{"id":20479,"date":"2024-10-29T09:12:15","date_gmt":"2024-10-29T12:12:15","guid":{"rendered":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=20479"},"modified":"2024-12-18T19:17:27","modified_gmt":"2024-12-18T22:17:27","slug":"dedos-de-prosa-iii-79","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-79\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Paulo Zan<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_20559\" aria-describedby=\"caption-attachment-20559\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Zo-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20559 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Zo-3.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"354\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Zo-3.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Zo-3-300x212.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20559\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Z\u00f4<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um verdadeiro Dupin <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as coisas indicavam para a conclus\u00e3o \u00f3bvia: o mordomo era o culpado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como eu sei disso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olha, vou lhe contar, caro leitor, como surgiram em mim as primeiras suspeitas e como essa conclus\u00e3o pareceu-me t\u00e3o \u00f3bvia que n\u00e3o precisei agenciar grandes esfor\u00e7os para chegar at\u00e9 ela. E pensar que o safado tentou colocar a culpa em mim, por conta da minha condi\u00e7\u00e3o\u2026 voc\u00eas sabem, n\u00e3o \u00e9 mesmo?, essa corja de pernudos sempre tenta colocar a culpa em quem tem pernas curtas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mordomo atende por nome Jer\u00f4nimo e trabalhava na nossa casa desde que me entendo\u2026 enfim, h\u00e1 muito tempo ele trabalhava na casa, mesmo antes da minha chegada, e voc\u00eas sabem como esse tipo de coisa, me refiro a quest\u00e3o temporal e de conviv\u00eancia com os donos da casa etc., \u00e9 levada em considera\u00e7\u00e3o quando de repente aparece um vaso quebrado e o safado aponta logo para quem \u00e9 supostamente mais fr\u00e1gil e n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de arguir em sua pr\u00f3pria defesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jer\u00f4nimo era afobado, percebi logo. Mesmo ele sendo mais velho do que eu na casa, ele se sentia menos \u00e0 vontade, pois estava em posi\u00e7\u00e3o de subservi\u00eancia, enquanto eu\u2026 eu j\u00e1 cheguei em uma posi\u00e7\u00e3o que s\u00f3 era inferior a dos donos da casa, o doutor Omar e a sua senhora, a dona Matilda. Os dois, j\u00e1 velhinhos e sem filhos naturais, ambos aposentados e morando numa mans\u00e3o enorme no Corredor da Vit\u00f3ria, decidiram-se por adotar-me. Foram, numa ter\u00e7a-feira de julho, at\u00e9 o\u2026 e assim que me viram n\u00e3o aguentaram. Disseram que eu olhava para eles feito quem pedia colo, como quem, abandonado pelo destino, encontrou a sorte nos bra\u00e7os de dois velhinhos. E me levaram, mesmo eu n\u00e3o podendo falar, sabiam bem disso, mesmo eu tendo pernas curtas\u2026 talvez eles at\u00e9 gostassem desse fato, posso supor porque n\u00e3o tiveram filhos\u2026 n\u00e3o queriam crian\u00e7as correndo pela casa. Eu era do formato e do tamanho que eles queriam. A criatura ideal para preencher o vazio de dois velhinhos desfilhados. Sim, fiquei sabendo depois que j\u00e1 haviam tentado ter filhos, mas a dona Matilda perdera tr\u00eas beb\u00eas e resolveram n\u00e3o tentar uma quarta vez, seria uma grande dor, mesmo que previs\u00edvel. Jer\u00f4nimo passou por tudo isso com eles. O mordomo, quase t\u00e3o velho quanto os dois aposentados, estava naquela casa h\u00e1 pelo menos tr\u00eas d\u00e9cadas. Eu s\u00f3 tinha doze anos na \u00e9poca, um menino na beira dele\u2026 perto dos meus: j\u00e1 quase um idoso. Segundo pensavam: minha mem\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o era das melhores, talvez tamb\u00e9m minha aten\u00e7\u00e3o, por isso a conclus\u00e3o precipitada de que o mordomo realmente estava certo e que, muito provavelmente, num vacilo, eu tenha derrubado o vaso. Cheguei a crer tamb\u00e9m nisso. Duvidei das minhas pr\u00f3prias faculdades, duvidei das coisas que eu via, mesmo minha vis\u00e3o estando em condi\u00e7\u00f5es perfeitas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que covarde! Estou me eximindo das minhas responsabilidades por um simples orgulho felino. Martirizei-me por todos os cantos da casa e, na falta de ter com quem conversar, decidi investigar o caso. Falta talvez dizer a voc\u00ea, desocupado leitor, que se investiguei n\u00e3o foi s\u00f3 pela dor de talvez ser o culpado do crime\u2026 talvez voc\u00ea esteja pensando: ora, mas tudo isso por um simples vaso? No entanto, n\u00e3o era qualquer vaso, nele estavam contidos os resqu\u00edcios de muitas vidas. Seu Omar e dona Matilda poderiam at\u00e9 inferir ju\u00edzos sobre o assunto, mas a \u00fanica coisa que faziam era lamentar. Poderiam muito bem, numa hip\u00f3tese at\u00e9 justificada pelas ocasi\u00f5es, dizer que o pobre do gato sentia ci\u00fames, que, sabendo haver dentro do vaso chin\u00eas de porcelana azul as cinzas dos fetos abortados, cogitava os mundos poss\u00edveis em que ele, desgra\u00e7ado felino, n\u00e3o fazia parte dessa fam\u00edlia. Pobre gato caduco, diziam ambos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passei a vigiar a rotina de Jer\u00f4nimo, eu sabia que ele escondia algo. Seus olhos sempre baixos, como quem tentava se desviar dos pr\u00f3prios p\u00e9s. Sua gola desajeitada\u2026 sorte dele que n\u00e3o era eu o patr\u00e3o. Meus tutores n\u00e3o se importavam mais com essas coisas de apar\u00eancias dos empregados. Bem lembrado! Eu n\u00e3o havia situado o leitor de que na casa, al\u00e9m do seu Omar, dona Matilda, Jer\u00f4nimo e eu (que me reservo ao direito de anonimato, j\u00e1 que eu, c\u00e1 de onde falo, tamb\u00e9m n\u00e3o posso saber as gra\u00e7as de quem me l\u00ea), tamb\u00e9m estava na casa e, noutra ocasi\u00e3o, talvez pudesse ser uma suspeita, a cozinheira Cida. L\u00e1 fora ainda tinha, na garagem, o motorista Dirceu e, no jardim, o jardineiro Alfredo. Todos os nomes s\u00e3o falsos, \u00e9 claro, dado que n\u00e3o quero expor os dois velhinhos que me acolheram em todas as minhas necessidades. E por que n\u00e3o coloco tamb\u00e9m um nome falso para a minha persona?, voc\u00ea pode se questionar. Eu poderia deixar o meu impaciente leitor gastar suas unhas\u2026 mas isso \u00e9 um pormenor que talvez valha mencionar. \u00c9 simples, o meu anonimato \u00e9 por pura for\u00e7a do drama, sen\u00e3o este que narra n\u00e3o seria eu, mas outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jer\u00f4nimo, como eu ia dizendo, andava sarrabieiro. Ele suava de nervoso perto de mim, e isso me deu ainda mais fortes ind\u00edcios de que de fato ele teria sido o culpado. Eu, como n\u00e3o sou bobo, provocava-o. A todo canto que ele ia, eu seguia atr\u00e1s como um gato sorrateiro, com o perd\u00e3o da ironia\u2026 Calculei que estava pr\u00f3ximo de encontrar uma brecha nas evasivas do sujeito, pois, com todo aquele nervosismo, ele vacilaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda restava buscar por uma prova e, talvez a coisa mais importante, saber se o crime fora fruto de puro descuido ou se ele havia premeditado. Se premeditado, restava saber as motiva\u00e7\u00f5es que moviam o mordomo ao ato nefasto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era j\u00e1 fim de tarde quando, diante do p\u00f4r do sol, ou das poucas frestas vis\u00edveis em meio a tantos pr\u00e9dios que surgiram ao redor de nossa casa nos \u00faltimos dez anos, quando fui atingido por um relampejar de sensatez detetivesca. As roupas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tinha no\u00e7\u00e3o de que o mordomo n\u00e3o lavava suas roupas de servi\u00e7o, era Cida quem fazia isso no s\u00e1bado. Ainda era sexta e resolvi investigar mais de perto. Assim que Cida descuidou-se, distraindo-se com um caf\u00e9 que estava no fogo, avancei por detr\u00e1s dela em sentido da lavanderia, supunha encontrar l\u00e1 as roupas do malandro. Para minha fortuna, ele havia deixado na lavanderia as roupas do dia do crime. Logo me pus a investigar mais de perto. Dito e feito! Encontrei um caco na lapela do safado e tratei de planejar como faria para levar as roupas at\u00e9 meus tutores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de falhar ao tentar enganchar com minhas garras, abocanhei a lapela, que tinha gosto de suor, e arrastei at\u00e9 a sala. Antes tive que passar por Cida novamente, que, para minha felicidade, estava concentrada nas x\u00edcaras&#8230; Quando cheguei na sala e arranjei a cena para que fosse de f\u00e1cil constata\u00e7\u00e3o que o culpado era na verdade Jer\u00f4nimo, me senti um verdadeiro Dupin.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os velhos ficaram chocados com a situa\u00e7\u00e3o e, ap\u00f3s alguns elogios acerca da minha esperteza na arte de desvelar as injusti\u00e7as, me pediram os mais grandiosos perd\u00f5es que eu j\u00e1 tinha ouvido em toda minha vida de gato. N\u00e3o se enganem, tenho s\u00f3 uma vida e ainda dura em m\u00e9dia s\u00f3 a idade de um reles adolescente. Por isso n\u00e3o posso gastar minha beleza explicando pormenores. Mas, indo direto ao ponto, eu tinha certeza que o canalha confessaria tudo e diria os motivos assim que chegasse, no outro dia de manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passou-se a noite. E quando Jer\u00f4nimo chegou a arapuca j\u00e1 estava armada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro ele chorou, de praxe. Essa gente chora por tudo, afinal. Depois, tratou de pedir desculpas por ter colocado a culpa no \u201cgato\u201d. Canalha duas vezes! Podia me tratar diretamente, mas preferiu ser indireto e ainda me chamou pela esp\u00e9cie. Eu n\u00e3o fico chamando os outros pela esp\u00e9cie\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, at\u00e9 eu me senti um pouco mal quando o sujeito passou a narrar os ocorridos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele disse que naquela noite o seu netinho de dois anos morrera de febre amarela, doen\u00e7a que estava atingindo muitos mi\u00fados da regi\u00e3o. Acabou que n\u00e3o dormiu bem, mas, como nunca em trinta anos tinha jamais faltado um \u00fanico dia sequer, resolveu trabalhar assim mesmo. No vaiv\u00e9m pela sala, depois de algumas x\u00edcaras de caf\u00e9, vacilou e esbarrou no vaso. Como a primeira criatura que passou pela sua mente foi eu, ele resolveu me acusar do mal feito. Entretanto, andava se remoendo desde ent\u00e3o e estava decidido a se desculpar e revelar os pormenores, disse isso passando a m\u00e3o pelo meu corpo, em sentido de desculpa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois disso, ele suspirou e disse que estava tudo bem se quisessem despedi-lo. Os velhinhos se entreolharam e n\u00e3o disseram nada por um bom tempo. A situa\u00e7\u00e3o estava estranha. Senti que talvez realmente cogitassem despedir o sujeito. Resolvi tamb\u00e9m agir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pulei no colo de Jer\u00f4nimo, que agora estava sentado aos prantos e eu, mesmo sem ter m\u00e3os e com minhas pernas curtas, rocei em seu corpo buscando acalentar a sua dor, ser para ele, por um momento, o que eu havia sido toda a minha vida para aqueles dois velhinhos. Depois olhei para meus tutores diante de n\u00f3s e dei um miado, como que dizendo: vejam este homem chorando a morte do neto e o peso da responsabilidade de ter derrubado o objeto mais importante da vida de dois velhinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dona Matilda foi a primeira a sorrir, depois o seu Omar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu, ainda no colo do mordomo, dizia a mim mesmo: n\u00e3o pode ser mal sujeito este homem t\u00e3o emocionado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Publicado originalmente no livro \u201cLinha t\u00eanue\u201d (Margem, 2022).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Paulo Zan<\/em><\/strong><em> \u00e9 o nome art\u00edstico de Paulo Alexandre Trindade Freire, (Rio de Contas-BA, 1999), graduado em Filosofia e mestrando em Literatura e Cultura \u00a0pela Universidade Federal da Bahia. J\u00e1 publicou os livros de contos Linha t\u00eanue (Margem, 2022) e \u00a0Trapa\u00e7as (Caravana, 2023). Participou das antologias \u201cPacote de Textos\u201d (Org. Rafael Caneca, 2021) e \u201cAcaso liter\u00e1rio Vol. 1\u201d (Org. Simone Campos, 2021).\u00a0 \u00c9 apresentador do podcast Orgulhoso Cast.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um pitoresco conto de Paulo Zan<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20559,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4269,2534],"tags":[81,41,4281,4279,4280,4278,149],"class_list":["post-20479","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-153a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-felino","tag-gato","tag-mordomo","tag-paulo-zan","tag-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20479","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20479"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20479\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20588,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20479\/revisions\/20588"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20559"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20479"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20479"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20479"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}