{"id":2475,"date":"2012-09-09T16:19:52","date_gmt":"2012-09-09T19:19:52","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=2475"},"modified":"2012-10-12T16:35:44","modified_gmt":"2012-10-12T19:35:44","slug":"dedos-de-prosa-i-6","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-6\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_2478\" aria-describedby=\"caption-attachment-2478\" style=\"width: 448px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/nao_come_aINTERNA1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2478\" title=\"nao_come_(a)\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/nao_come_aINTERNA1.jpg\" alt=\"\" width=\"448\" height=\"395\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/nao_come_aINTERNA1.jpg 448w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/nao_come_aINTERNA1-300x264.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 448px) 100vw, 448px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2478\" class=\"wp-caption-text\">Pintura: Sylvana Lobo<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>V\u00c9RTEBRAS E CORAIS<\/strong><\/p>\n<p><em>Marcia Barbieri<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">\u201cE se voc\u00ea olhar longamente para um abismo, o abismo tamb\u00e9m olha para dentro de voc\u00ea\u201d.<br \/>\n(NIETZSCHE, F. Para Al\u00e9m do Bem e do Mal)<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Os carros n\u00e3o passam nos becos. V\u00e9rtebras partidas impedindo toda possibilidade de travessia. As ruas s\u00e3o escuras e a luz barata morre antes de tocar o fosco do ch\u00e3o. Jonas perdido dentro da baleia. V\u00edsceras e Deus dividindo o mesmo leito. Temporal l\u00e1 fora. Algumas po\u00e7as devolvem um retrato cruel de mim. <em>Doryan Gray<\/em>. Marginais defecam no meu rosto magro. A barba cresce (ou seriam apenas penugens?) e sinto que posso a qualquer instante rejuvenescer. Experimento o medo de todos os meus antepassados atrav\u00e9s do meu sorriso p\u00e1lido. Dou uma olhada ao redor. A lua atr\u00e1s continua minguante. Retrocesso. Vejo as fases da lua no calend\u00e1rio. Cheia, \u00e0s vezes. Quando estou com sorte. Rasgo o verbo, principio de todo infort\u00fanio. Me recordo que Ela espera. O cais despenca dos seus cabelos molhados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gosto de observ\u00e1-la. Calado como um animal sol\u00edcito na expectativa de uma migalha. Ela afia a faca sobre a pedra furta-cor, inclina a cabe\u00e7a para o lado e tira pacientemente as escamas. Corta as rodelas de tomate, de cebola, pica o piment\u00e3o. Vermelho. Ela gosta do vermelho e das cores p\u00farpuras. As entranhas escorrem po\u00e9ticas pelas suas m\u00e3os pequenas de mulher perdida. Todas elas cortes\u00e3s. Nunca amaria algu\u00e9m t\u00e3o fr\u00e1gil nas extremidades &#8211; era t\u00e3o certo devor\u00e1-la! Os olhos do peixe insistem em me interrogar, em me deixar inseguro. As p\u00e1lpebras mortas no mar. Os escafandristas procurando ref\u00fagio para seus suic\u00eddios di\u00e1rios. Submergir e emergir para esse mundo de merda. O enigma da vida perdido em alguma isca n\u00e3o devorada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda noite sonho que moro num lugar cheio de cerejeiras. As noites s\u00e3o brancas e os dias se diluem entre um intervalo e outro do rel\u00f3gio. Um engano matem\u00e1tico. Somente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela chama para o almo\u00e7o. J\u00e1 \u00e9 tarde. Ela gosta de se gabar da sua maestria na cozinha. Me sento na mesma cadeira de sempre. De frente para o descaminho. Desvio o olhar. Come\u00e7o a comer. Engasgo com uma espinha. Ela fica atravessada na minha garganta. Como aquele n\u00f3 que se forma quando queremos chorar e o choro n\u00e3o vem. Estrangulando toda palavra, qualquer tentativa de discurso. Come\u00e7o a entender o que significa escutar o sil\u00eancio. Me calo. O talher bate no prato. V\u00e3o. Entre uma ideia e outra. A saliva viscosa escorre feito esperma molhando a espinha. Resistente. Ela parece se deliciar com o mar formado na minha laringe. Saudades de sua origem. Os olhares se voltam pra mim. O centro do universo. O umbigo depravado do mundo. Envaide\u00e7o. Aos poucos a gosma da minha garganta envolve a solid\u00e3o da espinha. Ela se despeda\u00e7a e desce. Solto um pequeno sorriso, dez cent\u00edmetros de talho. Eles voltam a movimentar as mand\u00edbulas e os talheres continuam a ensurdecer meus ouvidos. O zunido das pedras caindo nas \u00e1guas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Irei embora, antes acendo um cigarro. De longe, Ela imagina que a brasa entre meus dedos \u00e9 um pequeno p\u00f4r-do-sol. Quase apagado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<a href=\"http:\/\/www.avidanaovaleumconto.blogspot.com \"><strong>Marcia Barbieri<\/strong> <\/a>\u00e9 paulista. Possui textos publicados nas Revistas Liter\u00e1rias Coyote, Cron\u00f3pios, Germina, Escritoras Suicidas e Meio Tom. Tem tr\u00eas livros publicados: dois de contos e um romance. \u00c9 colunista da Revista Liter\u00e1ria <a href=\"http:\/\/www.o-bule.com \"><strong>O BULE<\/strong><\/a>) <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As linhas viscerais de \u201cV\u00e9rtebras e Corais\u201d, conto de Marcia Barbieri<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2476,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[523,2534,16],"tags":[539,81,41,538,540,149,537],"class_list":["post-2475","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-71a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-a-vida-nao-vale-um-conto","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-marcia-barbieri","tag-o-bule","tag-prosa","tag-vertebras-e-corais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2475","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2475"}],"version-history":[{"count":18,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2475\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2881,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2475\/revisions\/2881"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2476"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2475"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2475"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2475"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}