{"id":19739,"date":"2022-09-18T14:23:20","date_gmt":"2022-09-18T17:23:20","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19739"},"modified":"2022-12-26T15:07:40","modified_gmt":"2022-12-26T18:07:40","slug":"aperitivopalavraii-25","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavraii-25\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p><strong>CONTEMPOR\u00c2NEA PELO AVESSO<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Sandro Ornellas<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CAPA-DANNY.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19741\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CAPA-DANNY.jpg\" alt=\"\" width=\"277\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CAPA-DANNY.jpg 277w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CAPA-DANNY-185x300.jpg 185w\" sizes=\"auto, (max-width: 277px) 100vw, 277px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acabo de ler <em>Danny<\/em>, narrativa escrita por Maria Elvira Brito Campos, publicada em 2022, em bonita edi\u00e7\u00e3o de bolso pela piauiense Cancioneiro. Novela l\u00edrica, melanc\u00f3lica e, de certa forma, geracional, o que me tocou particularmente. Como diz Antonio Candido em famoso pref\u00e1cio a <em>Ra\u00edzes do Brasil,<\/em> de Sergio Buarque de Hollanda: \u201ca certa altura da vida, vai ficando poss\u00edvel dar balan\u00e7o do passado sem cair na autocomplac\u00eancia, pois o nosso testemunho se torna registro de muitos\u201d. E a narrativa de Maria Elvira, sem ser propriamente seu testemunho, possui algo do teor testemunhal que diz de uma experi\u00eancia geracional, mesmo quando ficcionalizada. A pr\u00f3pria prefaciadora, Katia Borges, diz que o personagem t\u00edtulo \u201cse parece muito com os melhores amigos que tive\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E do que trata <em>Danny<\/em> em seus 45 pequenos cap\u00edtulos, quase fragmentos, v\u00e1rios com um \u00fanico par\u00e1grafo? Da err\u00e2ncia melanc\u00f3lica do seu protagonista ao longo dos dias, encarando uma grave doen\u00e7a \u2013 nomeada apenas como \u201ca bola cinza\u201d no interior da sua cabe\u00e7a \u2013, da fiel amizade de Laura, das paix\u00f5es e amores fugidios e irrealiz\u00e1veis de ambos, de suas solid\u00f5es, compartilhadas ou n\u00e3o, do seu confinamento e da consci\u00eancia do envelhecimento. Embora pudessem ser tratados de modo independente, todos esses \u201ctemas\u201d, digamos assim, v\u00e3o e vem ao sabor do humor dos personagens no fluxo narrativo, pois a autora investiga a experi\u00eancia de ambos, n\u00e3o os \u201ctemas\u201d em si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o personagens que possuem, por um lado, tra\u00e7os relativamente espec\u00edficos. Danny \u00e9 artista pl\u00e1stico e Laura, tradutora. Mas n\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 em quest\u00e3o na hist\u00f3ria, cujo foco varia de um para o outro, com \u00eanfase sempre maior na expectativa de Danny com a cirurgia e em seu cotidiano entorpecido \u00e0 base de rem\u00e9dios, mesmo depois de livre da \u201cbola cinza\u201d. Ele vive com dois gatos; ela com um cachorro. E formam um retrato cuja melhor defini\u00e7\u00e3o ao longo das p\u00e1ginas me aparece no cap\u00edtulo 26:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cLaura estava triste. Foi at\u00e9 a sacada, pensou em Danny. Um sobrevivente. T\u00e3o pouco e tudo. P\u00e1ssaros na garganta. Ela sabia que n\u00e3o estava preparada para nada disso de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Janelas abertas. Coisa boa \u00e9 morar no primeiro andar. Laura sorriu para as crian\u00e7as na rua e voltou para a sala. Sentou-se no sof\u00e1, seu cantinho gostoso, medicou os dedos, Johnny lhe fez um afago, quando o telefone tocou: <em>Hey, sugar, take a walk on the wild side.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Danny sempre a salvava!\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 assim, acompanhados pela trilha sonora de Lou Reed, somos conduzidos por uma narrativa cheia de desv\u00e3os afetivos e l\u00edricos e de certa forma c\u00famplice dos dois personagens sobreviventes do \u00faltimo quarto do s\u00e9culo XX. \u00c9 essa cumplicidade que cria, por outro lado, o aspecto geracional que sublinho na narrativa, seja pelas refer\u00eancias expl\u00edcitas, seja pelas impl\u00edcitas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 algo de selvagem e inocente na hist\u00f3ria escrita por Maria Elvira. Selvagem e inocente como a can\u00e7\u00e3o de Lou Reed e as hist\u00f3rias dos que n\u00e3o sobreviveram \u00e0quele quarto de s\u00e9culo: Caio F., Ana C., Leonilson, Cazuza, Renato Russo, dentre tantos outros que se pareceriam com Danny e Laura, se tivessem vencido o fato de crescerem durante a ditadura, a mesma que levou muitos \u00e0 loucura, ao suic\u00eddio e, de certa forma, se prolongou matando outros atrav\u00e9s da epidemia do HIV. Sobreviventes, selvagens e inocentes, Danny e Laura vestem a melancolia de uma gera\u00e7\u00e3o que chegou \u00e0 segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI fragilmente equilibrando solid\u00e3o e amizade, tes\u00e3o fugaz e esperan\u00e7as de amor, lucidez e entorpecimento, juventude e envelhecimento, vida e morte. O eixo que sustenta esses pratos na hist\u00f3ria \u00e9 a melancolia que os personagens carregam, embalados por can\u00e7\u00f5es daquele quarto de s\u00e9culo, que parece n\u00e3o os ter abandonado e lhes d\u00e1 uma aura de tristeza, que, todavia, traz muito da beleza narrativa de <em>Danny<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na minha leitura, apenas em dois momentos percebi tratar-se na verdade de uma hist\u00f3ria do s\u00e9culo XXI. Quando Danny, flertando imaginariamente com Bruno, pensa nas diferentes refer\u00eancias entre ambos: \u201cEm tempos de aplicativo, Bruno n\u00e3o iria compreender essa refer\u00eancia t\u00e3o <em>Satellitie of love<\/em>, t\u00e3o David Bowie em Marte, t\u00e3o fora daquele mundo&#8230;\u201d; e quando, depois de repentinas descri\u00e7\u00f5es do sil\u00eancio e vazio das ruas, Laura obriga Danny a se mudar para sua casa, manda-o tomar banho seguindo \u201cprotocolos\u201d e fala-se em \u201cconfinamento\u201d, em men\u00e7\u00e3o cifrada \u00e0 pandemia da Covid-19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez haja mais indicativos dessas duas primeiras d\u00e9cadas do atual XXI, mas a extemporaneidade da narrativa e dos dois personagens, seu descolamento subjetivo em rela\u00e7\u00e3o ao mundo social e as refer\u00eancias musicais citadas ao longo do texto n\u00e3o deixam d\u00favida tratar-se de \u201csobreviventes\u201d. Eu diria mesmo que a narrativa de Maria Elvira \u00e9 uma narrativa sobrevivente, pois lan\u00e7a m\u00e3o de uma atmosfera pop at\u00e9 certo ponto datada, em rela\u00e7\u00e3o ao que passou a se escrever no s\u00e9culo XXI. E a\u00ed est\u00e1 muito do charme dessa hist\u00f3ria. Se a profecia de Andy Warhol sobre a cultura pop foi de que todos teriam direito a quinze minutos de fama, para depois cair no ostracismo, esses quinze minutos acabam funcionando como refer\u00eancias hist\u00f3rico-geracionais. Se a cultura pop vive da descartabilidade, ela tamb\u00e9m permite entender muito da segunda metade do s\u00e9culo XX atrav\u00e9s, por exemplo, da trilha sonora, como \u00e9 o caso, em <em>Danny<\/em><strong>,<\/strong> de Lou Reed, Gracie Jones, Patti Smith e David Bowie rondando todo o tempo a vida dos personagens. E \u00e9 muito com o esp\u00edrito de Lou Reed que a narrativa se constr\u00f3i, transformando Danny e Laura em alguns dos personagens do \u00e1lbum <em>Transformer<\/em>, de 1972, do compositor novaiorquino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se h\u00e1 um pop alegre e festivo, registre-se que o pop de <em>Danny<\/em>, no entanto, \u00e9 triste e sombrio. E \u00e9 justo a\u00ed que percebo sua maior contemporaneidade. A contradi\u00e7\u00e3o do pop, desde as amplia\u00e7\u00f5es fotorrealistas de acidentes fatais feitas por Warhol, hoje est\u00e3o mais vis\u00edveis do que nunca. \u00cddolos <em>teen<\/em> do pop coreano (e n\u00e3o s\u00f3 eles) se suicidam em s\u00e9rie, mostrando os limites t\u00f3xicos da felicidade e esperan\u00e7a vendidas pela ind\u00fastria do entretenimento. J\u00e1 a melancolia e solid\u00e3o de Danny e Laura, se inicialmente faz sentido serem lidas como de uma gera\u00e7\u00e3o que envelheceu, tamb\u00e9m tem muito a ensinar \u00e0 gera\u00e7\u00e3o que cresce sob as tecnomaravilhas virtuais do neoliberalismo e que sofre igualmente, ou talvez ainda mais cedo, do que quem chegou \u00e0 pandemia com pouco mais de cinquenta anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Danny<\/em>, portanto, possui o que um pensador disse tratar-se da defini\u00e7\u00e3o do contempor\u00e2neo: o obscuro, o invis\u00edvel, o solit\u00e1rio, o sombrio e desatualizado, em um mundo no qual tudo e todos buscam ser vis\u00edveis, alegres, festivos, produtivos e estar no fluxo e na moda. Concluo a leitura assim, com a sensa\u00e7\u00e3o de que <em>Danny<\/em> \u00e9 uma narrativa contempor\u00e2nea pelo avesso, conseguindo falar daquilo que todos sabem estar \u00e0 espreita, mas a que ningu\u00e9m se refere por estar fora de moda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Sandro Ornellas<\/em><\/strong><em> \u00e9 poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de D\u00f3i-me este mundo de violentas esperan\u00e7as (Patu\u00e1, 2021), Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A atualidade de \u201cDanny\u201d, livro de Maria Elvira Brito Campos, por Sandro Ornellas <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19740,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4166,2533],"tags":[11,4173,2312,149,189,3969],"class_list":["post-19739","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-149a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-danny","tag-narrativa","tag-prosa","tag-resenha","tag-sandro-ornellas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19739","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19739"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19739\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19812,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19739\/revisions\/19812"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19740"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19739"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19739"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19739"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}