{"id":19599,"date":"2022-05-28T13:47:11","date_gmt":"2022-05-28T16:47:11","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19599"},"modified":"2022-09-20T16:07:45","modified_gmt":"2022-09-20T19:07:45","slug":"aperitivopalavraii-24","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavraii-24\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>POEMA SEM FIM<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Sandro Ornellas<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Capa-Solha-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19607\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Capa-Solha-2.jpg\" alt=\"\" width=\"296\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Capa-Solha-2.jpg 296w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Capa-Solha-2-197x300.jpg 197w\" sizes=\"auto, (max-width: 296px) 100vw, 296px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>1\/6 de laranjas mec\u00e2nicas, bananas de dinamite<\/em> (2021) \u00e9 o mais recente livro de W. J. Solha, publicado pela editora paraibana Arriba\u00e7\u00e3, e \u00e9 o quinto poema de uma s\u00e9rie projetada para seis livros do poeta, romancista, cordelista, artista pl\u00e1stico e ator (cf. <em>O som ao redor<\/em>). Dos cinco volumes publicados at\u00e9 agora, conhe\u00e7o outros tr\u00eas \u2013 <em>Trigal com corvos<\/em> (2004), <em>Marco do mundo<\/em> (2012), <em>Esse \u00e9 o homem<\/em> (2013) \u2013, mas comentarei apenas esse quinto, embora o di\u00e1logo com os demais esteja claro desde o in\u00edcio, por exemplo, na montagem do texto atrav\u00e9s de refer\u00eancias hist\u00f3ricas, culturais e art\u00edsticas que fazem da s\u00e9rie um grande painel intertextual da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o me parece, no entanto, esta a sua vontade primeira \u2013 ser um painel \u2013, mas o resultado da sua organiza\u00e7\u00e3o discursiva (ou \u201cpo\u00e9tico-filos\u00f3fica\u201d, como afirma). Todos os quatro volumes que li s\u00e3o longos poemas costurando refer\u00eancias que formam uma malha dram\u00e1tica de personagens, eventos e reflex\u00f5es representando nosso esgotamento contempor\u00e2neo. De um lado, esgotamento da possibilidade de se fazer algo de novo em arte; de outro lado, esgotamento do pr\u00f3prio discurso hist\u00f3rico, esgotamento do futuro. Em <em>1\/6 de&#8230;<\/em>, \u00e0 contemporaneidade s\u00f3 restaria repetir a hist\u00f3ria moderna como farsa, trag\u00e9dia ou, como \u00e9 dito a certa altura, com\u00e9dia chapliniana (p. 46). Mas, nesse texto, o motor da hist\u00f3ria parece ser mesmo a farsa, particularmente no entrecruzamento desses di\u00e1logos dram\u00e1ticos com a narrativa e as interrup\u00e7\u00f5es l\u00edricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tamb\u00e9m como farsa que o discurso come\u00e7a e termina re-citando-se <em>ab ovo<\/em> \u2013 \u201cPerfeito desde o come\u00e7o, \/ <em>ab ovo<\/em>, \/ o poema n\u00e3o teria um primeiro vers\u00edculo como o do Velho Testamento&#8230;, \/ mas do Novo\u201d (p. 09). Desejando-se perfeito, no poema de Solha \u2013 na longa viagem inventariando refer\u00eancias, eventos, obras e nomes \u2013 tudo n\u00e3o passa de desastre, erro e decep\u00e7\u00e3o na busca de uma imposs\u00edvel perfei\u00e7\u00e3o humana. Isso \u00e9 percebido principalmente como fal\u00eancia da ideia de progresso, que se insinua sub-repticiamente, tanto em certos instantes do seu discurso, assim como na pr\u00f3pria discursividade do poema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de progresso \u00e9 transformada em mito falido na impossibilidade do poema fazer seu pr\u00f3prio discurso progredir e avan\u00e7ar, mesmo quando de modo n\u00e3o-linear. Todas as dezenas de refer\u00eancias hist\u00f3ricas e est\u00e9ticas parecem repetir o mesmo princ\u00edpio de impossibilidade, ilus\u00e3o e falha de um discurso que conduza a hist\u00f3ria para um futuro melhor, mesmo como profecia: \u201cTudo \/ &#8230;velho \/ &#8230;como o evangelho\u201d (p. 42), ou \u201cPoeta \/ n\u00e3o \u00e9 \/ P(r)o(f)eta. \/\/ Mas em tudo \/ h\u00e1 uma meta\u201d (p. 43), ou \u201cTudo&#8230; anseio puro \/ de adiamentos do \/ &#8230;futuro\u201d (p. 54). N\u00e3o h\u00e1 no poema futuro melhor. Nem passado. A sua narratividade n\u00e3o avan\u00e7a, mas vai e vem, perdida entre refer\u00eancias labir\u00ednticas de uma hist\u00f3ria exemplar em decep\u00e7\u00f5es e cat\u00e1strofes. Diferente da burguesa forma do romance, <em>1\/6&#8230;<\/em> descr\u00ea de qualquer aprendizado poss\u00edvel, de qualquer ret\u00f3rica aquisi\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia \u2013 o que se deduz do arco hist\u00f3rico e geogr\u00e1fico que ele abrange e do modo como costura liricamente tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto, portanto, ratifica essa fal\u00eancia do discurso tamb\u00e9m pelo que possui de lirismo po\u00e9tico. Por exemplo, o modo como as rimas s\u00e3o compostas \u2013 como aparecem em versos de grande oscila\u00e7\u00e3o r\u00edtmica \u2013 refor\u00e7a a in\u00e9rcia do discurso. Rimas associando palavras, ideias ou nomes que parecem girar em falso, n\u00e3o por mero gosto de ludismo verbal, mas de uma sequ\u00eancia gaguejante, de interrup\u00e7\u00e3o em interrup\u00e7\u00e3o do que poderia ser dito, refirmando a crise do progresso do discurso e da ideia de progresso. Exemplo: \u201c<em>travellings<\/em>&#8230; em <em>Toda a Mem\u00f3ria do Mundo<\/em>, \/ gl\u00f3ria do cinema franc\u00eas, \/ de 56, \/ nos&#8230; desfiladeiros \u2013 entre estantes&#8230; da <em>Bibliotheque Nationale<\/em> \u2013 com o final &#8230; em nada transcendental, \/ tipo <em>A idade da Raz\u00e3o<\/em> ou <em>Finnegans Wake<\/em>: \/ numa pilha de \/ &#8230; <em>Mandrake<\/em>\u201d (p. 14-5). Solha espalha rimas como pequenas bombas que v\u00e3o explodindo ao longo, \u00e0 medida em que caminhamos por seu texto. S\u00e3o rimas que impedem o discurso de avan\u00e7ar ou recuar, mantendo-se suspenso entre repeti\u00e7\u00f5es fon\u00e9ticas e diferentes refer\u00eancias, como pede qualquer lirismo forte. Eles chamam muitas vezes mais a aten\u00e7\u00e3o para si do que para o que se diz, roubam a aten\u00e7\u00e3o, v\u00e3o para o primeiro plano. Isto \u00e9: a discursividade se encontra interrompida por um lirismo antidiscursivo nas rimas: \u201ce a mente, \/ a que nada, \/ jamais, \/ diz \u201cBasta!\u201d \/ se ver\u00e1, \/ ent\u00e3o, \/ &#8230;vasta, \/\/ &#8230; como o fundo falso das po\u00e7as rasas, \/ com o c\u00e9u, o sol e a lua, \/ estrelas, \/ nuvens, \/ e tudo que tem \/ &#8230; asas \/\/ coisas que &#8230;persistem, \/ mesmo que se saiba que \u2013 em sua transmiss\u00e3o ao vivo, quase \/ &#8230; subjetivo \u2013 apenas de certo modo \/ existem\u201d (p. 58-9). Esta \u00faltima passagem \u00e9 tamb\u00e9m exemplar de outro recurso que refor\u00e7a o \u00edmpeto interruptivo: as retic\u00eancias, que parecem nesse livro carecer de maior funcionalidade pelo seu uso excessivo. Embora o excesso tamb\u00e9m esteja nas refer\u00eancias, nas utopias, nas rupturas e nas esperan\u00e7as e nas frustra\u00e7\u00f5es, que a certa altura imp\u00f5em<a id=\"remove-post-thumbnail\" href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-admin\/post.php?post=19599&amp;action=edit#\">Remover imagem destacada<\/a> um \u201cetc etc etc\u201d (p. 36) para se referir a Picasso, como se o excesso de informa\u00e7\u00f5es na contemporaneidade exigisse do poema apenas o ato de dar a refer\u00eancia, sem precisar de maiores reflex\u00f5es. Nada mais. Nada al\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poema vai, em sua progress\u00e3o narrativa, sofrendo todo o tempo com quedas l\u00edricas que p\u00f5em por terra qualquer maior ordena\u00e7\u00e3o de sentido. O texto sempre parece retomar essa ideia de falha no progresso. Aproximando a arte moderna da bomba at\u00f4mica, Solha explicita: \u201cou entre as&#8230; obras&#8230; de cubistas&#8230; e abstracionistas \/ do s\u00e9culo seguinte, \/ o XX, \/ em que essa&#8230; premonit\u00f3ria desintegra\u00e7\u00e3o&#8230; culminaria em sua obra-prima: \/ Hiroshima, \/\/ depois da qual \/ a arte \/ de Picasso, \/ perderia espa\u00e7o\u201d (p. 61). O mito do progresso est\u00e9tico precede o real progresso t\u00e9cnico e prepara a destrui\u00e7\u00e3o potencial do fato da vida humana. Qualquer semelhan\u00e7a com a pandemia n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se tal racioc\u00ednio sobre o progresso como mito conduziu v\u00e1rios contempor\u00e2neos nossos ao reacionarismo que vimos brotar na \u00faltima d\u00e9cada brasileira, ele conduziu o poeta justamente \u00e0 constata\u00e7\u00e3o do fim dos anseios modernos, n\u00e3o \u00e0 sua conserva\u00e7\u00e3o ou, pior, regress\u00e3o pol\u00edtica. Qualquer projeto moderno hoje (da \u201cdemocracia\u201d \u00e0 \u201cindividualidade\u201d ou \u00e0 \u201cautonomia\u201d) \u00e9 uma gigantesca \u201cwork in progress\u201d que nos mant\u00e9m programados e engajados em metas imposs\u00edveis, mas que simulam desejos divinos na cria\u00e7\u00e3o humana: \u201cmas&#8230; o que seria, \/ ent\u00e3o, \/ a soma dos objetivos, \/ que nos mant\u00e9m \/ vivos \/ &#8230; no engajamento&#8230; programado, \/ compuls\u00f3rio, \/ &#8230; a um <em>work in progress<\/em> permanentemente \/ &#8230; provis\u00f3rio? \/\/ Falha das mitologias (da grega e hebraica \u00e0 tupi-guarani), a de nos terem dito&#8230; coisas dignas de Dali: \/ que Deus teria feito o homem do barro, \/ como o oleiro faz o jarro \/ &#8230;e a vida, \/ em n\u00f3s, \/ teria sido inserida \u2013 por uma das generosidades divinas \u2013 atrav\u00e9s do sopro nas &#8230;narinas, \/ ou a n\u00f3s teria sido dado o fogo dos deuses, roubado, \/\/ [&#8230;]\u201d (p. 26-7). Aqui o poeta enuncia com todas as letras o progresso e o destino humano como mitos, a exemplo de Prometeu buscando prop\u00f3sitos em se estar vivo. Disso, s\u00f3 teria restado um discurso religioso laicizado na forma de um progresso hist\u00f3rico que nos legou a bomba at\u00f4mica, o controle tecnol\u00f3gico e a cat\u00e1strofe ambiental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paro por aqui, e sem concluir, pois que comento apenas o quinto dos \u201cseis tratados po\u00e9tico-filos\u00f3ficos\u201d de W. J. Solha. Se <em>1\/6 de laranjas mec\u00e2nicas, bananas de dinamite<\/em> \u00e9 de 2021, falta o sexto e \u00faltimo livro a completar a s\u00e9rie e apontar para algum fim. O pr\u00f3prio pensamento do poema n\u00e3o se conclui, pois o texto se fecha como come\u00e7ou, \u201c<em>ab ovo<\/em>\u201d, cobra mordendo o pr\u00f3prio rabo e girando em falso pela hist\u00f3ria como poesia, hist\u00f3ria cujo impasse hoje percebemos com clareza cristalina diante de n\u00f3s. Pedimos apenas ao poeta que o fim da s\u00e9rie chegue antes do fim do mundo, j\u00e1 que o poema n\u00e3o tem fim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Sandro Ornellas<\/em><\/strong><em> \u00e9 poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de D\u00f3i-me este mundo de violentas esperan\u00e7as (Patu\u00e1, 2021), Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O novo livro de W. J. Solha nas linhas de Sandro Ornellas <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19600,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4131,2533],"tags":[11,159,189,3969,247],"class_list":["post-19599","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-148a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-poemas","tag-resenha","tag-sandro-ornellas","tag-w-j-solha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19599","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19599"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19599\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19649,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19599\/revisions\/19649"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19600"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}