{"id":20278,"date":"2023-11-07T11:34:01","date_gmt":"2023-11-07T14:34:01","guid":{"rendered":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=20278"},"modified":"2024-11-03T13:03:59","modified_gmt":"2024-11-03T16:03:59","slug":"aperitivodapalavraii-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivodapalavraii-5\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CR\u00d4NICAS DE VIDA E OBRA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Sandro Ornellas<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/capa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20280\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/capa.jpg\" alt=\"\" width=\"264\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/capa.jpg 264w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/capa-198x300.jpg 198w\" sizes=\"auto, (max-width: 264px) 100vw, 264px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O chileno Benjam\u00edn Labatut, em <em>Quando deixamos de entender o mundo <\/em>(2022), \u00e9 um escritor borgeano que abandonou o misticismo gn\u00f3stico presente no argentino para se dedicar a tratar literariamente da ci\u00eancia moderna em narrativas igualmente desconcertantes e de g\u00eanero incerto. Algo entre biografia geracional, poesia cosmol\u00f3gica e ensaio especulativo. Mas o que me chamou a aten\u00e7\u00e3o num primeiro momento foi o esfor\u00e7o de caracteriza\u00e7\u00e3o de cientistas como aquele tipo de her\u00f3i que parece decalcado do que eram os poetas rom\u00e2nticos do s\u00e9culo XIX: obcecados por suas ideias brilhantes, exc\u00eantricos, doentios, g\u00eanios incompreendidos, m\u00edsticos, competitivos, tr\u00e1gicos e apaixonados. Muito do que marca o estilo dessas caracteriza\u00e7\u00f5es \u00e9 uma adjetiva\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel, seja atrav\u00e9s dos pr\u00f3prios adjetivos \u2013 como os que usei acima para seus personagens \u2013, seja por ora\u00e7\u00f5es adjetivas. Al\u00e9m de caracterizar sujeitos que o senso comum toma por alheados do mundo, tal procedimento d\u00e1 sabor e riqueza liter\u00e1ria aos textos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um outro tra\u00e7o das hist\u00f3rias de Labatut \u2013 mais sofisticado do que essas representa\u00e7\u00f5es romantizadas \u2013 \u00e9 sua capacidade de articular narrativamente enredos, o que d\u00e1 aos seus textos certo car\u00e1ter de cr\u00f4nicas da vida e da obra de uma gera\u00e7\u00e3o de cientistas. Um dos elementos de que lan\u00e7a m\u00e3o s\u00e3o as datas, o que possui l\u00e1 sua objetividade hist\u00f3rica, embora a articula\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja ver\u00eddica, e sim veross\u00edmil. Isso \u00e9 refor\u00e7ado por aspas retiradas de cartas e di\u00e1rios como fontes comprobat\u00f3rias do que narra. Mas \u00e9 a especula\u00e7\u00e3o o que mais me chama a aten\u00e7\u00e3o, e o que pode nos levar a nomear suas narrativas como ensaios especulativos. Encontramo-la \u00e0s vezes como um tipo de poesia cosmol\u00f3gica, que s\u00e3o as tentativas de Labatut em verbalizar as brilhantes equa\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas que os obcecados cientistas formulam para fen\u00f4menos de exist\u00eancia puramente te\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma passagem do conto \u201cQuando deixamos de entender o mundo\u201d em que Werner Heisenberg ouve de Niels Bohr que \u201co f\u00edsico \u2013 como o poeta \u2013 n\u00e3o devia descobrir os fatos do mundo, mas apenas criar met\u00e1foras e conex\u00f5es mentais. [&#8230;] Esse aspecto da natureza requeria um novo idioma\u201d. \u00c9 como se essa passagem, que Labatut reputa como de Bohr, referendasse as pr\u00f3prias descri\u00e7\u00f5es de Labatut das equa\u00e7\u00f5es de Heisenberg e seus rivais. Falando do matem\u00e1tico Alexander Grothendieck em \u201cO cora\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o\u201d, Labatut escreve que \u201cadorava escolher <em>le mot juste<\/em> para os conceitos que descobria, como uma forma de amans\u00e1-los e torn\u00e1-los familiares antes de que fossem compreendidos sem uma totalidade. Suas <em>\u00e9tales<\/em>, por exemplo, evocam as ondas tranquilas e d\u00f3ceis da mar\u00e9 baixa, o mar como um espelho im\u00f3vel, a superf\u00edcie de uma asa esticada ao m\u00e1ximo ou os len\u00e7\u00f3is com os quais se cobre um rec\u00e9m-nascido\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, ent\u00e3o, essa poesia descritiva da cosmologia cient\u00edfica d\u00e1 \u00e0s narrativas seu tra\u00e7o de ensaio especulativo, h\u00e1 tamb\u00e9m algo dessa especula\u00e7\u00e3o ligada a uma outra cosmologia, talvez o principal arcabou\u00e7o do livro, amarrando textos aut\u00f4nomos. Refiro-me ao contraste estabelecido entre a \u00faltima das narrativas e o \u201cEp\u00edlogo\u201d. Ela ocupa metade das p\u00e1ginas e com o mesmo t\u00edtulo da tradu\u00e7\u00e3o brasileira, \u00e9 a que trata da hist\u00f3ria de alguns dos principais f\u00edsicos te\u00f3ricos que depois se reuniriam na B\u00e9lgica no ano de 1927 para de alguma forma fundar a f\u00edsica qu\u00e2ntica. Trata-se de uma gera\u00e7\u00e3o dourada de cientistas europeus nobelizados que pareciam, com suas formula\u00e7\u00f5es brilhantes e rivalidades te\u00f3ricas, alheios ao mundo de ascens\u00e3o do nazifascismo no per\u00edodo entreguerras, bem como \u00e0s arriscadas consequ\u00eancias de suas inven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria nova essa contemporaneidade entre a cria\u00e7\u00e3o de uma ci\u00eancia te\u00f3rica, distante anos-luz do mundo cotidiano, a ascens\u00e3o do nazismo, a guerra da\u00ed decorrente e a bomba que p\u00f4s fim ao conflito no Jap\u00e3o. No livro, tamb\u00e9m encontramos essa contemporaneidade logo na primeira narrativa, \u201cAzul da Pr\u00fassia\u201d, sobre a origem, como pigmento azul para pinturas, e os usos do cianureto para suic\u00eddio por oficiais nazistas. \u201cAzul da Pr\u00fassia\u201d \u00e9 um exemplo da habilidade de Labatut em amarrar hist\u00f3rias aparentemente d\u00edspares. Essa especula\u00e7\u00e3o narrativa, encontramos, por exemplo, no enredo que entrela\u00e7a de modo misterioso as hist\u00f3rias do matem\u00e1tico japon\u00eas Shinichi Mochizuki, admirador de Alexander Grothendieck, cuja vida e obra s\u00e3o contadas at\u00e9 seu volunt\u00e1rio isolamento nos Pirineus. Na hora de sua morte, em 2014, lemos a sugestiva hip\u00f3tese de o japon\u00eas estar ao seu lado do leito hospitalar. Pura fic\u00e7\u00e3o entrela\u00e7ando vidas de dois matem\u00e1ticos brilhantes e desconfiados das institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis por financiar pesquisas avan\u00e7adas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o Ep\u00edlogo, todavia, intitulado \u201cO jardineiro noturno\u201d, aponta para o t\u00edtulo original do volume, <em>Un verdor terrible<\/em>, e explicita um contraponto a todas essas hist\u00f3rias tr\u00e1gicas: um narrador (o pr\u00f3prio Labatut?), entre reflex\u00f5es sobre a vida junto \u00e0 natureza, descreve a exuberante paisagem andina encontrada no Chile, em especial junto de uma pequena cidade onde se depara com um ex-matem\u00e1tico que abandonou a profiss\u00e3o para se tornar jardineiro e aprender a lidar com plantas. Teria abandonado a matem\u00e1tica inspirado justamente pelo desaparecimento volunt\u00e1rio de Grothendieck. O jardineiro lhe conta saber como \u00e1rvores c\u00edtricas morrem: \u201csucumbem por superabund\u00e2ncia\u201d. Ent\u00e3o o narrador lhe pergunta quanto tempo de vida teria seu limoeiro, ao que o jardineiro lhe responde que \u201cn\u00e3o havia como saber, pelo menos n\u00e3o sem antes cort\u00e1-lo e olhar dentro do tronco. Mas quem iria querer fazer isso?\u201d. Assim, o livro se encerra e deixa para o leitor a tarefa de comparar esse limite de curiosidade do jardineiro com a <em>hybris<\/em> tr\u00e1gica que brilhantes cientistas legaram \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclu\u00ed a leitura notando que Einstein pouco aparece em suas p\u00e1ginas, sendo esses momentos preciosos contrapontos ao brilho cient\u00edfico dos demais, como quando ele acusa Bohr e Heisenberg de, com seu princ\u00edpio da incerteza, desmaterializar a realidade f\u00edsica, afirmando que \u201cDeus n\u00e3o joga dados com o universo\u201d. Inspirado pela presen\u00e7a sibilina de Einstein nas narrativas, lembrei de outro livro, <em>No tempo das cat\u00e1strofes<\/em>, da fil\u00f3sofa da ci\u00eancia belga Isabelle Stengers. Nele, ela faz invectivas para que os cientistas politizem suas pesquisas, diante da cat\u00e1strofe ambiental instalada e crescente, a que chama \u201cIntrus\u00e3o de Gaia\u201d. Stengers sugere a ci\u00eancia e os cientistas passaram a ser hoje cultuados, como se tivessem<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">muito a ver com a ideia de que o pensamento \u201c\u00e9 algo que se conquista\u2019\u201d [que] pede ren\u00fancia e solid\u00e3o. Por isso muitas daquelas \u201ccabe\u00e7as pensantes\u201d poder\u00e3o, por outro lado, se curvar com respeito diante da paix\u00e3o de Antonin Artaud, que berrava e vociferava que o pensamento n\u00e3o estava \u201cna cabe\u00e7a\u2019\u201d Mas o que \u00e9 importante para eles \u00e9 que berros e vocifera\u00e7\u00e3o traduzam uma experi\u00eancia radical, na vizinhan\u00e7a mais pr\u00f3xima poss\u00edvel da loucura. Artaud, promovido a her\u00f3i cultural, nos oferece ent\u00e3o a confirma\u00e7\u00e3o de que o Homem \u00e9 capaz de afrontar, ainda que se perca nele, o caos abissal que \u00e9 preciso manter a dist\u00e2ncia para pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 algo nessa passagem de Stengers que liga Artaud aos cientistas de Labatut que propiciaram, com seus \u00edmpetos de conquista cient\u00edfica, a cria\u00e7\u00e3o da bomba at\u00f4mica e, da\u00ed, a crise ambiental que propor\u00e7\u00f5es planet\u00e1rias e que apenas come\u00e7amos a adentrar. Esses \u201cher\u00f3is culturais\u201d do s\u00e9culo XX afrontaram \u201co caos abissal\u201d e, se nos legaram orgulhosas f\u00f3rmulas de enorme conhecimento abstrato, tamb\u00e9m nos puseram na rota de um risco iminente. Mas isso n\u00e3o \u00e9 Labatut quem diz \u2013 sou eu, leitor, que conclu\u00ed com o fim dessa leitura fascinante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Sandro Ornellas<\/em><\/strong><em> \u00e9 <\/em><em>poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a quest\u00e3o dos fins (Villa Ol\u00edvia, 2022), D\u00f3i-me este mundo de violentas esperan\u00e7as (Patu\u00e1, 2021), Em obras (Cousa, 2019), dentre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O olhar de Sandro Ornellas para o livro de Benjam\u00edn Labatut <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20279,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4242,2533],"tags":[11,191,4252,2803,4253,2116,189],"class_list":["post-20278","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-152a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-argentina","tag-benjamin-labatut","tag-ciencia","tag-fisica-quantica","tag-livro","tag-resenha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20278","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20278"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20278\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20352,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20278\/revisions\/20352"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20278"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20278"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20278"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}