{"id":20099,"date":"2023-06-20T09:21:46","date_gmt":"2023-06-20T12:21:46","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=20099"},"modified":"2023-11-29T20:02:02","modified_gmt":"2023-11-29T23:02:02","slug":"dedos-de-prosa-iii-77","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-77\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Geraldo Lavigne de Lemos<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_20105\" aria-describedby=\"caption-attachment-20105\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/depois-da-chuva-interna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20105 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/depois-da-chuva-interna.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/depois-da-chuva-interna.jpg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/depois-da-chuva-interna-240x300.jpg 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20105\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Viola Sellerino<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A descoberta do infinito<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ariel e Duda tinham uma grande amizade. Nasceram na mesma data e local. Enquanto Ariel queria agitar, Duda cuidava de tudo. E era isso que fazia a amizade t\u00e3o forte. Completavam-se nas diferen\u00e7as. Ariel nunca abandonou Duda no t\u00e9dio. Duda jamais deixou Ariel entrar em enrascada. Contudo havia algo errado. O mundo parecia estar de cabe\u00e7a para baixo. Minhocas que eram, viviam na terra. Sabiam que em dire\u00e7\u00e3o ao centro do planeta tinha pedra e, mais para dentro, tinha muita quentura, tanta que a pedra derretia. Para a dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, o mundo terminava nos limites da superf\u00edcie, onde a terra se limitava com o ar. Minhocas ocuparam a regi\u00e3o subterr\u00e2nea desde o in\u00edcio dos tempos. Por\u00e9m nenhum salto de minhoca nos ares foi registrado. E isso intrigava Ariel. Talvez temessem a captura por seres que habitavam aquele espa\u00e7o, como aves, humanos e toupeiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certo dia, Ariel convenceu Duda a irem aos limites do mundo conhecido. Queria testar a realidade. E queria registrar aquele momento. Por isso Duda iria tamb\u00e9m. Ariel portava uma c\u00e2mera fotogr\u00e1fica. Quando chegou \u00e0 casa de Duda com o plano pronto, a primeira foto foi da sua express\u00e3o reticente:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Tsc tsc tsc, isso n\u00e3o vai dar certo, disse Duda balan\u00e7ando a cabe\u00e7a de um lado para o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Claro que vai, Duda, e lembrar\u00e3o de n\u00f3s por isso, respondeu Ariel categoricamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os olhares se atravessaram de forma profunda. Ariel j\u00e1 sabia a resposta. Se isso acontecia, Duda tinha topado. Era um desafio singular e Duda sempre acompanhava Ariel em suas ideias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 N\u00e3o passaremos por essa vida \u00e0 toa, afirmou Ariel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Mas n\u00e3o fa\u00e7o quest\u00e3o de escolher algo que seja perigoso, retrucou Duda enquanto caminhavam pela rua central do vilarejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminharam uma hora pelas ra\u00edzes laterais, depois duas horas pela raiz pivotante, at\u00e9 atingirem a zona principal das ra\u00edzes do Ip\u00ea-amarelo, perto do tronco, e pararam para descansar. Pegaram o lanche na mochila, a \u00e1gua, e confabularam o que poderia existir na atmosfera do planeta terra. Ser\u00e1 que de fato conheciam? O que aconteceria naquela jornada? Eram d\u00favidas que somente seriam respondidas depois que terminassem o dia. Finalizaram a refei\u00e7\u00e3o e seguiram viagem. Afastaram-se uma boa dist\u00e2ncia do tronco do Ip\u00ea-amarelo e depois subiram em dire\u00e7\u00e3o ao fim do solo. Quando atingiram a superf\u00edcie, conheceram de imediato o infinito. Que vis\u00e3o espl\u00eandida! O tronco do Ip\u00ea-amarelo erguia-se imenso, com a copa aberta l\u00e1 no alto, t\u00e3o distante, seguida de um intermin\u00e1vel azul do c\u00e9u. Enquanto contemplavam a vista sem precedentes, a brisa acariciou os seus rostos e sentiram algo realmente novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ariel, nada que eu pudesse imaginar explicaria o que sinto agora, confessou Duda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A manifesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o demandava resposta. Sorriram e continuaram a sentir a brisa. Era um dia de ver\u00e3o. O tempo estava limpo, a temperatura amena. Poderiam passar dias assim, n\u00e3o fosse o risco desconhecido. De onde estavam, planejaram como seria o salto. Duda permaneceu no mesmo lugar e Ariel foi at\u00e9 a raiz mais pr\u00f3xima, que estava exposta fora da terra. Subir uma raiz n\u00e3o era como andar no subsolo. Precisava de mais equil\u00edbrio para superar os obst\u00e1culos sem apoio, vencer a gravidade e n\u00e3o escorregar. Para Ariel n\u00e3o foi t\u00e3o dif\u00edcil, mas para Duda seria. Duda suava s\u00f3 de ver Ariel vencer cada etapa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Duda, existe muito mais terra do que sempre imaginamos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exclama\u00e7\u00e3o de Ariel tentava traduzir a sensa\u00e7\u00e3o de enxergar o gramado que circundava o Ip\u00ea-amarelo, as \u00e1rvores ao fundo e o desconhecido brilho da \u00e1gua reunida no lago pr\u00f3ximo. Duda interrompeu seu \u00eaxtase:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Pule logo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ariel atendeu \u00e0 ordem. Retorceu todos os an\u00e9is de seu longil\u00edneo corpo e saltou aos flashes de Duda. Enquanto manobrava no ar com a naturalidade inexplic\u00e1vel para qualquer minhoca, um p\u00e1ssaro mergulhou em sua dire\u00e7\u00e3o. Queria capturar Ariel em pleno voo. Duda assustou-se, gritou, tirou fotos e correu, tudo por instinto e medo. Sentiu ent\u00e3o algo empurrar sua cabe\u00e7a contra a terra e n\u00e3o viu mais nada. Ariel pressentiu a tens\u00e3o e olhou para tr\u00e1s. O p\u00e1ssaro se aproximava como uma flecha at\u00e9 que bateu uma das asas na raiz de onde Ariel saltou. Lado a lado, Ariel e o p\u00e1ssaro ca\u00edram sobre a grama. O p\u00e1ssaro se levantou, encarou Ariel e investiu com toda a velocidade, de bico aberto. Um mil\u00e9simo de segundo. Nada mais do que isso. Algu\u00e9m puxou Ariel para dentro do solo e o p\u00e1ssaro encheu o papo de terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Foi por um triz, disse ainda ofegante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quem \u00e9 voc\u00ea? Perguntou Ariel abrindo os olhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Eu n\u00e3o tinha nome. Moro por aqui desde que nasci. Certa ocasi\u00e3o algu\u00e9m que passava me chamou de Lee e disse significar habitante do prado. Desde ent\u00e3o eu me apresento assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Muito obrigado&#8230; mesmo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ariel entregou o corpo, mas de imediato se ergueu e indagou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Voc\u00ea viu Duda? Estava ali adiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sim, enfiei na terra quando passei para salvar voc\u00ea, contou Lee sorrindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lee trouxe Duda para perto de Ariel e sentaram para descansar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Meu cora\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 acelerado, disse Ariel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Deixe-me ver, atentou Lee ao encostar no seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao sentir as batidas do cora\u00e7\u00e3o de Ariel, a express\u00e3o de Lee causou estranheza. Duda, para evitar qualquer m\u00e1 not\u00edcia, disparou a falar:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Somos do Buraco de Minhoca, um vilarejo localizado na zona pil\u00edfera das ra\u00edzes laterais desse Ip\u00ea-amarelo. Moramos l\u00e1, pouco depois da regi\u00e3o metropolitana. A capital da popula\u00e7\u00e3o de minhocas do Ip\u00ea-amarelo estende-se desde a parte antiga da ocupa\u00e7\u00e3o, na zona principal das ra\u00edzes, at\u00e9 a parte nova, na zona lisa, onde ocorre a expans\u00e3o urbana, interligadas pela raiz pivotante. Voc\u00ea poderia nos visitar um dia, Lee. Agora temos que ir. Temos fotos para revelar e precisamos superar o baita susto de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Fiquem um pouco mais, respondeu Lee. Quase ningu\u00e9m passa por aqui e eu gostei da companhia de voc\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Duda tem raz\u00e3o, Lee. Temos que ir. N\u00f3s devemos essa salva\u00e7\u00e3o a voc\u00ea e ser\u00e1 um prazer enorme receber a sua visita em nossa vila. N\u00e3o deixe de aparecer. Nossa comunidade \u00e9 isolada e se alegra demais quando chega algu\u00e9m de fora. E esperamos ter boas fotos para mostrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos se despediram. Ariel e Duda tomaram o caminho de casa e Lee permaneceu espreitando at\u00e9 n\u00e3o ver mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Geraldo Lavigne de Lemos<\/em><\/strong><em> sofre de poesia cr\u00f4nica, costuma alinhavar a alma nas mem\u00f3rias e se imiscuir entre as letras para expressar o que sente. Escreveu cinco livros de poesia, coorganizou uma antologia e tem no prelo uma reuni\u00e3o dos quatro primeiros livros. Agora se arrisca em textos curtos de prosa<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A veia fabular no conto de Geraldo Lavigne de Lemos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20100,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4214,2534],"tags":[81,41,2746,2437,149],"class_list":["post-20099","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-151a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-fabula","tag-geraldo-lavigne-de-lemos","tag-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20099","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20099"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20099\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20154,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20099\/revisions\/20154"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20100"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20099"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20099"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20099"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}