{"id":19912,"date":"2022-12-20T10:50:52","date_gmt":"2022-12-20T13:50:52","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=19912"},"modified":"2023-06-26T19:07:50","modified_gmt":"2023-06-26T22:07:50","slug":"aperitivo-da-palavra-ii-11","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-ii-11\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Do mime\u00f3grafo ao Arnaldo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><em>Por Gustavo Rios <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CAPA-EMOCOES-EM-TRANSITO-interna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19970\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CAPA-EMOCOES-EM-TRANSITO-interna.jpg\" alt=\"\" width=\"267\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CAPA-EMOCOES-EM-TRANSITO-interna.jpg 267w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/CAPA-EMOCOES-EM-TRANSITO-interna-199x300.jpg 199w\" sizes=\"auto, (max-width: 267px) 100vw, 267px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Emo\u00e7\u00f5es em tr\u00e2nsito<\/em> \u00e9 o mais recente trabalho do escritor ga\u00facho Ricardo Mainieri, publicado pela Patu\u00e1. Ricardo, que al\u00e9m de poeta nascido nos \u201cloucos e \u00e1ridos anos sessenta\u201d, \u00e9 publicit\u00e1rio, aparenta prestar um genu\u00edno tributo justamente aos tais-e-loucos anos sessenta, que cresceu muito bem nos setenta e desembocou com moral e pompa nos oitenta (ajudando a criar a gera\u00e7\u00e3o oitentista, chamada \u201cGera\u00e7\u00e3o Mime\u00f3grafo\u201d). Ao buscar refer\u00eancias desses per\u00edodos para o seu trabalho, do ritmo r\u00e1pido e dos trechos curtos, tipo um Leminsky ou um Torquato, \u00e0s tem\u00e1ticas, Mainieiri consegue nos trazer um bom livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dividido em partes, situa\u00e7\u00e3o que agradar\u00e1 o leitor, no sentido de que serve como guia para o conjunto de textos que seguem (dentro da proposta), <em>Emo\u00e7\u00f5es em Tr\u00e2nsito<\/em> se apresenta de forma coerente. A concep\u00e7\u00e3o de se fazer uma poesia leve, simples, direta e sem barroquismos ou classicismos, mas com alguma profundidade, deu o tom da obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos come\u00e7ar pela primeira parte: \u201cPoiesis\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no primeiro poema, percebemos a forma e a inten\u00e7\u00e3o do autor para seguir em frente. O texto, chamado \u201cMinor poet\u201d pode ser definido como uma boa apresenta\u00e7\u00e3o:<em> \u201csou poeta \/ de palavras escassas \/ imagens esparsas \/ meios-tons \/ n\u00e3o me imponham \/\u00a0 a aud\u00e1cia da l\u00e2mina \/ nem o inc\u00eandio dos versos \/ prefiro o reverso \/ lado alvo da lua \/ melodia de s\u00edlabas \/ com cad\u00eancia e refr\u00e3o \/ sou poeta menor \/ confesso \/ m\u00ednimo e l\u00edrico animal \/ a ode e o \u00e9pico \/ ficam bem para Homero \/ sou mero homem comum.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos ver de cara que a escrita do Mainieri possui, sim, qualidades. Na aparente busca por um tom, tendendo mesmo para a musicalidade (como um bom letrista de <em>rock and roll<\/em>, por exemplo), a gente consegue tamb\u00e9m fisgar, aqui e acol\u00e1, preciosidades que acabam por validar o conjunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejamos a seguinte frase: <em>\u201cn\u00e3o me imponham \/ a aud\u00e1cia da l\u00e2mina \/ nem o inc\u00eandio dos versos\u201d<\/em>. Agora, vamos prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 carga po\u00e9tica contida aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como uma boa escrita sempre sugere, ao se esquivar do que ele chama <em>\u201caud\u00e1cia da l\u00e2mina\u201d<\/em> ou de um <em>\u201cinc\u00eandio dos versos\u201d<\/em>, podemos nos perguntar (foi o que ocorreu comigo) o que o poeta deseja: fugir de um lirismo tacanho e\/ou escrever sem amarras, evitando o corte (l\u00e2mina)? A recusa de \u201cser\u201d um Homero para ser <em>\u201cmero homem comum\u201d<\/em> talvez nos d\u00ea algumas pistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, posso dizer que todos os seus poemas seguem essa estrutura, digamos. Mesmo as que pertencem aos outros blocos tem\u00e1ticos (\u201cMenoridade\u201d, \u201cViagens atemporais\u201d, \u201cBiodiversidade\u201d, \u201cEros tropical\u201d, \u201cInvent\u00e1rio das horas\u201d, \u201cUrbanagonia\u201d e \u201cPaisagem dilacerada\u201d), carregam essa mesma musicalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, ainda que enxergue um fio condutor ao longo das p\u00e1ginas, n\u00e3o seria correto afirmar que ele se repete infinitamente. Conforme j\u00e1 dito acima, a divis\u00e3o por temas foi de grande ajuda na leitura que fiz. Para cada parte, o escritor buscou uma forma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cMenoridade\u201d, por exemplo, o segundo bloco, Ricardo nos confronta com perguntas mais profundas e pessoais. A diferen\u00e7a \u00e9 que os questionamentos parecem surgir do ponto de vista de uma crian\u00e7a. Como algu\u00e9m (uma crian\u00e7a, no sentido metaf\u00f3rico da coisa, <em>por supuesto<\/em>) que se pergunta (e pergunta ao pr\u00f3ximo) sobre o sentido da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejamos o exemplo a seguir: <em>\u201ctarde \/ de domingo \/ depois do almo\u00e7o \/ do futebol \/ e do programa televisivo \/ o menino \/ se pergunta \/ sobre a vida \/ \u00e9 s\u00f3 isso?\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Notem que a linguagem se converte em fala. Fala de uma crian\u00e7a, de algu\u00e9m que perscruta o mundo ao redor com passos iniciais. Ideia que pode muito bem se justificar pelo t\u00edtulo: \u201cPrecoce Filosofia\u201d. Essa mesma voz, suposta e docemente infantil, representa a busca por respostas. Ou talvez a busca por mundo menos ordin\u00e1rio (o mundo que <em>\u201cpodia ser \/ &#8211; quem sabe \u2013 \/ um recanto ideal\u201d<\/em>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cViagens atemporais\u201d \u00e9 o tempo que lhe d\u00e1 guarida e mote (elementar, meu caro Watson!). E aqui mais uma vez o poeta consegue um resultado interessante, com destaques (trechos) louv\u00e1veis em alguns poemas: <em>\u201crel\u00e2mpago que corta \/ a moldura da face \/ num sorriso\u201d; \u201calguns projetos \/ viraram frutos \/ outros in\u00fatil \/ semeadura\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o de que quanto mais lemos, mais profundo o texto fica pode ser defendida com alguma moral. Por\u00e9m, a profundidade no caso n\u00e3o seria necessariamente uma viagem \u201cpara dentro\u201d, aquela introspec\u00e7\u00e3o chatinha e inintelig\u00edvel. Mainieri amplia o escopo de seus temas. Como no bloco seguinte, chamado \u201cBiodiversidade\u201d, um das mais interessantes se n\u00e3o pelo tema (necess\u00e1rio, mas amplamente conhecido), pela forma (Ricardo aqui arrisca \u201ctipo uns haicai\u201d; e podemos dizer que ele acerta): <em>\u201cnoite compacta: \/ \u00e9 de n\u00e9on cintilante \/ o trajeto que a lesma tra\u00e7a\u201d<\/em> (\u201cNatureza\u201d); <em>\u201cflores lilases \/ no espelho do dia \/ apaziguam o olhar\u201d <\/em>(\u201cIp\u00eas\u201d); <em>\u201cem teu verdeazul \/ ancoro meus olhos \/ ainda preservados\u201d <\/em>(\u201cMata Atl\u00e2ntica\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEros Tropical\u201d, de cunho fundamentalmente sensual (alguma d\u00favida, meu caro <em>Watson<\/em>?), talvez seja o bloco que menos instiga o leitor, apesar da tentativa louv\u00e1vel do autor em trazer \u00e0 tona imagens com tal pegada. Nos textos que comp\u00f5em essa parte, o que percebi foi uma certa repeti\u00e7\u00e3o de clich\u00eas. Algo que poderia ter sido subvertido (a-subvers\u00e3o-da-subvers\u00e3o, se considerarmos o tema \u201csexo\u201d como um tabu) na tentativa de se descolar da comum abordagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cInvent\u00e1rio das horas\u201d, o seguinte, com certeza o que mais exigiria de qualquer artista pela import\u00e2ncia do assunto, encontramos um escritor bem tranquilo e seguro de seu labor. E aqui, mais uma vez, fisgamos trechos que merecem destaque pela carga po\u00e9tica contida: vide \u201cTempo Atroz\u201d, \u201cA Face do Espanto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUrbanagonia\u201d e \u201cPaisagem Dilacerada\u201d, ambos com alguma semelhan\u00e7a entre si, s\u00f3 ratificam o talento do Ricardo Mainieiri. Sob um olhar francamente cr\u00edtico diante das mazelas do mundo (incluindo o caso da Boate Kiss), o escritor mant\u00e9m o prumo. \u00a0Abordando desde o consumo que norteia boa parte de nossas rela\u00e7\u00f5es \u00e0 pol\u00edtica (\u201cMais-valia\u201d). Desse modo, Mainieiri nos coloca frente a frente com quest\u00f5es urgentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, ainda que a gente possa enxergar o uso recorrente da forma e da estrutura (mas n\u00e3o <em>ad infinitum<\/em>, bom frisar), como se os poemas servissem apenas de justificativa para um suposto <em>gran finale<\/em> (a frase de impacto; a derradeira), creio que o <em>Emo\u00e7\u00f5es em Tr\u00e2nsito<\/em> ir\u00e1 agradar bastante aos que, assim como eu, gostam de poesia. Ainda mais sendo daquela de certa forma vinculada \u00e0 mo\u00e7ada da chamada \u201cGera\u00e7\u00e3o Mime\u00f3grafo\u201d. Ou mesmo semelhante ao experimentalismo bacana e benquisto de um Arnaldo Antunes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De minha parte, posso dizer que gostei do cara. E que venham mais coisas desse interessante poeta porto-alegrense.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Gustavo Rios<\/strong><\/em><em>\u00a0\u00e9 baiano e autor do livro Raps\u00f3dia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo Rios comenta o mais novo livro do poeta Ricardo Mainieri<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19967,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4186,2533],"tags":[11,2411,2255,17,189,4208,4209],"class_list":["post-19912","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-150a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-gustavo-rios","tag-patua","tag-poesia","tag-resenha","tag-ricardo-mainieri","tag-rio-grande-do-sul"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19912","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19912"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19912\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19990,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19912\/revisions\/19990"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19967"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19912"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19912"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19912"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}