{"id":20245,"date":"2023-11-01T10:31:54","date_gmt":"2023-11-01T13:31:54","guid":{"rendered":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=20245"},"modified":"2023-11-29T20:07:37","modified_gmt":"2023-11-29T23:07:37","slug":"dedos-de-prosa-i-88","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-88\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>K\u00e1tia Borges<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_20252\" aria-describedby=\"caption-attachment-20252\" style=\"width: 404px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/interna2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20252 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/interna2.jpg\" alt=\"\" width=\"404\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/interna2.jpg 404w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/interna2-242x300.jpg 242w\" sizes=\"auto, (max-width: 404px) 100vw, 404px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20252\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Magali Abreu<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nosso cora\u00e7\u00e3o era um gigantesco Luna Parque<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrevo de mem\u00f3ria, a nossa hist\u00f3ria na exposi\u00e7\u00e3o de p\u00e3es. Viv\u00edamos na triangula\u00e7\u00e3o dos nossos sonhos, entre cultura, m\u00eddia massiva e hist\u00f3ria, fornecendo postais a um hippie argentino. Nos vernissages da moda, circul\u00e1vamos como se f\u00f4ssemos grandes artistas, em meio a hordas de poetas e punks. Naquela noite, fomos parar na Escola de Belas Artes, na abertura de uma instala\u00e7\u00e3o. E ent\u00e3o, como numa performance, decidimos matar a fome dos pedintes que dormiam ao relento nas ruas do bairro do Canela. N\u00e3o lembro quem teve essa ideia. Daquela \u00e9poca, recordo com exatid\u00e3o de poucas coisas. H\u00e1 sempre uma cena de filme, com trilha sonora do Velvet Underground, e uma pessoa desconhecida que acena, efusivamente, do outro lado da rua. O cora\u00e7\u00e3o da gente era um gigantesco Luna Parque. De modo que tudo ali acontecia como no poema de Ad\u00edlia Lopes e, antes que cada sequ\u00eancia fosse para a sala de montagem, ningu\u00e9m sabia bem ao certo no que ia dar aquele set. Um curta indie, quem sabe, talvez best-seller. Ou apenas mais uma mem\u00f3ria substituta, algo absurda, em nossa cole\u00e7\u00e3o da Vagalume. O cora\u00e7\u00e3o da gente era t\u00e3o pequeno que cabia no bolso como no poema de Raymond Carver. \u00a0Mas isso, confesso, eu escondia. Porque havia o sol nas bancas de revistas e eram tantas as not\u00edcias. P\u00e1ginas e mais p\u00e1ginas, os romances que a gente lia, flutuando nas \u00e1guas do Rio Ouse. E as tais pedras, as tais pedras, no meio do caminho. Voc\u00ea, meu personagem predileto. As suas m\u00e3os desfazendo com ousadia a instala\u00e7\u00e3o do artista, apanhando os p\u00e3es com que se fazia a arte do nosso s\u00e9culo. Como na met\u00e1fora da m\u00fasica de Gilberto Gil, a sereia que veio dar \u00e0 praia, com o seu busto de deusa Maia. Enchemos as nossas m\u00e3os naquela noite m\u00e1gica, desfazendo a arquitetura cara da instala\u00e7\u00e3o, e sa\u00edmos distribuindo os p\u00e3es aos mendigos pelas ruas do Canela. Quer\u00edamos o rabo da baleia para a ceia dos famintos, ainda que aquilo nos custasse pagar algum mico e a revolta furiosa de um artista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O repouso do acaso<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inveja mesmo, ele sentia de quem dorme no \u00f4nibus. E de pessoas distra\u00eddas que esquecem objetos importantes em lugares inusitados. Tamb\u00e9m invejava aqueles que os encontram e emprestam alguma subjetividade aos acontecimentos. Estar atento \u00e9 cansativo sem o repouso do acaso \u2013 esses portais repentinos que se abrem, em lapsos e elipses, no cotidiano. Acordar em sobressalto. Longe de casa, ainda atordoado pelo sono. Um menino toca seu ombro como se fosse um anjo. Esteve ali todo o tempo. Entregue aos olhos do desconhecido, como por encanto, segue seguro at\u00e9 o ponto final do coletivo. Dali retorna sonolento. Talvez adorme\u00e7a de novo. Chegar\u00e1 ao seu destino como em sonho.\u00a0 Buscar na bolsa, no bolso, o documento. Essencial para movimentar um processo estagnado, estava ali ainda h\u00e1 pouco. Talvez o tenha deixado em algum trecho do trajeto entre o apartamento e o cart\u00f3rio. A certeza das m\u00e3os ocupadas. Na entrada do pr\u00e9dio, o esquecimento atravessa lentamente um Saara. Se fechar os olhos, quase pode ver a caravana. O sentimento de que a vida \u00e9 inexata torna fr\u00e1gil a precis\u00e3o do poema sobre a navega\u00e7\u00e3o em cabotagem. \u00c9 preciso enfrentar outra vez o processo burocr\u00e1tico da perda. Molhar as plantas com cuidado, sem pressa, como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3. E ser\u00e1 que h\u00e1 mesmo? \u00c1gua fresca nas folhas da mem\u00f3ria, t\u00e3o verdes quanto se pensa o cora\u00e7\u00e3o. Mas ser\u00e1 s\u00f3 intui\u00e7\u00e3o que ainda pensasse nela? Ser\u00e1 s\u00f3 coincid\u00eancia que o vento tenha trazido aquela certid\u00e3o de casamento justo no dia da sua separa\u00e7\u00e3o? Vivia esperando que algo m\u00e1gico acontecesse. Ent\u00e3o ali, quem sabe, estivesse o sinal do que ainda existia. Pensando nisso, dobrou o documento achado no ch\u00e3o em quatro partes e guardou no bolso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma menina vinda de Marte<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A menina aceitou aquele desafio no desajeito de sempre, sem saber dar resposta. Levaria para a escola o tal brinquedo que todos queriam, que muitos j\u00e1 possu\u00edam, objeto de desejo de nove entre dez crian\u00e7as de oito anos. Voltou para casa lamentando n\u00e3o ser como a maioria dos colegas, que j\u00e1 come\u00e7ava as aulas com mochila e uniforme novos, livros did\u00e1ticos, caixas de l\u00e1pis de cor, merendeira colorida. Seus pais mal conseguiam manter as finan\u00e7as dom\u00e9sticas em dia. Brinquedos s\u00f3 no Natal, quando muito. E era sempre penosamente que davam conta de quitar a imensa lista de material escolar de cada ano das duas filhas. Agora, metera-se naquilo. Os colegas ririam de sua tolice como se fosse mentirosa. Ao lado da m\u00e3e, descendo a ladeira \u00edngreme em sil\u00eancio, pensava em um jeito de comprar o tal carrinho. Ainda mais essa, um brinquedo de menino! Talvez se desejasse uma boneca, dessas que vive de olhos arregalados, a m\u00e3e at\u00e9 fizesse um sacrif\u00edcio. Possu\u00eda um cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o generoso. Costurava roupas na m\u00e1quina madrugada adentro, ajudava o marido nas despesas. De vez em quando, sobravam uns trocados. Mas como explicar que havia dito aos colegas que possu\u00eda o tal carrinho e que duvidaram dela? Por alguns dias, suportou todo tipo de zombaria na escola. At\u00e9 que simplesmente deixou de ir ao recreio. Sozinha na sala, sob o olhar curioso da professora, arrumava o lanche na mesinha e comia: Ki-Suco de morango, pastel de carne. Rezava por dentro para que a aula acabasse. Diante de sua m\u00e3e, ningu\u00e9m riria dela. Dois meses que buscava um modo de pedir que comprasse o tal brinquedo de menino e nada de coragem. Deixa de esquisitice, talvez a m\u00e3e respondesse, dando o caso por encerrado. E olha que nem desejava tanto assim o tal brinquedo. S\u00f3 falou que o possu\u00eda por absoluta estultice, falta de jeito de puxar assunto. Nunca soube se comunicar direito com nenhum deles. A menina vinda de Marte. Seu primeiro, seu eterno apelido. Enquanto se alongava, aquele impasse, foi inventando desculpas para faltar \u00e0s aulas. Tudo ia bem, em suas s\u00fabitas rinites, at\u00e9 que chegou a \u00e9poca das provas. Sem uma alternativa, procurou a m\u00e3e e implorou que lhe comprasse o carrinho, r\u00e9plica de um Ford colorido que abria e fechava as portas. N\u00e3o era Natal nem nada. E nem ela era um menino. Mesmo assim, as duas foram juntas ao supermercado. Na se\u00e7\u00e3o de brinquedos, passaram direto pelas bonecas de olhos arregalados, em busca do carrinho colorido que, brilhando na caixa, custava mais que um dos livros pendentes na lista de material did\u00e1tico. A m\u00e3e olhou para ela e disse que o dinheiro s\u00f3 daria para comprar um fusca. As duas riram. No dia seguinte, na escola, foi um alvoro\u00e7o e todos se sentiram enganados. Mas a menina j\u00e1 n\u00e3o se importava nem um pouco com isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O enigma da rosa<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela releu a mensagem repetidas vezes como se fosse a destinat\u00e1ria, mesmo sabendo que aquela dedicat\u00f3ria viera parar por acaso em suas m\u00e3os, entre as folhas amareladas de mais um livro de poemas achado num dos sebos da Rua Ruy Barbosa. Bem mais barato que outros tantos que j\u00e1 havia comprado, por conta da aus\u00eancia da capa original. O dono da loja a olhava de lado com indisfar\u00e7\u00e1vel desprezo, porque ela sempre comprava os seus piores exemplares usados. Os mais velhos, os menos conservados, aqueles que ele fazia quest\u00e3o de esconder l\u00e1 nos fundos, quase implorando para que algu\u00e9m os achasse e levasse embora por um valor m\u00ednimo. Ela preferia justamente esses, os desvalidos, aqueles que ficavam quase escondidos, largados num cesto de vime que seus amigos apelidaram de asilo. Era bem ali que os resgatava, pelos mais inacredit\u00e1veis pre\u00e7os, conferindo apenas se traziam dentro, entre as suas p\u00e1ginas, alguma dedicat\u00f3ria, algo desenhado ou escrito. Costumava tomar para si cada dedicat\u00f3ria, emprestando novas hist\u00f3rias a personagens desconhecidos, presenteados com mundos imagin\u00e1rios que perdiam todo o sentido ao mudar de m\u00e3os. Talvez procurasse algo espec\u00edfico, um recado perdido entre as dezenas de t\u00edtulos descartados que encontrariam novo lar em sua casa. Doados, vendidos? Pouco se sabe. Inventava tamb\u00e9m seus registros, construindo novos percursos entre o abandono e o encontro. Este mesmo, por exemplo, teria vindo de uma cidade distante, que tanto podia ser Pas\u00e1rgada ou Macondo. Pelas estradas, pelos ares, voava ainda a sua capa, hoje liberta do miolo. As frases escritas por antigos donos nem sempre traziam um recorte bonito da vida, esse enredo que se espalha em fluxo, fragmentado em milhares, em milh\u00f5es, de corpos. Algumas sequer vinham inteiras e decifr\u00e1veis. Mas \u00e9 que ela tamb\u00e9m se interessava pelos fragmentos que despencavam dos frontisp\u00edcios. Feito um poema secreto guardado: \u201cregistro que um dia toquei seu cora\u00e7\u00e3o\u201d. Naquele livro, e ent\u00e3o logo despeda\u00e7ado. De modo que j\u00e1 n\u00e3o se podia intuir o destinat\u00e1rio da \u00fanica palavra leg\u00edvel, quer fosse de amor ou recha\u00e7o. Muito menos quem ali deixara entre as p\u00e1ginas uma flor ressecada, tatuando entre as letras a sua forma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>K\u00e1tia Borges<\/em><\/strong><em> \u00e9 autora dos livros \u201cDe volta \u00e0 caixa de abelhas\u201d (As letras da Bahia, 2002), \u201cUma balada para Janis\u201d (P55, 2009), \u201cTicket Zen\u201d (Escrituras, 2010), \u201cEscorpi\u00e3o Amarelo\u201d (P55, 2012), \u201cS\u00e3o Selvagem\u201d (P55, 2014), \u201cO exerc\u00edcio da distra\u00e7\u00e3o\u201d (Penalux, 2017), \u201cA teoria da felicidade\u201d (Patu\u00e1, 2020) e \u201cTudo ser\u00e1 daqui pra frente\u201d (2022). Tem poemas inclu\u00eddos nas colet\u00e2neas \u201cRoteiro da Poesia Brasileira, anos 2000\u201d (Global, 2009), \u201cTravers\u00e9e d\u2019Oc\u00e9ans \u2013 Voix po\u00e9tiques de Bretagne et de Bahia\u201d (\u00c9ditions Lanore, 2012), \u201cAutores Baianos, um Panorama\u201d (P55, 2013) e na \u201cMini-Anthology of Brazilian Poetry\u201d (Placitas: Malpais Rewiew, 2013). Foi semifinalista ao Pr\u00eamio Jabuti 2021, na categoria cr\u00f4nicas, com o livro \u201cA teoria da felicidade\u201d (editora Patu\u00e1, 2020).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O roteiro sens\u00edvel delineado nos pequenos contos de K\u00e1tia Borges <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20251,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4242,2534,16],"tags":[4245,419,41,424,2896,149],"class_list":["post-20245","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-152a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-a-teoria-da-felicidade","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-editora-patua","tag-katia-borges","tag-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20245","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20245"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20245\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20358,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20245\/revisions\/20358"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20251"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20245"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20245"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20245"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}