{"id":20062,"date":"2023-06-19T10:31:11","date_gmt":"2023-06-19T13:31:11","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=20062"},"modified":"2023-06-26T18:58:35","modified_gmt":"2023-06-26T21:58:35","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-84","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-84\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O exerc\u00edcio da literatura \u00e9 feito de atravessamentos de toda ordem. E sabemos que a escrita \u00e9 tamb\u00e9m marcada pelo gesto espantado que \u00e9 a exist\u00eancia, esta senhora cujos dom\u00ednios n\u00e3o cessam de revelar mais e mais inquietudes. Quem escreve n\u00e3o passa impune pelas m\u00faltiplas imagens mundanas e seus inalien\u00e1veis efeitos, pois \u00e9 variada a oferta de cen\u00e1rios atrav\u00e9s dos quais tanto prosas quanto versos podem se deixar engendrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso certa dose de ousadia para enxergar al\u00e9m do horizonte das coisas acostumadas. Se somos, enquanto mat\u00e9ria humana, uma am\u00e1lgama de saberes e sabores \u00e9 porque tamb\u00e9m temos a prerrogativa de desbravar sentidos, sejam eles inaugurais ou n\u00e3o, sobretudo quando o tema \u00e9 cotejar as experi\u00eancias vividas ou imaginadas. No compasso do tempo, escrever pode ser tamb\u00e9m o ato de maquinar a mat\u00e9ria intang\u00edvel da vida. Nesse ponto, complexos ser\u00e3o os caminhos trilhados, os resultados colhidos, demonstrando o fasc\u00ednio que determinadas escrituras podem causar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vivian Pizzinga <\/strong>\u00e9 uma autora que sabe percorrer territ\u00f3rios onde a palavra se faz possuidora dos sentidos. Em seu engenho liter\u00e1rio, ela demonstra transitar com personalidade pelos caminhos vacilantes do ser, \u00edmpeto que faz de sua obra um recorte vigoroso dos mergulhos humanos contempor\u00e2neos. Refletir um pouco sobre o que somos hoje e o que fizemos de n\u00f3s tamb\u00e9m \u00e9 a t\u00f4nica das investidas dessa carioca cujas escrituras desacomodam pretensas convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de se dedicar ao of\u00edcio com a literatura, com trabalhos em prosa e poesia, Vivian atua na psican\u00e1lise. Sua obra abarca os livros de contos \u201cDias Roucos e Vontades Absurdas\u201d (2013) e \u201cA primavera entra pelos p\u00e9s\u201d (2015), ambos lan\u00e7ados pela Editora Oito e meio, bem como as colet\u00e2neas \u201cEscriptonita\u201d (Editora Patu\u00e1, 2016) e \u201cCada um por si e Deus contra todos\u201d (Tinta Negra, 2016). E mais recentemente, em 2022, publicou \u201cRu\u00eddo nos Dentes\u201d pela Editora Urutau, livro de poemas que inaugura os trajetos atuais da escritora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista que segue agora, Vivian Pizzinga fala sobre seu mais novo livro, al\u00e9m de alguns aspectos fundamentais que mobilizam o seu especial envolvimento com o fazer liter\u00e1rio. Atenta \u00e0s quest\u00f5es do seu tempo, revela-se tamb\u00e9m algu\u00e9m desperta para refletir criticamente sobre condi\u00e7\u00f5es que demandam um olhar aprofundado sobre nossas humanidades. Marcada por acenos inquietos, mostra-se uma autora cujos sentidos est\u00e3o abertos ao mundo e seus movimentos, atitude que n\u00e3o afasta certo ensaio contemplativo da vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_20066\" aria-describedby=\"caption-attachment-20066\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/imagem-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20066 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/imagem-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"386\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/imagem-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/imagem-1-300x232.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20066\" class=\"wp-caption-text\">Vivian Pizzinga \/ Foto: Kariane Pontes<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;Ru\u00eddo nos Dentes&#8221; traz em seu conjunto um mosaico de interioridades reveladas. S\u00e3o paisagens existenciais visitadas e que n\u00e3o se furtam em dialogar com o externo, esse outro que se det\u00e9m na leitura. O que dizer desses mergulhos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VIVIAN PIZZINGA &#8211; <\/strong>\u00c9 interessante voc\u00ea pontuar esse di\u00e1logo com o externo dessas interioridades reveladas nos textos de \u201cRu\u00eddo nos Dentes\u201d. A leitura que fiz deles quando estava fazendo a curadoria do livro \u2013 uma das leituras poss\u00edveis \u2013 me fez compreender tr\u00eas conjuntos de textos, e assim separei o livro em tr\u00eas partes: uma delas onde h\u00e1 menos di\u00e1logo com o externo; a segunda parte, onde h\u00e1 um contato com o externo em que este \u00e9 mais \u00edntimo, digamos assim, talvez at\u00e9 mesmo personalizado, ainda que isso n\u00e3o fique t\u00e3o claro; e uma \u00faltima parte em que esse externo seria mais coletivo, mais amplo e tamb\u00e9m mais difuso, em alguns sentidos. De algum modo, compreendi uma esp\u00e9cie de percurso que parte de algo mais interior \u2013 e muito ligado a experi\u00eancias sens\u00f3rias tamb\u00e9m \u2013 para um contexto mais exterior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nesse trajeto, onde as dimens\u00f5es interna e externa do ser se comunicam, quais desafios se delinearam mais evidentes na constru\u00e7\u00e3o do seu livro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VIVIAN PIZZINGA &#8211; <\/strong>Na verdade, apesar desses itiner\u00e1rios que mencionei, n\u00e3o acho que haja possibilidade de as dimens\u00f5es interna e externa n\u00e3o se comunicarem, suponho que elas est\u00e3o sempre se comunicando e \u00e0s vezes enxergamos melhor isso, outras vezes isso nos parece menos n\u00edtido. N\u00e3o acho que haja qualquer possibilidade de uma dimens\u00e3o existir sem a outra, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber nem mesmo se h\u00e1 uma preced\u00eancia do interno sobre o externo ou vice-versa, realmente trabalho com a no\u00e7\u00e3o de interse\u00e7\u00e3o em tudo. Quando uso essas ideias de externo e interno, mesmo para falar de como separei os textos e os arranjei nesse percurso de tr\u00eas partes, \u00e9 muito mais uma maneira de conseguir se exprimir sobre sensa\u00e7\u00f5es e viv\u00eancias, porque \u00e9 dif\u00edcil lan\u00e7ar m\u00e3o de uma linguagem, de um l\u00e9xico, em que se possa unir essas coisas que n\u00e3o s\u00e3o separadas. Ent\u00e3o, quando fa\u00e7o uma leitura dos meus pr\u00f3prios textos e identifico ali, naquele momento, textos mais internos, mais introspectivos, mais ligados ao sensorial, na verdade estou identificando uma predomin\u00e2ncia, mas n\u00e3o uma separa\u00e7\u00e3o. E por isso mesmo a pr\u00f3pria separa\u00e7\u00e3o nessas partes tamb\u00e9m foi um desafio, pois essa localiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o n\u00edtida. Ainda assim, naquele momento, eu sentia que precisava conferir alguma organiza\u00e7\u00e3o, talvez como forma de me organizar e de me situar nesses escritos. Mas outro grande desafio, na verdade o maior, foi em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio fato de eu estar escrevendo algo com uma inclina\u00e7\u00e3o mais po\u00e9tica, uma vez que minha experi\u00eancia anterior \u00e9 toda da prosa. Embora eu viesse escrevendo esses textos h\u00e1 alguns anos e eles estivessem se tornando mais frequentes, havia uma d\u00favida se aquilo que eu reconhecia como po\u00e9tico seria mesmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; De fato, \u00e9 poss\u00edvel ver em &#8220;Ru\u00eddo nos Dentes&#8221; um flerte seu com a chamada prosa po\u00e9tica. Como \u00e9 que voc\u00ea vislumbra essa esp\u00e9cie de fronteira que \u00e0s vezes chega a parecer t\u00e3o t\u00eanue entre os g\u00eaneros?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VIVIAN PIZZINGA &#8211; <\/strong>No segundo livro de contos que escrevi, \u201cA primavera entra pelos p\u00e9s\u201d, havia j\u00e1 alguns textos com essa inclina\u00e7\u00e3o mais para a prosa po\u00e9tica, ent\u00e3o essa fronteira, se muito r\u00edgida, ao menos pra mim n\u00e3o funciona. Por outro lado, n\u00e3o sou uma pessoa que estuda literatura no sentido acad\u00eamico, n\u00e3o tenho leitura sistem\u00e1tica desses debates, venho de outra \u00e1rea, talvez eu pudesse ser criticada em questionar um pouco essas fronteiras. Fato \u00e9 que, ao enviar a proposta de livro para a chamada, o g\u00eanero em que se encaixaria seria a poesia. Precisamos lan\u00e7ar m\u00e3o de outras nomenclaturas para dar conta de uma certa complexidade da realidade, porque as caixas muito bem amarradas e indiscern\u00edveis n\u00e3o d\u00e3o conta dos m\u00faltiplos recados da vida. Acho isso pra tudo, acho que com uma seriedade e uma responsabilidade nos trabalhos, estudos e atribui\u00e7\u00f5es (falando de profiss\u00f5es) \u00e9 poss\u00edvel rearranjar classifica\u00e7\u00f5es muito prontas, que t\u00eam uma historicidade, n\u00e3o s\u00e3o naturais, logo, podem ser compreendidas de outra forma. Acho isso pra tudo, ent\u00e3o n\u00e3o teria como eu n\u00e3o achar o mesmo no que se refere \u00e0 escrita: os textos de \u201cRu\u00eddo nos Dentes\u201d talvez n\u00e3o sejam poesia, talvez sejam, talvez em parte. Depende da p\u00e1gina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_20067\" aria-describedby=\"caption-attachment-20067\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/imagem-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20067 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/imagem-2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/imagem-2.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/imagem-2-300x209.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20067\" class=\"wp-caption-text\">Vivian Pizzinga \/ Foto: Kariane Pontes<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A segunda parte do livro \u00e9 introduzida por &#8220;diatribe&#8221;, texto que parece bem emblem\u00e1tico se pensarmos os diferentes deslizamentos identit\u00e1rios presentes na contemporaneidade. Na sua opini\u00e3o, o que o atual territ\u00f3rio das subjetividades tem a nos dizer de mais significativo?<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VIVIAN PIZZINGA &#8211; <\/strong>De mais significativo, n\u00e3o saberia dizer, mas algo que me chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de que, se por um lado estamos tendo uma ampla oportunidade de debates que h\u00e1 dez, quinze anos n\u00e3o t\u00ednhamos nesse n\u00edvel, com discuss\u00f5es importantes referentes \u00e0s pautas identit\u00e1rias em seus m\u00faltiplos aspectos, ou seja, ao mesmo tempo em que estamos nos dando conta cada vez mais de viv\u00eancias e atravessamentos hist\u00f3ricos, sociais, econ\u00f4micos que moldam, guiam, constituem nosso estar no mundo, por assim dizer, estamos, por outro lado, um pouco perdidos no que se refere \u00e0 nossa autonomia face \u00e0quilo que concorre para a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade hoje, s\u00e9culo XXI, 2023, para ser bem espec\u00edfica. Refiro-me a toda a problem\u00e1tica, a meu ver urgente, referente \u00e0s redes sociais e ao chamado capitalismo de vigil\u00e2ncia, tem\u00e1tica que inclusive est\u00e1 sendo debatida atualmente no congresso no que se refere \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o de plataformas digitais, o chamado PL das fake news. O que quero dizer \u00e9 que estamos sendo muito moldados por aquilo que vemos nas redes, nossos comportamentos est\u00e3o sendo direcionados, como nos t\u00eam alertado os pesquisadores desse campo de estudos, e n\u00e3o nos damos conta disso. Subjetividade e comportamento est\u00e3o intrinsecamente ligados, para falar de modo corriqueiro. Vou dar um pequeno exemplo: ouvi outro dia algu\u00e9m falando que o aplicativo de fotos do google enviou a essa pessoa umas fotos suas de alguns anos antes, aquelas t\u00edpicas lembran\u00e7as que acabam direcionando o rumo da mem\u00f3ria. Essa pessoa, que n\u00e3o estava pensando em determinada situa\u00e7\u00e3o, passou a pensar muito nela, o que direcionou um dado comportamento naquele momento. Ser\u00e1 que se essa foto n\u00e3o fosse vista, \u00e0 revelia dessa pessoa, o que se desencadeou depois teria acontecido? Ser\u00e1 que ela teria pensado naquilo? Claro que estamos sempre sujeitos a fazer uma associa\u00e7\u00e3o de ideias com algo que vemos no mundo, mas, quando isso acontece a torto e a direito, de modo acachapante, nas redes sociais, nos trocentos aplicativos que acabamos sendo obrigados a usar, como pensar o rumo dado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de subjetividades nessa conjuntura? Sendo que \u00e9 sempre bom refor\u00e7ar que tudo isso avan\u00e7a muito mais velozmente do que os debates e as regulamenta\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas voltadas a essas situa\u00e7\u00f5es. O mesmo podemos dizer desses filtros de redes sociais que tiram todos os supostos \u201cdefeitos\u201d do rosto de uma pessoa ou ainda as cl\u00e1ssicas compara\u00e7\u00f5es que podemos fazer com as vidas dos outros, mesmo que saibamos que o que \u00e9 mostrado numa rede social \u00e9 uma edi\u00e7\u00e3o de si (isso quando o sabemos). Tudo isso \u00e9 produ\u00e7\u00e3o de subjetividade o tempo inteiro, de modo acr\u00edtico, o que \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o se pensarmos no que falei no in\u00edcio quanto aos debates que t\u00eam nos permitido nos dar conta das for\u00e7as hist\u00f3ricas que nos constituem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Por falar no universo digital, h\u00e1 algum tempo temos nos deparado com a superexposi\u00e7\u00e3o do eu nas m\u00faltiplas plataformas de produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados. Do corpo ao texto, h\u00e1 uma expans\u00e3o do campo autobiogr\u00e1fico que gera mais e mais narrativas performatizadas e que tamb\u00e9m orbitam em torno da vida ordin\u00e1ria, sugerindo que pessoas comuns, e n\u00e3o somente famosos, s\u00e3o protagonistas desse processo no qual as exist\u00eancias parecem reinventadas. Nossa sociedade se acostumou com a espetaculariza\u00e7\u00e3o e, com isso, perdeu a capacidade de lidar com seus pr\u00f3prios dilemas e dores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VIVIAN PIZZINGA &#8211; <\/strong>Pois \u00e9, \u00e9 uma excelente pergunta, porque j\u00e1 n\u00e3o sei mais se h\u00e1 um habituar-se \u00e0 espetaculariza\u00e7\u00e3o ou se estamos precisando muito nos dirigir a um outro, a algu\u00e9m, se \u00e9 uma necessidade de interlocu\u00e7\u00e3o que tem a ver com esse encapsulamento das nossas vidas, o que tamb\u00e9m me parece outra contradi\u00e7\u00e3o, porque, mais uma vez, parece &#8211; sempre parece &#8211; que estamos muito mais conectados, mas talvez a forma como isso se d\u00ea n\u00e3o contemple nossas necessidades mais profundas de intimidade, de trocas significativas. Talvez seja uma hiperconex\u00e3o que implique alguma desconex\u00e3o em outras esferas, e ficamos desesperadamente correndo atr\u00e1s de alguma coisa por esse caminho do espet\u00e1culo de si, de n\u00f3s mesmos, o glamour da nossa intimidade mais corriqueira. Ou pode ser que seja isso e mais um monte de outras coisas. Acho que o que voc\u00ea aponta na sua pergunta est\u00e1 relacionado com o que abordei na pergunta anterior, uma vez que parece que estamos mais cientes de tudo o que pode operar em n\u00f3s, estamos talvez menos ing\u00eanuos, discutindo mais algumas coisas, e, por outro lado, parece que estamos menos conscientes do quanto seguimos de forma um tanto quanto aut\u00f4mata nessa avalanche de ter que mostrar tudo o tempo todo, como se a coisa n\u00e3o tivesse acontecido caso n\u00e3o a mostr\u00e1ssemos. S\u00e3o muitas as hip\u00f3teses, sempre lembrando que, ao falar disso, n\u00e3o estou apontando o dedo pro outro sem olhar a minha parte nesse latif\u00fandio, eu tamb\u00e9m sou aquela que, junto com todo mundo, posta, dialoga (ou pensa que o faz), d\u00e1 um tom confessional a dizeres abertos a sei l\u00e1 quem e por a\u00ed vai. N\u00e3o sei se \u00e9 uma necessidade de se comunicar que tem assumido outras formas, mas certamente o componente da espetaculariza\u00e7\u00e3o \u2013 e isso n\u00e3o sou nem eu quem fala, sigo outros \u2013 est\u00e1 presente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em tempos da expans\u00e3o da chamada intelig\u00eancia artificial, muito se tem discutido sobre o quanto isso poderia afetar a quest\u00e3o da autoria na contemporaneidade. O qu\u00e3o problem\u00e1tico seria admitir uma obra liter\u00e1ria produzida inteiramente a partir da m\u00e1quina?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VIVIAN PIZZINGA &#8211; <\/strong>Eu realmente acho isso tudo muito estranho. Ainda n\u00e3o amadureci dentro de mim os encaminhamentos disso, os desdobramentos do que isso pode gerar, uma obra liter\u00e1ria ser produzida inteiramente a partir da m\u00e1quina, e nem tenho certeza se isso \u00e9 efetivamente poss\u00edvel. Apesar de j\u00e1 terem me mostrado uns testes corriqueiros, do tipo pedir para a intelig\u00eancia artificial escrever um conto sobre isso ou aquilo e ver o resultado, n\u00e3o tenho certeza se se pode dizer que uma obra liter\u00e1ria poderia ser produzida efetivamente a partir da\u00ed. Onde fica o estilo, por exemplo? Mas vamos que fosse poss\u00edvel? A quest\u00e3o da autoria j\u00e1 tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um assunto simples, porque ela evoca uma suposta coes\u00e3o de quem escreve um texto, quando, na verdade, somos atravessados por mil e uma coisas que lemos, vemos e ouvimos, muitas delas sem percebermos que lemos, vemos e ouvimos, mas, ao mesmo tempo, em algum momento, conseguimos concatenar aquilo em alguma produ\u00e7\u00e3o, no caso, escrita. A autoria seria da intelig\u00eancia artificial? Por outro lado, o debate sobre os direitos autorais, sobre a profiss\u00e3o do\/a escritor\/a, essas problem\u00e1ticas antigas, tensas e nunca conclu\u00eddas, est\u00e3o tamb\u00e9m envolvidas nisso. Tudo o que tenho dentro de mim, no momento atual, \u00e9 um grande estranhamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_20068\" aria-describedby=\"caption-attachment-20068\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Foto-3-Kariane-Pontes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20068 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Foto-3-Kariane-Pontes.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Foto-3-Kariane-Pontes.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Foto-3-Kariane-Pontes-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20068\" class=\"wp-caption-text\">Vivian Pizzinga \/ Foto: Kariane Pontes<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; De que maneira a sua viv\u00eancia com a psican\u00e1lise cruza seus caminhos com a literatura? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VIVIAN PIZZINGA &#8211; <\/strong>Apesar de eu n\u00e3o deliberar enredos ou textos a partir da minha trajet\u00f3ria na psican\u00e1lise, a experi\u00eancia profissional e os estudos, al\u00e9m da minha viv\u00eancia pessoal, acabam fazendo parte da minha produ\u00e7\u00e3o, quando vejo j\u00e1 aconteceu. Na \u00e9poca em que trabalhava em ambulat\u00f3rio de sa\u00fade mental, e que eu estava escrevendo muitos contos, naturalmente as ideias tomadas por essa pegada da psican\u00e1lise vinham para essas narrativas curtas. Alguns contos que escrevi \u2013 \u201cEletroconvulsoterapia\u201d, \u201cA loucura \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica\u201d, \u201cUma ci\u00eancia do atraso\u201d, \u201cHaldol Decanoato\u201d, cujos t\u00edtulos j\u00e1 indicam territ\u00f3rios de interesse do campo da sa\u00fade mental e da psican\u00e1lise, ou ainda \u201cT\u00e9rmino\u201d, cujo t\u00edtulo n\u00e3o d\u00e1 sinal de nada mas que tamb\u00e9m traz essa influ\u00eancia &#8211; s\u00e3o exemplos de textos que acabam muito influenciados por essas viv\u00eancias profissionais no campo da sa\u00fade mental e nas reflex\u00f5es que a psican\u00e1lise impulsiona. \u201cHaldol Decanoato\u201d, por exemplo, t\u00edtulo de um dos contos que integra \u201cDias Roucos e Vontades Absurdas\u201d, \u00e9 o nome de uma medica\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica. Medica\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica n\u00e3o \u00e9 psican\u00e1lise, mas as coisas v\u00e3o se entrela\u00e7ando em muitos dos textos que escrevi durante v\u00e1rios anos. Como eu estava muito imersa nessas viv\u00eancias, trabalhando no Instituto Municipal Nise da Silveira (que existe ainda mas que foi um hospital psiqui\u00e1trico de refer\u00eancia na Zona Norte do Rio de Janeiro e que atravessou um processo de desinstitucionaliza\u00e7\u00e3o na luta antimanicomial), atendendo muitos pacientes no ambulat\u00f3rio, al\u00e9m de pacientes no consult\u00f3rio, esse era meu universo, e isso aparecia espontaneamente no que eu escrevia. Agora acredito que isso est\u00e1 menos urgente no que escrevo, menos \u00e0 flor da pele, mas me constitui em muitas medidas, ent\u00e3o n\u00e3o deixa de estar presente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que lhe parece mais urgente nos tempos atuais? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VIVIAN PIZZINGA &#8211; <\/strong>Dif\u00edcil, mas eu diria que me parece muito urgente a gente relembrar e refor\u00e7ar os la\u00e7os coletivos e sociais. A consci\u00eancia de classe, a preocupa\u00e7\u00e3o com o comum, o bem comum, a coisa p\u00fablica. A lembran\u00e7a ou o aprendizado de que n\u00e3o estamos isolados, de que nossos interesses n\u00e3o podem estar desvinculados dos interesses sociais, coletivos, que estamos imersos em culturas e que a nossa n\u00e3o \u00e9 nem a \u00fanica nem a melhor. E que, nisso, tudo o que defendemos tem sua historicidade, que precisa ser resgatada ao menos em parte, porque a\u00ed n\u00e3o nos prendemos tanto em r\u00f3tulos, diagn\u00f3sticos, etiquetas, estere\u00f3tipos, formas de leitura de pessoas e processos estanques, enfim, autoenganos. Acho urgente que estejamos atentos e atentas a isso. Fico achando \u00e0s vezes que a pandemia teve um lado de refor\u00e7ar um certo individualismo. \u00c9 dif\u00edcil resumir, mas eu iria por esse caminho, que acho, a princ\u00edpio, que abriria outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O quanto Vivian Pizzinga conhece Vivian Pizzinga? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VIVIAN PIZZINGA &#8211; <\/strong>Eu tenho constru\u00eddo uma Vivian Pizzinga e tenho descoberto rea\u00e7\u00f5es de uma Vivian Pizzinga que t\u00eam a ver com circunst\u00e2ncias, porque acho que \u00e9 isso, a gente s\u00f3 sabe se h\u00e1 uma Vivian Pizzinga, e o que seria isso, diante das circunst\u00e2ncias, externas, internas e as que est\u00e3o no meio de ambas (talvez s\u00f3 essas existam). Ou seja, o que a gente \u00e9 ou tenta ser e faz ou tenta fazer \u00e9 algo sempre relacional, \u00e9 sempre um movimento oscilat\u00f3rio, e n\u00e3o garante nada, tampouco \u00e9 linear. H\u00e1 uma Vivian a ser conhecida? O quanto essa que est\u00e1 a\u00ed escrevendo \u00e9 resultado de uma interse\u00e7\u00e3o de humores, afetos, coisas variadas de muitas esp\u00e9cies? S\u00e3o muitas, n\u00e3o \u00e9 nenhuma? Freud j\u00e1 nos tirou do eixo ao apontar o inconsciente, mas certamente eu poderia dizer que Vivian tem um h\u00e1bito de olhar para si e suas a\u00e7\u00f5es\/rea\u00e7\u00f5es\/intera\u00e7\u00f5es e se espantar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DA &#8211; Afinal, por que escrever? <\/strong><\/p>\n<p><strong>VIVIAN PIZZINGA &#8211; <\/strong>N\u00e3o tenho resposta melhor a dar que n\u00e3o a de Blanchot: Escrever para n\u00e3o morrer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_20069\" aria-describedby=\"caption-attachment-20069\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Foto-4-Kariane-Pontes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20069 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Foto-4-Kariane-Pontes.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Foto-4-Kariane-Pontes.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Foto-4-Kariane-Pontes-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20069\" class=\"wp-caption-text\">Vivian Pizzinga \/ Foto: Kariane Pontes<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em> \u00e9 editor da Diversos Afins, sonhador, m\u00edope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre palavras e acenos contempor\u00e2neos, uma entrevista com a escritora Vivian Pizzinga  <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20063,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4214,16,2539],"tags":[63,4218,137,887,489,1227,2716],"class_list":["post-20062","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-151a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-escritora","tag-fabricio-brandao","tag-literatura","tag-pequena-sabatina","tag-psicanalise","tag-vivian-pizzinga"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20062","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20062"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20062\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20070,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20062\/revisions\/20070"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20063"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20062"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20062"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20062"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}