{"id":20136,"date":"2023-06-22T10:53:51","date_gmt":"2023-06-22T13:53:51","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=20136"},"modified":"2023-11-29T20:01:22","modified_gmt":"2023-11-29T23:01:22","slug":"dedos-de-prosa-ii-79","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-79\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Wellington Am\u00e2ncio da Silva<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_20156\" aria-describedby=\"caption-attachment-20156\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/feelings_liquido.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20156 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/feelings_liquido.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/feelings_liquido.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/feelings_liquido-300x300.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/feelings_liquido-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20156\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Viola Sellerino<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entre as penas, samambaias<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify;\"><em>\u201c[...] a maldade dos homens n\u00e3o teve outra origem sen\u00e3o nas suas \r\ncalamidades.\u201d.\u00a0 \r\n<\/em>Giacomo Leopardi\r\n\r\n<em>\u201cVoc\u00ea testemunha injusti\u00e7a, mas segue adiante em sil\u00eancio. \r\nQue falta de sorte a sua, nesta noite estrelada, \r\npresenciar certas coisas e agora ser culpado de passividade.\u201d.\u00a0 \r\n<\/em>Neguinho Dantas\r\n\r\n<em>\u201cEu quando saio\/Pelo mar afora\/Fa\u00e7o de conta\/Que j\u00e1 vou embora...\u201d. \r\n<\/em>Ant\u00f4nio Marcos, <em>Gaivotas<\/em>\r\n\r\n\r\n<\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFilho da p\u00f3lis [1]<em>,<\/em> como \u00e9 fruto das tuas aus\u00eancias a comich\u00e3o da procura. O t\u00e9dio \u00e9 uma dor aveludada. Por isso, n\u00e3o se foi ainda o que havia de brutal no homem primevo (nos sufoca, nos toma em demasia e nos leva \u00e0s obscuridades) \u2014 essa viol\u00eancia que engole a palavra, que faz calar, h\u00e1 o p\u00f3 na garganta, as alim\u00e1rias e as iras nas entrelinhas da vida, quando o di\u00e1logo falha e os homens latem, por isso o Coliseum de cada dia como paliativo. Nesta mesa de bar, olho ao redor da multid\u00e3o e quase n\u00e3o vejo vivalma, exceto dentro do meu copo americano. Um menino noturno estende a m\u00e3o para mim e me pede uma moeda para um suposto p\u00e3o, um suposto p\u00e3o tamb\u00e9m noturno, porque tamb\u00e9m n\u00e3o conhece Chopin; resta ao filho da p\u00f3lis as migalhas noturnas. Eu n\u00e3o nego uma moeda a ningu\u00e9m. Os homens s\u00e3o filhos das circunst\u00e2ncias, porque em algum momento de suas vidas alguma coisa externa os toma de surpresa fazendo-os comuns, tr\u00eamulos, seus semblantes como de palha\u00e7os falhos. E o dia lhes \u00e9 indiferente e o filho da p\u00f3lis boceja muito, porque n\u00e3o encontra conv\u00edvio entre os filhos da esculhamba\u00e7\u00e3o, e ningu\u00e9m entende uma palavra dita, neste estado febril em que se encontram as coisas; seu corpo \u00e9 invertido, n\u00e3o haver\u00e1 reden\u00e7\u00e3o. E se Jesus disse \u201cFilho do homem\u201d, eu digo hoje \u201cfilho da p\u00f3lis<em>\u201d<\/em>, porque a vez de falar agora \u00e9 minha! E Priscila Richardson, amic\u00edssima, pintad\u00edssima, descolada, num sempre salto alto, questiona: \u201cQue porra \u00e9 o filho da p\u00f3lis?\u201d; eu digo que n\u00e3o sei ao certo que porra \u00e9 o filho da p\u00f3lis, que talvez deva ser, quem sabe, alguma coisa l\u00e1 para as bandas da Gr\u00e9cia Antiga, que no fundo acho bonito dizer \u201cfilho da p\u00f3lis\u201d, porque eu leio filosofia nas horas vagas, porque eu tenho gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria, porque eu n\u00e3o odeio este corpo onde habito, porque eu gosto de falar dif\u00edcil. Priscila Richardson pula \u00e0 janela, salta e voa anu-preto ao firmamento, novas paragens e tal. O caso \u00e9 muito s\u00e9rio, nosso <em>Homo sapiens<\/em> \u00e9 nascido em ber\u00e7o de tumulto, como n\u00e3o sabe nada do Come\u00e7o \u00e9 um desencontrado \u2014 <em>Homo sapiens sapiens humanitas, <\/em>ou<em> Homo sapiens sapiens bestialis<\/em>. Eu disse que olhe para as pr\u00f3prias m\u00e3os e me diga a que pertence. Vejam adiante, no ch\u00e3o, o sobejo da civiliza\u00e7\u00e3o muito apreciada pelos roedores, e para aqueles que n\u00e3o suportam seus caprichos, h\u00e3o de lascarem-se, ao final da reta! Ao meu redor, bandeiras variegadas, ferros em m\u00faltiplos formatos, fumo e fogo e cinzas, muitos dedos em ristes, muitos espadachins e espadados&#8230; \u00e9 a vida que temos hoje. Aqui mesmo, neste bar, vejo o universal, uma repeti\u00e7\u00e3o de gestos, de sensos de causas e efeitos, e os melhores homens dentre os outros, aqui dentro, s\u00e3o como seres h\u00e9teros a desfilarem sisudos com o archote de Prometeu dentro do orif\u00edcio monossil\u00e1bico, dentro do rabo. Na beirada da cal\u00e7ada, \u00e0 sombra profunda de uma frondosa \u00e1rvore, comporta-se d\u00f3cil o corpo inerte de um bebum. Tal imagem deveria ser posta no centro da bandeira nacional. Em sua boca d\u00f3cil e aberta uma mosca \u00e9 acolhida, por isso ainda h\u00e1 alguma bondade neste munic\u00edpio de coron\u00e9is analfabetos; ele parece indiferente \u00e0 visitante, assim como um porteiro de edif\u00edcio, que apenas quer cumprir o seu dever. Ser\u00e1 que o bebum sonha, ou h\u00e1 dentro dele apenas um branco v\u00e1cuo? E se h\u00e1 este espa\u00e7o zerado dentro dele, ent\u00e3o, como poucos neste mundo, encontrou Jeov\u00e1. T\u00e3o im\u00f3vel e t\u00e3o desnudado de humanidade, n\u00e3o sei se \u00e9 ainda um homem ou tornou-se uma pedra, ou um anjo mesopot\u00e2mico. Nunca vi no rosto dos que dormem um sono bom e profundo tamanho desprendimento e abandono de tudo. O seu rosto n\u00e3o \u00e9 o de um morto, nem de um vivo, ali\u00e1s. O seu rosto \u00e9 puro como o de um santo. Em seu semblante eu vejo aquela absoluta aus\u00eancia de express\u00e3o, t\u00edpica das coisas que n\u00e3o t\u00eam rosto, como uma nuvem ou uma cachoeira. Imediatamente, ao observar o bebum inerte, um jovem que passa se contorce numa rajada de gargalhadas \u2014 a tr\u00e1gica m\u00fasica de Ant\u00f4nio Marcos roda na radiola, e me parece que tal gargalhada acentua uma esp\u00e9cie de dor que soa sob as notas graves do viol\u00e3o. N\u00e3o percebi (porque o inconsciente rege nossos interesses) o fundo rascado da cal\u00e7a do bebum em que se via as n\u00e1degas, seu Manifesto. Apesar de tudo, escrevo. Eu escrevo como quem mostra assentado o rego do rabo. Por sorte, o melhor de perder tempo sempre arrasta junto um pouco de paix\u00e3o. Escrevo para n\u00e3o me transformar em uma pedra e n\u00e3o perdoar meus clich\u00eas. N\u00e3o tenho muitas ferramentas, n\u00e3o posso ter muitos livros. \u00c0s vezes eu os roubo. A mo\u00e7a da biblioteca da Universidade me olhou de cara feia quando passei por ela sentada e um aparelho emitiu um som estridente; eu n\u00e3o sabia que colado \u00e0 orelha do livro que eu trazia dentro da cal\u00e7a jeans havia um dispositivo que acionava aquele aparelho sonoro; n\u00e3o houve consequ\u00eancias para aquele meu primeiro roubo, al\u00e9m de olhares desconfiados; aprendi a retirar as etiquetas com o dispositivo atr\u00e1s da orelha dos livros, como fazia a nossa Josete Londa, e nunca mais fui incomodada pelo som estridente do aparelho \u00e0 mesa da bibliotec\u00e1ria. Roubar, todavia, apenas para matar o tempo (dos poucos que abro para sondar as p\u00e1ginas, dentre os livros roubados, h\u00e1 muitos que n\u00e3o entendo uma v\u00edrgula, nem quero). Exceto a minha casa, h\u00e1 somente dois tipos de lugares onde estive todos esses meses: este bar e as pequenas bibliotecas, a deste munic\u00edpio, a de Pariconha e a de \u00c1gua Branca. E aqui, nesta mesa, minhas pequenas leituras, impregnadas da m\u00fasica de Ant\u00f4nio Marcos, se misturam aos vultos ca\u00f3ticos de b\u00eabados que adentram \u00e0 minha retina. Se leio um verso de Byron percebo que cada frase est\u00e1 impregnada deste suor et\u00edlico, deste cambalear sem norte, sem sorte, destas m\u00e3os ensebadas de fumo, destas faces de olhos confusos. Isto ocorre porque sempre o leitor coloca suas asneiras dentro do texto do autor. E arrisco-me demais para n\u00e3o escrever. E o escritor n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o um ostentador da pr\u00f3pria sujidade interna, destas m\u00e3os ensebadas, destes olhos que olham sem querer curar o mundo; o escritor de fic\u00e7\u00e3o hoje no Brasil \u00e9 um incendi\u00e1rio sem isqueiros, seu fogo \u00e9 imagin\u00e1rio, porque se ele escrever cr\u00edticas verdadeiras e n\u00e3o tendenciosas as pessoas v\u00e3o dizer: \u201cAh, que escritor triste e problem\u00e1tico!\u201d (e se ele escreve boas mentiras ele se acha Deus). H\u00e1 um b\u00e1lsamo na transpar\u00eancia sorridente de uma garrafa de vinho \u2014 do seu contr\u00e1rio, n\u00e3o haveria for\u00e7a que pudesse carregar-me, de um bar a outro, de uma estante de livros a outra, de um sonho a outro, de uma leitura muito superficial a outra. Eu mesma n\u00e3o sei se de fato devo estar&#8230; [2] Eu sei que todos os sentimentos arcaicos s\u00e3o perturbadores, porta de sa\u00edda de si, um descontrole que explode na cara e no final, perde as estribeiras nas imers\u00f5es alco\u00f3licas; chora a musa que n\u00e3o se pode possuir, e eles pensam que suas pr\u00f3prias as l\u00e1grimas soam em f\u00e1 sustenido, sibilando como cobra carente \u00e0 vulva at\u00f4nita e encrespada e at\u00e9 o \u00e2mago ext\u00e1tico da alma da musa imagin\u00e1ria. \u00c9 por isso que estes filhos da <em>p\u00f3lis<\/em> se embebedam e morrem, mas n\u00e3o antes de chorarem tanto para as garrafas, at\u00e9 ao r\u00e9s do ch\u00e3o do pat\u00e9tico, at\u00e9 chorarem dez vezes mais os litros de pinga que bebem todos os dias; esses b\u00eabados todos nunca deram no couro de verdade, sempre brocharam ou desconversaram em tolices ap\u00f3s suas ejacula\u00e7\u00f5es precoces, por isso foram abandonados ou tra\u00eddos, porque broch\u00f5es verde-amarelos, os murmuradores durante o coito, se justificam acusando a parceira de frigidez, e transam ligeiramente e em vi\u00e9s, clamando em pensamento por Stalin, Adam Smith, Marx e Jeov\u00e1. Este lugar fede a esperma frustrado. A estes filhos da <em>p\u00f3lis, <\/em>assim como On\u00e3 [3], o capado, nunca ser\u00e1 poss\u00edvel lembrar seus rostos \u2014 isso porque desaparecem, enquanto ainda pensamos neles. A vida \u00e9 bela tal como o cio, um bocejo, um surto, tal e qual a descoberta por demais passageira de que Darwin estava certo! Quem n\u00e3o entende a vida se fode, se lasca, se arromba. Logo o afoito acha que sabe das coisas e bebe. E se h\u00e1 alguma beleza nessas vidas de boteco, esta se esconde fundo nos recantos de uma vida aos farrapos, quando o bebum, sempre dramaticamente machista, se lembra do seu amor imposs\u00edvel, da imagin\u00e1ria trai\u00e7\u00e3o da amada, da falsa castidade desvelada em tr\u00e1gica lua de mel, no ci\u00fame que o corroeu por dentro, da fixa\u00e7\u00e3o a estas coisas todas tolas, e de somente poder enfrentar, enfim, o seu destino quando a pinga ofusca este destino. Por isso, numa met\u00e1fora, todo b\u00eabado que se preze tem o cu \u00e0 mostra. N\u00e3o me embriago \u00e0s quedas, ainda que eu mostre o rabo; qualquer coisa bela dentro de mim somente funciona quando escrevo, eu j\u00e1 disse, e a escrita \u00e9 o \u00f3pio dos vaidosos, o pior dos v\u00edcios, porque a\u00ed a gente mostra toda a nossa intimidade a partir do buraco em que Jeov\u00e1 nos empalou. Veja aquele homem, ali, num recanto. Parece-me n\u00e3o ter ainda quarenta anos. Mas, j\u00e1 o rosto lavado de l\u00e1grimas, desde que come\u00e7ou a tocar <em>Gaivotas<\/em>, de Ant\u00f4nio Marcos. Todo mundo o conhece: \u00e9 o filho do pastor, aquele, voc\u00ea sabe, que me visitou duas ou tr\u00eas vezes no passado. Nos primeiros acordes o bar se transforma \u2014 ali um mo\u00e7o tenso balan\u00e7ando a perna esquerda, uns abaixam a cabe\u00e7a em rever\u00eancia, talvez, e outros respiram fundo, mas, aquele filho de pastor, solu\u00e7a sozinho, ali, num canto, e ele sabe que seu solu\u00e7o \u00e9 fingido, mas precisa deste solu\u00e7o, porque \u00e9 tudo o que ele tem; \u00e9 por meio de tal solu\u00e7o que se lhe ativa um fogo e toda uma arte de se emocionar; solu\u00e7ando fingidamente lhe adv\u00e9m um transe e estando em transe consegue chorar de verdade, tendo como tema do seu choro a mulher que tanto ele mesmo traiu e maltratou e que depois foi por ela abandonado. Flagro um jovem apontar dizendo: \u201cOlha o corno chor\u00e3o&#8230;\u201d. Na multid\u00e3o que agora se choca, ombro contra ombro, h\u00e1 um apagamento de veredas com os pr\u00f3prios p\u00e9s, porque ningu\u00e9m mais ali sabendo para onde ir descobre nessas \u201caus\u00eancias de lugar\u201d um ombro imagin\u00e1rio e existencial para se recostar, enquanto anda cambaleante e pendido. S\u00e3o b\u00e1rbaros os sentimentos. E tais s\u00e3o que nunca param de nos invadir. Pergunto \u00e0quele homem pelo motivo pelo qual chora? \u201c\u00c9 que a vida \u00e9 t\u00e3o grande, senhora, que at\u00e9 me sinto acuado, \u00e0s vezes\u201d. Descobrimos que fora dentista bem-sucedido, at\u00e9 cair no v\u00edcio. Mesmo b\u00eabado ele me confirmou: \u201cEu fui dentista. Altamente profissional! J\u00e1 implantei molares de jegue em boca de lobisomem.\u201d. Escrever. Na verdade, nunca entendi plenamente a <em>palavra<\/em>, quando igual aquilo mesmo que ela diz e que n\u00e3o pode se tornar o que ela diz (s\u00e3o os b\u00e1rbaros!). \u201cEu fui dentista.\u201d \u2014 ele disse \u2014\u201cHoje, diante das circunst\u00e2ncias, elegi este modo existencial\u201d. Vinte anos de casado, dois filhos; o div\u00f3rcio. N\u00e3o quero me debru\u00e7ar sobre a sua vida \u2014 eu pensei \u2014, ou escut\u00e1-lo se rememorar da sua conviv\u00eancia familiar. N\u00e3o haveria explica\u00e7\u00e3o a certas coisas. Elas acontecem, apenas (e por n\u00e3o poderem falar acerca do imposs\u00edvel muitos deles escolhem chorar, ouvindo Ant\u00f4nio Marcos). Ora, querer dizer mil coisas sobre um acontecimento pret\u00e9rito \u00e9 o mesmo que n\u00e3o ter o que dizer. Ofere\u00e7o-lhe meu ombro para recostar. Ele relaxa por um momento e solu\u00e7a, talvez para pensar com dificuldade acerca da ideia de pegar em minhas coxas, o que de fato acontece; eu lhe nego e ele insiste; um b\u00eabado total n\u00e3o merece o toque da pele suave de uma coxa feminina, por isso deixo-o subir um pouco mais por minha coxa depilada e ele apalpa num susto os meus test\u00edculos. O susto! Sai \u00e0s pressas cambaleando, os olhos redondos; eis mais um b\u00eabado do interior, t\u00edpico dos pequenos vilarejos sertanejos \u2014 ainda que esteja p\u00e9ssimo, discerne bem com o tato o que no fundo eu sou em parte. Acho que este velho dentista n\u00e3o acredita mais no feminino. Talvez, a condi\u00e7\u00e3o de alco\u00f3latra n\u00e3o lhe permita pensar que hoje uma mulher como eu pode ter test\u00edculos. N\u00e3o tenho preconceitos contra b\u00eabados, ou ojerizas. De qualquer forma, a gente roda e roda sem jamais poder entender e explicar o turbilh\u00e3o de acontecimentos desta vida \u2014 por causa disso, talvez, ele escolhesse chorar ouvindo <em>Gaivotas<\/em>, de Ant\u00f4nio Marcos. \u201cEu fui dentista! Me respeite, seu viado!\u201d \u2014 apontando o dedo para mim ele braveja do outro lado da mesa. A sua cara tem a dignidade confusa de um capit\u00e3o num naufr\u00e1gio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">[1] Encontrei este texto num boteco. Escrito em papel de embrulho, letras mi\u00fadas, duas folhas escritas, frente e verso, dobradas em quatro partes. Assinou-se \u201cAline\u201d \u00e0 caneta vermelha, \u00e0 esquerda e embaixo. Digitei seu texto e o modifiquei bastante, para deix\u00e1-lo mais confuso.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">[2] Nesse trecho h\u00e1 uma mancha escura de \u201ctira-gosto\u201d, isto \u00e9, de gordura de toucinho, pelo cheiro rosado. Infelizmente n\u00e3o consegui transcrever toda a frase.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">[3] \u201cEnt\u00e3o disse Jud\u00e1 a On\u00e3: Toma a mulher do teu irm\u00e3o, e casa-te com ela, e suscita descend\u00eancia a teu irm\u00e3o. On\u00e3, por\u00e9m, soube que esta descend\u00eancia n\u00e3o havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possu\u00eda a mulher de seu irm\u00e3o, derramava o s\u00eamen na terra, para n\u00e3o dar descend\u00eancia a seu irm\u00e3o. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que tamb\u00e9m o matou\u201d. G\u00eanesis 38:8-10<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Wellington Am\u00e2ncio da Silva<\/em><\/strong><em> \u00e9 sertanejo nascido e criado no interior das Alagoas, Delmiro Gouveia. \u00c9 formado em Filosofia e mestre em Ecologia Humana. \u00c9 membro do editorial da Revista Utsanga \u2014 Rivista di critica e linguaggi di ricerca, entre outras. Publicou livros de fic\u00e7\u00e3o e ensaios em lugares interessantes. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sinas coaguladas no conto de Wellington Am\u00e2ncio da Silva <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20155,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4214,2534],"tags":[4236,4235,81,41,3652,4234,4237,4034],"class_list":["post-20136","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-151a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-bebados","tag-botecos","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-feminino","tag-pernas","tag-trans","tag-wellington-amancio-da-silva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20136","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20136"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20136\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20144,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20136\/revisions\/20144"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20155"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}