{"id":20890,"date":"2025-03-28T09:39:54","date_gmt":"2025-03-28T12:39:54","guid":{"rendered":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=20890"},"modified":"2025-04-14T15:44:51","modified_gmt":"2025-04-14T18:44:51","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-89","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-89\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com quantas credenciais se faz um escritor? De pronto, a resposta pode apresentar perspectivas das mais variadas e, sem d\u00favida alguma, o car\u00e1ter pessoal que cada criador carrega em si \u00e9 quem d\u00e1 a melhor t\u00f4nica. A singularidade das experi\u00eancias individuais parece mesmo apontar arejadas dire\u00e7\u00f5es e, por assim dizer, configurar estrat\u00e9gias que derivam dos universos essencialmente particulares. Eis ent\u00e3o o ponto de grande relev\u00e2ncia: saber que um autor reproduz em sua obra toda a sorte de imagens e sensa\u00e7\u00f5es que o atravessam de forma pungente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apartados das viciosas compara\u00e7\u00f5es, seguiremos pensando que aquele que escreve constr\u00f3i rotas e sa\u00eddas fundamentais para que seus textos digam respeito a uma esp\u00e9cie de tra\u00e7ado pr\u00f3prio da imagina\u00e7\u00e3o. Ainda que sejamos tentados a considerar que n\u00e3o existe nada de novo sob o sol, a mat\u00e9ria criativa sofre um fluxo de transforma\u00e7\u00e3o capaz de conferir outras possibilidades de se contar a hist\u00f3ria do mundo. Da\u00ed que escrever \u00e9 cruzar um deserto atrav\u00e9s do qual muitas imagens se turvam dada a imensa quantidade de refer\u00eancias em que mergulhamos nas nossas fugidias trajet\u00f3rias de vida. E qual a solu\u00e7\u00e3o mais adequada para n\u00e3o se perder em meio a esse turbilh\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e signos m\u00faltiplos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suspeito que um autor como <strong>Paulo Bono<\/strong> nos d\u00ea indicativos consistentes de que \u00e9 poss\u00edvel erguer pontes e outras dimens\u00f5es quando o tema \u00e9 fazer das palavras aliadas de uma obra liter\u00e1ria. Ao dizer isso, refiro-me ao fato de que ele encara seu engenho criativo como algu\u00e9m que se lan\u00e7a para a literatura com o desejo genu\u00edno de n\u00e3o se aprisionar aos ru\u00eddos impostos por certas limita\u00e7\u00f5es. Pelo contr\u00e1rio, Bono tem sido capaz de desacomodar pudores ao nos mostrar suas investidas liter\u00e1rias repletas de vida. E falar disso \u00e9 reconhecer que o trunfo aqui est\u00e1 em desencavar e fazer desfilar ante nossos olhos de leitores toda uma sorte de cen\u00e1rios e personagens que encontram correspond\u00eancia com aquilo que somos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 esse Paulo Bono que agora entrevisto noutro momento de sua carreira, tempo que remonta aos efeitos do seu mais recente livro, <em>Pepperoni <\/em>(contos), lan\u00e7ado pela P55 Edi\u00e7\u00e3o em 2024. Nunca \u00e9 demais lembrar que a qualidade liter\u00e1ria dele j\u00e1 vinha se delineando com os contos de <em>Espalitando <\/em>(Ed. Cousa, 2023) e o romance <em>Sexy Ugly <\/em>(Ed. Mondrongo, 2019). De posse de seu novo livro, Bono reafirma o compromisso de fazer de seu of\u00edcio de escritor uma representa\u00e7\u00e3o coerente da vida que j\u00e1 mais podemos esconder, pois \u00e9 ela que inalienavelmente nos constitui, seja l\u00e1 quem formos. As provoca\u00e7\u00f5es est\u00e3o aqui postas nesta breve conversa, e delas ele n\u00e3o foge.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_20956\" aria-describedby=\"caption-attachment-20956\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_7376-1-in.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20956 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_7376-1-in.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_7376-1-in.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/IMG_7376-1-in-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20956\" class=\"wp-caption-text\">Paulo Bono \/ Foto: Vinicius Xavier<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Depois de <em>Espalitando<\/em> e <em>Sexy Ugly<\/em>, dois livros que s\u00e3o de fundamental import\u00e2ncia para termos em conta as suas credenciais de autor, voc\u00ea agora nos oferta <em>Pepperoni<\/em>. No mais novo rebento, sua escrita est\u00e1 cada vez mais apurada e certeira, cujas narrativas revelam fragmentos instigantes de mundo, o mesmo mundo que \u00e0s vezes tenta nos impor limites e pudores. Como foi estar nesse lugar de ver um outro livro surgir?\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO BONO &#8211;<\/strong> Costumo dizer que\u00a0<em>Espalitando<\/em>\u00a0foi um livro de blogueiro. A maioria dos textos j\u00e1 estavam prontos. E\u00a0<em>Sexy Ugly<\/em>\u00a0era uma hist\u00f3ria antiga que eu j\u00e1 tinha na cabe\u00e7a.\u00a0<em>Pepperoni\u00a0<\/em>foi diferente. S\u00f3 havia mato. Me senti um pedreiro a levantar uma obra. Acordava cedo pra trabalhar nas hist\u00f3rias, nem que fosse uma p\u00e1gina ou um par\u00e1grafo ou uma linha. Digo, antes da labuta que paga as contas, eu tinha esse cart\u00e3o pra bater. E como hoje leio um pouco mais, acho que eu era um pedreiro com mais ferramentas. Temas, personagens, di\u00e1logos, palavras proibidas. Levantei cada parede do jeito que eu queria (ou tentei), mesmo que ningu\u00e9m quisesse entrar nessa casa. Me diverti escrevendo, mas tamb\u00e9m suei bastante. Ent\u00e3o o bacana \u00e9 que eu n\u00e3o vi o\u00a0<em>Pepperoni\u00a0<\/em>surgir. Sinto que trabalhei pra isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Esse seu processo com o livro novo remete tamb\u00e9m \u00e0quela ideia de que a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 algo que envolve certa labuta e const\u00e2ncia, inclusive para al\u00e9m da t\u00e3o batida inspira\u00e7\u00e3o. Escrever, para voc\u00ea, sugere algum tipo de embate consigo mesmo at\u00e9 que as coisas aconte\u00e7am de fato?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO BONO &#8211;<\/strong> Altos embates. \u00c9 antes de sentar a bunda pra escrever que a peleja acontece. Quando passo dia e noite pensando pra onde vai a hist\u00f3ria, o que quero dizer, como dizer e se vale\u00a0a pena escrever. Ser\u00e1 que tenho apenas uma ideia est\u00fapida? Ser\u00e1 que sou incapaz de escrever algo que preste? Pra que diabo nasci? Isso pode levar um dia, meses ou anos. A hist\u00f3ria pode at\u00e9 morrer pelo caminho. J\u00e1 sofri mais com isso. Hoje, at\u00e9 porque n\u00e3o tenho pressa de publicar, vejo esses embates como parte da matura\u00e7\u00e3o da ideia. Numa dessas, levou uns quatro anos pro\u00a0<em>Pepperoni\u00a0<\/em>sair do forno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nesse tempo que o livro levou para ficar pronto, como se deu a constru\u00e7\u00e3o dele em termos de estrutura e escolha das narrativas e suas tem\u00e1ticas?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO BONO &#8211;<\/strong> Depois do\u00a0<em>Sexy Ugly<\/em>, eu s\u00f3 queria voltar aos contos, \u00e0s possibilidades das hist\u00f3rias curtas. N\u00e3o tinha em mente um livro, muito menos um tema que amarrasse tudo. Era s\u00f3 meu bloquinho de notas no celular com rabiscos e ideias de motes e personagens. A\u00ed \u00e9 interessante que o primeiro conto do livro foi exatamente o primeiro que escrevi &#8211; \u201cDr. Gori, o criador de monstros&#8221;. A coisa do garoto n\u00e3o ser o her\u00f3i que desejava. Achei que a \u00faltima frase dava pano pra manga. A partir dali, garimpei hist\u00f3rias de personagens que lutavam para ser alguma coisa. Surgiram ideias como o jovem que queria ser escritor, a mulher que n\u00e3o queria ser amada, o olheiro que queria voltar a ser bom, o cara que queria voltar a ser crian\u00e7a, o assassino que queria se sentir pleno e por a\u00ed vai. Cada conto com seu desafio de encontrar o pr\u00f3prio norte. Acontece que depois do livro finalizado, das releituras e tempo de matura\u00e7\u00e3o, achei que o que saltava daquelas p\u00e1ginas eram as falhas dos personagens. Como se o livro<em>\u00a0<\/em>fosse uma timeline de traumas, medos, defeitos, ego\u00edsmo, machismo, estupidez, inveja, preconceitos, pecados, inabilidades, fragilidades diante do mundo e falta de sorte. S\u00f3 que n\u00e3o como uma cr\u00edtica ou num tom acusat\u00f3rio. Mas como um espelho de quem somos e a turma por a\u00ed tenta negar ou proibir de falar. Lembra do garoto que n\u00e3o conseguiu ser her\u00f3i? <em>Pepperoni<\/em> \u00e9 uma homenagem \u00e0s nossas kriptonitas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Um dos pontos de relev\u00e2ncia de <em>Pepperoni<\/em> \u00e9 justamente esse elenco de personagens que de fato comp\u00f5em nosso tempo. E voc\u00ea n\u00e3o se furta a colocar ali as mazelas derivadas dos comportamentos que atravessam essa gente, mesmo que expor\u00a0tais feridas seja algo ruidoso nos dias atuais. Como \u00e9 que se equaciona tudo isso em favor da literatura? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO BONO &#8211; <\/strong>O ponto \u00e9 perceber que essa gente sou eu, voc\u00ea, a vizinha, seu dentista, o padeiro, o presidente, sua cantora favorita ou o peixeiro da esquina. Quem vomita tais mazelas somos n\u00f3s. Alguns apenas disfar\u00e7am mais, nem que seja apontando pro focinho do outro. \u00c9 muito louco n\u00e3o poder falar sobre quem somos. Chega a ser uma ingenuidade suspeita achar que suprimir palavras e polir personagens vai curar as feridas do mundo. H\u00e1 uma gincana de virtudes por a\u00ed que serve apenas pra ganhar likes e novos contratos. Esquecem que nossa riqueza \u00e9 feita de luz e sombra. Esquecem que o que torna o super-homem mais pr\u00f3ximo do ser humano \u00e9 a kriptonita. \u00c9 a\u00ed que rola um ponto a favor da literatura. Se o Instagram n\u00e3o faz o servi\u00e7o sujo, abre-se essa lacuna. A literatura, como outro tipo de arte, est\u00e1 a\u00ed pra botar o dedo na ferida e mostrar como somos completos humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 interessante perceber que a figura de Deco Ramone, personagem que tamb\u00e9m est\u00e1 presente em <em>Sexy Ugly<\/em>, reaparece agora num dos contos de <em>Pepperoni<\/em>. Diria que essa escolha envolve a ideia de que sua obra est\u00e1 aberta a uma din\u00e2mica que n\u00e3o se prende ao espa\u00e7o e ao tempo? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO BONO &#8211; <\/strong>O bacana \u00e9 que o retorno de Deco Ramone era um pedido dos leitores do\u00a0<em>Sexy Ugly<\/em>. A turma vinha com a ideia do personagem ser o meu Mandrake, o meu Bandini. Eu achava interessante. E um prequel que mostrasse Ramone no seu auge encarando figuras escrotas e dilemas morais ca\u00eda como uma luva em\u00a0<em>Pepperoni.<\/em>\u00a0Trazer Ramone de volta \u00e9 como revisitar a Lapinha ou Feira de Santana nas hist\u00f3rias. Como Gabo e Ubaldo tanto faziam com Macondo e Itaparica. Vai al\u00e9m de uma repeti\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica. Ningu\u00e9m \u00e9 o mesmo ao longo do tempo. Nem as pessoas nem os lugares. Ent\u00e3o abre-se mais uma oportunidade pra literatura. Reencontrar personagens e cen\u00e1rios, enxergar hist\u00f3rias por \u00e2ngulos diferentes e por a\u00ed vai. \u00c9 uma din\u00e2mica divertida.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Por falar em leitores, o quanto a recep\u00e7\u00e3o de sua literatura influencia nos seus processos de escrita?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO BONO &#8211; <\/strong>\u00c9 bacana quando algu\u00e9m chega e diz que um conto fez rir ou chorar. Funciona como um empurr\u00e3o pra gente seguir escrevendo. \u00c9 o tipo de influ\u00eancia que d\u00e1 um g\u00e1s. Mas, durante o processo de escrita, tento n\u00e3o me preocupar com a receptividade. Tem uma turma que espera que eu escreva sempre a mesma coisa e outra que jamais ler\u00e1 minhas hist\u00f3rias. Se eu pensar em qualquer uma delas, n\u00e3o saio do lugar.<strong>\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_20957\" aria-describedby=\"caption-attachment-20957\" style=\"width: 333px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Foto-Bono_Livro-Pepperoni-interna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-20957 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Foto-Bono_Livro-Pepperoni-interna.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Foto-Bono_Livro-Pepperoni-interna.jpg 333w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Foto-Bono_Livro-Pepperoni-interna-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-20957\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Vinicius Xavier<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 quem lhe considere como sendo uma esp\u00e9cie de imitador de Bukowski. O que acha disso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO BONO &#8211; <\/strong>\u00c9 uma impress\u00e3o acertada. Tem at\u00e9 um conto em\u00a0<em>Pepperoni\u00a0<\/em>que canta essa pedra. O que\u00a0 lamento \u00e9 a raz\u00e3o de afirmarem isso. A impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que pin\u00e7am alguns sinais na superf\u00edcie e pronto. Qualquer texto que tenha pau, xota e bebida recebe o diagn\u00f3stico autom\u00e1tico de imita\u00e7\u00e3o de Bukowski. Uma vis\u00e3o reducionista sobre um autor gigante que escrevia com humor e ternura hist\u00f3rias cheias de humanidade. Quero dizer, eu apenas tento imit\u00e1-lo, mas n\u00e3o sou feliz na miss\u00e3o. Por\u00e9m, conhe\u00e7o escritores de m\u00e3o cheia que t\u00eam Buk como patrono \u2014 ou se preferir \u2014 imitadores de Bukowski. Imita\u00e7\u00e3o pode ser um ponto de partida natural. A gente tem por a\u00ed tantos imitadores de Machado, Clarice, Roth, Kerouac e Ver\u00edssimo. Imagine quantos Itamares Vieiras pipocaram como gremlins nos \u00faltimos anos. J\u00e1 no meu bolso, vai a carteirinha do clube dos imitadores do Velho. Mas devo dizer que minha pseudo-imita\u00e7\u00e3o \u00e9 prom\u00edscua e ordin\u00e1ria. Quando n\u00e3o tem paus e xotas, talvez seja dif\u00edcil perceber. Mas em\u00a0<em>Pepperoni<\/em>, tentei imitar tamb\u00e9m Vonnegut, Bradbury, Salinger e Rub\u00e3o. Como obviamente n\u00e3o consegui, o resultado \u00e9 Paulo Bono.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A Literatura pode realmente tudo, inclusive n\u00e3o se deixar afetar por tentativas de controle ideol\u00f3gico ou toda sorte de censuras?\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO BONO &#8211; <\/strong>N\u00e3o acho que ela esteja acima do bem e do mal. Mas, assim como qualquer tipo de arte, a literatura est\u00e1 a\u00ed pra controverter o que \u00e9 o mal e o bem, subverter a ordem das coisas e chutar as fu\u00e7as de qualquer tipo de controle ou censura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nossa contemporaneidade tem mostrado uma aten\u00e7\u00e3o maior a temas que antes normalizavam\u00a0desrespeitos e invisibilidades, sobretudo com rela\u00e7\u00e3o a minorias. E isso parece ter ecoado tamb\u00e9m de forma significativa\u00a0no terreno liter\u00e1rio. Acredita que estamos um pouco melhores?\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO BONO &#8211; <\/strong>Estou com Chico Science. \u201cUm passo \u00e0 frente e n\u00e3o estamos mais no mesmo lugar&#8221;. O aumento da representatividade nas artes, mesmo quando a f\u00f3rceps, ajuda bastante. Uma turma que estava fora do jogo ganhando a vez, ganhando voz, ganhando as p\u00e1ginas. N\u00e3o sei, talvez o passo seguinte seja vencer as mesas nichadas. Que tenhamos essas minorias escrevendo mais humor, noir, romance, terror, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, imitando Bukowski ou quem quiser. \u00c9 bom pra todo mundo e a literatura agradece.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;\u00a0 Trazer <em>Pepperoni<\/em> ao mundo simboliza qual momento de sua jornada como escritor?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO BONO &#8211; <\/strong>Primeiro, acho que simboliza um amadurecimento como leitor. Li bastante durante a escrita. N\u00e3o foi um lance de quantidade, mas de const\u00e2ncia, releituras e descobertas de autores.\u00a0<em>Pepperoni<\/em>\u00a0\u00e9 consequ\u00eancia dessa ingest\u00e3o de nutrientes, de um tes\u00e3o pelas possibilidades liter\u00e1rias. \u00c9 tamb\u00e9m um livro que configura um senso de liberdade como autor. N\u00e3o tenho rabo preso com temas nem curtidas. N\u00e3o tenho uma caralhada de seguidores, nem quero ter. N\u00e3o corro atr\u00e1s de pr\u00eamios nem convites. N\u00e3o vivo disso e nem vou ganhar dinheiro com isso. S\u00f3 sobra a vontade de escrever. Escrever o que eu quiser. E isso \u00e9 uma puta sensa\u00e7\u00e3o de liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; J\u00e1 lhe ocorreu a ideia do que de fato buscamos com a Literatura, sejamos leitores ou vestindo a pele de escritores? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAULO BONO &#8211; <\/strong>Acho que \u00e9 muito pessoal. Alguns buscam na literatura o que outros encontram na m\u00fasica, no surf, no bar, numa mesa de p\u00f4quer ou num pagode todo fim de semana. Uma esp\u00e9cie de preenchimento, al\u00edvio, sei l\u00e1. Aquela coisa de n\u00e3o viver sem isso. E talvez mais foda do que o que a gente busca \u00e9 o que a literatura entrega. De repente, voc\u00ea abre um livro pra se divertir e leva um soco na cara. Voc\u00ea busca mist\u00e9rio e ele diz o que o jornal vai falar mais tarde ou por que toda reuni\u00e3o de condom\u00ednio \u00e9 um inferno ou joga na cara que o problema \u00e9 voc\u00ea. Nunca se sabe. Acho que a tal busca tamb\u00e9m varia na pele do escritor. Tem gente que escreve pra ganhar dinheiro, outros pra botar pra fora, outros pra matar o tempo e outros pra n\u00e3o enlouquecer. E est\u00e3o todos certos.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em> \u00e9 editor da Diversos Afins, sonhador, m\u00edope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.\u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Bono dialoga com Fabr\u00edcio Brand\u00e3o sobre o seu novo livro e outras rotas liter\u00e1rias <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20955,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4331,16,2539],"tags":[1111,3925,63,137,887,1965,4358,489,65],"class_list":["post-20890","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-155a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-bahia","tag-dialogo","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-literatura","tag-paulo-bono","tag-pepperoni","tag-pequena-sabatina","tag-sabatina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20890","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20890"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20890\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20959,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20890\/revisions\/20959"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20955"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20890"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20890"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20890"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}