{"id":20447,"date":"2024-10-24T11:13:46","date_gmt":"2024-10-24T14:13:46","guid":{"rendered":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=20447"},"modified":"2024-11-04T12:00:42","modified_gmt":"2024-11-04T15:00:42","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-86","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-86\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Gustavo Rios<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O roteirista e escritor <strong>Victor Mascarenhas<\/strong> costuma dizer que \u201cSete dias em setembro\u201d era para ter sido o seu segundo livro. Autor de v\u00e1rios livros, com destaque para \u201cCafe\u00edna\u201d, ganhador do Pr\u00eamio Braskem Cultura e Arte, da Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado, livro prefaciado por ningu\u00e9m menos que Fausto Fawcett, esse feirense nos surpreendeu ano passado com o lan\u00e7amento de um romance hist\u00f3rico em que, baseado em pesquisas criteriosas, ele criou uma hist\u00f3ria envolvente, tendo como escolha principal a vis\u00e3o de dois protagonistas quase an\u00f4nimos \u2013 Paulo Bregaro e Ant\u00f4nio Ramos Cordeiro; o primeiro, oficial do Supremo Tribunal Militar e correio-geral da Corte, e o segundo, major.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ado pela P55 edi\u00e7\u00f5es, em parceria com o selo do pr\u00f3prio autor, a Cafe\u00edna &#8211; Produ\u00e7\u00e3o de Conte\u00fado, \u201cSete dias em setembro\u201d parece trazer uma nova abordagem quanto aos fatos ocorridos h\u00e1 200 anos. Fatos que culminaram com a Independ\u00eancia do Brasil. No livro, al\u00e9m de optar por uma bem elaborada fic\u00e7\u00e3o para preencher \u201clacunas\u201d, Mascarenhas nos conduz por uma viagem em que, al\u00e9m das pesquisas, da preocupa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e da vontade de se publicar um bom livro, o que prevalece \u00e9 o gosto pela literatura e por uma fic\u00e7\u00e3o de qualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abaixo, segue uma breve, mas enriquecedora conversa que tivemos sobre o seu romance.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_20451\" aria-describedby=\"caption-attachment-20451\" style=\"width: 399px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Victor-Mascarenhas-foto-de-Ari-Capela-in-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20451 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Victor-Mascarenhas-foto-de-Ari-Capela-in-1.jpg\" alt=\"\" width=\"399\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Victor-Mascarenhas-foto-de-Ari-Capela-in-1.jpg 399w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Victor-Mascarenhas-foto-de-Ari-Capela-in-1-239x300.jpg 239w\" sizes=\"auto, (max-width: 399px) 100vw, 399px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20451\" class=\"wp-caption-text\">Victor Mascarenhas \/ Foto: Ari Capela<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Duas coisas me chamaram a aten\u00e7\u00e3o em seu livro: a forma escolhida para se contar a hist\u00f3ria, em que o narrador se utiliza de uma \u201coralidade\u201d, tal como Cervantes em Quixote, e o fato de que a Independ\u00eancia do Brasil foi um processo mais lento do que o \u00a0ensinado nas escolas.\u00a0 Voc\u00ea concorda que essa forma \u201coral\u201d serviu para nos mostrar de maneira mais ampla esse momento hist\u00f3rico, j\u00e1 que ela permitiu que fossem relatados outros fatos que extrapolam, em tese, o enredo, mas que s\u00e3o fundamentais para o desenvolvimento do livro, incluindo a\u00ed seu vi\u00e9s ficcional?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICTOR MASCARENHAS &#8211;\u00a0<\/strong>A gente tende a minimizar nossa hist\u00f3ria quando n\u00e3o enxerga a Independ\u00eancia como resultado de um processo complexo e de muita luta dos brasileiros. \u00c9 um desservi\u00e7o reduzir tudo a um arroubo de D. Pedro, ignorando o cen\u00e1rio internacional, onde o liberalismo estava derrubando o velho absolutismo, ou minimizando a luta do povo brasileiro que se uniu para vencer o ex\u00e9rcito portugu\u00eas e na defesa do ent\u00e3o pr\u00edncipe regente contra os desmandos de Lisboa.\u00a0 Um exemplo que traduz bem a mobiliza\u00e7\u00e3o popular e o papel do futuro imperador est\u00e1 no nome do batalh\u00e3o onde Maria Quit\u00e9ria lutou durante a guerra na Bahia: Batalh\u00e3o de Volunt\u00e1rios do Pr\u00edncipe D. Pedro. Diante de tudo isso, o desafio era levar o leitor para esse cen\u00e1rio sem ser did\u00e1tico ou redundante e eu queria fazer isso num livro de aventura a la Alexandre Dumas, com o humor e a coloquialidade do \u201cMem\u00f3rias de um sargento de mil\u00edcias\u201d. A oralidade que voc\u00ea apontou, que tem como ancestral infinitamente superior o \u201cDom Quixote\u201d de Cervantes, vem dessa escolha e permeia o livro atrav\u00e9s do seu narrador, que tem como tarefa principal relatar a viagem dos protagonistas &#8211; os dois mensageiros que levam as cartas do Rio at\u00e9 Pedro nas margens do Ipiranga \u2013 mas que vai tra\u00e7ando o panorama de um pa\u00eds convulsionado atrav\u00e9s da hist\u00f3ria de v\u00e1rios outros personagens, passando por cidades diferentes, comentando os fatos, conversando com o leitor e fazendo paralelos da \u00e9poca com o presente. Mas o que era mais importante era fazer tudo isso mantendo o rigor hist\u00f3rico, enquanto operava com personagens reais em situa\u00e7\u00f5es fict\u00edcias. Por isso, tratei logo de avisar na ep\u00edgrafe: \u201cEsta \u00e9 uma obra de fic\u00e7\u00e3o, mas qualquer semelhan\u00e7a com nomes, pessoas ou acontecimentos reais n\u00e3o ter\u00e1 sido mera coincid\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;\u00a0Al\u00e9m dos acontecimentos reais que lastreiam o enredo, temos a\u00ed um delicioso rol de hist\u00f3rias tamb\u00e9m reais e no m\u00ednimo curiosas, envolvendo D. Pedro e outras figuras, conforme voc\u00ea vem divulgando em entrevistas. Conte-nos um pouco sobre elas. E de como foi escolher algumas, dentre tantas, visando dar um direcionamento ao livro.\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICTOR MASCARENHAS<\/strong> \u2013 D. Pedro \u00e9 um personagem t\u00e3o extraordin\u00e1rio que parece at\u00e9 inventado. Era um tipo complexo e com um humor absolutamente inst\u00e1vel, dividido entre suas responsabilidades pol\u00edticas e uma compuls\u00e3o pela vida mundana que rendeu muitas hist\u00f3rias, digamos assim, inusitadas. O crit\u00e9rio para sele\u00e7\u00e3o de algumas dessas hist\u00f3rias e personagens foi ter liga\u00e7\u00e3o direta ou indireta com o processo e o per\u00edodo da Independ\u00eancia. O curioso \u00e9 que mesmo usando apenas fatos documentados, tem coisas que est\u00e3o no livro que parecem fic\u00e7\u00e3o, como no trecho em que os protagonistas se hospedam em um puteiro em Taubat\u00e9 e s\u00e3o informados que D. Pedro havia dormido l\u00e1. Parece mentira, mas a estadia do futuro imperador no bordel realmente aconteceu. Outro exemplo: Pedro, quando crian\u00e7a, costumava se entediar durante a cerim\u00f4nia do beija-m\u00e3o no pal\u00e1cio e se divertia dando petelecos no nariz das pessoas. Usei essa informa\u00e7\u00e3o para explicar a raz\u00e3o do \u00f3dio de um dos personagens por ele. Outra informa\u00e7\u00e3o real que parece mentira \u00e9 a hist\u00f3ria da d\u00edvida de 12 contos de D. Pedro com um bodegueiro chamado Pilotinho, que surge no livro num encontro entre o agiota e Pl\u00e1cido, um amigo picareta do pr\u00edncipe, que renegocia o d\u00e9bito e revela que sua origem est\u00e1 nos gastos de Pedro com uma amante francesa, a atriz Noely. Todos os personagens envolvidos nessa hist\u00f3ria s\u00e3o reais, assim como a d\u00edvida, mas a situa\u00e7\u00e3o que vemos no livro \u00e9 totalmente fict\u00edcia. Esse processo se repete em toda a obra, at\u00e9 na c\u00e9lebre diarreia que acomete Pedro \u00e0s margens do Ipiranga, quando o leitor descobre que ele parou oito vezes para se aliviar e que tomou um ch\u00e1 de goiabeira numa estalagem em Cubat\u00e3o para tentar conter a dor de barriga. Tanto as oito paradas quanto o ch\u00e1 est\u00e3o documentados em relatos da \u00e9poca, mas \u00e9 algo t\u00e3o inusitado para um vulto hist\u00f3rico que at\u00e9 parece inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013<\/strong> <strong>Da\u00ed que voc\u00ea pareceu se apegar a alguns outros acontecimentos marcantes, fartamente documentados, menos pitorescos e, at\u00e9 ent\u00e3o, incontest\u00e1veis &#8211; a participa\u00e7\u00e3o popular e heroica de alguns personagens, por exemplo, al\u00e9m da grandeza dos quase an\u00f4nimos, habilmente convertida em fic\u00e7\u00e3o de qualidade em suas m\u00e3os. Em algum momento, voc\u00ea temeu ser tachado de ufanista, considerando que a Independ\u00eancia tamb\u00e9m est\u00e1 sujeita aos tais revisionismos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICTOR MASCARENHAS &#8211; <\/strong>Apesar de ser o recorte de um per\u00edodo hist\u00f3rico e ter como motor da a\u00e7\u00e3o os atos de v\u00e1rios personagens reais, o livro \u00e9 uma obra de fic\u00e7\u00e3o. Meu trabalho como escritor foi atuar nas lacunas deixadas pelos documentos hist\u00f3ricos, mantendo a coer\u00eancia com os fatos. Os personagens e acontecimentos s\u00e3o narrados sob o ponto de vista mais humano poss\u00edvel, o que afasta qualquer leitura ufanista ou heroica ao apresentar raz\u00f5es bem pouco nobres para atos que sempre nos foram apresentados como algo grandioso. O que melhor exemplifica como o livro foi constru\u00eddo \u00e9 a hist\u00f3ria da viagem dos mensageiros, que \u00e9 o eixo central da trama. O \u00fanico registro sobre ela \u00e9 que durou cinco dias, que era menos da metade do tempo usual. Esse dado, somado ao fato deles irem sozinhos e sem uma escolta, j\u00e1 mostra que havia uma urg\u00eancia e uma tentativa de passar despercebidos, o que j\u00e1 remete a uma miss\u00e3o secreta. O clima belicoso entre defensores de Portugal e da Independ\u00eancia adiciona perigo \u00e0 receita e os relatos da mesma viagem, feita por D. Pedro semanas antes e que foi fartamente documentada, serviu de roteiro para a jornada dos mensageiros, assim como o impacto da passagem do pr\u00edncipe por v\u00e1rias cidades forneceu as hist\u00f3rias que eles foram ouvindo pelo caminho. Esse mecanismo que cria situa\u00e7\u00f5es fict\u00edcias a partir de fatos e personagens reais est\u00e1 presente no livro todo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;\u00a0<\/strong> \u00a0<strong>Em algumas entrevistas, voc\u00ea j\u00e1 falou que recorreu a outros livros para trabalhar a linguagem dos personagens. E essa pesquisa pareceu extrapolar um pouco a linguagem em si, influenciando tamb\u00e9m a t\u00e9cnica usada na sua escrita. Dessa forma, podemos dizer que seu livro possui tamb\u00e9m algumas caracter\u00edsticas cl\u00e1ssicas do folhetim, sem, contudo, perder a complexidade comum ao romance, ainda mais sendo o seu um romance hist\u00f3rico e fiel ao rigor dos fatos ocorridos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICTOR MASCARENHAS &#8211;<\/strong> A quest\u00e3o da linguagem dos personagens foi um grande desafio. N\u00e3o podia construir os di\u00e1logos com o portugu\u00eas contempor\u00e2neo e nem escrever como se falava 200 anos atr\u00e1s, sob o risco de tornar o livro chato ou at\u00e9 incompreens\u00edvel para o leitor. A solu\u00e7\u00e3o que encontrei foi recorrer \u00e0 literatura do s\u00e9culo XIX em busca de express\u00f5es, palavras, gestos e comportamentos que ajudassem a criar uma linguagem estilizada para os personagens, que fosse cr\u00edvel como o portugu\u00eas falado h\u00e1 200 anos e compreens\u00edvel hoje. Nessa pesquisa, acabei por revisitar v\u00e1rios cl\u00e1ssicos da literatura brasileira que foram publicados em formato de folhetim, um formato que casaria perfeitamente com a estrutura do \u201cSete dias em setembro\u201d, que \u00e9 dividido em sete partes, uma para cada dia entre 2 e 8 de setembro de 1822. Ent\u00e3o, esse ritmo de folhetim foi algo que a estrutura do livro j\u00e1 impunha de certa forma e que utilizei de forma estilizada, como fiz com a linguagem, para que o leitor tivesse a experi\u00eancia de curtir a leitura como se estivesse na \u00e9poca dos eventos do livro, participando daquilo tudo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Essa pesquisa deve ter ajudado tamb\u00e9m na constru\u00e7\u00e3o dos protagonistas, Bregaro e Cordeiro, imagino. J\u00e1 que sobre eles pouqu\u00edssimos registros\u00a0foram encontrados por voc\u00ea em suas investiga\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICTOR MASCARENHAS &#8211;<\/strong> Tudo que encontrei na pesquisa sobre os mensageiros Paulo Bregaro e Ant\u00f4nio Ramos Cordeiro foi que o primeiro era\u00a0oficial do Supremo Tribunal Militar e correio-geral da Corte, e o segundo era major. Ou seja: eram personagens reais, mas suas biografias eram p\u00e1ginas em branco, o que abria espa\u00e7o para a fic\u00e7\u00e3o. Como o ambiente da \u00e9poca estava polarizado entre liberais defensores da independ\u00eancia de um lado e absolutistas defensores de Portugal do outro, tive a ideia de coloc\u00e1-los em lados ideol\u00f3gicos opostos. Bregaro, por ter um emprego no pal\u00e1cio e ser mais pr\u00f3ximo da corte, pendia para o lado liberal e, como o ex\u00e9rcito era majoritariamente leal a Portugal, o militar Cordeiro seria um absolutista contra a Independ\u00eancia e um moralista que n\u00e3o gostava de D. Pedro pelo seu comportamento que desrespeitava a \u201cmoral e a fam\u00edlia\u201d. Essas diferen\u00e7as entre eles criaram um conflito que permitiu dar maior profundidade aos personagens e tamb\u00e9m abriram espa\u00e7o para estabelecer um paralelo com a polariza\u00e7\u00e3o que vivemos no presente, dando um tom contempor\u00e2neo ao livro. A viagem da dupla, que vai descobrindo mais sobre o Brasil, sendo impactada pelas not\u00edcias e vendo o cen\u00e1rio se alterando ao redor deles, tamb\u00e9m se assemelha \u00e0 cl\u00e1ssica Jornada do Her\u00f3i e serve de met\u00e1fora para a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds que, aos trancos e barrancos, vai se entendendo e se ajeitando como pode para seguir em frente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"text-align: justify;\">DA \u2013<\/strong> <strong style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, isso fica bem evidente no decorrer do livro: os personagens v\u00e3o mudando diante dos conflitos e das descobertas ao longo dessa \u201cjornada de her\u00f3is\u201d (j\u00e1 pedindo perd\u00e3o ao esp\u00edrito do Campbell pelo trocadilho). Outra coisa \u00e9 a apari\u00e7\u00e3o de alguns personagens, como o Baltazar por exemplo. Creio que sua apari\u00e7\u00e3o carrega um forte significado.\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICTOR MASCARENHAS &#8211; <\/strong>Baltazar \u00e9 um dos personagens fict\u00edcios do livro e tem um papel fundamental na trama. Ele \u00e9 um ex-escravizado que trabalha como ferreiro e auxilia Bregaro e Cordeiro numa das paradas da viagem em que eles s\u00e3o atacados por militares contr\u00e1rios \u00e0 Independ\u00eancia. A constru\u00e7\u00e3o do personagem traz algo de m\u00edtico e m\u00edstico para a hist\u00f3ria. Baltazar \u00e9 um trabalhador altivo e um homem de f\u00e9, que traz na sua religiosidade uma marca genuinamente brasileira: o sincretismo religioso do candombl\u00e9. Baltazar entra na hist\u00f3ria para simbolizar o papel do povo brasileiro no processo da Independ\u00eancia, que foi para o campo de batalha em v\u00e1rios pontos do pa\u00eds e conseguiu derrotar um ex\u00e9rcito organizado e profissional, como era o portugu\u00eas. O que veio depois disso pode n\u00e3o ter sido grandes coisas, mas o processo da Independ\u00eancia foi uma grande conquista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_20452\" aria-describedby=\"caption-attachment-20452\" style=\"width: 334px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Victor-Mascarenhas-02-foto-de-Ari-Capela-in.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20452 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Victor-Mascarenhas-02-foto-de-Ari-Capela-in.jpg\" alt=\"\" width=\"334\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Victor-Mascarenhas-02-foto-de-Ari-Capela-in.jpg 334w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Victor-Mascarenhas-02-foto-de-Ari-Capela-in-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 334px) 100vw, 334px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20452\" class=\"wp-caption-text\">Victor Mascarenhas \/ Foto: Ari Capela<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 A atitude do Baltazar tem muito de coragem e nobreza, decerto. Mas o fato de ele ter sido libertado a pedido do D. Pedro n\u00e3o tiraria um pouco da beleza dessa met\u00e1fora, na medida em que, dessa forma, me pareceu algo concedido e n\u00e3o conquistado? Ou isso tamb\u00e9m foi intencional. Um tipo de simbolismo a nos mostrar que a liberdade sempre passou pelas decis\u00f5es e conveni\u00eancias de um governo ou de um Estado?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICTOR MASCARENHAS \u2013 <\/strong>H\u00e1 duas abordagens para responder essa quest\u00e3o. A primeira \u00e9 que o ato de D. Pedro interceder para conceder a alforria a Baltazar entrou no livro para refor\u00e7ar a informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de que Pedro era contr\u00e1rio \u00e0 escravid\u00e3o. H\u00e1 v\u00e1rios exemplos e cita\u00e7\u00f5es sobre isso no livro, como a informa\u00e7\u00e3o que ele concedeu alforria e terras para escravizados que viviam nas propriedades reais ou a transcri\u00e7\u00e3o de uma frase em que ele diz: \u201cEu sei que o meu sangue \u00e9 da mesma cor que o dos negros\u201d, por exemplo. Infelizmente, o fim da escravid\u00e3o, que tamb\u00e9m era defendido por Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, n\u00e3o veio com a Independ\u00eancia e esperou muitas d\u00e9cadas para ocorrer, mas como o meu livro termina antes mesmo da entroniza\u00e7\u00e3o de D. Pedro, acabo n\u00e3o abordando essa quest\u00e3o, embora deixe pistas sobre o que viria pela frente. A outra abordagem &#8211; sobre a liberdade passar por decis\u00f5es e conveni\u00eancias de um governo ou de um Estado &#8211; \u00e9 mais pragm\u00e1tica. H\u00e1 200 anos, a \u00fanica maneira de um escravizado ser libertado era se o seu propriet\u00e1rio concedesse a sua liberdade, assim como a \u00fanica maneira do Brasil se emancipar de Portugal era apostar suas fichas em D. Pedro. A met\u00e1fora pode at\u00e9 perder um pouco da sua beleza com essa leitura que voc\u00ea aponta, mas era a realidade que o Brasil vivia naquela \u00e9poca e, mesmo sendo uma obra de fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o seria veross\u00edmil explicar o fato de Baltazar ser um homem livre de outra maneira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 <\/strong><strong>Seus livros anteriores prezam por tem\u00e1ticas mais, contempor\u00e2neas, digamos. E voc\u00ea j\u00e1 disse algumas vezes que \u201cSete dias em setembro\u201d era para ter sido o seu segundo livro. Considerando que o seu primeiro foi no ano de 2008, e que os seguintes mantiveram essa linha \u201curbana\u201d, pergunto: por que s\u00f3 tanto tempo depois voc\u00ea resolveu trabalhar nesse romance hist\u00f3rico e por que a escolha por esse tema?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICTOR MASCARENHAS \u2013 <\/strong>A ideia do \u201cSete dias em setembro\u201d \u00e9 decorrente da minha obsess\u00e3o por tentar entender o Brasil, o que me faz ser um leitor compulsivo de livros de hist\u00f3ria, ci\u00eancia pol\u00edtica, sociologia e o que me passar pela frente e possa ajudar. Cheguei a iniciar a pesquisa para o livro por volta de 2010, mas a hist\u00f3ria era um pouco diferente. O que me fez parar foram as dificuldades do processo, que exigia muito tempo, dedica\u00e7\u00e3o, pesquisa e uma maturidade que talvez eu n\u00e3o tivesse naquele momento. Sobre essa pegada mais urbana, acho que isso est\u00e1 mais forte nos meus livros de contos (\u201cCafe\u00edna\u201d, \u201cA insuport\u00e1vel fam\u00edlia feliz\u201d e \u201cUm certo mal-estar\u201d) do que nas narrativas mais longas, onde acabei construindo uma trajet\u00f3ria mais heterog\u00eanea. Meu primeiro romance, o \u201cXing ling\u201d, \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dist\u00f3pica e meio farsesca, onde uma empresa chinesa compra o centro hist\u00f3rico de Salvador para fazer um parque tem\u00e1tico. O segundo, \u201cO som do tempo passando\u201d, \u00e9 mais intimista e se passa praticamente todo numa oficina onde uma banda de quarent\u00f5es se re\u00fane para tocar, alternando com flashbacks da vida dos personagens. Por fim, veio o \u201cSete dias em setembro\u201d, que teve dois gatilhos fundamentais para ser escrito: o anivers\u00e1rio dos 200 anos da Independ\u00eancia em 2022, que forneceu o prazo, e a pandemia, que me trancou em casa e deu o tempo necess\u00e1rio para a pesquisa e a escrita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013<\/strong> <strong>Agora, gostaria que voc\u00ea nos falasse sobre projetos e planos futuros: o que podemos esperar do escritor e\/ou do roteirista (incluindo audiovisual e quadrinhos) Victor Mascarenhas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>VICTOR MASCARENHAS &#8211; <\/strong>Quero seguir trabalhando o \u201cSete dias em setembro\u201d para levar o livro para mais pessoas, aproximar a obra dos estudantes e tentar ajudar a pensar mais sobre o Brasil. Outro objetivo \u00e9 retomar projetos audiovisuais que foram interrompidos pelo governo anterior, que praticamente parou tudo no setor, e tamb\u00e9m come\u00e7ar a trabalhar em novos. Para a literatura, tenho uns contos na gaveta e muitas ideias rabiscadas que podem virar livro em algum momento nos pr\u00f3ximos anos. A ideia \u00e9 seguir escrevendo sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em> <a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/capa-Sete-dias-em-setembro-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20455\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/capa-Sete-dias-em-setembro-1.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/capa-Sete-dias-em-setembro-1.jpg 375w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/capa-Sete-dias-em-setembro-1-250x300.jpg 250w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Gustavo Rios\u00a0<\/em><\/strong><em>\u00e9 baiano e autor do livro C\u00e9u Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa entrevista para Gustavo Rios, o escritor Victor Mascarenhas aborda os percursos de seu mais novo livro<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20473,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4269,16,2539],"tags":[1444,63,2411,4273,4272,887,489,496,65,4274],"class_list":["post-20447","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-153a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-brasil","tag-entrevista","tag-gustavo-rios","tag-historia","tag-independencia","tag-literatura","tag-pequena-sabatina","tag-romance","tag-sabatina","tag-victor-mascarenhas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20447","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20447"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20447\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20596,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20447\/revisions\/20596"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20473"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20447"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20447"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20447"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}