{"id":2241,"date":"2012-08-07T13:45:15","date_gmt":"2012-08-07T16:45:15","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=2241"},"modified":"2012-08-07T21:50:31","modified_gmt":"2012-08-08T00:50:31","slug":"dedos-de-prosa-iii-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-3\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_2243\" aria-describedby=\"caption-attachment-2243\" style=\"width: 520px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/K2interna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2243\" title=\"K2\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/K2interna.jpg\" alt=\"\" width=\"520\" height=\"347\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/K2interna.jpg 520w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/K2interna-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 520px) 100vw, 520px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2243\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Viviane Rodrigues<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>I&#8217;m always crashing in the same car <\/strong><\/p>\n<p><strong>[Di\u00e1rio Sentimental \u2013 Julho, 2010]<\/strong><\/p>\n<p><em>Maur\u00edcio de Almeida<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sylvia Plath cutuca a orelha do meu pai satisfeita por saber que ele n\u00e3o \u00e9 alem\u00e3o, mas mineiro, e assim, ao redor da mesa, comemos uma macarronada pesada e bebemos um vinho barato e depois, singelamente tomados pela languidez de uma mar\u00e9 alcalina p\u00f3s-prandial um tanto alco\u00f3lica, o cigarro caindo mal no est\u00f4mago, o marasmo carregado deste apartamento suspenso no domingo, Drummond nos explica as ruas de uma cidade que provavelmente n\u00e3o existe (mas meu pai diz conhecer) rascunhando mapas e setas em formul\u00e1rios oficiais e diz<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 devagar&#8230; as janelas se olham<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e, de m\u00e3os dadas, Sylvia Plath e eu na sacada contemplamos sem interesse a noite despencando lenta no horizonte limitado desta cidade (que tamb\u00e9m n\u00e3o existe, apesar das janelas e dos formul\u00e1rios oficiais) e suspiro olhando longe<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 eu direi as palavras mais terr\u00edveis esta noite<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Drummond sorri, mas Sylvia Plath me ignora at\u00e9 que a noite finalmente pesada sobre n\u00f3s e apenas eu e ela neste apartamento \u00e0 deriva, a segunda-feira assolando em alarmes, mas, por enquanto, o domingo quente nos envolve em suor, a dimens\u00e3o amorfa das nossas bocas engolindo-se envenenadas por conhaque e as m\u00e3os dela firmes segurando meus bra\u00e7os, espalmando meu peito para escapar num salto e negar o segredo de sua pele quente, o suti\u00e3 ainda fechado sobre os peitos, o m\u00ednimo de suas pernas abertas, pois ela sentada nesta cama cobrindo-se com o len\u00e7ol como se de repente tomada por uma raiva que comove as noites mais interessantes de \u00f3cio e ins\u00f4nia, e percebo que de pouco resolveriam palavras terr\u00edveis, por isso sento-me tamb\u00e9m, pego o copo de conhaque perdido ao p\u00e9 da cama e ofere\u00e7o a ela um gole, pois talvez um tanto mais de \u00e1lcool aplaque a auto-piedade subindo forte, mas ela teme (ou deseja demasiadamente, n\u00e3o sei) o que h\u00e1 de mais absurdo na embriaguez, palavras confusas, ideias impertinentes e impulsos incontrol\u00e1veis, e, sem pressa, aponto meu dedo em riste e procuro o tom certo para dizer que o calor deste domingo est\u00e1 me atazanando a libido, mas fico quieto ao v\u00ea-la agora em p\u00e9 expondo seu corpo branco e n\u00e3o muito esguio, ela caminhando devagar em dire\u00e7\u00e3o a janela, olhando como se n\u00e3o visse o horizonte imposs\u00edvel desta cidade, penumbra de copas das \u00e1rvores, luzes acessas, letras pairando em neon, ela caminhando para alcan\u00e7ar o r\u00e1dio, lig\u00e1-lo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Those kilometres and the red lights<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e pegar a bolsa sobre a escrivaninha com certa displic\u00eancia e alguma inten\u00e7\u00e3o, desarmar a tampa de um tubo pequeno e distribuir um forro espesso sobre uma tira de seda para bolar um inventando origamis com a l\u00edngua e sumir na fuma\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>I was always looking left and right oh, but I&#8217;m always<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ela ao meu lado e n\u00f3s deitados e muit\u00edssimo quietos, o som ecoando monoc\u00f3rdio<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>I&#8217;m always crashing in the same car<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">um arrepio me subindo as costas, a garganta seca e os ouvidos cismados em sons descont\u00ednuos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>always always always<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ela me alcan\u00e7ando o rosto, nossos l\u00e1bios muito secos investigando-se sem cuidado, um tumulto de l\u00ednguas, Sylvia Plath me mordendo o pesco\u00e7o e estes olhos imensos e esvaziados me encarando como se n\u00e3o me vissem, mas eu em estado de gra\u00e7a por esquecer rumores e ins\u00f4nias e conseguir me fingir longe deste quarto \u00e0 deriva de segundas-feiras<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>I was going round and round the hotel garage<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sylvia Plath me pesando sobre o corpo para estatelar meus olhos num gozo e dormir um sono tranquilo de crian\u00e7a, ent\u00e3o me aconchego a ela, fecho os olhos e a envolvo num abra\u00e7o para embalar o sono e continuar gestando este momento no meu absurdo ventre de algod\u00e3o e molas, a paz desta noite plena de fugas, entretanto, ela se contrai e se debate, a janela sopra uma brisa leve que sacode copas das \u00e1rvores, apaga luzes e avacalha letras pairando em neon fazendo-a acordar, cabelos desgrenhados, olhos amarrotados<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 ainda \u00e9 noite<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">eu digo e ela apenas sorri<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 durma<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">e ela se espregui\u00e7a e se ajeita e redescubro o corpo dela que volta ao sono, meus dedos co\u00e7am as palmas suadas para evitarem tocar o pouco das pernas dela que foge ao len\u00e7ol, alguns p\u00ealos muit\u00edssimo escuros serpenteando a virilha aos quais n\u00e3o resisto e dedilho em compassos lentos os suspiros dela, nossos bra\u00e7os se enfrentam, minhas pernas entrela\u00e7am sem jeito \u00e0s dela e ensaiamos passos tortos nesta noite que se faz confusa tamb\u00e9m por ela violentamente em p\u00e9, um abandono, um adeus, ela se levanta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sylvia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">conturbando as coisas deste quarto que se sobrep\u00f5em me compondo isto que entendo por vida e sei n\u00e3o existir sa\u00edda, pois estamos aos c\u00edrculos ao redor da mesa, a mesma macarronada pesada e o mesmo vinho barato, o cigarro me acertando murros no est\u00f4mago para me nocautear neste colch\u00e3o soterrado por uma pilha de sonhos catastr\u00f3ficos confundindo rostos e medos e, ainda que vasculhe (e vasculho) o que h\u00e1 de mais \u00edntimo neste breu em busca de al\u00edvio ou descanso ou qualquer coisa, outra vez me atento \u00e0 confus\u00e3o de sons que se explica em pessoas suspirando t\u00e9dio, questionando a aurora ainda distante e ela pisando leve pela casa<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sylvia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">n\u00e3o me dando ouvidos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sylvia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">n\u00e3o importa o quanto eu diga, o qu\u00e3o alto grite, e eu grito, \u00e9 claro que eu grito, pois ela abrindo a porta da sala<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Sylvia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">para sair correndo por entre copas de \u00e1rvores e setas neon que Drummond desenhou em pap\u00e9is timbrados sem se importar com essa \u00e2nsia que me corr\u00f3i em grandes mordidas por me saber dando o mesmo muro na ponta da mesma faca, n\u00e3o posso aceit\u00e1-la correndo longe sendo que uma esp\u00e9cie de conforto os dedos dela entre meus cabelos, o corpo quente que eu envolvia num sono, mas agora, \u00e0s 3h da manh\u00e3 desta madrugada ordin\u00e1ria, Rilke e Rosa jogam escravos de J\u00f3 e, derrotado nesta cama, tenho certeza absoluta de que Sylvia Plath enfiou a cabe\u00e7a num fog\u00e3o porque se cansou disto que me cansa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><em>(<strong>Maur\u00edcio de Almeida<\/strong> \u00e9 autor de Beijando dentes (Ed. Record), livro de contos vencedor do Pr\u00eamio Sesc de literatura 2007)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Di\u00e1rio Sentimental do escritor Maur\u00edcio de Almeida<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2242,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[474,2534],"tags":[81,41,503,502],"class_list":["post-2241","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-70a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-diario-sentimental","tag-mauricio-de-almeida"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2241","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2241"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2241\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2352,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2241\/revisions\/2352"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2242"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}