{"id":20675,"date":"2024-12-13T12:31:49","date_gmt":"2024-12-13T15:31:49","guid":{"rendered":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=20675"},"modified":"2025-04-14T15:48:53","modified_gmt":"2025-04-14T18:48:53","slug":"aperitivopalavraii-26","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavraii-26\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEPOIS DO FIM, A POESIA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Sandro Ornellas<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Capa-Dias-amenos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20678\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Capa-Dias-amenos.jpg\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Capa-Dias-amenos.jpg 240w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Capa-Dias-amenos-206x300.jpg 206w\" sizes=\"auto, (max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s dois livros de cr\u00f4nicas, K\u00e1tia Borges retornou ao verso com <em>Dias amenos<\/em> (Segundo Selo, 2023). Nos livros anteriores, lan\u00e7ados durante a pandemia, K\u00e1tia escreve com sua palavra de experiente jornalista, de olhar atento aos nossos solucion\u00e1veis conflitos, mas tamb\u00e9m com sensibilidade para o que h\u00e1 de insol\u00favel. Com suas cr\u00f4nicas, K\u00e1tia nos ajudou a atravessar o \u00e1spero deserto daqueles anos falsamente distantes. J\u00e1 neste \u00faltimo livro, um novo de poemas, o olhar de K\u00e1tia continua atento ao mundo \u2013 na verdade nunca o abandona \u2013, mas traz algo do lirismo pungente da poeta que tamb\u00e9m atravessou o mesmo deserto que n\u00f3s todos e todas. E se apegou \u00e0 poesia atrav\u00e9s da jornada, trazendo-nos agora o que restou para ser dito pela palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 como ela come\u00e7a o livro, com um antol\u00f3gico poema sobre a for\u00e7a e a fragilidade com que \u00e9 feito um poema: \u201ccorda tensa\u201d, \u201cquo vadis\u201d, \u201chades\u201d, \u201crocha f\u00edssil\u201d, \u201code extensa\u201d, \u201cm\u00ednimo moto\u201d, \u201csolda de estanho, chumbo\u201d, \u201cpe\u00e7a densa\u201d, \u201cequil\u00edbrio em falso\u201d. E nessa sucess\u00e3o de met\u00e1foras, que s\u00e3o o esfor\u00e7o da poeta em traduzir a tarefa de um poema em dizer e sustentar a poesia, o di\u00e1logo com os mortos \u201cse aos vivos nada cabe\u201d, o movimento das pedras e \u201ca f\u00edmbria espessa do mundo\u201d. Nesse esfor\u00e7o do poema em dizer a poesia, ao poeta restam as m\u00e1scaras de \u201cvate\u201d e \u201cS\u00edsifo\u201d. Tarefa ingrata, a da poeta. Talvez mais f\u00e1cil escrever cr\u00f4nicas em um tempo que tanto falou do seu pr\u00f3prio fim. Fim dos tempos. Tempo do fim. Cr\u00f4nicas para tentar entender, j\u00e1 que o poema \u00e9 somente o que ressoa de \u201cum fio de cobre [que] estoura\u201d. Talvez tamb\u00e9m por isso o retorno com tanta for\u00e7a durante a pandemia da escrita e leitura de poesia. Quando os tempos fogem \u00e0 compreens\u00e3o, s\u00f3 o poema \u00e9 capaz de dizer algo desse \u201csem sentido \/ apelo do N\u00e3o\u201d, como nos escreveu Drummond.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o poeta itabirano falava da mem\u00f3ria como amor ao que se perdeu, K\u00e1tia fala do amor ao que existe de menor, discreto, \u00ednfimo ou mesmo invis\u00edvel no nosso dia a dia. A sua poesia ama o que ainda n\u00e3o se sabe ao certo como dizer, embora tenha sido sentido: \u201camo tudo o que esteja \/ ainda inominado. [&#8230;] \/\/ resta sossego nos que silenciam \/ seus mist\u00e9rios, nos rituais que negam todo acesso, nos poemas ainda n\u00e3o escritos\u201d. O sil\u00eancio a que se refere Adriane Garcia no posf\u00e1cio funciona na poesia de K\u00e1tia como contraponto ao ru\u00eddo de tantas certezas gritadas por redes e cidades, o incessante ru\u00eddo das prega\u00e7\u00f5es, dos moralismos pol\u00edticos, das propagandas comerciais e autopromocionais, da m\u00fasica consumida ininterruptamente. A poesia de K\u00e1tia resiste bravamente aos fogos de artif\u00edcio da contemporaneidade, artif\u00edcios que t\u00eam se tornado bombas com cada vez maior frequ\u00eancia. A discri\u00e7\u00e3o e \u2013 e sem medo de repetir um clich\u00ea \u2013 fragilidade da sua poesia \u00e9 sua maior for\u00e7a em tempos de gestos de viol\u00eancia que se esvaem como modas fr\u00e1geis, ao sabor do vento e das imagens. Da sua poesia, pode-se dizer ainda o que Kafka escreveu sobre \u201cOdradek\u201d, no conto \u201cA preocupa\u00e7\u00e3o do pai de fam\u00edlia\u201d: \u201cSer\u00e1 ent\u00e3o que no futuro, quem sabe se diante dos p\u00e9s de meus filhos, e dos filhos de meus filhos, ele [ela] ainda rolar\u00e1 pelas escadas, arrastando seus fiapos?\u201d. A poesia de <em>Dias amenos<\/em> nasce madura por se saber discreta e fina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a contemporaneidade \u00e9 tempo de poetas, diria algu\u00e9m equivocadamente evocando H\u00f6lderlin. Eles est\u00e3o por toda parte, publicando, falando, cantando, divulgando-se, posicionando-se, lutando e performando nas redes, nas ruas e no debate p\u00fablico. \u00c9 justamente por isso que os <em>Dias amenos<\/em> da poesia de K\u00e1tia podem resistir: como testemunho involunt\u00e1rio e \u00e0s avessas desses dias extremos e ruidosos. Recentemente, em entrevista, eu disse possuir a tese de que em tempos de crise as pessoas recorrem \u00e0 poesia para tentar se expressar e dizer o que sentem e pensam. \u00c9 assim contemporaneamente e foi assim, por exemplo, durante a Ditadura Militar no Brasil. A poesia vem quando a vida \u00e9 colocada em crise, e o papel (social) dos poemas \u00e9 sempre tentar dizer exatamente aquilo que n\u00e3o se sabe exatamente como dizer, como s\u00e3o as crises. A poesia de K\u00e1tia Borges representa muito bem essa no\u00e7\u00e3o de lirismo moderno. Principalmente quando seus poemas falam em primeira pessoa do singular, nas incertezas ou nas perdas, nos prazeres ou nos desejos fugazes, nas saudades ou na melancolia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>Dias amenos<\/em>, para arrefecer a passagem do tempo, K\u00e1tia busca cumplicidade em pessoas (\u201cMaria, voc\u00ea bem sabe\u201d, \u201cj\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 registros de sua vida, Alice\u201d, \u201cv\u00ea, amigo, a vida n\u00e3o \u00e9 nada\u201d, \u201cera um anjo que nem Dona Olga&#8230;\u201d), livros (\u201cno tempo certo, os livros dizem n\u00e3o\u201d, \u201ctrabalho para viajar e ler livros\u201d), viagens (\u201cum dia volver a julho\u201d, \u201cquando estivemos em Punta del Este\u201d), fam\u00edlia (\u201cos olhos verdes de minha m\u00e3e\u201d, \u201cminha m\u00e3e desatava os n\u00f3s\u201d, \u201csou a terceira \/ a herdar este rosto\u201d, \u201ccada chevette faz lembrar meu pai\u201d), dentre outros sinais para guiar a mem\u00f3ria ainda viva: \u201cpreocupa-me a \u00e2ncora \/mais que a b\u00fassola\u201d. Mas a verdade \u00e9 que este \u00e9 um livro de luto, no qual a poeta chora seus mortos, e n\u00e3o apenas eles. \u00c9 um livro p\u00f3s-pandemia, tecendo as mem\u00f3rias anteriores \u00e0 cat\u00e1strofe, a sua experi\u00eancia desconcertante (\u201cfundo um pa\u00eds no apartamento, \/ provis\u00f3rio, imprevis\u00edvel\u201d) e a consci\u00eancia do ponto de n\u00e3o retorno (\u201cpaisagens que j\u00e1 n\u00e3o vejo\u201d, \u201cescuto em mim a can\u00e7\u00e3o do desapego\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O verso livre de K\u00e1tia consegue abarcar muito do lirismo musical, sem recorrer a m\u00e9tricas e camisas de for\u00e7a r\u00edtmicas. Sua pros\u00f3dia \u00e9 a da brasileir\u00edssima tradi\u00e7\u00e3o dos cancionistas populares, que t\u00e3o habilmente retiram melodia do mais prosaico dos fraseados verbais. Paralelamente, h\u00e1 m\u00fasica na sucess\u00e3o das imagens criadas na hesita\u00e7\u00e3o entre som e sentido dos <em>cavalgamentos<\/em> (\u201cenjambements\u201d) entre versos, como em \u201cmas apenas me calo, a palavra \/ sumida na boca, \/\/ como \u00e0s vezes some \/ uma crian\u00e7a, desaparece \/ um gato, morre \/ uma flor, uma planta.\u201d Essa \u00e9 a m\u00fasica dominante das imagens em K\u00e1tia, sem d\u00favida. Todavia, a poeta n\u00e3o se esquece de alguns procedimentos de ruptura com o lirismo popular, que insinuam \u2013 mesmo que brevemente \u2013 construtivismos, como nas elipses sint\u00e1ticas de \u201c\u00e9 preciso rasgar calend\u00e1rios \/ que n\u00e3o, \/ subverter cotidianos \/ que sempre\u201d. S\u00e3o frases quebradas, de sujeitos quebrados, em tempos quebrados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 bonito, no entanto, como a tristeza e melancolia dos versos de K\u00e1tia s\u00e3o capazes de comover e, ao mesmo tempo, promover alguma esperan\u00e7a. E a poeta sabe muito bem disso. Tanto que, \u00e0 medida que o livro se encaminha para seu fim, sua \u00faltima parte traz \u00e0 cena gr\u00e3os de futuro. N\u00e3o como horizontes messi\u00e2nicos de salva\u00e7\u00e3o, consagra\u00e7\u00e3o, vit\u00f3ria e utopia, e sim como experi\u00eancias poss\u00edveis entre a abertura para o inesperado (\u201csem saber indo de encontro \/ a um amor pra toda a vida\u201d), a calma (\u201cent\u00e3o cuidemos de p\u00f4r calma \/ em cada letra, antes \/ que a viol\u00eancia nos transforme\u201d), a consci\u00eancia da imperman\u00eancia (\u201cuma esperan\u00e7a n\u00e3o dura \/ mais que um ver\u00e3o\u201d ou \u201ce, se resisto, \u00e9 no orvalho \/ das manh\u00e3s que se demoram \/ s\u00f3 um segundo\u201d) e o eterno retorno \u00e0 poesia (\u201ce toda tinta torna \u00e0 pena, \/ e toda trama torna ao pr\u00f3logo\u201d). Por isso que a poesia de K\u00e1tia Borges sobreviver\u00e1 como um dos testemunhos mais fi\u00e9is do que experimentamos nos \u00faltimos anos, fiel como s\u00f3 a poesia \u00e9 capaz de ser, fiel \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de que o fim do mundo, t\u00e3o comercializado nas redes sociais, s\u00f3 pode ser interrompido pela poesia em sua eterna recusa aos fins.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Sandro Ornellas<\/em><\/strong><em> \u00e9 <\/em><em>escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a quest\u00e3o dos fins (Villa Ol\u00edvia, 2022), Isto n\u00e3o \u00e9 uma carta (P55, 2023) e Colecionador de Nada seguido de Ode Florestal (Villa Ol\u00edvia, 2024), dentre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sandro Ornellas  mergulha fundo em \u201cDias amenos\u201d, livro da poeta K\u00e1tia Borges<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20677,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4298,2533],"tags":[11,4310,2896,4309,17,189,3969],"class_list":["post-20675","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-154a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-dias-amenos","tag-katia-borges","tag-livro-da-poeta-katia-borges","tag-poesia","tag-resenha","tag-sandro-ornellas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20675","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20675"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20675\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20812,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20675\/revisions\/20812"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20677"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20675"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20675"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20675"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}