{"id":19868,"date":"2022-12-19T11:42:58","date_gmt":"2022-12-19T14:42:58","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19868"},"modified":"2022-12-26T15:03:50","modified_gmt":"2022-12-26T18:03:50","slug":"dedos-de-prosa-i-86","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-86\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Adriano Esp\u00edndola Santos<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19870\" aria-describedby=\"caption-attachment-19870\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/interna-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-19870 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/interna-1.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/interna-1.jpg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/interna-1-240x300.jpg 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-19870\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Yuri Bittar<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Homens de bens<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela tarde, mesmo com o compromisso de buscar o neto na escola, H\u00e9lio decidiu sair de casa para encontrar a sua turminha na pra\u00e7a Castelo Branco, porque julgou ser mais importante, caso de provid\u00eancia nacional. Era costume encontr\u00e1-la aos s\u00e1bados, no bar do Jonas Boca de Baleia, s\u00f3 que, desta vez, teriam de bolar um plano. O presidente viria a sua cidade, Fortaleza, no pr\u00f3ximo s\u00e1bado; era imprescind\u00edvel que o recebessem com honras e pompas, para que se sentisse mais poderoso do que j\u00e1 \u00e9 \u2013 pensava. Falaram sobre as perspectivas da tomada definitiva do poder pelo presidente; que n\u00e3o seria aceit\u00e1vel, de forma alguma, terem novamente o bandido de \u201cnove dedos\u201d. Gozavam e babavam ao falar, tomando, cada qual, a sua cervejinha de lei. H\u00e9lio achava que a conversa se estendia e que perderiam o fio da meada: \u201cCaros patriotas, um minutinho de sua aten\u00e7\u00e3o\u2026 Precisamos mostrar a nossa lealdade ao nosso chefe maior, e, para isso, temos de ser merecedores das ins\u00edgnias nacionalistas. Explico-me: o tempo est\u00e1 acabando. Chegou a hora de enfrentarmos os comunistas, custe o que custar. Faremos investidas radicais e filmaremos tudo, para entregar-lhe as grava\u00e7\u00f5es. O certo \u00e9 que, estando ele no poder, seremos prontamente o seu bra\u00e7o direito nesta capitalzinha de merda\u201d. Sim, H\u00e9lio falava como mandat\u00e1rio do povo, como o verdadeiro dono da prov\u00edncia. Os demais, \u00e1vidos por sangue, n\u00e3o escondiam o frenesi em come\u00e7arem os trabalhos. Combinaram de pegar as suas armas: uns com facas, espadas; outros, por disposi\u00e7\u00e3o dos novos decretos presidenciais, com suas pistolas lustrosas. Esconderam as bandeiras que flanavam nos carros. Seguiram em comboio para os bairros centrais da cidade, onde poderiam encontrar estudantes e outros seres degenerados. Depararam-se com uma v\u00edtima: uma senhora de seus quarenta anos, claramente diarista ou dom\u00e9stica \u2013 e a raz\u00e3o da escolha \u00e9 porque ela levava uma bolsa com o broche de Lula. Esperaram que entrasse numa rua esquisita, transversal \u00e0 avenida principal. Desceram quatro, com armas em punho. \u201cEncoste na parede, sua vagabunda! Vai votar mesmo em quem? Em quem?! Bora, desembuche! Ah, n\u00e3o quer falar, n\u00e9?! Pois, para aprender a votar direito, vai aguentar uns corretivos!\u201d. Bateram, bateram, at\u00e9 deix\u00e1-la desnorteada, com a roupa em farrapos, com um furo grande na bolsa, onde antes estava o bendito broche. Mais \u00e0 frente, encontraram quem queriam, um jovem metido a revolucion\u00e1rio. Colocaram-no no carro de H\u00e9lio e a\u00ed fizeram as maiores atrocidades: cortaram seus cabelos, bateram em sua boca, deixando-o desfigurado; obrigaram o rebelde a dizer que votaria no presidente. Largaram o sequelado numa rua distante, para os lados do bairro Ant\u00f4nio Bezerra. Queriam mais, mas H\u00e9lio achava que teriam material mais do que suficiente. Voltaram ao ponto de encontro e lan\u00e7aram, aos risos, os v\u00eddeos para os grupos de <em>WhatsApp<\/em>. \u00c0 noite, quando H\u00e9lio voltou regozijado para casa, percebeu que havia not\u00edcias sobre atentados pol\u00edticos feitos por idosos, defensores do presidente, em sua cidade. A mulher e o jovem lesados prestaram queixa e falaram ao ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o mais conhecido do pa\u00eds. H\u00e9lio titubeou, achou que poderia dar bronca, mas um colega, o S\u00e9rgio Cabe\u00e7\u00e3o, que estava no meio, telefonou para tranquiliz\u00e1-lo: \u201cIsso n\u00e3o vai dar em nada, patriota. Amanh\u00e3 j\u00e1 esquecer\u00e3o\u2026 E mais, o recado foi dado; a vagabundagem vai pensar duas vezes em usar um material com a figura do bandido de nove dedos\u201d. Qual n\u00e3o foi a surpresa de H\u00e9lio ao ser acordado pela mulher, no dia seguinte: \u201cO que foi isso, H\u00e9lio, me explique logo! Vi um v\u00eddeo na televis\u00e3o em que aparecia o seu rosto e dos seus amigos, espancando aquela mulher e o rapaz que apareceram ontem na televis\u00e3o. Ainda amea\u00e7aram o ministro careca. Voc\u00eas piraram ou o qu\u00ea?!\u201d. O mesmo ministro carequinha determinou a pris\u00e3o dos suspeitos. Meia hora depois de ter acordado, H\u00e9lio era levado \u00e0 delegacia, onde encontrou os comparsas. A maior tristeza, que declaravam no olhar, \u00e9 que n\u00e3o veriam mais a carreata do presidente na Capital. H\u00e9lio pensou que a esquerda estava por tr\u00e1s de sua pris\u00e3o; mas n\u00e3o lhe soaram estranhos os atos do dia anterior. Para as c\u00e2meras acenou e gritou, isolado: \u201cLula ladr\u00e3o, seu lugar \u00e9 na pris\u00e3o!\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/instagram.com\/adrianobespindolasantos\/\"><strong><em>Adriano Esp\u00edndola Santos<\/em><\/strong><\/a><em> \u00e9 natural de Fortaleza, Cear\u00e1. Em 2018 lan\u00e7ou seu primeiro livro, o romance \u201cFlor no caos\u201d, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, \u201cCont\u00edculos de dores refrat\u00e1rias\u201d e \u201co ano em que tudo come\u00e7ou\u201d, e em 2021 o romance \u201cEm mim, a clausura e o motim\u201d, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e V\u00edcio Velho. Tem textos publicados em revistas liter\u00e1rias nacionais e internacionais. \u00c9 advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir \u2013 sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Liter\u00e1ria e em Revis\u00e3o de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. \u00c9 dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o cora\u00e7\u00e3o inquieto. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A marca da insanidade desponta no conto de Adriano Esp\u00edndola Santos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19869,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4186,2534,16],"tags":[4189,81,41,4190,4188,149],"class_list":["post-19868","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-150a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-adriano-espindola-santos","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-homens-de-bens","tag-insanidade","tag-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19868","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19868"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19868\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19878,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19868\/revisions\/19878"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19869"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19868"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19868"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19868"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}