{"id":2436,"date":"2012-09-09T15:17:26","date_gmt":"2012-09-09T18:17:26","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=2436"},"modified":"2012-10-12T16:36:26","modified_gmt":"2012-10-12T19:36:26","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-6","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-6\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de um tudo, o vazio e suas improv\u00e1veis imagens. Antes de tudo, o sil\u00eancio, a aus\u00eancia do verbo a rasgar instantes. Depois de tudo, a palavra a atravessar espa\u00e7os e habitar a mat\u00e9ria do nosso concreto de cada dia. Como conceber a exist\u00eancia sem a poesia que antecede e esgota o sopro? Onde o intervalo m\u00ednimo entre proje\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com tais percursos que remexem as entranhas da vida, a cria\u00e7\u00e3o revela-se a musa das musas, representante imprecisa de nossa sina pelas tresloucadas paragens terrenas. Os poetas s\u00e3o seus mais leg\u00edtimos porta-vozes, transformando desv\u00e3os da alma em versos pungentes, catando o despercebido e ofertando-nos tudo em doses nada terap\u00eauticas. \u00c9 atraente pensar que criadores vagam conosco no meio da multid\u00e3o e, mais adiante, sugerem veredas. Nesse of\u00edcio, encontramos gente como o escritor paulista <a href=\"http:\/\/neres-outrossilencios.blogspot.com.br\/ \"><strong>Jos\u00e9 Geraldo Neres<\/strong><\/a>, homem cuja sina celebra permanentemente a liquidez do verbo. Dono de um estilo que contempla um intang\u00edvel olhar sobre os lampejos humanos, o autor abra\u00e7a o sil\u00eancio como causa, mas n\u00e3o consente que nele se fa\u00e7am v\u00e3s inscri\u00e7\u00f5es. Para ele, importa a revela\u00e7\u00e3o escondida nas sucessivas camadas onde habitam as palavras. Se o resultado disso \u00e9 mirar o abismo, a queda \u00e9 perspectiva real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autor de obras po\u00e9ticas como \u201cP\u00e1ssaros de papel\u201d (Dulcin\u00e9ia Catadora, 2007) e\u00a0 \u201cOutros sil\u00eancios\u201d (Escrituras Editora, 2009), Jos\u00e9 Geraldo Neres alimenta agora sua travessia com a instigante reuni\u00e3o de contos presente em \u201cOlhos de Barro\u201d (Editora Patu\u00e1). Trata-se de um livro no qual as imagens inauguram as densas vias de uma prosa po\u00e9tica que sabe a queda e fronteiras. Seu tr\u00e2nsito no terreno cultural \u00e9 m\u00faltiplo, compreendendo tamb\u00e9m as fei\u00e7\u00f5es de roteirista, dramaturgo, produtor e gestor. Como curador do Projeto Quinta Po\u00e9tica, em S\u00e3o Paulo, articula encontros valiosos entre autores, artistas e produtores dos mais variados campos, num claro prop\u00f3sito de harmonizar linguagens m\u00faltiplas. Falando um pouco sobre suas andan\u00e7as liter\u00e1rias e outros temas correlatos, Neres revela-nos agora alguns aspectos que movem a sua obstinada travessia pelas palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_2438\" aria-describedby=\"caption-attachment-2438\" style=\"width: 348px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Quinta-poetica_INTERNA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2438\" title=\"Quinta poetica\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Quinta-poetica_INTERNA.jpg\" alt=\"\" width=\"348\" height=\"520\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Quinta-poetica_INTERNA.jpg 348w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Quinta-poetica_INTERNA-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 348px) 100vw, 348px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2438\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Geraldo Neres \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O sil\u00eancio \u00e9 um tema que est\u00e1 entranhado, de modo especial, em parte significativa de sua obra. Seria ele um exerc\u00edcio recorrente de escutas e, portanto, a g\u00eanese desafiadora da cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JOS\u00c9 GERALDO NERES &#8211;<\/strong> A procura deste \u201csil\u00eancio\u201d acaba por facilitar o deslocamento de tempo necess\u00e1rio para esta cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe limite ou obst\u00e1culo relacionado a ele. Passado (inf\u00e2ncia\/natureza), presente, futuro, e, como costumo tratar, a travessia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201csil\u00eancio\u201d \u00e9 um paradoxo, pois tenho por h\u00e1bito mergulhar ao m\u00e1ximo no universo musical\/sonoro, quando estado de cria\u00e7\u00e3o, e pesquisa\/leitura, grande facilitador\/aliado na revela\u00e7\u00e3o do ritmo interno do texto. A melodia das palavras l\u00edquidas \u00e9 parte de minha busca, sim. Escuta, pesquisa e cria\u00e7\u00e3o, principalmente tratando-se de um cen\u00e1rio cosmopolita em que estou radicado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sua express\u00e3o po\u00e9tica possui a fluidez decisiva sobre as marcas da exist\u00eancia, como se as palavras percorressem espa\u00e7os sens\u00edveis de nossa materialidade buscando aplacar estranhamentos da condi\u00e7\u00e3o humana. Seria um flerte fundamental com a perspectiva da transcend\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JOS\u00c9 GERALDO NERES &#8211;<\/strong> Como observador do cotidiano, tento retirar dele sinais que possibilitem o mergulho nas marcas que carregamos nos ossos. Tenho uma imagem inaugural e, a partir dela, busco expandir seu universo de alternativas ficcionais: a de um menino a perambular e brincar na beira de abismo, sem ter qualquer preocupa\u00e7\u00e3o com a queda ou se retornar\u00e1 deste mergulho, transformado ou n\u00e3o. Gosto de tratar a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria desta maneira: experimentar ao m\u00e1ximo os riscos e n\u00e3o perder a inf\u00e2ncia ou essa imagem inaugural. <em>Apanhar os desperd\u00edcios e o del\u00edrio do verbo<\/em> t\u00e3o presente em Manoel de Barros. Acompanhar o <em>afinador de sil\u00eancios<\/em> na obra de Mia Couto. <em>Passar atrav\u00e9s dos ponteiros do rel\u00f3gio, l\u00e1 onde o sil\u00eancio p\u00f5e um capuz branco<\/em> (Murilo Mendes), ou <em>o conjunto de acontecimentos e processos que nos rodeia nos engendra e nos devora.<\/em> C\u00famplice e confidente (Octavio Paz). Desafiar os limites do corpo e da palavra. Cito alguns autores que provocam estados criativos, mas o mergulho \u00e9 sempre renovado e um novo autor acompanha a queda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A s\u00edntese \u00e9 um tra\u00e7o vigoroso em seus percursos po\u00e9ticos, divisando imagens reais e qui\u00e7\u00e1 on\u00edricas. Harmonizar em versos um sentimento do mundo \u00e9 pensar no inating\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JOS\u00c9 GERALDO NERES &#8211;<\/strong> O exerc\u00edcio da s\u00edntese come\u00e7ou com leituras e estudos de autores haica\u00edstas: Bash\u00f4, Buson, Issa e aqueles por eles influenciados. Cito um livro revelador de Mestre Bash\u00f4: Trilha Estreita ao Confim. Entretanto, o tempo e outros autores me mostraram que a s\u00edntese de um texto pode passar por trilhas e encruzilhadas diferentes. Desde ent\u00e3o, procuro lapidar o texto, mas com o cuidado de n\u00e3o retirar a ess\u00eancia ou alma dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com rela\u00e7\u00e3o ao \u201cinating\u00edvel\u201d, n\u00e3o consigo pensar desta forma durante o processo de cria\u00e7\u00e3o. Tenho na imagem po\u00e9tica uma grande aliada para desenterrar palavras\/versos na ressignificac\u00e3o do momento\/mundo representado em um texto. \u00c9 a procura da palavra debaixo da palavra. E continuo a tentar descobrir esta palavra latente (Vicente Huidobro) e o del\u00edrio do verbo (Manoel de Barros). Procura e exerc\u00edcio intermin\u00e1vel. \u00c9 um gozo divino, no sentido de \u00eaxtase, quando um leitor completa e d\u00e1 sua interpreta\u00e7\u00e3o a esse texto. Essa leitura refor\u00e7a meu desejo de continuar por essas trilhas e encruzilhadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;Olhos de Barro&#8221;, seu mais recente livro, dedica-se a uma prosa que se manifesta intensamente po\u00e9tica. O t\u00edtulo, por sinal, \u00e9 bastante sugestivo, apontando para um criador que, ao mesmo tempo, \u00e9 criatura a mirar os trajetos da exist\u00eancia. Quais signos voc\u00ea elenca como sendo os mais emblem\u00e1ticos nessa sua nova incurs\u00e3o pelas palavras?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JOS\u00c9 GERALDO NERES &#8211;<\/strong> Sim, criador e cria\u00e7\u00f5es. Tudo come\u00e7ou com uma provoca\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica: uma grande boca a perambular uma casa vazia, sem portas ou janelas, e, mesmo assim, ela n\u00e3o conseguia sair desta casa. A boca, corpo n\u00e3o tinha, e sua voz preenchia todo este ambiente. Essa imagem inaugural persistiu no grupo de textos produzidos e insistiu a provocar outras inquieta\u00e7\u00f5es. Utilizei a estrutura da casa para os primeiros passos (a casa tinha quatro c\u00f4modos. Ent\u00e3o, os signos elementais serviram de b\u00fassola, depois o embate do criador e cria\u00e7\u00f5es: a casa como limite e parte deste corpo, corpo constru\u00eddo por palavras. Depois, o tempo: passado, presente, futuro e a travessia). A queda, os limites do corpo, as fronteiras que cercam os pensamentos e cria\u00e7\u00f5es s\u00e3o partes dos signos utilizados. Os outros est\u00e3o naquele que completa o livro: o leitor. Antes deste c\u00edrculo se completar, \u00e9 claro que fui procurar beber em outros autores que dialogam com este tema: queda e fronteiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Essa sua men\u00e7\u00e3o a queda e fronteiras pode ser compreendida tamb\u00e9m como uma proje\u00e7\u00e3o da finitude, talvez um dos maiores temores humanos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JOS\u00c9 GERALDO NERES &#8211;<\/strong> Gosto deste temor, principalmente inserido no campo da cria\u00e7\u00e3o, mas, particularmente, n\u00e3o acredito nesta proje\u00e7\u00e3o, e sim em transforma\u00e7\u00e3o e travessia. Quando da realiza\u00e7\u00e3o e escolhas de leituras para \u201cOlhos de Barro\u201d, uma obra me chamou muita aten\u00e7\u00e3o: \u201cGringo Velho\u201d, do mexicano Carlos Fuentes. Encantou-me a trajet\u00f3ria do personagem que, antes de \u201ccumprir sua senten\u00e7a, encontrou-se com o \u00fanico mal irremedi\u00e1vel, aquilo que \u00e9 a marca do nosso estranho destino sobre a terra\u201d (di\u00e1logo dos personagens Chic\u00f3 e Jo\u00e3o Grilo no Auto da Compadecida, obra imortal de Ariano Suassuna), atravessa a fronteira dos Estados Unidos da Am\u00e9rica para participar da revolu\u00e7\u00e3o mexicana. Ele sabe o que o tempo planeja para ele, e, assim, abandona tudo para poder vivenciar este seu desejo her\u00f3ico. \u00c9 certo que o livro \u00e9 muito mais que esta simplifica\u00e7\u00e3o que acabo de fazer, mas \u00e9 essa travessia que me impregnou durante a leitura da obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA- Nesta travessia pela palavra, escrever seria tamb\u00e9m uma via de reden\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JOS\u00c9 GERALDO NERES &#8211;<\/strong> A literatura sempre me salva. N\u00e3o sei dizer ou mencionar quantas vezes aconteceu isso, mas terminar um texto \u00e9 um prazer que n\u00e3o h\u00e1 como definir. Poderia citar v\u00e1rios exemplos, e mesmo assim n\u00e3o atingiria a propor\u00e7\u00e3o correta. Terminar um texto nos dois sentidos: leitura e escritura\u00e7\u00e3o. Quando recebo a indica\u00e7\u00e3o de leitura de algu\u00e9m, fa\u00e7o uma excurs\u00e3o pelos sebos (virtuais e tradicionais) at\u00e9 encontrar o livro. Gosto do desafio, da procura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A literatura j\u00e1 me levou para in\u00fameros lugares que jamais pensei conhecer, e, a cada retorno, sou \u201co outro\u201d que habita a mesma casa. Sei que tenho muito por caminhar, aprender e descobrir. Cada novo projeto\/livro me d\u00e1 essa possibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_2439\" aria-describedby=\"caption-attachment-2439\" style=\"width: 520px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/neres_abril2012INTERNA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2439\" title=\"neres_abril2012\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/neres_abril2012INTERNA.jpg\" alt=\"\" width=\"520\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/neres_abril2012INTERNA.jpg 520w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/neres_abril2012INTERNA-300x227.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 520px) 100vw, 520px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2439\" class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Geraldo Neres \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em meio \u00e0 sua trajet\u00f3ria incans\u00e1vel de articulador cultural, habita o\u00a0 projeto Quinta Po\u00e9tica, do qual voc\u00ea \u00e9 curador, e que agora est\u00e1 completando 50 edi\u00e7\u00f5es. O que tem sido decisivo para a consolida\u00e7\u00e3o desta iniciativa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JOS\u00c9 GERALDO NERES \u2013<\/strong> Nasci, literariamente falando, em Diadema, final dos anos 90 (pertence \u00e0 regi\u00e3o do grande ABCD daqui do estado de S\u00e3o Paulo), onde tive o privil\u00e9gio de conhecer uma oficina de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria (ministrada pela poeta Beth Brait Alvim). Nesse per\u00edodo, aconteceu minha primeira revela\u00e7\u00e3o: descobri que tinha apenas o desejo po\u00e9tico, mas poesia mesmo, n\u00e3o. Descobri que n\u00e3o era poeta, mas tamb\u00e9m descobri o desejo e determina\u00e7\u00e3o de procurar pela poesia e seus realizadores. Esteticamente e poeticamente, tudo come\u00e7ou em Diadema. O fazer era agregado \u00e0 viv\u00eancia, conviv\u00eancia, coletividade, interc\u00e2mbio e experimenta\u00e7\u00e3o. Neste clima, criou-se o grupo Palavreiros, e n\u00f3s nos apresent\u00e1vamos em leituras pela cidade, outras cidades, e espa\u00e7os s\u00f3cioculturais (aqui \u00e9 s\u00f3 um brev\u00edssimo resumo: h\u00e1 muito por falar). Desde ent\u00e3o, peguei gosto por produ\u00e7\u00e3o cultural e n\u00e3o parei mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Quinta Po\u00e9tica chega a 50 edi\u00e7\u00f5es na Casa das Rosas (anteriormente, o projeto habitou outros lugares), e \u00e9 idealizado e promovido pela Escrituras Editora e a Casa das Rosas &#8211; Espa\u00e7o Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, onde se apresentou um mosaico com mais de quinhentos produtores culturais de todas as regi\u00f5es brasileiras e exterior do pa\u00eds. Existe uma permanente mescla\/di\u00e1logo com as demais linguagens art\u00edsticas. Por ser um projeto que existe e se mant\u00e9m numa periodicidade ininterrupta, aliado \u00e0 cumplicidade e qualidade destes produtores culturais, creio que sejam esses alguns dos ingredientes desta consolida\u00e7\u00e3o (a programa\u00e7\u00e3o deste ano est\u00e1 pronta desde o m\u00eas de maio, e, atualmente, recebo indica\u00e7\u00f5es e sugest\u00f5es de participantes para o ano de 2013).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma grande surpresa o desdobramento de cada edi\u00e7\u00e3o: os participantes realizam al\u00e9m do costumeiro interc\u00e2mbio de saberes\/contatos. Criam novas parcerias e andan\u00e7as. Isso estimula e muito, al\u00e9m de aumentar a responsabilidade de estar na curadoria deste projeto (aqui quero deixar meu agradecimento aos curadores anteriores. Como certamente vou esquecer os nomes de todos, cito-os na figura emblem\u00e1tica do poeta Celso de Alencar).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 poss\u00edvel dizer que os escritores contempor\u00e2neos, em prosa ou verso,\u00a0det\u00eam um estilo peculiar capaz de solidificar algum movimento?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JOS\u00c9 GERALDO NERES &#8211; <\/strong>N\u00e3o acredito nessa possibilidade, pois n\u00e3o sabemos quem s\u00e3o nossos poetas ou escritores (isso em \u00e2mbito nacional ou estadual). Conhecemos certo n\u00famero de autores, por\u00e9m n\u00e3o todos. No Brasil, n\u00e3o h\u00e1 um mecanismo ou mapeamento dos produtores culturais, como, por exemplo, o <strong>\u201c<a href=\"http:\/\/sic.conaculta.gob.mx \">Sistema de Informaci\u00f3n Cultural, CONACULTA,\u00a0M\u00e9xico<\/a>\u201d<\/strong>. Acho que ganhar\u00edamos mais se nossa literatura fosse sistematicamente divulgada (obra e autor) internamente e, \u00e9 claro, no exterior. Hoje, sinto uma movimenta\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 um tanto t\u00edmida e, quando sabemos de uma obra traduzida para outro idioma, n\u00e3o h\u00e1 surpresa nos livros ou autores escolhidos ou selecionados. O assunto requer um debate amplo, e essas poucas linhas n\u00e3o seriam suficientes para discorrer ou apontar solu\u00e7\u00f5es. No entanto, quero deixar claro que conhe\u00e7o escritores e poetas s\u00e9rios e competentes, mas lamento n\u00e3o ter este painel de nossa literatura nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Quais crit\u00e9rios norteiam a participa\u00e7\u00e3o dos autores no Quinta Po\u00e9tica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JOS\u00c9 GERALDO NERES \u2013<\/strong> Basicamente, qualidade, apresenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica, disponibilidade para troca de saberes, e di\u00e1logo entre diferentes linguagens art\u00edsticas. O maior exemplo deste interc\u00e2mbio de saberes, est\u00e9tica e linguagens art\u00edsticas foi a 43\u00aa edi\u00e7\u00e3o, em Novembro de 2011, Especial di\u00e1logos &#8211; Diversidade cultural. H\u00e1 um extenso acervo dispon\u00edvel para visita\u00e7\u00e3o e pesquisa na internet, relacionado a outras edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O estado de coisas a que chamamos p\u00f3s-modernidade talvez tenha trazido a fr\u00e1gil sensa\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel subverter tudo em mat\u00e9ria de g\u00eanero liter\u00e1rio. O que voc\u00ea pensa sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JOS\u00c9 GERALDO NERES &#8211;<\/strong> Encontro essa desconstru\u00e7\u00e3o em autores do passado. Cito seis que tenho por h\u00e1bito reler: Lautr\u00e9amont,\u00a0G\u00e9rard de\u00a0Nerval,\u00a0Charles Baudelaire, Octavio Paz, Jorge de Lima e Campos de Carvalho (se procurar um pouco mais no abismo de leituras, vou encontrar outros exemplos). Nessas leituras, fico a questionar os limites e fronteiras do g\u00eanero liter\u00e1rio. Longe de mim afirmar que esses autores inauguram essa ruptura, pois a hist\u00f3ria liter\u00e1ria \u00e9 longa e bebemos na tradi\u00e7\u00e3o para conhec\u00ea-la e poder subvert\u00ea-la. N\u00e3o acredito em cria\u00e7\u00e3o no vazio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;\u00a0 O que voc\u00ea n\u00e3o endossa na dita p\u00f3s-modernidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JOS\u00c9 GERALDO NERES &#8211;<\/strong> Apenas para reflex\u00e3o: qual a preocupa\u00e7\u00e3o com o tempo? Ele \u00e9 o tempo e, assim, sempre ser\u00e1. Penso na capacidade criativa do ser humano, e tudo aquilo ou movimento que o influi e provoca para uma nova cria\u00e7\u00e3o. Acredito no movimento c\u00edclico. A escritura\u00e7\u00e3o come\u00e7a nos primeiros registros na pintura\u00a0ou gravura rupestre. Fica uma provoca\u00e7\u00e3o: como inventar a roda sem beber na tradi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Para o homem das palavras Jos\u00e9 Geraldo Neres, escrever seria uma necessidade de express\u00e3o \u00edntima ou a busca por uma interlocu\u00e7\u00e3o com o mundo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JOS\u00c9 GERALDO NERES &#8211;<\/strong> Sim, escrever \u00e9 tentar dialogar ou compreender os s\u00edmbolos do cotidiano, sentir a pulsa\u00e7\u00e3o, o ritmo, todos os sentimentos (positivos e negativos), e procurar uma solu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica que possa abrigar todos esses desejos. Os menores detalhes do mundo, aquilo que passa despercebido pela maioria, mas que est\u00e1 l\u00e1, aguardando uma significa\u00e7\u00e3o (aqui, uma livre interpreta\u00e7\u00e3o de Manoel de Barros: apanhar desperd\u00edcios). Nesta macrocomunica\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m me encontro. E citando-me no poema manifesto O eco das \u00e1rvores, que encerra o livro \u201cOutros sil\u00eancios\u201d: <em>Sou a roupa de arbustos onde um poeta tenta se equilibrar. \/ A vida despe o rel\u00f3gio, os ponteiros dissolvem o poeta em sua figura negra e \u00fanica. \/ Sombra na busca do poema. \/\/ Dan\u00e7a de s\u00edmbolos na eterna busca do homem que um dia poderei ser. \/\/ Corpo dividido, dispersando-se na medida que leio o que escrevo. \/ Eu n\u00e3o existo aqui mesmo. O poema mal sabe de mim.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><em>\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/CAPA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2440\" title=\"CAPA\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/CAPA.jpg\" alt=\"\" width=\"237\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/CAPA.jpg 237w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/CAPA-203x300.jpg 203w\" sizes=\"auto, (max-width: 237px) 100vw, 237px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro pode ser adquirido no site da <a href=\"http:\/\/www.editorapatua.com.br\"><strong>Editora Patu\u00e1<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio ao lan\u00e7amento de seu mais recente livro, o escritor Jos\u00e9 Geraldo Neres fala sobre sua busca no complexo universo das palavras  <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2437,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[523,16,2539],"tags":[525,524,424,63,254,526,418,420,426,127,425],"class_list":["post-2436","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-71a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-casa-das-rosas","tag-criacao-literaria","tag-editora-patua","tag-entrevista","tag-escritor","tag-escrituras-editora","tag-jose-geraldo-neres","tag-olhos-de-barro","tag-outros-silencios","tag-poeta","tag-quinta-poetica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2436","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2436"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2436\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2884,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2436\/revisions\/2884"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2437"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2436"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2436"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2436"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}