{"id":1961,"date":"2012-07-02T17:56:28","date_gmt":"2012-07-02T20:56:28","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=1961"},"modified":"2012-07-02T20:11:26","modified_gmt":"2012-07-02T23:11:26","slug":"aperitivo-da-palavra-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-3\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1963\" aria-describedby=\"caption-attachment-1963\" style=\"width: 491px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/A-primeira-bedida-menor.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1963\" title=\"A primeira bedida \" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/A-primeira-bedida-menor.jpg\" alt=\"\" width=\"491\" height=\"380\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/A-primeira-bedida-menor.jpg 491w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/A-primeira-bedida-menor-300x232.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 491px) 100vw, 491px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1963\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Rui Cavaleiro<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<p><strong>SAT\u00c3 ROUBA A CENA<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Sinvaldo J\u00fanior<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a hist\u00f3ria de <strong>Noite na taverna<\/strong>, de \u00c1lvares de Azevedo, acontecesse hoje em dia, seria mais ou menos assim: alguns amigos em um boteco (puteiro?) bebendo e filosofando sobre a vida, destilando sua erudi\u00e7\u00e3o, com direito \u00e0 cita\u00e7\u00e3o de Hoffmann, Spinoza, Hume, Schelling, Homero, Plat\u00e3o, Schiller etc. \u00c9 assim que se inicia o livro, mas em uma taverna, nos meados do s\u00e9culo XIX, com muito vinho e mulheres \u00e9brias e macilentas deitadas ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse ambiente de taverna, noite, bebedeira, filosofia, mulheres macilentas, exclama\u00e7\u00f5es, fuma\u00e7a, brindes (<em>Senhores, em nome de todas as nossas reminisc\u00eancias, de todos os nossos sonhos que mentiram, de todas as nossas esperan\u00e7as que desbotaram, uma \u00faltima sa\u00fade! (&#8230;) Ao vinho! Ao vinho!<\/em>), algu\u00e9m sugere uma conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria, daquelas sanguinolentas, fant\u00e1sticas, at\u00e9 absurdas (no bom sentido do termo), como as de Hoffmann, medonhas. Solfieri ent\u00e3o come\u00e7ou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era em Roma, a cidade do fanatismo e da perdi\u00e7\u00e3o. A noite estava bela. Solfieri encontra uma mulher p\u00e1lida \u00e0 noite. Segue-a at\u00e9 o cemit\u00e9rio. Ali adormece, espreitando-a. Um ano depois, de volta a Roma, ap\u00f3s uma orgia, ao entrar na igreja de um cemit\u00e9rio sem perceber (estava b\u00eabado), Solfieri se depara com a mesma jovem, mas agora morta. Tomou o cad\u00e1ver nos bra\u00e7os. Mil beijos nos l\u00e1bios sud\u00e1rio rasgado despida do v\u00e9u gozo fervoroso. \u00c0quele calor do peito de Solfieri, a donzela p\u00e1lida parecia reanimar-se. S\u00fabito abriu os olhos emba\u00e7ados. Catalepsia? Mas ao acordar desmaiara. Solfieri carrega ent\u00e3o o \u201ccad\u00e1ver\u201d pelas ruas. Chega ao seu aposento. A mulher desadormece. Riso convulso. Insanidade. Dois dias e duas noites levou ela de febre. Morre. Ap\u00f3s tudo isso, ela merecia uma est\u00e1tua \u2013 foi o que Solfieri mandou fazer em sua homenagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De volta \u00e0 taverna&#8230; Outro conviva se levantou: Bertram. Come\u00e7ou ent\u00e3o a contar sua hist\u00f3ria com \u00c2ngela, a donzela espanhola e morena. Amava muito essa mo\u00e7a, mas quando estava decidido a casar-se com ela, precisou partir da Espanha para Dinamarca, onde seu pai o chamava. Solu\u00e7os, l\u00e1grimas de esperan\u00e7a, beijos, promessas de amor, de voluptuosidade no presente e de sonhos no futuro. Partiu, enfim. Dois anos depois voltou. Mas \u00c2ngela j\u00e1 estava casada e tinha um filho. Ent\u00e3o, como viver aquele amor que n\u00e3o morrera, nem por parte dele nem por parte dela? Enquanto o marido n\u00e3o soubesse, tudo poderia ser feito nas sombras de um jardim, mas um dia o marido soube de tudo. E marido tra\u00eddo \u00e9 igual a Otelo. Ora, havia uma maneira de viver esse amor: \u00c2ngela mata o marido degolado e o filho. Por amor. Amor? Tudo resolvido, viveram uma vida insana, num viajar sem fim, aventuras, em noites belas. Por\u00e9m, um dia ela partiu. Partiu, mas sua lembran\u00e7a ficou como o fantasma de um mau anjo perto do leito de Bertram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de Bertram \u00e9 longa; n\u00e3o acaba a\u00ed n\u00e3o. Uma noite, ao cair b\u00eabado \u00e0s portas de um pal\u00e1cio, ele foi pisado por uns cavalos e por uma carruagem. O povo desse pal\u00e1cio o acudiu \u2013 um nobre vi\u00favo e uma beleza peregrina de dezoito anos. Bertram a desonrou. Roubou-a do fidalgo que lhe dera abrigo e fugiu. Ap\u00f3s enjoar, vendeu-a para um pirata, que logo na primeira noite foi morto por ela, que, por sua vez, afogou-se. Um dia, na It\u00e1lia, Bertram tentou suicidar-se; algu\u00e9m o salvou, mas esse algu\u00e9m morreu afogado por tentar salv\u00e1-lo. \u00d4 sina! Quando recobrou os sentidos, estava num escaler de marinheiros. O comandante gostara dele. <em>Mas<\/em> trazia a bordo uma bela mo\u00e7a, sua mulher. O leitor certamente imagina o que aconteceu. Amaram-se! Em alto-mar, ap\u00f3s um combate sangrento entre navios, sobraram cinco: Bertram, a mulher do comandante, o comandante e dois marinheiros. Dias se passaram, a parca comida acabara. Os dois marinheiros morreram. Restaram, ent\u00e3o, Bertram, a mulher\/amante e o comandante. \u00c9 a\u00ed que entra a antropofagia. Mas n\u00e3o falo, caro leitor, da antropofagia liter\u00e1rio-art\u00edstica da Semana de 22 n\u00e3o! Falo da outra: Bertram e a amada comem o comandante. Ap\u00f3s toda essa aventura e sofrimento, de repente o nosso protagonista sentiu-se s\u00f3, porque a amada n\u00e3o resistira:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Uma onda me arrebatara o cad\u00e1ver. Eu o vi boiar p\u00e1lido como suas roupas brancas, seminu, com os cabelos banhados de \u00e1gua; eu vi-o erguer-se na escuma das vagas, desaparecer e boiar de novo; depois n\u00e3o o distingui mais: era como a escuma das vagas, como um len\u00e7ol lan\u00e7ado nas \u00e1guas&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora \u00e9 a vez da hist\u00f3ria de Genaro. Aprendiz de pintor em casa de Godofredo Walsh, Genaro desonra a sua filha de 15 anos, Laura, mesmo apaixonado por Nauza, a esposa de Godofredo. Laura diz ter engravidado. Adoece \u2013 <em>cada dia torna-se mais p\u00e1lida, mas a gravidez n\u00e3o crescia<\/em>. Em seu leito de morte, ela chama Genaro: murmura que matara o filho deles antes de nascer. Laura enfim morre. Genaro, enquanto o velho chora a morte da filha, se declara a Nauza, que tamb\u00e9m o ama: <em>E as noites que o mestre passava solu\u00e7ando no leito vazio de sua filha, eu as passava no leito dele, nos bra\u00e7os de Nauza<\/em>. Um dia, ap\u00f3s um surto do velho, Genaro lhe confessa sobre a filha, o \u201cnamoro\u201d, o aborto, a morte dela \u2013 tudo. O mestre ent\u00e3o, depois, finge esquecer tudo. Uma noite, ap\u00f3s a ceia, o mestre Walsh tomou sua capa e uma lanterna e chama Genaro para acompanh\u00e1-lo. Em frente a um despenhadeiro o velho lhe prop\u00f5e o suic\u00eddio, uma forma de se desculpar por tudo que fizera. Genaro se joga ou Walsh o empurra? Mas n\u00e3o morre. \u00c9 resgatado. Volta \u00e0 casa do velho \u2013 se humilhar, mostrar-se arrependido ou se vingar? Nem um nem outro. Uma surpresa tr\u00e1gica o espera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegou a vez de Claudius Hermann, que inicia sua hist\u00f3ria se gabando: <em>em Londres, ningu\u00e9m ostentava mais dispendiosas devassid\u00f5es, nenhum nababo numa noite esperdi\u00e7ava <\/em>(sic)<em> somas como eu. O suor de tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es, derramava-o eu no leito das perdidas, e no ch\u00e3o das minhas orgias&#8230;<\/em> Numa corrida de cavalos, conhece uma mulher. Apaixona-se. Essa mulher era a duquesa Eleonora. Claudius, ent\u00e3o, come\u00e7a a segui-la at\u00e9 o pal\u00e1cio. Ao encontr\u00e1-la dava-lhe narc\u00f3tico a fim de, uma vez ela em sono profund\u00edssimo, am\u00e1-la. Decidiu rapt\u00e1-la, o que fez ap\u00f3s lhe dar um narc\u00f3tico fort\u00edssimo. Eleonora enfim acorda. Desespera-se: est\u00e1 com um estranho, num lugar estranho. Depois de muitos choros, dramas, relut\u00e2ncia, tentativa de convencimento, a duquesa decidiu ficar com Claudius. Aqui parou a hist\u00f3ria de Claudius Hermann.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; E a hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria? \u2013 bradou Solfieri.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; E a duquesa Eleonora? \u2013 perguntou Archibald.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(&#8230;)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; E a duquesa?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claudius soltou uma gargalhada. Caiu ao ch\u00e3o. Estava \u00e9brio como o defunto patriarca No\u00e9, o primeiro amante da vinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Johann \u00e9 o pr\u00f3ximo, dos amigos na taverna, a contar sua hist\u00f3ria. Era em Paris. Jogava bilhar com Artur, que venceu o jogo. Mas que encostara, voluntariamente ou n\u00e3o, na bola. Johann olha para ele com raiva, ao que o outro responde com um riso de esc\u00e1rnio. Johann d\u00e1-lhe uma bofetada. O mo\u00e7o saca de um punhal. A turma do \u201cdeixa-disso\u201d impede o avan\u00e7o do esbofeteado, que <em>rasgou nos dentes uma luva e atirou-me \u00e0 cara. Era insulto por insulto, lodo por lodo: tinha de ser sangue por sangue<\/em>. Exagero? Mas \u00e9 o que acontece. Antes do acontecimento fat\u00eddico, do duelo de morte, muitas perip\u00e9cias, com direito a carta, l\u00e1grimas, anel, brindes, bebida \u2013 tudo a criar um mist\u00e9rio extra. Enfim, <em>as pistolas se encostaram nos peitos. As espoletas estalaram, um tiro s\u00f3 estrondou&#8230;<\/em> Depois de tudo isso, o autor ainda colocou muito incesto na hist\u00f3ria. \u00d4 \u00c1lvares!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, chegamos ao cap\u00edtulo final de <strong>Noite na taverna<\/strong>, de \u00c1lvares de Azevedo: <em>Um beijo de amor<\/em>. Surpresas. Surpresas inveross\u00edmeis? Mais trag\u00e9dias, mas essas acontecidas ali, na taverna, entre os amigos contadores (inventadores?) de hist\u00f3rias. Contarei mais n\u00e3o. Leiam. \u00c9 uma leitura deliciosa, inclusive para os jovens da atualidade, alguns dos quais com suas vidas parecidas com as dos personagens do livro, embora em outro contexto, completamente diferente daquele. \u00c9 certo que, apesar de escrito por um autor brasileiro, nada possui de <em>literatura brasileira<\/em>, uma vez que nada ali espelha a hist\u00f3ria, o espa\u00e7o, o clima, a vegeta\u00e7\u00e3o, os costumes brasileiros. No entanto, esse fato n\u00e3o diminui o valor da obra, que \u00e9 universal, tendo em vista que hoje v\u00e1rios leitores se identificariam (identificar\u00e3o) com as suas discuss\u00f5es, as trag\u00e9dias e desventuras ali narradas. Leiam e ver\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_1964\" aria-describedby=\"caption-attachment-1964\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Lindo-desenho1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1964\" title=\"Lindo desenho\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Lindo-desenho1.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"509\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Lindo-desenho1.jpg 350w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Lindo-desenho1-206x300.jpg 206w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1964\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Rui Cavaleiro<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em <em>Mac\u00e1rio<\/em>, Sat\u00e3 rouba a cena<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pref\u00e1cio de <strong>Mac\u00e1rio<\/strong> \u00e9 um pequeno tratado de \u00c1lvares de Azevedo sobre o drama (o g\u00eanero dram\u00e1tico): <em>Haveria enredo, mas n\u00e3o a complica\u00e7\u00e3o exagerada da com\u00e9dia espanhola. Haveria paix\u00f5es, porque o peito da trag\u00e9dia deve bater, deve sentir-se ardente; mas n\u00e3o requintaria o horr\u00edvel, e n\u00e3o faria um drama daqueles que parecem feitos para reanimar cora\u00e7\u00f5es cadav\u00e9ricos, como a pilha galv\u00e2nica as fibras nervosas do morto!<\/em> Nessas obras dram\u00e1ticas, <em>a vida e s\u00f3 a vida! Mas a vida tumultuosa, f\u00e9rvida, anelante, \u00e0s vezes sangrenta \u2013 eis o drama<\/em>. Mas esse drama (<strong>Mac\u00e1rio<\/strong>) que a\u00ed vai, diz o autor, n\u00e3o \u00e9 exatamente o espelho de sua teoria, o seu tipo ideal, a sua utopia dram\u00e1tica. \u00c9 um rascunho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 um \u00f3timo rascunho, leitor. Nessa esp\u00e9cie de esbo\u00e7o de <em>obras que seriam mas que n\u00e3o foram escritas<\/em>, \u00c1lvares de Azevedo cria personagens interessant\u00edssimos, os principais dos quais Mac\u00e1rio, Sat\u00e3 e Penseroso. No entanto, embora n\u00e3o d\u00ea t\u00edtulo \u00e0 obra, \u00e9 Sat\u00e3 que rouba a cena, porque \u00e9 o personagem mais inteligente, mais sagaz, mais ir\u00f4nico. E, pelo menos como pintou \u00c1lvares de Azevedo, o mais sensato e racional, que destila sua verdade crua, mas VERDADE. H\u00e1, ora nas palavras de Sat\u00e3, ora nas palavras de Mac\u00e1rio, ora nas palavras de Penseroso, tanta verdade e tanta reflex\u00e3o, dos tipos universais porque hoje ainda elas soam familiares. Vejam:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00c9 uma coisa singular esta vida. Sabes que \u00e0s vezes eu quereria ser uma daquelas estrelas para ver de camarote essa com\u00e9dia que se chama o universo? Essa com\u00e9dia onde tudo que h\u00e1 mais est\u00fapido \u00e9 o homem que se cr\u00ea um espertalh\u00e3o? (&#8230;) A filosofia humana \u00e9 uma vaidade.<\/em> (Mac\u00e1rio)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Quem sabe onde est\u00e1 a verdade? Nos sonhos de poeta, nas vis\u00f5es do monge, nas can\u00e7\u00f5es obscenas do marinheiro, na cabe\u00e7a do doido, na palidez do cad\u00e1ver, ou no vinho ardente da orgia? <\/em>(Mac\u00e1rio)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A vida est\u00e1 na garrafa de conhaque, na fuma\u00e7a de um charuto de Havana, nos seios voluptuosos da morena. Tirai isso da vida \u2013 o que resta? <\/em>(Mac\u00e1rio)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bastaria citar v\u00e1rios trechos da obra, di\u00e1logos entre Mac\u00e1rio e Sat\u00e3 sobretudo, para o leitor ter uma id\u00e9ia da profundidade e complexidade de <strong>Mac\u00e1rio<\/strong>. A primeira parte da obra (nomeado de <em>Primeiro epis\u00f3dio \u2013 Numa estalagem de estrada<\/em>) \u00e9 simplesmente genial. A segunda parte (<em>Segundo epis\u00f3dio \u2013 Na It\u00e1lia<\/em>) \u00e9 menos bom, mas quando Sat\u00e3 reaparece em cena, os momentos de reflex\u00e3o sobre a vida mais deliciosos voltam, e tudo volta a ser genial e prazeroso. Em <strong>Mac\u00e1rio<\/strong> a descri\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o s\u00e3o o menos importante; o mais importante s\u00e3o a reflex\u00e3o e os di\u00e1logos entre os personagens: Mac\u00e1rio x Sat\u00e3; Mac\u00e1rio x Penseroso. S\u00e3o p\u00e1ginas de filosofia da boa, daquelas despretensiosas, mas profundas \u2013 sobre a poesia, sobre a esperan\u00e7a, sobre os mist\u00e9rios das mulheres, sobre a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da leitura de <strong>Noite na taverna<\/strong> e de <strong>Mac\u00e1rio<\/strong>, percebe-se que \u00c1lvares de Azevedo era um g\u00eanio que n\u00e3o aproveitou toda a pot\u00eancia de sua genialidade, pois morreu cedo demais, antes de completar 21 anos de idade. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o tentar pensar no que ele poderia ter escrito, se tivesse vivido mais alguns (ou muitos) anos. Seria ele uma esp\u00e9cie de Edgar Allan Poe, o nosso Poe, com seu veio ultra-imaginativo e suas hist\u00f3rias de amor e morte? N\u00e3o estaria ele no rol dos maiores g\u00eanios da literatura brasileira? S\u00e3o quest\u00f5es que n\u00e3o ser\u00e3o respondidas, mas que instigam os leitores de \u00c1lvares de Azevedo e da nossa literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O autor<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvares de Azevedo nasceu em S\u00e3o Paulo, em 1831. Entre as suas obras est\u00e3o <strong>Lira dos Vinte Anos<\/strong>, <strong>Pedro Ivo<\/strong>, <strong>Mac\u00e1rio<\/strong>, <strong>Noite na Taverna<\/strong> e <strong>O Conde Lopo<\/strong>. Morreu em 1852. Em seu t\u00famulo, o epit\u00e1fio famos\u00edssimo: \u201cFoi poeta, sonhou e amou na vida\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<\/em><em><\/em><strong><em>Sinvaldo J\u00fanior<\/em><\/strong><em>\u00a0\u00e9 um personagem do livro de narrativas Manic\u00f4mio, de <\/em><em><strong><a href=\"http:\/\/rogerssilvaoriginal.blogspot.com.br\/\">Rogers Silva<\/a><\/strong>. Nasceu e vive em Uberl\u00e2ndia-MG. Possui gradua\u00e7\u00e3o em Letras pela Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia \u2013 UFU. Possui Mestrado em Teoria Liter\u00e1ria (UFU) e Mestrado em Administra\u00e7\u00e3o (UFU), com \u00eanfase em organiza\u00e7\u00f5es envolvidas em Artes &amp; Cultura. Publicou artigos acad\u00eamicos e jornal\u00edsticos em diversos sites, revistas e jornais.\u00a0Atualmente \u00e9 doutorando em Literatura pela UNESP.\u00a0\u00c9 pesquisador das obras de Campos de Carvalho e Drummond)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sinvaldo J\u00fanior revisita marcos liter\u00e1rios em \u00c1lvares de Azevedo <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1962,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[407,2533],"tags":[460,11,461,462,464,459,149,458,463,457],"class_list":["post-1961","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-69a-leva-6o-aniversario","category-aperitivo-da-palavra","tag-alvares-de-azevedo","tag-aperitivo-da-palavra","tag-filosofia","tag-macario","tag-manicomio","tag-noite-na-taverna","tag-prosa","tag-rogers-silva","tag-sata","tag-sinvaldo-junior"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1961","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1961"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1961\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2069,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1961\/revisions\/2069"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1962"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1961"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1961"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1961"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}