e do simbolismo, a materialidade do corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se quer, afinal? Explorar e dar corporeidade \u00e0 voz despeda\u00e7ada (ao sofrimento silente, inarticulado) das v\u00edtimas? Dar corpo no sentido de recordar e expor a trag\u00e9dia social e individual ou no sentido mais ambicioso de re-presentificar o vivido com a poesia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poesia que, costuma-se dizer, \u00e9 o lugar onde a linguagem deixa de ser apenas c\u00e9u significativo e se torna tamb\u00e9m terra significante, concreta e material: <em>locus<\/em> em que as alturas do sentido entram em simbiose com a mat\u00e9ria sonora e (no caso do livro) visual da palavra falada e escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece-me que o poeta opta pelo caminho mais ousado de (pelo menos tentar) corporificar de fato a voz, re-vivendo a trag\u00e9dia com o experimento material e simb\u00f3lico do poema, mesmo sabendo que acabar\u00e1 num beco sem sa\u00edda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O corpo da voz: do livro e para al\u00e9m do livro<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este dilema entre corpo e alma, ou corpo e psique (j\u00e1 que o poeta \u00e9 tamb\u00e9m psicanalista), que se desdobra no dilema entre vida e linguagem, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o apenas deste livro, mas perpassa toda a obra de Wesley Peres. Trata-se, portanto, de uma obsess\u00e3o do poeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a rememora\u00e7\u00e3o ou re-incorpora\u00e7\u00e3o do acidente radioativo se torna tamb\u00e9m uma oportunidade para o autor exercitar suas obsess\u00f5es acerca da tensa rela\u00e7\u00e3o entre <em>mat\u00e9ria e esp\u00edrito<\/em>, corpo e mente, vida e palavra, exist\u00eancia e sentido, plenitude e vazio. Obsess\u00e3o que \u00e9 tamb\u00e9m a do Ocidente desde que este se define como tal, ou seja, desde a Gr\u00e9cia pr\u00e9-socr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Wesley Peres \u00e9, portanto, o que se poderia chamar de poeta existencial ou filos\u00f3fico, sempre pensando enquanto canta, fazendo a re-flex\u00e3o no mesmo ato da flex\u00e3o po\u00e9tica da linguagem. Outra tens\u00e3o em sua obra: <em>pensar e cantar<\/em>, significar sobre a linha sonora e imag\u00e9tica do jogo po\u00e9tico. Um poeta cerebral e construtor, sem d\u00favida, mas que deixa transbordar um lirismo que pulsa sob o \u00e1rduo trabalho de linguagem de seus poemas. O que implica numa terceira uma tens\u00e3o atravessa sua obra, entre <em>lirismo e constru\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se, ent\u00e3o, dizer que Wesley Peres transita entre as \u2018tradi\u00e7\u00f5es advers\u00e1rias\u2019 do lirismo de Bandeira e do engenho de Cabral, mas numa linguagem que recupera uma terceira tradi\u00e7\u00e3o, on\u00edrica e a-l\u00f3gica, que \u00e9 a do simbolismo e surrealismo mais experimentais e construtivos, como em Manoel de Barros. Este \u00faltimo, ali\u00e1s, seria a &#8216;filia\u00e7\u00e3o po\u00e9tica&#8217; (na falta de express\u00e3o melhor) mais pr\u00f3xima e vis\u00edvel de Peres, como pode se perceber em suas desconstru\u00e7\u00f5es sint\u00e1ticas e sem\u00e2nticas da linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Manoel de Barros promove uma desconstru\u00e7\u00e3o da linguagem que remete a uma cr\u00edtica tamb\u00e9m desconstrutiva do mundo moderno. Sua poesia \u00e9 atravessada pelo desejo de uma regress\u00e3o primitiva n\u00e3o reacion\u00e1ria e n\u00e3o autorit\u00e1ria \u00e0 inf\u00e2ncia, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o popular, ao mundo animal, vegetal e at\u00e9 mineral; e \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o desse &#8216;mundo puro&#8217; dos prim\u00f3rdios. Puro n\u00e3o no sentido asc\u00e9tico do termo, mas concebido como um caos primordial intocado pela ordem, desmedido e sem hierarquias, prenhe de novas possibilidades de mundo. No fim das contas, a poesia do mato-grossense, sob a superf\u00edcie de um regionalismo e um naturismo ing\u00eanuos e l\u00fadicos, \u00e9 uma cr\u00edtica aguda \u00e0 modernidade e, em consequ\u00eancia, ao capitalismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Palimpsesto e origami: tens\u00e3o entre o sem sentido e o desejo de sentido<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A desconstru\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de Wesley Peres, ao contr\u00e1rio da de Manoel de Barros, n\u00e3o resgata nem celebra os prim\u00f3rdios e o caos como uma nova possibilidade de mundo, mas costuma se deparar com o vazio de sentido e a aus\u00eancia de sa\u00eddas para a &#8216;alma humana&#8217; e o &#8216;esp\u00edrito do mundo&#8217;. Exemplos desse ceticismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 transcend\u00eancia e at\u00e9 \u00e0 magia s\u00e3o a presen\u00e7a de duas imagens recorrentes neste livro, e em outras obras suas, que s\u00e3o o palimpsesto e o origami. O primeiro remete \u00e0 impossibilidade da origem e do fundamento, enquanto as complexas dobraduras do segundo nos diz que o conte\u00fado e o sentido n\u00e3o passam de puras formas, dobras e redobras de uma mat\u00e9ria\/subst\u00e2ncia indiferente e inerte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Palimpsesto e origami remetem, portanto, a uma po\u00e9tica agn\u00f3stica e desencantada, descrente das possibilidades ut\u00f3picas de uma regress\u00e3o aos caos primordial ou mesmo de uma ultrapassagem emancipat\u00f3ria das sufocantes coer\u00e7\u00f5es da sociedade (p\u00f3s)moderna. Este agnosticismo de fundo \u00e0s vezes emerge l\u00edmpido no livro:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(O homem cr\u00ea em Deus e nas pedras. Sonhou a clareza de seus olhos implodidos densos de um imenso sol soletrado pelo calmo ningu\u00e9m que habita o homem s\u00f3 com o seu corpo).<\/em> (p. 21)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A poesia de Wesley Peres \u00e9, portanto, anti-m\u00e1gica e anti-l\u00edrica. Mas ao mesmo tempo, as pessoas amam, sofrem, desejam, vivem, morrem e formam a teia desejante e coletiva da sociedade ou, no caso do livro em quest\u00e3o, da cidade de Goi\u00e2nia. E a poesia c\u00e9tica de Wesley Peres se inquieta (se espanta, se comove?) com as paix\u00f5es humanas e seu desejo de sentido.\u00a0 O poeta procura, ent\u00e3o, express\u00e1-las contra o pano de fundo da perspectiva agn\u00f3stica, que n\u00e3o v\u00ea na realidade social e biops\u00edquica do mundo humano nenhum fundamento ou possibilidade de transcend\u00eancia. \u00c9 nessa tentativa de exprimir esse desejo de sentido, t\u00e3o constituinte do humano quanto o seu n\u00e3o sentido, que o autor deixa transbordar um lirismo que o agnosticismo construtor de sua poesia aparentemente n\u00e3o possibilitaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse transbordamento l\u00edrico, embora intenso e carregado de afetos, n\u00e3o descamba para a pieguice ou o confessionalismo, nem mesmo quando o eu l\u00edrico se expressa. Talvez porque o fundo agn\u00f3stico e o rigor experimental, que constituem o pano de fundo po\u00e9tico do qual o lirismo transborda, tornem imposs\u00edveis qualquer esp\u00e9cie de derramamento sentimental. Emergindo do pano de fundo agn\u00f3stico, o lirismo perpassa todo o livro (e toda a obra que conhe\u00e7o do autor) e \u00e9 n\u00edtido, por exemplo, no poema em prosa &#8220;1987&#8221;, um dos pontos altos do livro. Em meio a v\u00e1rias refer\u00eancias intertextuais, como \u00e0 Lautr\u00e9amont e Deleuze &amp; Guattari, emerge, de forma comovente, a dor e o sofrimento das v\u00edtimas de acidente radioativo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>[&#8230;] Lautre, era setembro, Lautre, era o sol e era menos de duas d\u00e9cadas para o fim do s\u00e9culo. era no Novo Mundo, Lautre, e o mal e o horror amoral e sem nome eviscerou a menina, era o seu c\u00e3o do terceiro canto, Lautre, sob ordens maldoronianas, o c\u00e3oazul m u l t i p l i f l o r a n d o inchando as c\u00e9lulas multiplicando-as rizomaticamente em era de politicoeconomia e esquizofrenia entrela\u00e7adas. [&#8230;]<\/em> (p. 36-37)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No trecho acima, a indiferen\u00e7a e o sem sentido do mundo f\u00edsico e biol\u00f3gico, representados pelo c\u00e9sio em a\u00e7\u00e3o no corpo humano, se chocam com o sofrimento f\u00edsico e ps\u00edquico das v\u00edtimas \u2013 e dos que se compadecem por elas. Contradi\u00e7\u00e3o expressa em belas e terrificantes met\u00e1foras como &#8220;c\u00e3oazul&#8221; e &#8220;o mal e o horror amoral e sem nome&#8221;. Do fundo agn\u00f3stico e indiferente da f\u00edsica e da biologia que constituem o mundo e o homem, emerge o sofrimento e a dor, assim como o desejo de dar sentido a estes afetos e os compartilhar pela como\u00e7\u00e3o. Os poemas do livro encontram-se, portanto, num campo de tens\u00e3o que oscila entre a percep\u00e7\u00e3o do sem sentido da vida e o desejo de sentido, que constituem de forma contradit\u00f3ria o ser humano da modernidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O palimpsesto e o origami s\u00e3o met\u00e1foras agn\u00f3sticas do sem sentido do mundo, como j\u00e1 foi dito anteriormente, mas n\u00e3o apenas isso, pois remetem tamb\u00e9m ao seu oposto, ou seja, ao desejo de sentido. Palimpsesto e origami s\u00e3o, portanto, met\u00e1foras da tens\u00e3o, t\u00e3o cara ao poeta, entre aus\u00eancia de sentido e desejo\/constru\u00e7\u00e3o de sentido. Tens\u00e3o que atravessa a vida humana, suas mem\u00f3rias e a pr\u00f3pria escrita po\u00e9tica, que tamb\u00e9m quer significar o vivido:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>No palimpsesto da mem\u00f3ria fiz dobras em v\u00e9rtice<\/em><br \/>\n<em>e horizonte.<\/em><br \/>\n<em>e tamb\u00e9m: ideogramo origamis para<\/em><br \/>\n<em>a linguagem que se fala nas ruas sem nome<\/em><br \/>\n(p. 62)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As sucessivas escritas sobre o pano de fundo insond\u00e1vel do palimpsesto e as intrincadas dobraduras da mat\u00e9ria inerte do origami s\u00e3o (desejos de) constru\u00e7\u00f5es de sentido que o ser humano empreende, muitas vezes de forma inconsciente, a partir e contra o sem sentido do mundo e da vida. E no trecho acima o poeta nos alerta que sua escrita po\u00e9tica dev\u00e9m como palimpsesto e origami para resgatar e ressignificar a mem\u00f3ria. Ora, como nos ensina a psican\u00e1lise e a hist\u00f3ria, a rememora\u00e7\u00e3o afetiva e consciente do trauma passado \u00e9 o fundamento da reconstru\u00e7\u00e3o do sentido da vida presente, de uma forma mais s\u00e3 e humana. Processo de \u2018cura\u2019 e humaniza\u00e7\u00e3o que se aplica tanto ao indiv\u00edduo quanto \u00e0 coletividade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Um poema palimpsesto para lembrar de Leide<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>palimpsesto n\u00ba 1 para piano e p\u00e1ssaro morto<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Era uma vez uma menina. Era uma vez ela e um quarto. Num quarto hospital ela rodeada de bonecas. E o invis\u00edvel azul mastigava ela por dentro e por fora. Estava cercada de flores, e depois cercada de chumbo e pedras. Era uma vez uma menina que irradiaria por s\u00e9culos o seco silencioso som do sono.<\/em> (p. 29)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201cera uma vez\u201d do conto de fadas se refere a fatos fantasiosos mas que, em geral, possui um fundo de realidade social, como a fome, os dilemas morais, a sexualidade etc. Ao tentar desvendar o real na origem dos contos, o exegeta se depara com essa realidade difusa que as f\u00e1bulas significam e ressignificam sem cessar, como num palimpsesto de camadas sucessivas de sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o acontecimento do poema acima, a morte de Leide das Neves, n\u00e3o \u00e9 fantasioso nem indeterminado socialmente, e mesmo assim o autor se refere a ele com um \u201cera uma vez\u201d. Talvez esse recurso \u00e0 ret\u00f3rica da f\u00e1bula denuncie um esfor\u00e7o da sociedade em esquecer (indeterminar) o acidente radioativo e suas v\u00edtimas, ou talvez porque mesmo o mais documentado dos fatos, quando rememorado, acaba por se turvar e se misturar \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o. Rememorar, portanto, n\u00e3o deixa de ser um ato de ressignifica\u00e7\u00e3o, sempre, ainda mais quando se trata de uma mem\u00f3ria traum\u00e1tica que se quer esquecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, o poema rememorativo \u00e9 uma camada significante a mais e em meio ao palimpsesto de sentidos que todo ato lembrado (e esquecido) \u00e9. O \u201cera uma vez\u201d do poeta nos alerta que lembrar, mesmo que seja o fato real da morte de Leide, \u00e9 fabular, ressignificar, construir sentido, um sentido a mais que se acrescenta \u00e0 multiplicidade irredut\u00edvel do palimpsesto do que se \u00e9 narrado\/rememorado. E alerta ainda que h\u00e1 uma enorme liberdade em fabular, mesmo sobre, fatos reais. Pode-se escolher esquecer, aludir, refratar, relatar os fatos objetivamente etc. Ou se pode optar por uma lembran\u00e7a afetiva que reavive o acontecido para que ele nos afete novamente. \u00c9 este tipo de lembran\u00e7a que este poema (e todo o livro) procura re-construir, tornando o leitor um contempor\u00e2neo e um vizinho da trag\u00e9dia, como se f\u00f4ssemos testemunhas do sofrimento de conhecidos nossos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o sentido a mais que se fabula, que constr\u00f3i a partir do \u201cera uma vez\u201d \u00e9 o da como\u00e7\u00e3o e (porque n\u00e3o?) da compaix\u00e3o por Leide, acometida do mal amoral, invis\u00edvel e cego. O poema rememora os dias finais da menina, enclausurada num \u2018quarto hospital\u2019, rodeada de bonecas e cercada de flores e doen\u00e7a (\u201co invis\u00edvel azul mastigava ela por dentro e por fora\u201d), e depois cercada de chumbo e pedra. A partir do contato com o c\u00e9sio, a vida de Leide se torna uma sucess\u00e3o de dor e clausura, at\u00e9 o cerco final da morte, que a encerra num caix\u00e3o de chumbo dentro de um t\u00famulo de concreto. O procedimento anaf\u00f3rico de repeti\u00e7\u00e3o de sentidos (num quarto, rodeada, cercada) conduz a f\u00e1bula, de tom aparentemente singelo, num crescendo espiral de horror at\u00e9 o desfecho tr\u00e1gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao final do poema, h\u00e1 outros dois tipos de repeti\u00e7\u00f5es, desta vez sonoras, que s\u00e3o a alitera\u00e7\u00e3o em \u2018s\u2019 e a asson\u00e2ncia em \u2018o\u2019: \u201cEra uma vez uma menina que irradiaria <em>por s\u00e9culos o seco silencioso som do sono<\/em>\u201d [grifo meu]. Um arremate que faz ressoar na mat\u00e9ria-forma sonora do poema a radioatividade do corpo contaminado de Leide e a pr\u00f3pria morte. Mal radioativo que persiste mesmo depois da morte: \u201cirradiaria por s\u00e9culos\u201d. E esse mesmo ressoar sonoro forma, em termos sem\u00e2nticos, uma bela, e tr\u00e1gica, met\u00e1fora para a morte: \u201cseco silencioso som do sono\u201d. N\u00e3o \u00e9 apenas a radia\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a morte da menina que ressoa (irradia) de forma comovente na sonoridade final do poema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As repeti\u00e7\u00f5es do poema (an\u00e1fora, alitera\u00e7\u00e3o, asson\u00e2ncia), bem como o ritmo e a met\u00e1fora s\u00e3o procedimentos que d\u00e3o ao texto o seu aspecto po\u00e9tico, (re)dobrando a linguagem no canto silencioso do poema. Mas a repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um recurso mnem\u00f4nico, um artif\u00edcio para o leitor, e o poeta, relembrar o poema, o que ele diz e como o diz. No caso de um poema rememorativo como o \u201cpalimpsesto n\u00ba 1\u201d \u2013 e, na verdade, todo o livro \u2013 lembrar do texto \u00e9 relembrar da vida e da morte de Leide, \u00e9 explorar suas dobras recalcadas (de origami?), exp\u00f4-las e ressignific\u00e1-las, acrescentando sentidos e afetos a mais no palimpsesto da mem\u00f3ria coletiva dos fatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poema (todo o livro) \u00e9 uma explora\u00e7\u00e3o, exposi\u00e7\u00e3o e ressignifica\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria para resgatar, compreender, se indignar e se comover com o sofrimento da menina, v\u00edtima de um mal impessoal e indiferente ao sofrimento: o C\u00e9sio 137, mas tamb\u00e9m o Estado e boa parte da sociedade. Essa como\u00e7\u00e3o da rememora\u00e7\u00e3o, que nos leva ao compadecimento (padecer junto) para com as v\u00edtimas, nos lembra que ainda somos humanos carregados de afetos, lembran\u00e7a que j\u00e1 nos humaniza em meio \u00e0 fria impessoalidade do mundo moderno e seus \u201cs\u00f3lidos mecanismos da cidade goi\u00e2nia\u201d (p. 43), que quer moldar a exist\u00eancia humana apenas com a raz\u00e3o instrumental dos seres \u00fateis e funcionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Um livro necess\u00e1rio<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem Goi\u00e2nia nem o pa\u00eds querem relembrar o acidente radioativo de 1987, mas \u00e9 necess\u00e1rio remexer essa ferida mal curada da sociedade, que trouxe dor e morte a pessoas simples e sem voz. O livro \u00e9 uma tentativa de falar, n\u00e3o por, mas junto com essas pessoas e a partir de seu sofrimento que, afinal, \u00e9 o sofrimento humano diante da doen\u00e7a e da morte, agravado por uma sociedade cuja mec\u00e2nica fria e utilit\u00e1ria (\u201cas engrenagens da cidade\u201d, p. 24) esquece os desimportantes desde o nascimento e tenta esquec\u00ea-los ainda mais quando se tornam um problema para seu funcionamento e sua autoimagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Wesley Peres empresta sua voz po\u00e9tica, sua per\u00edcia experimental e seus dilemas existenciais e filos\u00f3ficos para seus concidad\u00e3os an\u00f4nimos que pereceram diante do mal invis\u00edvel e amoral da radia\u00e7\u00e3o. Se a vida humana, em ess\u00eancia, n\u00e3o tem sentido nem fundamento, esse generoso ato de rememorar, se comover e se compadecer pelo outro, e tamb\u00e9m de se indignar com a indiferen\u00e7a de boa parte da sociedade diante do sofrimento alheio, ato liter\u00e1rio-afetivo que \u00e9 do poeta mas tamb\u00e9m do leitor, talvez este ato construa para a vida um significado, n\u00e3o metaf\u00edsico, mas mundano, que fa\u00e7a o ser humano ter sentido n\u00e3o como ser em si transcendental, mas como ser social, fundado no ch\u00e3o hist\u00f3rico do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a como\u00e7\u00e3o do autor e do leitor com as v\u00edtimas faz com que suas vidas n\u00e3o tenham sido em v\u00e3o e sem sentido, assim como as nossas. Enquanto guardarmos vivamente na mem\u00f3ria a trag\u00e9dia e os que a sofreram, estaremos salvos, n\u00f3s e elas, n\u00e3o para o Reino de Deus, mas para a humanidade \u2018demasiadamente humana\u2019 do humano, com suas alegrias e sofrimentos, sua fragilidade, finitude, contradi\u00e7\u00f5es e imperfei\u00e7\u00f5es. Salvos como humanos, como seres sociais contra a indiferen\u00e7a da natureza e da sociedade (p\u00f3s)moderna que nos objetifica e instrumentaliza e, em consequ\u00eancia, nos des-socializa e desumaniza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Wilton Cardoso<\/em><\/strong><em> (Morrinhos\/GO,1971). Graduado em Jornalismo (UFG) e doutor em Estudos Liter\u00e1rios (UFG). Poeta e ensa\u00edsta, publica seus textos em seu <a href=\"https:\/\/wiltoncardoso.blogspot.com\/\"><strong>blog pessoal<\/strong><\/a>. \u00c9 funcion\u00e1rio p\u00fablico e mora em Goi\u00e2nia. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os versos azulados de Wesley Peres pelos mergulhos de Wilton Cardoso <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19576,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4131,2533,16],"tags":[11,3387,4163,2042,159,4164,189,109,3672],"class_list":["post-19575","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-148a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-aperitivo-da-palavra","tag-azul","tag-cesio-137","tag-goiania","tag-poemas","tag-radiacao","tag-resenha","tag-wesley-peres","tag-wilton-cardoso"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19575","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19575"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19575\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19579,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19575\/revisions\/19579"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19576"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19575"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19575"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19575"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}