{"id":20506,"date":"2024-10-29T10:16:09","date_gmt":"2024-10-29T13:16:09","guid":{"rendered":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=20506"},"modified":"2024-12-18T19:17:05","modified_gmt":"2024-12-18T22:17:05","slug":"dedos-de-prosa-ii-81","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-81\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Adriano Esp\u00edndola Santos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_20508\" aria-describedby=\"caption-attachment-20508\" style=\"width: 348px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/zo-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20508 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/zo-1.jpg\" alt=\"\" width=\"348\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/zo-1.jpg 348w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/zo-1-209x300.jpg 209w\" sizes=\"auto, (max-width: 348px) 100vw, 348px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20508\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Z\u00f4<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Convers\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pequena falha de car\u00e1ter? Um desvio grosseiro, pecaminoso? Retomei uma cren\u00e7a que havia se perdido no tempo, no meio de tantos ensaios \u00e0 sabedoria, quando achava que o homem era o \u00fanico ser supremo: a f\u00e9 crist\u00e3. Nunca, no entanto, consegui me desvencilhar de uma culpa cat\u00f3lica. Nas orgias que preparava em casa, sempre no dia seguinte me batia uma depress\u00e3o, uma tremenda culpa me pesava, como se eu fosse o pior dos homens; deixei de visitar minha m\u00e3e, porque n\u00e3o conseguia lhe encarar; \u201cO que ela iria dizer de um filho pervertido?\u201d, refletia. Sim, passados dois ou tr\u00eas dias, quando os colh\u00f5es estavam latejando de lux\u00faria, eu me enfiava, de novo, entre as pernas do Naldo, no trabuco da Jeniffer ou na bunda da Sofia, um(a) de cada g\u00eanero ou esp\u00e9cie, como queira. Houve o dia em que reuni os meus tr\u00eas fantoches preferidos numa sauna alugada s\u00f3 para a gente. Foi uma fortuna. Apliquei praticamente toda a minha poupan\u00e7a nessa experi\u00eancia, que julgava ser a \u00faltima; havia sido diagnosticado com c\u00e2ncer de pele. Sobre o c\u00e2ncer, digo que foi um blefe do destino, porque o m\u00e9dico, muito competente, tirou a \u00e1rea afetada e n\u00e3o foram precisos maiores cuidados. J\u00e1 estou em fase de remiss\u00e3o; considero-me curado. Luto para juntar algum trocado para pagar contas antigas, inclusive de d\u00e9bito com a sauna. Os ou as tr\u00eas mosqueteiros ou mosqueteiras me abandonaram. Eu tamb\u00e9m os(as) abandonei. Na primeira semana em que fiz a cirurgia \u2013 que foi um sucesso, segundo o m\u00e9dico \u2013, voltei \u00e0 igrejinha do Menino Deus. Fazia, pelo menos, uns dez anos que n\u00e3o pisava ali. Ajoelhei-me e chorei, pedindo perd\u00e3o a Deus, por meu ego\u00edsmo, por um v\u00edcio meu, s\u00f3 meu, que eu n\u00e3o sabia controlar. A promessa que fiz resultou em um sacrif\u00edcio e uma obriga\u00e7\u00e3o, que entregava a Deus, de n\u00e3o me entregar mais \u00e0 pervers\u00e3o. Lembrava-me de quando era menino e puro, e n\u00e3o pensava em sexo ou coisas do tipo. A minha luta di\u00e1ria \u00e9 para pensar e sentir a beleza das flores, o silvo dos ventos do sul e a magnitude do rei Sol. Amargo uma d\u00edvida pior, que n\u00e3o serei capaz de saldar em vida. Minha m\u00e3ezinha est\u00e1 com Alzheimer. Justamente na minha convers\u00e3o, minha m\u00e3e perdeu os sentidos para acompanhar a d\u00e1diva. O que resta de mem\u00f3ria para ela \u2013 se \u00e9 que resta \u2013, \u00e9 para brigar comigo, me chamar de \u201cmenino maligno\u201d, algo que, mesmo sabendo que ela fala por falar, me d\u00f3i profundamente. Essas s\u00e3o a minha adaga e o meu pendor. Entendi que devo suportar tudo isso, para a minha verdadeira reden\u00e7\u00e3o. Noutro dia encontrei Sofia, no centro, e ela me recomendou uma boa trepada para eu mudar o meu humor. Disse a ela que o meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 novo \u2013 ainda que tentado por aquele rabo espetacular.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00f3 por hoje<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Noite clara. Tempo manso e veloz. Uma rasga-mortalha mandou o seu canto f\u00fanebre. Minha m\u00e3e dizia que o canto indicava casamento ou morte. Como se fossem os opostos: felicidade e tristeza. Eu estava na linha dos acontecimentos. E brutalmente acometido de melancolia. Guinha, meu amigo de inf\u00e2ncia, disse que isso tinha a ver com o abuso no consumo de drogas; que ele tamb\u00e9m estava assim, ferido, abatido. Namorava com \u00c9rica, que, cravada de obsess\u00e3o, sempre que brig\u00e1vamos dizia que ia se matar. Ela, sim, era doente em alto grau \u2013 e, \u00e0 \u00e9poca, eu n\u00e3o achava que uma palavra do que dizia fosse verdade. Era, al\u00e9m de tudo, dram\u00e1tica. Numa queda, em que ralou o joelho, quis ir ao hospital para fazer exames, porque jurava ter fraturado a r\u00f3tula. O drama foi dissipado com um tranquilizante, que os m\u00e9dicos deram, alegando que ela estaria, possivelmente, com s\u00edndrome do p\u00e2nico; que era algo muito corriqueiro, dada a urg\u00eancia dos nossos dias. Sa\u00eda com Guinha e Bengala para as noitadas regadas a u\u00edsque vagabundo e coca\u00edna. O dinheiro vinha do meu pai, dono de uma pequena mercearia de bairro, porque eu, quando podia, lhe ajudava. J\u00e1 tinha desencanado dos estudos. Meu pai decretou: ou trabalha, ou estuda. Preferi fingir que trabalhava. Arrumava uma coisa aqui, outra ali, para mostrar que fazia algo. A minha obriga\u00e7\u00e3o principal era a entrega das \u00e1guas. Rodava o bairro, na fissura, entregava o que dava e, para os insistentes, dizia que a \u00e1gua da marca tal estava faltando. Meu pai reclamava da diminui\u00e7\u00e3o das entregas. Eu queria mandar tudo para o espa\u00e7o. \u00c0s 17h, sa\u00eda do emprego e ia para a casa da \u00c9rica ou dava uns botes com os comparsas. Numa noite em que sumi com Guinha, quando cheiramos todas as carreiras poss\u00edveis que o nosso dinheiro dava conta, ao chegar em casa, meu pai disse que tinha ligado para todos os hospitais atr\u00e1s de mim, e falou o pior: \u00c9rica estava no hospital por overdose de rem\u00e9dios; teve uma parada card\u00edaca e estava com insufici\u00eancia renal. Dois dias depois, \u00c9rica veio a \u00f3bito. Eu quis me matar, por minha razo\u00e1vel culpa. Mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o tive coragem. Ao mesmo tempo, estava com \u00f3dio de \u00c9rica, que mudou o meu destino. Por conta dela, pedi ao meu pai para me internar numa cl\u00ednica. N\u00e3o aguentava mais lidar com a minha vida, mundana, absurda. Poxa, eu j\u00e1 estava pronto para acabar o relacionamento. N\u00e3o tive for\u00e7as, a covardia \u00e9 minha amiga. Foram anos dizendo: \u201cEstou limpo, s\u00f3 por hoje\u201d. Estou limpo, mas brabo, doente. Joana \u00e9 uma santa que encontrei pelo caminho. Ela me ajuda, no que pode, e n\u00e3o sei at\u00e9 quando. Ainda tenho pesadelos com \u00c9rica gritando. Na \u00faltima vez em que encontrei Guinha, ele estava acabado, voltou a consumir drogas e morava na rua. Foi a dor mais do\u00edda. Que n\u00e3o me pegue a desgra\u00e7a, s\u00f3 por hoje; s\u00f3 por hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Adriano Esp\u00edndola Santos<\/em><\/strong><em> \u00e9 natural de Fortaleza, Cear\u00e1. Em 2018 lan\u00e7ou seu primeiro romance \u201cFlor no caos\u201d, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, \u201cCont\u00edculos de dores refrat\u00e1rias\u201d e \u201co ano em que tudo come\u00e7ou\u201d; em 2021 o romance \u201cEm mim, a clausura e o motim\u201d, pela Editora Penalux; em 2022 a colet\u00e2nea de contos \u201cN\u00e3o h\u00e1 de qu\u00ea\u201d, pela Editora Folheando; e em 2024 o livro de contos \u201cAmparo secreto\u201d, pela editora Urutau. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e V\u00edcio Velho. \u00c9 advogado civilista-humanista. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Liter\u00e1ria e em Revis\u00e3o de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. \u00c9 dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o cora\u00e7\u00e3o inquieto. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos contos de Adriano Esp\u00edndola Santos, densos rasgos de vida<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20507,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4269,2534],"tags":[4189,419,41,149],"class_list":["post-20506","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-153a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-adriano-espindola-santos","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20506","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20506"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20506\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20586,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20506\/revisions\/20586"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20507"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20506"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20506"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20506"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}