{"id":20115,"date":"2023-06-21T10:11:36","date_gmt":"2023-06-21T13:11:36","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=20115"},"modified":"2023-11-29T20:01:42","modified_gmt":"2023-11-29T23:01:42","slug":"aperitivo-da-palavra-ii-12","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-ii-12\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAIX\u00c3O SEM ETERNIDADE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Sandro Ornellas<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em> <a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/interna-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20119\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/interna-1.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/interna-1.jpg 350w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/interna-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/interna-1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O Deus do Trov\u00e3o<\/em> e <em>No ch\u00e3o, o anjo<\/em> s\u00e3o dois livros de Ivan Castilho, escritor capixaba nascido em Parintins-AM, lan\u00e7ados em 2022 pelas coeditoras Cousa e Villa Ol\u00edvia. No caso do primeiro livro, uma segunda edi\u00e7\u00e3o, sendo a primeira do long\u00ednquo ano de 1988 e que parece ter assumido ares de livro cult no Esp\u00edrito Santo, pois o autor n\u00e3o voltou a publicar nada, at\u00e9 <em>No ch\u00e3o, o anjo<\/em>. Ali\u00e1s, o nome do estado de ado\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o de Ivan parece estar subjacente a ambos os livros naquilo que eles t\u00eam de inoc\u00eancia e imoralidade, seja para as novas, seja para as velhas sensibilidades. Isso porque Ivan Castilho parece escrever em muitos momentos como um coroinha que sonha com devassid\u00f5es e lux\u00farias, para depois cont\u00e1-las no confession\u00e1rio ao leitor. Ou melhor, escreve como um adulto que conta suas mem\u00f3rias de porn\u00f3grafo <em>voyeur<\/em> das mazelas morais e sociais da humanidade brasileira. Ou ainda, como um moralista que sabe muito de perto a alma perturbada que ele pr\u00f3prio e o mundo em que vive possuem, e fala dela para expiar todos os seus pecados. Por fim, como fino observador narra as contradi\u00e7\u00f5es humanas que muitos querem obrigar a ser coerentes em julgamentos sum\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coerente \u00e9, na verdade, o pr\u00f3prio Ivan, pois tudo isso vale tanto para o livro de 1988 quanto para o de 2022, apenas um pouco mais amplo na rede tem\u00e1tica, embora estejam l\u00e1 os mesmos tipos e a mesma linguagem. O mundo de Ivan Castilho \u00e9 o dos que frequentam o subsolo moral da sociedade, \u00e0 ca\u00e7a de sexo safado, perdidos nas ruas e \u201cbares at\u00f4micos\u201d ou entediados em casa, com suas fam\u00edlias, seus casamentos ou subempregos. Em nenhum desses casos, a felicidade \u00e9 de fato realizada, apenas sonhada e trocada por um tes\u00e3o onipresente e grotesco, ou abandonada na frustra\u00e7\u00e3o pelo alto grau de indignidade em que vivemos. S\u00e3o homens e mulheres em casamentos falidos, malandros mutreteiros, gays solit\u00e1rios e infelizes, estudantes vagabundos, desesperados cr\u00f4nicos. Todos sempre cansados da vida e, ao mesmo tempo, com um tes\u00e3o irrefre\u00e1vel e pronto para descarregar-se junto \u00e0 primeira pessoa que o capture, fazendo desses personagens seres apaixonadamente humanos no tratamento que lhes d\u00e1 Ivan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa contradi\u00e7\u00e3o, entre o cansa\u00e7o e o tes\u00e3o, torna-se evidente porque o autor n\u00e3o deseja despertar pena para seus personagens. Muitos deles, cheios da radioatividade l\u00edrica dos homens alco\u00f3latras, das esposas impuras, dos velhos pri\u00e1picos, dos ped\u00f3filos conden\u00e1veis, dos adolescentes espinhudos, das mulheres lascivas, dos artistas da vida, dos b\u00eabados tombados, das ex-prostitutas \u2013 todos assediados e assediadores profissionais. Profundamente solit\u00e1rios e silenciosos em sua dor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto lemos seus minicontos, somos geralmente tomados por diferentes afetos em rela\u00e7\u00e3o aos personagens. Se come\u00e7amos algum texto sentindo identifica\u00e7\u00e3o e tes\u00e3o, podemos passar rapidamente \u00e0 repulsa e reprova\u00e7\u00e3o \u2013 dos personagens e, discretamente, tamb\u00e9m de n\u00f3s. Ivan d\u00e1 voz a homens e mulheres que carregam vidas de desesperan\u00e7a e culpa, de inoc\u00eancia e crueldade, de humor e viol\u00eancia. E que n\u00e3o desistem de viv\u00ea-las, apesar de algumas vezes assomar nos enredos algum desejo suicida. \u00c9 o que Ivan parece traduzir ao evocar repetidamente a figura do anjo, ca\u00eddo e abandonado pelos deuses para vagar sem destino na superf\u00edcie do mundo: \u201cO anjo, ent\u00e3o, caiu de joelhos, ajeitou cabel\u00e3o loiro, falou mal dos \u00faltimos deuses pelo abandono, cuspiu sete espinhas de peixe mi\u00fado e deu um longo suspiro\u201d, ou \u201cCaem alguns anjos \u2013 aqueles que desistiram da eternidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos dois livros, a vida \u00e9 o que transcorre fora das telas, rodrigueanamente como ela \u00e9, desidealizada, sexualizada, dolorosa, fora-da-lei e triste, muito triste: \u201cTristeza da porra, tristeza que n\u00e3o tem fim n\u00e3o tem n\u00e3o tem\u201d. O olhar de Ivan para o mundo \u00e9 de um ceticismo apaixonado, de quem investiga com detalhes o desespero de que \u00e9 feito o ser humano nesta quadra da hist\u00f3ria. Isso faz da paix\u00e3o de Ivan pelos tipos populares uma paix\u00e3o sem eternidade e sem amor, sen\u00e3o o fugaz e grosseiro. O autor parece c\u00e9tico tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria literatura \u2013 \u201cgrandes merdas, esta folha branca, esta caneta preta\u201d \u2013, com apenas dois breves e muito espa\u00e7ados, embora intensos, livros publicados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se seus textos podem ser lidos como minicontos naquilo que possuem de enredos el\u00edpticos, muito do efeito criado \u00e9 pr\u00f3prio da poesia l\u00edrica: \u201cDia a dia simples: minha estrada de tijolos amarelos \u00e9 aceita\u00e7\u00e3o da morte lenta, aquela que sempre chega no fim da tarde: chega macia e rasteira, quase cinza \u2013 pu\u00e3 de caranguejo \u2013 e aperta aperta aperta aperta\u201d. Na maioria das vezes, um \u00fanico par\u00e1grafo de poucas linhas desenhando vidas menores. \u00c9 como se Ivan n\u00e3o acreditasse mais nas potencialidades do romance, ou mesmo do conto de maior extens\u00e3o, de uma narrativa mais estruturada em torno de uma vida. Tudo que sobra s\u00e3o restos de hist\u00f3rias e de vidas. Que Ivan trata de colecionar e experimentar como fragmentos de vidas falhadas. Pois \u00e9 disso que se trata nos relatos de Ivan: o que resta de poss\u00edvel nessas vidas, que s\u00e3o vividas com tanta for\u00e7a e fragilidade. Para cont\u00e1-las, no entanto, s\u00f3 sobraram restos de biografias, de romances e de linguagem. Em <em>O Deus do Trov\u00e3o<\/em>, percebe-se uma maior experimenta\u00e7\u00e3o sint\u00e1tica, enquanto <em>No ch\u00e3o, o anjo<\/em> h\u00e1 um pouco mais de coes\u00e3o narrativa e reflexiva. Embora nunca nada que se coloque com autonomia de p\u00e9. Nada que n\u00e3o solicite do leitor imaginar aquilo apenas recolhido em palavras:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSeis e meia. Hora sagrada da grande ca\u00e7ada. \u00d4nibus escolhido a dedo: o que passa pela praia do morro. Linha preferida das pobres mo\u00e7as balconistas da rua do trabalho. O her\u00f3i na melhor roupa: bermud\u00e3o de marca \u00f3culos chingling r\u00e1ibam chinel\u00e3o r\u00e1ider. Barrig\u00e3o espremido, peito de pombo estufado, cabel\u00e3o repartido. Olha aquela que pegaria todinha aquela aquela faria amor selvagem nas pedras do siribeira clube. De noite noite toda noite toda toda noite.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o cenas o que os textos de Ivan constroem, o que os faz imag\u00e9ticos e com precis\u00e3o descritiva, quase cinematogr\u00e1fica: \u201cCamisa de seda branca, marcada ao meio por um filete de sangue; pulso esquerdo com fita azul, tra\u00e7ada sete vezes, pelos sete santos; no peito \u2013 sem pelos \u2013 a estaca brilha, gr\u00e1vida de tantas mortes\u201d. \u00c9 o texto que abre <em>O Deus do Trov\u00e3o<\/em>, \u201cO franco-atirador\u201d, exemplar por muitos motivos: 1) a habilidade em descrever hist\u00f3rias com a precis\u00e3o de um poeta em fazer imagens, 2) a s\u00edntese narrativa conduzida discursivamente a partir do t\u00edtulo, 3) a caracteriza\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica do personagem atrav\u00e9s de elementos concretos e 4) a repeti\u00e7\u00e3o de marcas estil\u00edsticas que, presentes nesse texto, continuam 34 anos, no outro livro. Por exemplo, no uso enigm\u00e1tico do n\u00famero sete, que aparece acima na contagem dos santos, mas que vemos em in\u00fameros outros textos de ambos os livros como sete selos, s\u00e9timo banco, sete chagas, s\u00e9timo dia, s\u00e9timo pr\u00e9dio, s\u00e9tima v\u00e9rtebra, dentre outros. Muito se poderia dizer dos significados m\u00edsticos do n\u00famero sete, mas Ivan vai do sagrado ao profano no seu uso. O mesmo vale para a figura do anjo, do tubar\u00e3o radioativo e da castanheira: \u201cpara mim, toda \u00e1rvore perto do mar \u00e9 castanheira ou coqueiro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, portanto, nas repeti\u00e7\u00f5es tem\u00e1ticas, estil\u00edsticas e vocabulares de Ivan que encontramos o escritor com suas obsess\u00f5es mais \u00edntimas. Os textos s\u00e3o escritos com o sarcasmo que parece hoje um tanto <em>d\u00e9mod\u00e9<\/em>, mas que afirma uma parcela da humanidade para quem bem e mal n\u00e3o se diferenciam. Ao contr\u00e1rio, encontram-se unidos, principalmente no corpo apaixonado. Eu poderia listar aqui escritores que formam par com Ivan, mas evito apagar sua singularidade liter\u00e1ria, submetendo-o a nomes consagrados. Por isso, concluo apenas registrando que \u00e9 a paix\u00e3o sem desejo de eternidade o que move a literatura de Ivan Castilho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Sandro Ornellas<\/em><\/strong><em> \u00e9 poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a quest\u00e3o dos fins (Villa Ol\u00edvia, 2022), D\u00f3i-me este mundo de violentas esperan\u00e7as (Patu\u00e1, 2021), Em obras (Cousa, 2019), dentre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A obra de Ivan Castilho segundo Sandro Ornellas <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20116,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4214,2533],"tags":[11,4229,189,3969],"class_list":["post-20115","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-151a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-ivan-castilho","tag-resenha","tag-sandro-ornellas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20115","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20115"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20115\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20174,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20115\/revisions\/20174"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20116"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}