{"id":20673,"date":"2024-12-13T12:23:47","date_gmt":"2024-12-13T15:23:47","guid":{"rendered":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=20673"},"modified":"2024-12-18T19:14:33","modified_gmt":"2024-12-18T22:14:33","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-87","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-87\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu entrevistado \u00e9 sabidamente uma figura prol\u00edfica no campo liter\u00e1rio. E dizer isso n\u00e3o se alinha a uma ideia de que h\u00e1 em seu modus operandi uma busca desenfreada pelo volume das coisas, ou seja, por uma maquina\u00e7\u00e3o que, a qualquer custo, grafe palavras no corpo dos livros. H\u00e1 nele o interesse agu\u00e7ado na mat\u00e9ria que emana da vida, vislumbrando cen\u00e1rios, objetos e personagens dilu\u00eddos naquilo que tanto denominamos de realidade. Acima de tudo, \u00e9 um algu\u00e9m confessadamente imbu\u00eddo de confeccionar seus escritos atrav\u00e9s de um engenho esmeradamente arquitetado, mesclando estudo e pesquisa, dentre outros importantes atributos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar de <strong>Marcus Vin\u00edcius Rodrigues<\/strong>, a quem j\u00e1 entrevistei noutras oportunidades, \u00e9 tamb\u00e9m pensar o quanto sua obra, largamente situada no terreno da prosa, reflete uma predile\u00e7\u00e3o criativa que trata a pr\u00f3pria Literatura como uma entidade organizadora de tudo, qui\u00e7\u00e1 o que ele mesmo chama de mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o, esse algo que provavelmente convoca autores a lidarem com os chamados do mundo que os abra\u00e7a e constitui. \u00c9 assim que esse autor vai nos envolvendo em livros como <em>3 vestidos e meu corpo nu <\/em>(2009)<em>,<\/em> <em>Cada dia sobre a terra <\/em>(2010),<em> Caf\u00e9 molotov <\/em>(2018),<em> A eternidade da ma\u00e7\u00e3 <\/em>(2016)<em>, \u00a0O mar que nos abra\u00e7a <\/em>(2019)<em>, <\/em>dentre outros que engendram sinais de nossas humanas idades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a conversa que travamos agora para a Diversos Afins, em meio a uma entusiasmada troca epistolar de e-mails, coloca no centro o mais recente rebento de Marcus, o instigante <em>Motel Mustang <\/em>(2024), livro de contos que elabora, a seu modo, narrativas marcadas pelos efeitos de uma trag\u00e9dia ocorrida em Salvador no fim da d\u00e9cada de 1980. Nesta entrevista, \u00e9 poss\u00edvel perceber o qu\u00e3o compromissado est\u00e1 o escritor em estruturar o seu of\u00edcio a partir de um projeto liter\u00e1rio consciente e maduro, revelando pormenorizadamente ao leitor algumas estrat\u00e9gias que mobilizam e formulam suas cria\u00e7\u00f5es. Mostra-se, pois, um algu\u00e9m profunda e gentilmente disposto a compartilhar o universo que o faz seguir adiante, cultivando n\u00e3o somente palavras, mas tamb\u00e9m inquietudes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_20797\" aria-describedby=\"caption-attachment-20797\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-II-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20797 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-II-2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-II-2.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-II-2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20797\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Danilo Alves<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Partindo de uma trag\u00e9dia real, voc\u00ea constr\u00f3i o seu <em>Motel Mustang<\/em>. E \u00e9 interessante perceber ali que a fic\u00e7\u00e3o ocupa um espa\u00e7o privilegiado quando oferta\u00a0aos leitores vis\u00f5es sobre personagens que perfeitamente poderiam ter existido, todas elas com trajet\u00f3rias singulares, mas entrela\u00e7adas pelo destino comum e fat\u00eddico.\u00a0Na sua perspectiva de autor, a realidade tamb\u00e9m clama por alguma esp\u00e9cie de reinven\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES &#8211;<\/strong> Voc\u00ea inicia sua pergunta assumindo que eu parti de uma trag\u00e9dia real para produzir um livro que privilegia a fic\u00e7\u00e3o. Na verdade, o processo foi o inverso e talvez eu possa dizer que tenha sido um acidente, um acaso, ou, quem sabe, um sopro de uma musa em meus ouvidos. Esp\u00edritos? Apenas o mist\u00e9rio da cria\u00e7\u00e3o. Em maio de 2023, eu me dirigia \u00e0 sede da Editora P55 para uma reuni\u00e3o. J\u00e1 h\u00e1 algum tempo eu dizia a Andr\u00e9 Portugal e Marcelo Portugal, os editores, que eles deveriam fazer um livro coletivo (antologia ou colet\u00e2nea). V\u00e1rios escritores. Propus um livro er\u00f3tico, que acabou sendo lan\u00e7ado e se chama <em>Eros sobre os abismos<\/em>, com Clarissa Macedo, D\u00eanisson Padilha Filho, K\u00e1tia Borges, Rita Santana, Su\u00eanio Campos de Lucena, Victor Mascarenhas e eu. No caminho, no carro, me veio a ideia de fazer um livro sobre o Motel Mustang. Cada autor escreveria um conto que se passasse na noite da trag\u00e9dia. Imediatamente, achei a ideia muito boa e resolvi escrever. Na reuni\u00e3o, apresentei os dois projetos. Na semana seguinte eu estava no centro de documenta\u00e7\u00e3o do Jornal A tarde fazendo pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu lembrava da trag\u00e9dia ocorrida em 1989. \u00c9 uma lembran\u00e7a de ouvir dizer, de conversas das pessoas. N\u00e3o lembro de ter visto as mat\u00e9rias nos telejornais. Devo ter visto, mas n\u00e3o lembro. Era uma lembran\u00e7a sem imagens. A partir de 1991, eu passei a trabalhar na Avenida Suburbana. No trajeto, eu sempre lembrava do motel. Eu n\u00e3o sabia onde exatamente tinha sido e ficava imaginando onde ele ficava. Outra lembran\u00e7a marcante foi que uma professora minha do ensino m\u00e9dio tinha perdido o marido na trag\u00e9dia. Evidentemente, ele estava com uma amante. Essa \u00e9 uma lembran\u00e7a que tamb\u00e9m ficou enevoada. N\u00e3o lembro se foi ela mesma quem falou ou se algu\u00e9m falou dela. Com o tempo, eu passei a duvidar da hist\u00f3ria porque outras hist\u00f3rias semelhantes surgiram. Se todo mundo que dizem ter morrido no motel em situa\u00e7\u00e3o de adult\u00e9rio tivesse mesmo morrido, teria sido muito mais que nove v\u00edtimas. Essa hist\u00f3ria de minha professora inspirou o \u00faltimo conto do livro (\u201cO que se v\u00ea do alto\u201d), primeira hist\u00f3ria pensada, j\u00e1 com a ideia de ir limpar a igreja para vender. Enfim, respondendo a sua pergunta: desde o come\u00e7o eu pensei em usar a fic\u00e7\u00e3o para me aproximar dos acontecimentos. A minha pergunta \u00edntima era: como as pessoas se sentiram. Eu quis entender o que \u00e9 viver uma trag\u00e9dia dessas; como \u00e9 descobrir uma trai\u00e7\u00e3o nessas circunst\u00e2ncias; como \u00e9 ver gente morrendo, como \u00e9 morrer&#8230; e o que buscavam os clientes, quais suas hist\u00f3rias. Ao longo do processo de escrita e pesquisa, eu fui me aproximando mais e mais da realidade. Falo escrita e pesquisa, e n\u00e3o pesquisa e escrita porque, sim, comecei com fic\u00e7\u00e3o e fui adentrando aos poucos na realidade. Eu s\u00f3 consegui achar o inqu\u00e9rito policial no meio do processo. Mas eu j\u00e1 tinha o livro planejado e j\u00e1 sabia que a realidade, a trag\u00e9dia em si, seria retratada no conto \u201cO peso de tudo\u201d. O livro foi escrito na ordem em que foi publicado, embora as duas hist\u00f3rias finais tenham sido as primeiras a serem pensadas. Na primeira pesquisa em jornal, eu li a frase \u201ctoalhas foram encontradas nas casas da vizinhan\u00e7a\u201d, e essa not\u00edcia gerou o pen\u00faltimo conto, \u201cA maciez da vida\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Interessante saber desses detalhes do processo de cria\u00e7\u00e3o de <em>Motel Mustang<\/em>, pois eu j\u00e1 ia lhe indagar sobre como foi exatamente a pesquisa hist\u00f3rica que ele evoca, ainda mais em raz\u00e3o da obra apresentar trecho do inqu\u00e9rito policial, bem como o recorte de jornal que noticiava, em mat\u00e9ria de capa, a trag\u00e9dia. Isso confere tamb\u00e9m certo refor\u00e7o documental ao livro, uma sinaliza\u00e7\u00e3o ao leitor do seu embasamento na realidade. Ao mesmo tempo, \u00e9 libertador saber que a Literatura n\u00e3o precisa ter compromisso com uma ideia de verdade comprov\u00e1vel? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES &#8211; <\/strong>Como voc\u00ea p\u00f4de ver, minha aproxima\u00e7\u00e3o com o fato real foi quase por acaso. Ela n\u00e3o come\u00e7a com uma pretens\u00e3o de lidar com a realidade. Apenas aconteceu. Eu estava vasculhando na minha cabe\u00e7a uma ideia sobre erotismo. A lembran\u00e7a do motel foi um acidente. Uma pedra no meio do caminho. Peguei a pedra e transformei em uma dire\u00e7\u00e3o a seguir. A escrita deste livro foi um processo \u00fanico. L\u00e1 estava eu diante de um material real a ser trabalhado com minhas pr\u00f3prias realidades internas. Eu digo na orelha que \u00e9 um livro escrito sob o signo da compaix\u00e3o. \u00c9 verdade. Aos poucos, eu fui me aproximando das pessoas reais que morreram, dos sobreviventes, das hist\u00f3rias \u00edntimas vislumbradas nos depoimentos. Isso me fez olhar para minhas personagens com compaix\u00e3o porque elas representam aquelas pessoas reais e todos sabemos o final tr\u00e1gico. \u00c9 isso: eu tinha uma moldura tr\u00e1gica, ou seja, um destino inexor\u00e1vel, o desabamento. Quem entra no livro sabe disso. Ent\u00e3o, coube a mim ficcionalizar, n\u00e3o a trag\u00e9dia, mas os dramas particulares de cada um. Trabalhei muitos anos naquela regi\u00e3o de Salvador, o Sub\u00farbio ferrovi\u00e1rio, como advogado de empresas de transporte coletivo. Naqueles anos, aprendi que, quando a trag\u00e9dia chega, ela \u00e9 obrigada a dividir espa\u00e7o com dramas anteriores. Uma pessoa atropelada n\u00e3o \u00e9 uma pessoa que vivia feliz e foi atropelada, \u00e9 uma pessoa que antes j\u00e1 tinha seus dramas e suas infelicidades. Eu queria, no <em>Motel Mustang<\/em>, mostrar esses v\u00e1rios universos particulares que foram atingidos por aquele soterramento: o jovem e sua primeira vez; a mulher insegura do amor de seu namorado; o homem que quer ser aceito no trabalho; o casal gay que enfrenta a homofobia e o medo da AIDS; a mulher com seus conflitos religiosos; o menino que deseja se impor aos colegas; a mulher que redescobre sua libido; a mulher que descobre a hipocrisia da religi\u00e3o. Em meio a tudo isso, vislumbres da realidade: o gar\u00e7om que ia se casar; o motorista e seu desamparo; o hero\u00edsmo do faz tudo; a camareira que n\u00e3o consegue salvar os h\u00f3spedes; o gerente que se sente impotente para resistir \u00e0 opress\u00e3o econ\u00f4mica. At\u00e9 mesmo a dona do motel e sua cren\u00e7a em seres extraterrestres me interessa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu fiz uma pesquisa extensa. H\u00e1 muitos fatos reais interessantes e h\u00e1, tamb\u00e9m, muitos fatos ficcionais. Eu lidei com aqueles que se me apresentaram inteiros, aqueles que acenderam primeiro, as primeiras cintila\u00e7\u00f5es de ideias. Ah! Se eu tivesse tend\u00eancia \u00e0 mistifica\u00e7\u00e3o, diria que as personagens me escolheram. Muitas hist\u00f3rias reais e inventadas ficaram de fora. O fato de serem seis contos naturalmente exercia uma press\u00e3o para mais um, o s\u00e9timo, o tal n\u00famero cabal\u00edstico. Resisti porque, desde o come\u00e7o, tinha um desenho claro, uma partitura: a chegada ao motel, sua apresenta\u00e7\u00e3o; os casais nos quartos na busca do amor no sexo; o momento do desabamento com todos os seus problemas reais e todos os sentimentos de morrer ou ver a morte; os saques do dia seguinte e o luto dos que perderam algu\u00e9m. N\u00e3o caberia mais nada al\u00e9m disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Qual foi a sua maior sensa\u00e7\u00e3o depois do livro ficar pronto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES &#8211; <\/strong>Nossa! Deixa eu pensar. Vou elaborando enquanto escrevo. Sabe, tem uma coisa que est\u00e3o falando ultimamente. As pessoas criticam quem diz que o filme ou o livro \u00e9 baseado em fatos reais porque todo fato \u00e9 real. Eu discordo e j\u00e1 mencionei isso acima. Existem fatos ficcionais, eventos inventados que s\u00e3o t\u00e3o fortes que jamais poder\u00e3o ser mudados em uma adapta\u00e7\u00e3o. Capitu tinha olhos de ressaca. Isso \u00e9 um fato. Quando eu terminei o livro, eu tive essa sensa\u00e7\u00e3o. Tudo que estava ali inventado era fato. Ou seja, eram pessoas e acontecimentos imut\u00e1veis. Alguns morreram outros sobreviveram. Eu sei quem s\u00e3o, embora n\u00e3o conte. E isso \u00e9 um fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas personagens eu as vou descobrindo durante a escrita. \u00a0Esta semana eu estava numa oficina de escrita para romance de Davi Boaventura e o exerc\u00edcio era dizer tudo da personagem, criar a personagem. Eu me dei conta que a personagem vai me aparecendo com o tempo de escrita. O pr\u00f3prio ato de narrar \u00e9 quem me faz entender a personagem. Quando tudo d\u00e1 certo, a personagem fica completa e viva. El\u00f3i, Iranice, Marta, Torres, Jackson, Ter\u00eancio, Luciane, Dinho, os pais de Dinho, Dona Mira, o pastor, Jana\u00edna&#8230; todos s\u00e3o reais para mim. As pessoas reais tamb\u00e9m se cristalizaram. Eu tive muito cuidado em retrat\u00e1-las. Omiti os nomes e as mencionei pela fun\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, fiz um tratamento ficcional. Eu queria que o leitor sentisse a dor que eu senti com a morte do motorista e do gar\u00e7om, por exemplo. Eu queria que houvesse uma conex\u00e3o com eles. A dona do motel era uma personagem pronta. Sua cren\u00e7a em ETs declarada \u00e0 imprensa jamais poderia ser inventada. Soaria inveross\u00edmil, mas a realidade \u00e9 assim, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas reais: sei que familiares do motorista compraram o livro. Foram \u00e0 editora pessoalmente para isso. N\u00e3o tive contato. Localizei um filho de minha professora. Ele n\u00e3o quis falar sobre. Foi educado e distante. Ouvi muitas hist\u00f3rias de pessoas que frequentaram o motel, tive not\u00edcias dos donos. At\u00e9 meu irm\u00e3o conhecia o dono porque as contas do motel eram da ag\u00eancia banc\u00e1ria em que trabalhava. \u00c9 um evento conhecido pela cidade. Muita gente lembra. \u00c9 estranho lidar com um material t\u00e3o sens\u00edvel, uma responsabilidade ainda maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista liter\u00e1rio, <em>Motel Mustang<\/em> \u00e9 um livro que resume minha escrita. Est\u00e3o l\u00e1 todos os temas, todas as preocupa\u00e7\u00f5es, os meus modos de fazer e algumas descobertas. \u00c9 um livro com tantos assuntos: sexo, amor, morte, descobertas da juventude, a pobreza de Salvador, as crian\u00e7as, o homoerotismo, a AIDS dos anos 1980. H\u00e1 um olhar a respeito da mulher; h\u00e1 a cr\u00edtica \u00e0 religi\u00e3o, assunto que me interessa. E h\u00e1 os assuntos que interessam \u00e0s caixinhas das pautas atuais. O livro j\u00e1 foi resenhado a partir do ponto de vista da cat\u00e1strofe ambiental. As pessoas falam da cr\u00edtica social. Enfim, tem de tudo.\u00a0 Mas para mim s\u00e3o pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_20763\" aria-describedby=\"caption-attachment-20763\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-i-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20763 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-i-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-i-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-i-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20763\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Danilo Alves<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Essa sua \u00faltima resposta \u00e9 de uma profundidade significativa, pois trata dos seus mergulhos genu\u00ednos no engenho criativo. E n\u00e3o h\u00e1 como deixar de falar do modo como as suas personagens ganham vida ali no livro especialmente pela constru\u00e7\u00e3o dos di\u00e1logos, pois voc\u00ea poderia apenas escolher ter narrado as hist\u00f3rias. Qual a dimens\u00e3o do potencial que essas intera\u00e7\u00f5es produzem na sua escrita na medida em que os protagonistas falam? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES &#8211; <\/strong>\u00c9 t\u00e3o bom falar de literatura assim: os modos de fazer, os truques de escrita. Gosto de falar truques e n\u00e3o t\u00e9cnicas, concep\u00e7\u00f5es, po\u00e9ticas. Apenas truques. Hoje em dia as falas de escritores ou s\u00e3o o marketing do livro ou s\u00e3o os grandes temas da pauta contempor\u00e2nea: a emerg\u00eancia clim\u00e1tica, o racismo, a viol\u00eancia contra as mulheres, os lugares para as mulheres pretas, a visibilidade trans, a visibilidade l\u00e9sbica (homens gays est\u00e3o fora de moda), a periferia, \u201cO tal Brasil profundo\u201d, a discuss\u00e3o se existe \u201cO tal Brasil profundo\u201d. Dei muitas entrevistas no lan\u00e7amento do <em>Motel Mustang<\/em>. O soterramento \u00e9 um evento que desperta a aten\u00e7\u00e3o. Um bom marketing. Mas eu n\u00e3o pensei nisso quando tive a ideia. J\u00e1 disse acima que eu estava vasculhando a cabe\u00e7a atr\u00e1s de uma ideia para livro er\u00f3tico e acabei trope\u00e7ando na lembran\u00e7a da trag\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois do lan\u00e7amento, o livro encontrou a caixinha da trag\u00e9dia clim\u00e1tica e est\u00e1 ali perto da onda de hist\u00f3rias reais que vem junto com a autofic\u00e7\u00e3o. As hist\u00f3rias particulares reais. Toda a ind\u00fastria da narrativa est\u00e1 voltada para hist\u00f3rias com um tempero de real. Eu chamo isso de \u201cLiteratura Gourmet\u201d. Explico. Cozinha gourmet \u00e9 assim: o cozinheiro (ou chef) diz no card\u00e1pio que aquela \u00e9 a receita de sua av\u00f3 italiana, que est\u00e1 na fam\u00edlia h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, ou que aprendeu com sei l\u00e1 quem. O caderno de receitas de minha m\u00e3e tem isso: umas receitas que levam o nome da amiga que lhe passou. A\u00ed eu aprendi que tinha a Torta de Dona Nereida e sei l\u00e1 mais o qu\u00ea. Um dia a gente descobre que aquela receita \u00e9 s\u00f3 um pav\u00ea igual a tantos e que n\u00e3o tem nada de especial. Mas ser de Dona Nereida, ser da av\u00f3 italiana do cozinheiro \u201cagrega valor\u201d. A av\u00f3 italiana \u00e9 um clich\u00ea cl\u00e1ssico e, claro, ser descendente de italiano nesse pa\u00eds parece ser alguma coisa. Ai, meu Deus, estou aqui arrumando inimigos. Deixa eu arrumar mais alguns: pra competir com a av\u00f3 italiana, temos agora a av\u00f3 filha de escravizados ou ela mesma escravizada. \u00c9 importante uma mem\u00f3ria mais palp\u00e1vel da escravid\u00e3o. Acho just\u00edssimo. Se os italianos e os judeus podem, por que n\u00e3o os descendentes de povos africanos? E s\u00e3o hist\u00f3rias nunca contadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um par\u00eantesis: acho que toda essa onda de literatura n\u00e3o urbana est\u00e1 ligada, tamb\u00e9m, a essa reconstru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria perdida das pessoas descendentes de africanos. S\u00e3o hist\u00f3rias apagadas. Dou um exemplo da minha fam\u00edlia: minha m\u00e3e, negra, sabe muito pouco de sua fam\u00edlia biol\u00f3gica; sobre a fam\u00edlia de meu pai branco tem um livro caseiro de um primo que recupera a hist\u00f3ria a partir do final s\u00e9culo XIX. Acho muito estranho ser a partir do final, j\u00e1 depois da aboli\u00e7\u00e3o. Como h\u00e1 muita lacuna, as narrativas de escritores negros e negras acabam se voltando para g\u00eaneros que estavam esquecidos. N\u00e3o \u00e9 por acaso os romances de sagas e de forma\u00e7\u00e3o que passam por hist\u00f3rias rurais com ar de romance de 30. S\u00e3o essas narrativas construtoras que s\u00e3o necess\u00e1rias agora. No futuro, os escritores negros tamb\u00e9m v\u00e3o entrar na desconstru\u00e7\u00e3o. Antes que algu\u00e9m me aponte o dedo, eu sei que h\u00e1 literatura desconstru\u00edda agora. O tempo todo tem de tudo acontecendo. Estou falando do que est\u00e1 em evid\u00eancia. S\u00f3 para que n\u00e3o me acusem de coisas, repito que s\u00e3o literaturas necess\u00e1rias e de excelente qualidade. O que estou falando \u00e9 outra coisa. Estou falando da recep\u00e7\u00e3o dessa literatura que leva em conta elementos externos ao livro. \u00c9 isso que chamo de \u201cliteratura gourmet\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>Motel Mustang<\/em> caiu nessa. Ele interessa por fatos externos ao livro. A trag\u00e9dia real agrega valor. Ainda s\u00e3o poucas as pessoas que querem conversar comigo sobre literatura, sobre a linguagem que eu usei&#8230; essas coisas que escritores gostam de falar, mas que pouco falam em p\u00fablico porque nas festas liter\u00e1rias querem que a gente fale das pautas do dia, com o agravante de falarmos \u2014 n\u00f3s os escritores n\u00e3o t\u00e3o conhecidos \u2014 para pessoas que n\u00e3o nos leram e jamais ler\u00e3o. Eu quero falar das personagens falando. Os di\u00e1logos. Eu tinha narradores mais distantes, mais neutros, e acho que minhas personagens tamb\u00e9m eram mais introspectivas. Falavam pouco. Com o tempo, fomos ficando mais extrovertidos, eu, os narradores e as personagens. Se antes o jeito lac\u00f4nico dos narradores contaminava as personagens, acho que agora s\u00e3o as personagens que, extrovertidas, contaminam o narrador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro tem narradores em terceira pessoa. Ou melhor, tem um narrador em terceira pessoa que vai se contaminado pelas personagens. No primeiro conto, \u201cO sol no meio da noite\u201d, o narrador El\u00f3i e Miguel se misturam, \u00e0s vezes na mesma linha de texto. Tudo muito coloquial. H\u00e1 um vai e vem no tempo. El\u00f3i e Iranice, est\u00e3o no presente, na entrada do motel. Miguel est\u00e1 com El\u00f3i no passado e em sua cabe\u00e7a o tempo todo. H\u00e1 quem diga que s\u00e3o tr\u00eas pessoas naquele casal. Enfim, tudo misturado e nervoso como \u00e9 pr\u00f3prio da juventude das personagens. No lado oposto do livro, no final, o conto \u201cO que se v\u00ea do alto\u201d, tem personagens evang\u00e9licas. A linguagem, do meio para o final, \u00e9 muito contaminada por isso. Quem cita trechos inteiros da B\u00edblia? O narrador, Dona Mira ou Dona Neide? \u00c9 um conto com um final melodram\u00e1tico. Sofri muito para escrever a cena da vassoura. Na primeira vers\u00e3o ela batia no pastor com o cabo. Achei demais. Estava muito Walcyr Carrasco. Limpei, limpei, mas ela precisava varrer a cara do homem. Ainda acho muito melodram\u00e1tico, mas Dona Mira \u00e9 assim. Esse \u00e9 outro momento em que o escritor diz que a personagem tomou as r\u00e9deas. Na verdade, \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de uma l\u00f3gica interna da personagem. Dona Ant\u00f4nia, personagem do conto \u201cA fresta\u201d, que eu escrevi para a Diversos Afins, tamb\u00e9m \u00e9 evang\u00e9lica, cita a B\u00edblia, mas n\u00e3o faria esse gesto t\u00e3o largo de varrer a cara de algu\u00e9m. Bem, ela n\u00e3o perdeu o marido no soterramento de um motel. Ele est\u00e1 dormindo em sua cama com a barriga ocupando todo o espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro conto que merece destaque \u00e9 \u201cO peso de tudo\u201d, em que o narrador est\u00e1 pr\u00f3ximo a Luciene, uma funcion\u00e1ria do motel muito cat\u00f3lica e que tem avers\u00e3o ao pecado do lugar. \u00c9 a partir do ponto de vista dela que vemos a trag\u00e9dia. Quando \u00e9 preciso mostrar a encosta desabando, o conto \u00e9 interrompido e entram alguns minicontos que mostram o desabamento por um ponto de vista objetivo, al\u00e9m de detalhes que aconteceram com as pessoas reais. Depois, o conto retorna de onde parou. Neste momento, o livro assume que n\u00e3o \u00e9 um mero livro de contos, mas, sim, uma grande narrativa fragmentada em que o motel \u00e9 o protagonista. Ainda sobre di\u00e1logos: o terceiro conto, \u201cA face encoberta\u201d, com o casal de homens, \u00e9 todo em di\u00e1logos com um narrador quase inexistente para que o leitor descanse. Ele vem de dois contos de estilo muito enrodilhado e vai, depois, ler o conto sobre o desabamento, o mais pesado. Ent\u00e3o, um conto em estilo simples d\u00e1 um descanso. E ainda tem humor, apesar do tema ser homofobia, AIDS, morte. Pensei o livro como uma unidade. Por isso o terceiro e o quinto conto s\u00e3o mais suaves; o terceiro, suave na forma; o quinto, suave no tema. \u201cA maciez da vida\u201d \u00e9 um conto esperan\u00e7oso, um amortecedor entre \u201cO peso de tudo\u201d, com sua trag\u00e9dia, seu horror, e \u201cO que se v\u00ea do alto\u201d, que \u00e9 sobre luto e decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Bem sabemos que um motel \u00e9 tamb\u00e9m um lugar de viv\u00eancias clandestinas, tanto na quest\u00e3o do adult\u00e9rio quanto no explorar de horizontes libert\u00e1rios do desejo sexual, dentre outras possibilidades. Como \u00e9 que voc\u00ea lidou com essa perspectiva na sua cria\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES &#8211; <\/strong>Neste momento em que escrevo, Salvador acaba de passar por tr\u00eas dias de chuvas muito fortes. Ontem uma pessoa morreu num deslizamento de encosta. Imediatamente, algumas pessoas pr\u00f3ximas lembraram do Motel Mustang. Um rep\u00f3rter da TV lembrou do epis\u00f3dio ao vivo. Digo isso como quem prova que a camada de trag\u00e9dia clim\u00e1tica e social \u00e9 bem evidente no livro. Mas, como j\u00e1 dito, \u00e9 um livro de muitos temas, dentre eles, tamb\u00e9m como j\u00e1 dito, o sexo. O sexo \u00e9 aquela centelha, aquele gr\u00e3o de areia que entrou na ostra e em torno do qual, camada por camada, se formou a p\u00e9rola. Afinal, trata-se de um motel. Motel leva a sexo; ou melhor, sexo leva a motel, literalmente e do campo das ideias. Eu investigava sexo e a mem\u00f3ria do motel se acendeu na minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea falou de viv\u00eancias clandestinas, do adult\u00e9rio e de outras. Sim. H\u00e1 um adult\u00e9rio no livro e na hist\u00f3ria real. Ele n\u00e3o chega a ser encenado na p\u00e1gina. O leitor \u00e9 exposto apenas \u00e0s suas consequ\u00eancias. H\u00e1 um casal de homens gays que evidentemente se encontram \u00e0s escondidas. Um deles, pelo menos, tem uma vida sexual h\u00e9tero. Mas h\u00e1 outras dimens\u00f5es de clandestinidade ligadas ao sexo. Escondemos nossos reais desejos dos parceiros e de n\u00f3s mesmos. O sexo \u00e9 soterrado pela religi\u00e3o, pelo moralismo, pelos traumas particulares da inf\u00e2ncia, pelo descompasso do que se \u00e9 e do que se pensa ser&#8230; e, \u00e0s vezes, apenas a clandestinidade objetiva do motel \u00e9 que \u00e9 capaz de revelar a real forma de uma pessoa viver sua sexualidade. <em>Motel Mustang<\/em> \u00e9 sobre sexo e talvez seja o aquilo que ele mais \u00e9. Vamos por partes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira personagem masculina que que me ocorreu foi Torres, do conto \u201cO amor movedi\u00e7o\u201d. Vi no jornal que, no s\u00e1bado posterior ao acidente, haveria uma Corrida da Infantaria. Foi assim que me ocorreu a personagem. Um homem que vai correr e n\u00e3o quer transar antes, mas precisa ir para o motel com a namorada. E o que ele faz? Aquilo que nunca fez. Dedica-se a dar prazer \u00e0 mulher at\u00e9 que ela fique satisfeita. E quem \u00e9 essa mulher? Marta est\u00e1 acostumada a n\u00e3o sentir tanto prazer, est\u00e1 acostumada \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o, acha que a transa acaba quando o homem goza. Quando ela se v\u00ea recebendo sexo oral de uma maneira t\u00e3o intensa, todas as suas inseguran\u00e7as afloram. Eu queria que o momento de perplexidade e inseguran\u00e7a de Marta fosse durante o sexo. Eu queria uma cena de sexo absolutamente necess\u00e1ria. Normalmente, as cenas de sexo aparecem simplesmente por seu apelo. Os conflitos que as envolvem geralmente ocorrem antes ou depois. A maioria das cenas de sexo podem ser uma mera elipse. Mas a verdade \u00e9 que, quando a gente est\u00e1 transando, a gente pensa em mil coisas, outros problemas, os sentimentos contradit\u00f3rios sobre o parceiro. Acontece muita coisa durante. Eu queria Marta assim, conflituada enquanto tem prazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outras mulheres do livro vivem seus conflitos. Luciene, de \u201cO peso de tudo\u201d, \u00e9 muito cat\u00f3lica e se incomoda de trabalhar em um motel, que considera um antro de pecado. Ela est\u00e1 dividida entre, na semana seguinte, assistir missa de <em>Corpus Christi<\/em> celebrada pelo Cardeal Primaz ou viajar com o namorado para Pojuca. Ela sabe que o namorado pretende transar com ela na viagem. O que decidir?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cO que se v\u00ea do alto\u201d, Dona Mira, vi\u00fava do marido ad\u00faltero, relembra como ele a reprimiu quando ousou revelar desejo. \u201cEle disse que n\u00e3o gostava de mulher oferecida\u201d. Submissa ao marido pastor, Dona Mira se recolheu. Na cama, esperava a iniciativa dele. Agradar o homem, sentir-se aceita por ele, esses s\u00e3o conflitos que as mulheres ainda vivem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e de Dinho, no conto \u201cA maciez da vida\u201d, tem um momento mais feliz. A chegada de uma toalha resgatada dos escombros do motel reacende sua libido. \u00c9 ela quem toma a iniciativa de seduzir o marido novamente. Ele se deixa conduzir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cO sol no meio da noite\u201d, El\u00f3i \u00e9 o jovem inexperiente que leva a namorada pela primeira vez ao motel. O conto n\u00e3o foca nela, mas \u00e9 poss\u00edvel perceber como Iranice est\u00e1 mais segura que o namorado. Os leitores veem alguma atmosfera homoafetiva entre El\u00f3i e o amigo Miguel, principalmente na cena do carro. Eu acho que, se houver algo, isso aparece mais forte no fato de a voz de Miguel estar o tempo todo na cabe\u00e7a de El\u00f3i.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, Jackson e Ter\u00eancio, em \u201cA face encoberta\u201d. O casal vive os problemas dos homens gays da d\u00e9cada de 1980, o que n\u00e3o \u00e9 muito deferente do que \u00e9 hoje, a n\u00e3o ser por um aspecto. A Aids acabara de surgir e, exatamente naqueles dias, a Revista Veja publicou a famigerada capa com Cazuza: \u201cCAZUZA, uma v\u00edtima da Aids agoniza em pra\u00e7a p\u00fablica\u201d.\u00a0 A presen\u00e7a da doen\u00e7a \u00e9 o que provoca o afastamento do casal. O medo. O z\u00edper emperrado \u00e9 o s\u00edmbolo \u00f3bvio. H\u00e1 muita reflex\u00e3o sobre sexo em <em>Motel Mustang<\/em>, sexo e morte, Eros e Tanatos. Puls\u00e3o de vida e puls\u00e3o de morte. No meio, toda a experi\u00eancia humana. O livro se faz nessa tens\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Diria que, observando o conjunto da sua obra, voc\u00ea \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201ccronista\u201d do cotidiano, escavador dessas min\u00facias que nos tornam demasiadamente humanos. \u00c9 sempre desafiadora essa perspectiva? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES &#8211; <\/strong>J\u00e1 algumas vezes, nos \u00faltimos anos, quiseram me relacionar com escritores cronistas da Bahia. Men\u00e7\u00f5es vagas. Isso ocorreu por causa de <em>O mar que nos abra\u00e7a<\/em>. As pessoas se contentam em ver o que est\u00e1 mais aparente. No caso desse livro, havia uma Bahia na superf\u00edcie. Para mim, entretanto, um aspecto menos importante que as pessoas retratadas. Serem baianas para mim foi um acaso. Ali\u00e1s, no caso desse livro, a encomenda exigia que as hist\u00f3rias se passassem em bairros de Salvador. Acontece que, vencido esse requisito, eu quis mergulhar no \u00edntimo daqueles adolescentes. Eu me aproximo das hist\u00f3rias a partir do que entendo que as pessoas est\u00e3o sentindo. Foi assim que, em <em>A eternidade da ma\u00e7\u00e3<\/em>, cheguei ao tema da ditadura. Ouvindo a m\u00fasica <em>In the Hot Sun of a Christmas Day<\/em>, de Caetano Veloso, eu me deparei com um eu po\u00e9tico que dizia que estava sendo perseguido, que eles j\u00e1 tinham matado outra pessoa. Foi essa sensa\u00e7\u00e3o que me fez entrar neste universo. A\u00ed eu fui tratar da ditadura, pesquisei, puxei pela minha mem\u00f3ria, mas sempre para retratar aquelas pessoas que eu vislumbrei nas m\u00fasicas de Caetano. Esse \u00e9 meu m\u00e9todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tenho muita dificuldade de me explicar para as pessoas (ou de ser entendido por elas). Esses grandes temas sociais, pol\u00edticos (que aparecem muito nos meus textos), eu n\u00e3o entre neles pela porta da frente, mas pela dos fundos, pelas janelas, pelas frestas. Eu n\u00e3o sou um escritor que se diz: oh, precisamos falar da ditadura, precisamos falar da viol\u00eancia, precisamos atacar a homofobia! N\u00e3o. Eu miro na pessoa, na hist\u00f3ria \u00edntima, no potencial romanesco do tal grande tema. Eu procuro a boa hist\u00f3ria e a boa personagem. Os grandes temas aparecem naturalmente, afinal n\u00e3o sou nenhum cretino. Mas \u2014 olha s\u00f3 que legal \u2014 os cretinos d\u00e3o personagens incr\u00edveis. Eu n\u00e3o sou \u00f3bvio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me cobraram em <em>Motel Mustang<\/em> uma men\u00e7\u00e3o ao Candombl\u00e9. Eu respondi que n\u00e3o era o caso porque n\u00e3o \u00e9 uma religi\u00e3o que tem problemas com sexo. Falei de cristianismos cat\u00f3lico e neopentecostal. Sobre o Candombl\u00e9, acho que o nome da filha de Dona Mira foi suficiente. \u00c9 um nome que aparece e se torna o estopim de uma cena forte no final do conto. Dona Mira n\u00e3o teria reagido como reagiu se o pastor n\u00e3o tivesse feito uma insinua\u00e7\u00e3o racista religiosa contra o nome da menina Jana\u00edna. \u00c9 um livro inteiro com v\u00e1rias personagens negras e pretas e em apenas um ponto h\u00e1 um coment\u00e1rio sobre racismo, no caso, racismo religioso. Quem poder\u00e1 saber por que um pastor chamaria sua filha de Jana\u00edna e n\u00e3o por um nome da B\u00edblia? Eu at\u00e9 sei, mas o leitor n\u00e3o precisa saber. \u00c9 uma hist\u00f3ria \u00edntima de Dona Mira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais uma vez parece que n\u00e3o respondo sua pergunta. Respondo. Voc\u00ea fala de \u201ccronista\u201d do cotidiano, eu concordo. Cronista do particular e n\u00e3o da cidade. Eu olho para os pequenos acontecimentos, os pequenos gestos. Outro dia, falando na FLICA sobre algo pr\u00f3ximo disso, dei um exemplo: \u201caqui desta cena, os escritores no palco e a plateia de estudantes, se eu fosse criar uma hist\u00f3ria, eu escolheria a int\u00e9rprete de Libras, que est\u00e1 ali no canto fazendo a tradu\u00e7\u00e3o. O que ela pensa? O que ela sente? Os bra\u00e7os doem? Ela tem algu\u00e9m esperando? Ela acha essa conversa chata? Ser\u00e1 que ela se atrapalhou em um gesto e disse para si mesma que n\u00e3o importa porque n\u00e3o tem nenhum surdo aqui? Ela certamente fala deficiente auditivo, mas nos pr\u00f3prios pensamentos deve dizer surdo, \u2018os meus surdinhos\u2019, ela dir\u00e1.\u201d \u00c9 claro que n\u00e3o usei essas palavras, contar uma hist\u00f3ria j\u00e1 \u00e9 inventar. Mas que personagem rica pode ser uma int\u00e9rprete de Libras, melhor que escolher um escritor. Escritores como personagens para mim s\u00e3o chatos. Cronista do cotidiano? Sim, talvez. Cronista do sentimento, quem sabe. Eu quero saber o que as pessoas pensam e sentem sobre o que vivem. Cronista de mentalidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_20764\" aria-describedby=\"caption-attachment-20764\" style=\"width: 333px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-III-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20764 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-III-1.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-III-1.jpg 333w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-III-1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20764\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Danilo Alves<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A Literatura pode ser o engenho em que o autor est\u00e1 para al\u00e9m dos dom\u00ednios de certas especialidades, ou seja, ele pode discorrer sobre campos diversos do conhecimento, at\u00e9 mesmo inventando uma teoria a ser defendida por seus personagens. Tal prerrogativa lhe soa atraente em alguma medida? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES &#8211; <\/strong>No meu livro <em>Cada dia sobre a terra<\/em>, no conto \u201cSegunda-feira\u201d, a personagem protagonista, uma jornalista branca j\u00e1 com alguma idade, tem um discurso em que se pode perceber o seu racismo; em \u201cA alma do diabo\u201d<em>, <\/em>do livro <em>A eternidade da ma\u00e7\u00e3<\/em>, o Major Andrade fala da necessidade de torturar subversivos e de como entregou sua alma a Deus. S\u00e3o personagens com pontos de vista bem definidos. Eles defendem suas posi\u00e7\u00f5es racistas e ditatoriais, enquanto os contos existem justamente para criticar seus comportamentos. N\u00e3o aparece ningu\u00e9m com uma fala antirracista ou com um discurso contra a ditadura militar. S\u00e3o as hist\u00f3rias e os jeitos como s\u00e3o contadas que permitem que o leitor, no processo de interpreta\u00e7\u00e3o, perceba o quanto aquelas condutas e formas de pensar s\u00e3o deplor\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra tem um poder muito interessante. A gente consegue colocar uma imagem dentro da cabe\u00e7a de uma pessoa. A fotografia mostra e o observador tem de aceitar aquela imagem. A palavra faz diferente. Ela inocula uma semente na cabe\u00e7a do leitor, que criar\u00e1 a imagem a partir de seu repert\u00f3rio. O mesmo acontece com a ideia, a teoria, a ideologia. A hist\u00f3ria semeia e o leitor cultiva seu pensamento. \u00c9 preciso repert\u00f3rio. \u00c9 preciso confiar no leitor. Aqueles livros de fic\u00e7\u00e3o que produzem discurso pronto entregam para o leitor a \u00e1rvore inteira sem op\u00e7\u00e3o de um pensamento a ser cultivado. Ok, a pessoa aprende. Pode funcionar. Mas \u00e9 como se deslocar levado por um carro. Voc\u00ea chega ao ponto final, mas n\u00e3o desenvolve m\u00fasculos. Melhor \u00e9 que a hist\u00f3ria fa\u00e7a o leitor refletir. \u00c9 como andar de bicicleta. Voc\u00ea chega ao ponto final com mais dificuldade, mas ganha musculatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na maior parte das vezes, minhas personagens s\u00e3o incapazes de produzir um discurso organizado sobre qualquer coisa. Elas est\u00e3o experimentando a perplexidade de viver. Est\u00e3o perdidas. Elas n\u00e3o poderiam ajudar ningu\u00e9m. N\u00e3o sabem as respostas e, \u00e0s vezes, nem a pergunta. Eu at\u00e9 quero dizer certas coisas, mas entre mim e o leitor tem um narrador e suas personagens. E meu processo de escrita \u00e9 um processo de sedimenta\u00e7\u00e3o. Eu vou colocando camadas em cima da ideia inicial. \u00c9 um meticuloso processo de recalque. Eu vou empurrando as coisas para baixo e amassando com os p\u00e9s. Tem de cavar muito para chegar \u00e0quilo que era antes de o conto ser o que se tornou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A quantas anda o Marcus Vin\u00edcius poeta?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES &#8211; <\/strong>Eita, uma reviravolta na trama. A resposta \u00e9: n\u00e3o sei. Deve estar adormecido. A \u00faltima vez que escrevi poemas foi h\u00e1 alguns anos. Era uma encomenda para uma antologia. Escrevi e gosto muito do que fiz, mas, na hora de publicar, me mandaram um contrato em que, praticamente, eu cedia os direitos dos poemas definitivamente. Me tiraram da antologia, amizades se desfizeram e eu escrevi um poema chamado \u201cQuiseram roubar o poema\u201d. Alguns desses poemas foram publicados na revista Poesia sempre, da Biblioteca Nacional. H\u00e1 um livrinho pronto. Um dia lan\u00e7o. Meu \u00faltimo livro de poesia foi o <em>Manual para composi\u00e7\u00e3o de vitrais<\/em>, que foi escolhido para sair pelo Selo Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro. Eu n\u00e3o penso muito sobre poesia. Ela n\u00e3o me ocorre do nada como acontece com a prosa. O tempo todo eu tenho ideias de livros de contos e romances. Poesia, n\u00e3o. Se me encomendarem alguma coisa, eu acho que sai. Em algum momento vou me debru\u00e7ar novamente sobre a poesia. Ou n\u00e3o. Ou talvez. Quem sabe?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nos \u00faltimos anos, voc\u00ea tem experimentado a faceta de entrevistador, conversando com autores de diferentes estilos, e parece estar bem \u00e0 vontade com isso. Essa escuta e troca de ideias lhe ajuda a pensar tamb\u00e9m sobre sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES &#8211; <\/strong>Quem me levou \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de entrevistador foi minha amiga roteirista Carollini Assis. Ela me convidou para mediar algumas mesas do Festival SSA-ADAPTA e as pessoas gostaram muito, e eu gostei muito. N\u00e3o fiz meras media\u00e7\u00f5es, fiz entrevistas. O formato do festival ajudou porque era um evento sobre adapta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria para o audiovisual. Ent\u00e3o, estavam ali, por exemplo, dois entrevistados falando da mesma obra: o escritor e o adaptador. Entrevistei Milton Hatoum e Maria Camargo sobre o livro e a s\u00e9rie <em>Dois Irm\u00e3os<\/em>; Marcelo Quintanilha e Heitor Dhalia sobre o quadrinho e o filme <em>Tungst\u00eanio<\/em>, entre outras entrevistas com escritores. Depois dessa experi\u00eancia, peguei gosto. Fiz e fa\u00e7o o programa Palavra &amp; ponto, no YouTube da Academia de Letras da Bahia; o programa Letras da Bahia, na R\u00e1dio Excelsior. Atualmente, al\u00e9m do Palavra &amp; ponto, apresento o programa Livros \u00e0 m\u00e3o cheia, na TV ALBA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre pensar a minha trajet\u00f3ria a partir das entrevistas com outros escritores, a resposta \u00e9: n\u00e3o pensei. S\u00e3o posturas muito diferentes. Opostas. O escritor acaba se voltando para si mesmo. N\u00e3o porque fale de si, nada disso, ainda que ocorra bastante. Vou dizer melhor. O escritor acaba se isolando na pr\u00f3pria literatura. Ainda n\u00e3o est\u00e1 claro. \u00c9 que o escritor, aos poucos, vai criando um espa\u00e7o em torno de si. A cada livro, um mundo de coisas. Um mundo de mundos. Mitologias particulares, recorr\u00eancias, autorrefer\u00eancias, estilo&#8230; essas coisas terminam por isolar o escritor. Ele vive l\u00e1 dentro da pr\u00f3pria loucura e n\u00f3s, leitores e entrevistadores, os visitamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O entrevistador, j\u00e1 adiantei, \u00e9 aquele que deixa o pr\u00f3prio mundo para olhar o do outro. Ele quer entender as leis daquele novo lugar. Claro que o entrevistador tem uma hist\u00f3ria, um repert\u00f3rio, mas sua postura \u00e9 antinarc\u00edsica. Ele quer ver o outro, e n\u00e3o um reflexo. \u00c9 s\u00f3 assim que funciona. Entrevistar \u00e9 ouvir, ouvir ativamente, ajudando o entrevistado a se organizar na fala. A gente procura entender e embarca na loucura do outro. Eu estou falando de entrevistar escritores, n\u00e3o pol\u00edticos. Com pol\u00edticos a gente n\u00e3o pode embarcar na loucura, \u00e9 preciso denunciar as incoer\u00eancias. Do escritor o que se quer s\u00e3o justamente as incoer\u00eancias e os atos falhos, sen\u00e3o como \u00e9 que os te\u00f3ricos da literatura v\u00e3o ganhar pontos no Lattes? Tem de dar trabalho pra esse povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu gosto muito de ouvir. N\u00e3o por acaso, no come\u00e7o da vida, dos 20 aos 28 anos, fui volunt\u00e1rio do CVV, Centro de valoriza\u00e7\u00e3o da vida, uma institui\u00e7\u00e3o de preven\u00e7\u00e3o ao suic\u00eddio, que se baseia na escuta. A pessoa liga e fala. O plantonista escuta sem julgar, sem aconselhar, apenas se fixando na emo\u00e7\u00e3o da pessoa. \u00c9 um trabalho de apoio emocional. J\u00e1 fa\u00e7o a propaganda. O n\u00famero nacional \u00e9 188. Basta ligar. Minhas entrevistas t\u00eam um pouquinho desse jeito de volunt\u00e1rio do CVV. S\u00f3 um pouquinho porque eu provoco, brinco, direciono a conversa aqui e ali, mas sempre ou\u00e7o atentamente. Uma vez, um entrevistado usou uma palavra t\u00edpica de uma religi\u00e3o e, depois que ele acabou o racioc\u00ednio, eu voltei \u00e0 palavra de maneira bem discreta para ver se ele queria falar daquilo. Ele falou e isso ajudou muito a entend\u00ea-lo. Ele n\u00e3o falaria se eu n\u00e3o tivesse percebido o tipo de discurso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minhas entrevistas n\u00e3o t\u00eam um roteiro exato, fechado. \u00c9 como fa\u00e7o na minha escrita. Eu chamo de estrutura de corrida de rally. Eu tenho uns pontos de controle, locais por onde quero passar, mas o caminho at\u00e9 eles \u00e9 incerto, depende de muitas vari\u00e1veis. Hoje, no Livros \u00e0 m\u00e3o cheia, esses pontos s\u00e3o os livros do entrevistado. O programa pretende passar por todos os livros para entender obra e autor. \u00c0s vezes, h\u00e1 desvios enormes e alguns livros n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o explorados. \u00c9 um programa de televis\u00e3o com tempo certo. No Palavra &amp; ponto, a conversa pode ser mais verticalizada. \u00c9 isso: O Livros \u00e0 m\u00e3o cheia, panor\u00e2mico, visa o horizonte; o Palavra &amp; ponto \u00e9 um mergulho. Eu os concebi assim desde o t\u00edtulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que essa experi\u00eancia contribui para eu pensar minha literatura? Acho que conhe\u00e7o ainda mais o que se produz hoje porque li livros que eu n\u00e3o teria lido se n\u00e3o fossem as entrevistas. Deve haver consequ\u00eancias, mas n\u00e3o sei dizer quais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_20765\" aria-describedby=\"caption-attachment-20765\" style=\"width: 333px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-IV-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20765 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-IV-1.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-IV-1.jpg 333w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/interna-IV-1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20765\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Danilo Alves<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; De todo o seu tempo com a carreira liter\u00e1ria, qual percep\u00e7\u00e3o voc\u00ea tem hoje de como ela se construiu? O autor e a pessoa mudaram muito em tal caminhada? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MARCUS VIN\u00cdCIUS RODRIGUES &#8211; <\/strong>Agora vou ter de cair no clich\u00ea e dizer que \u00e9 um processo de aprendizado. Eu queria ser escritor e n\u00e3o sabia nada. N\u00e3o estou dizendo \u201choje eu olho para tr\u00e1s e vejo que n\u00e3o sabia nada\u201d. N\u00e3o \u00e9 isso. Eu sabia que n\u00e3o sabia. Na poesia, talvez n\u00e3o. Talvez eu tivesse essa sensa\u00e7\u00e3o de saber. Poesia \u00e9 t\u00e3o abstrato. Quando eu escrevia poemas eu tinha certeza do que estava fazendo. Talvez n\u00e3o seja um acaso minha poesia ser irregular. Foi o que me fez estrear, \u00e9 verdade, mas, olhando retroativamente, aquele n\u00e3o \u00e9 um grande livro. Ing\u00eanuo. Na prosa \u00e9 diferente. Eu sempre tive dificuldade de escrever. Escrevi poucos contos antes dos trinta. Nenhum foi publicado. Escrevi pouco porque era dif\u00edcil \u2014 uma dificuldade de n\u00e3o saber como e uma dificuldade f\u00edsica, \u00e9 cansativo. Eu brinco que, se n\u00e3o tivessem inventado o computador, eu n\u00e3o seria prosador. Continuaria nos poemas curtos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que efetivamente eu estudei para ser escritor. Fiz todo tipo de oficina. Hoje noto que, embora eu seja fascinado por Lygia Fagundes Telles, meus primeiros contos publicados \u2014 e os anteriores \u2014 pareciam mais influenciados por Clarice Lispector. E falo isso no mau sentido da express\u00e3o. Sabe essas pessoas que n\u00e3o sabem contar uma hist\u00f3ria e ficam emulando Clarice com filosofices? Contos curtos. Eu n\u00e3o tinha uma no\u00e7\u00e3o de como fabular, inventar hist\u00f3rias e personagens. Acho que, aos poucos, fui melhorando. Eu n\u00e3o sabia fazer di\u00e1logos e n\u00e3o fazia porque tinha medo de fazer di\u00e1logos ruins. O conto \u201cA omoplata\u201d, todo em di\u00e1logos, surgiu de um exerc\u00edcio a que me obriguei. Eu me disse: vou fazer um conto s\u00f3 com di\u00e1logos.\u00a0 E deu certo. O conto ganhou um pr\u00eamio nacional e fez as pessoas me notarem. Outro grande momento para mim foi o conto <em>se tua m\u00e3o te ofende<\/em>, que foi publicado como uma novela. Em arquivo word tem apenas trinta e tr\u00eas p\u00e1ginas. Levei quatro anos para escrever. Eu queria que ele tivesse uma extens\u00e3o suficiente para figurar sozinho num livro da Cole\u00e7\u00e3o Cartas Bahianas (livrinhos de 48 p\u00e1ginas em forma de envelope). Foram quatro anos tentando ampliar a hist\u00f3ria e construir as motiva\u00e7\u00f5es da personagem para a cena final melodram\u00e1tica. Tenho voltado para esta cena ultimamente porque Dona Mira, de <em>Motel Mustang<\/em>, age de maneira melodram\u00e1tica contra o pastor do mesmo modo que L\u00facio agiu contra a imagem de Jesus.\u00a0 N\u00e3o \u00e9 por acaso que tema e forma reapare\u00e7am juntos. Deve ter algo a\u00ed que n\u00e3o me cabe investigar. Os contos, as personagens, eu, estamos todos nos abrindo mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A um contista sempre fazem a pergunta: e o romance? Ali\u00e1s, n\u00e3o. As pessoas n\u00e3o perguntam assim de maneira sint\u00e9tica. S\u00f3 um contista pergunta assim. Quem d\u00e1 mais valor ao romance pergunta: quando voc\u00ea vai escrever um romance?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A eternidade da ma\u00e7\u00e3<\/em> e <em>Motel Mustang<\/em> s\u00e3o livros de contos que cumprem a fun\u00e7\u00e3o de romance. Eles estabelecem um painel social como os romances fazem. E numa \u00e9poca em que os romances est\u00e3o sendo desconstru\u00eddos at\u00e9 virarem fragmentos, eu posso ser confundido com romancistas descontru\u00eddos. Talvez estejamos no mesmo lugar, mas os movimentos s\u00e3o no sentido inverso. Eu estou caminhando para um romance e os outros est\u00e3o se afastando. Mas eu acho que meu romance, se vier, vai ser um romance de contista. A narrativa longa de quem s\u00f3 escreve romances \u00e9 diferente de quem escreve contos. Eu n\u00e3o sei explicar com muitos exemplos, nem quero me comprometer. Mas h\u00e1 livros de contos que a gente l\u00ea e pensa: isso devia ser ampliado para um romance. E h\u00e1 romances que t\u00eam uns detalhes e umas estrat\u00e9gias que s\u00f3 o conto nos ensina. N\u00e3o estou fazendo ju\u00edzo de valor (qual o melhor). S\u00e3o caracter\u00edsticas que eu percebo. Posso estar enganado, mas \u00e9 esse engano que est\u00e1 na base da minha escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor e a pessoa mudaram muito em tal caminhada? Mudei, estou mudando, tentando me parecer cada vez mais com o que sou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em>\u00a0\u00e9 editor da Diversos Afins, sonhador, m\u00edope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.\u00a0 <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na conversa epistolar com Fabr\u00edcio Brand\u00e3o, o escritor Marcus Vin\u00edcius Rodrigues fala sobre seu mais novo livro e outros afins liter\u00e1rios <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20795,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16,2539],"tags":[63,137,887,252,4329,4328,8,65],"class_list":["post-20673","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-literatura","tag-marcus-vinicius-rodrigues","tag-motel","tag-motel-mustang","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-sabatina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20673","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20673"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20673\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20798,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20673\/revisions\/20798"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20795"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20673"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20673"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20673"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}