{"id":20322,"date":"2023-11-22T10:02:07","date_gmt":"2023-11-22T13:02:07","guid":{"rendered":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=20322"},"modified":"2024-11-03T13:04:25","modified_gmt":"2024-11-03T16:04:25","slug":"aperitivodapalavrai-6-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivodapalavrai-6-2\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A \u201csegunda natureza\u201d de Santiago Fontoura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Gustavo Rios<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/capa-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20326\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/capa-2.jpg\" alt=\"\" width=\"285\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/capa-2.jpg 285w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/capa-2-190x300.jpg 190w\" sizes=\"auto, (max-width: 285px) 100vw, 285px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Influenciado em certa medida por gente como Gullar, Bandeira e Drummond<sup>1<\/sup>, com alguma coisa da postura do Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, <em>Antip\u00e1tica Lira<\/em>, do escritor Santiago Fontoura, parece ter sido concebido a partir do observ\u00e1vel e do trivial. O mi\u00fado e o comezinho surgem como mat\u00e9ria e o ponto de partida desse trabalho. Lan\u00e7ado pela editora Segundo Selo, no livro percebemos o olhar do poeta que abarca o todo. Que o expande e o reverbera, sem vacilar em seu trajeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poema <em>\u201c<\/em>Empada de Bel\u00e9m<em>\u201d<\/em> talvez seja um bom exemplo para tentar explicar essa minha primeira impress\u00e3o: <em>\u201cH\u00e1 eternidade nesta empada de Bel\u00e9m \/ (\u00e9 que ela desperta em mim, \/ j\u00e1 na primeira mordida, \/ a certeza \u2013 que me foge nos intervalos \/ em que n\u00e3o degusto a guloseima \u2013 \/ de que a vida, somente a vida, \/ interessa)\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do simples ato de comer a iguaria de origem portuguesa, conhecida tamb\u00e9m como pastel de Bel\u00e9m, Santiago Fontoura desenvolve um dos fundamentos de sua escrita, que \u00e9: todo momento vale a pena; tudo merece aten\u00e7\u00e3o e questionamento; todo pequeno gesto cont\u00e9m mais do que mostra, e pode se eternizar para quem tem talento e firmeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed, as perguntas: qual o verdadeiro alcance da ideia que une, num corpo textual, a eternidade presente num momento t\u00e3o comum (comer algo) e a como\u00e7\u00e3o causada por esse mesmo momento? Talvez um devir em que a vida, <em>\u201csomente a vida\u201d<\/em> interessa, e que poucos conseguem expressar? Pensemos no ponto de partida, a empada (sim, a empada!). Na motiva\u00e7\u00e3o que deu origem ao poema. Agora adicionemos o olhar certeiro do poeta (e o paladar tamb\u00e9m: a empada vale uma epifania, sim!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 exclusividade de Santiago o uso de tal <em>modus operandi<\/em>, por assim dizer. Essa coisa de converter momentos impercept\u00edveis aos olhos cegos em literatura de qualidade j\u00e1 vem de longe, sabemos. E os j\u00e1 citados grandes poetas, assim como outros que tamb\u00e9m influenciam <em>Antip\u00e1tica Lira<\/em> e que desconhe\u00e7o, agiram ou agem dessa forma; <em>fl\u00e2neurs<\/em> ou n\u00e3o, eles arrancam do banal algo maior do que se mostra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O EU E O CABRAL<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto ao Cabral, na leitura que fiz do livro entendo que a influ\u00eancia do pernambucano reside na ideia da constru\u00e7\u00e3o pensada. E numa dilui\u00e7\u00e3o marota do \u201ceu\u201d sem resvalar para a frieza. Nem para a rigidez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santiago Fontoura, o tal \u201ceu\u201d dessa minha teoria amalucada, est\u00e1 presente como persona e pronome-da-primeira-pessoa, at\u00e9, quando necess\u00e1rio, n\u00e3o escondendo a inquieta\u00e7\u00e3o diante das coisas simples e de um mundo cheio de pressa e ru\u00ednas. Mas a forma escolhida para o texto dialoga com o leitor de perto, digamos. Sem firulas nem hermetismos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os chamados versos livres despertam um genu\u00edno interesse pela apresenta\u00e7\u00e3o e pela integra\u00e7\u00e3o desses versos \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do resultado final. Tudo flui, numa boa. Fontoura finca p\u00e9 trabalhando com o trivial, com o alcan\u00e7\u00e1vel em termos de linguagem. Contudo, apesar do uso de palavras corriqueiras, o poeta onsegue us\u00e1-las de uma maneira em que a cad\u00eancia do texto, assim como sua for\u00e7a metaf\u00f3rica, instiga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tal lira surge n\u00e3o de forma esquem\u00e1tica: n\u00e3o cabe o tal decass\u00edlabo, muito menos uma estrutura \u201cr\u00edgida de rimas consoantes\u201d ou mesmo toantes, usadas pelo \u201cpoeta engenheiro\u201d (o nosso Jo\u00e3o Cabral). Assim como n\u00e3o h\u00e1 a defesa perempt\u00f3ria de qualquer estilo, formalidade, modernidade fajuta, questionamento banal ou posicionamento est\u00e9tico que trave sua criatividade. <em>Antip\u00e1tica Lira<\/em> nos conquista pelo pungente, essencial no fazer liter\u00e1rio, e por um tipo de clareza transcendente, fruto das escolhas de seu criador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A POESIA QUE PERGUNTA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso de Santiago, o empenho \u00e9 pela poesia como ve\u00edculo de indaga\u00e7\u00e3o sincera e express\u00e3o elevada, sem barroquismos. E esse talvez seja o seu trunfo, se levarmos em conta outra obra, <em>Leitura Neon-reciclada<\/em>, indicando a mesma linha \u2013 ao menos em rela\u00e7\u00e3o ao tratamento formal e o intuito em se fazer uma literatura de respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejamos agora se o exemplo abaixo consegue explicar o que digo: \u201cMacho \u00d4mega \/ <em>\u201cNingu\u00e9m sabe, \/ mas sou um homem triste. \/ \u201cDesconhe\u00e7o as ternuras cotidianas: \/ grandes \u00e1rvores centen\u00e1rias, \/ beijo amigo sem esc\u00e1rnio, \/ m\u00fasica que somente o vento \u00e9 capaz de reger. \/ \u201cTrago entre as pernas uma ang\u00fastia \/ \u2013 esta carne mole (que faz parecer \/ que apodre\u00e7o) explicita que, de fato, \/ sou feito de camuflado tormento \/ e nenhuma sabedoria.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim sendo, para melhor definir a vis\u00e3o de Fontoura talvez eu deva apostar minhas fichas no que o velhinho <em>Pound <\/em>um dia escreveu sobre a chamada \u201csegunda natureza\u201d<sup>2<\/sup>, em vez de vincul\u00e1-lo \u00e0 obra Cabralina. Quem sabe seja mais pr\u00f3ximo da realidade do que uma poss\u00edvel influ\u00eancia do pernambucano que, com seu bel\u00edssimo trabalho, deu <em>\u201c\u00e0 vertigem, geometria<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OS TEMAS<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0 tem\u00e1tica, nas 122 p\u00e1ginas Fontoura reflete sobre muita coisa: religi\u00e3o, ao menos em seu aspecto humano (\u201c<em>Ratzinger<\/em>\u201d; <em>\u201cOra\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>); o amor real, sem um tra\u00e7o de pieguismo sequer; a amizade franca e a quest\u00e3o do \u201cmacho\u201d; a literatura e a sua rela\u00e7\u00e3o com a vida; a pr\u00f3pria vida em si (\u201c<em>Antibudismo<\/em>\u201d, um dos melhores); a pol\u00edtica sem partidarismos (<em>\u201cConclus\u00e3o de um homem sem partidos ou legendas\u201d<\/em>); a paternidade; e, para encerrar, a rela\u00e7\u00e3o dele com nossa cidade, Salvador, com suas ladeiras e idiossincrasias, sendo o poema abaixo um exemplo v\u00e1lido: <strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><em>\u201cA praia \u00e9 o limite \u2013 e a cidade, ent\u00e3o,\/ chega ao fim: n\u00e3o h\u00e1 curvas, becos ou ladeiras. \/ Mesmo a pressa \u2013 t\u00e3o t\u00edpica \u2013, mesmo a desordem \/ \u2013 inevit\u00e1vel \u2013, assumem uma estranha dist\u00e2ncia \/ quando \u00e9 a ilha o horizonte alcan\u00e7\u00e1vel.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dando uma olhada no conjunto, penso que o autor consegue a proeza de ser cuidadoso na <em>forma<\/em> abarcando, com seu olhar atento, diversos <em>conte\u00fados.<\/em> Isso sem transigir no seu belo trabalho \u2013 fato que tornou seu livro um achado para mim. Santiago pode n\u00e3o ter inventado a roda, ao escolher trabalhar com elementos conhecidos (e acho que nem foi essa a ideia, para ser bem sincero). Mas sua escrita, extremamente pessoal muito por conta de sua personalidade, se mostram ao leitor como verdadeira poesia, entendendo (e estendendo) o termo da melhor forma poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim sendo, vos digo que, se um dia me perguntarem o que resta aos escritores contempor\u00e2neos, ficarei em d\u00favida entre o pastiche proposital e a c\u00f3pia descarada \u2013 a falsa no\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 se fazendo e se discutindo algo novo. E o poeta \u201cantip\u00e1tico\u201d, foco desta resenha, me pareceu n\u00e3o se perder, sabendo muito bem o que faz e para onde ir ao evitar ao m\u00e1ximo um desses poss\u00edveis extremos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E caso algum dia me perguntem sobre o que achei do livro dele, acho que vou sugerir uma olhada no <em>Ezra<\/em> <em>Pound<\/em><sup>3<\/sup><em>.<\/em> Ao menos em alguns dos seus conceitos sobre o fazer liter\u00e1rio, antes que meu interlocutor pense em julgar Santiago Fontoura. Ou supor que faltou ao cara arrojo e \u201cnovidade\u201d.<\/p>\n<pre style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0\r\n<\/em><\/strong><\/pre>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">1 Drummond: mais para a chamada \u201cfase do n\u00e3o\u201d, seguindo a cr\u00edtica; Bandeira: \u201cEstrela da Manh\u00e3\u201d j\u00e1 resolve a parada. Gullar: na forma e na po\u00e9tica em si, desconsiderando a fase \u201cpartid\u00e3o\u201d.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">2 <em>\u201c\u00c9 precisamente aqui que tem lugar o sistema usual de sofismar com meias-verdades. De fato, as melhores obras provavelmente \u2018brotam\u2019, mas s\u00f3 DEPOIS que a t\u00e9cnica se tornou uma \u2018segunda natureza\u2019, e o escritor n\u00e3o precisa mais pensar em CADA DETALHE, da mesma forma como Tilden n\u00e3o precisa pensar na posi\u00e7\u00e3o de cada m\u00fasculo em cada lance de t\u00eanis. A for\u00e7a, o impulso, etc., seguem a inten\u00e7\u00e3o principal, sem dano para a unidade do ato.\u201d Ezra Pound<\/em> em Abc da Literatura, p\u00e1gina 72.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">3 Como disse um amigo escritor: <em>\u201cO livro \u00e9 quase um manifesto e, pra isso, \u00e9 preciso ler um pouco a hist\u00f3ria da literatura, onde estava e para onde ele queria levar. Depois tem isso da tradu\u00e7\u00e3o. Bom, vencidos esses pequenos obst\u00e1culos, o livro flui na leitura ahahahaha\u201d.<\/em> A gargalhada \u00e9 ver\u00eddica.<\/h6>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<blockquote><p><em><strong>Gustavo Rios\u00a0<\/strong><\/em><em>\u00e9 baiano e autor do livro C\u00e9u Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAntip\u00e1tica Lira\u201d, livro de Santiago Fontoura, pela leitura de Gustavo Rios <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20323,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4242,2533],"tags":[4262,11,2411,17,189,4263],"class_list":["post-20322","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-152a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-antipatica-lira","tag-aperitivo-da-palavra","tag-gustavo-rios","tag-poesia","tag-resenha","tag-santiago-fontoura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20322","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20322"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20322\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20374,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20322\/revisions\/20374"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20323"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20322"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20322"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20322"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}