{"id":2723,"date":"2012-10-12T10:36:48","date_gmt":"2012-10-12T13:36:48","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=2723"},"modified":"2012-11-13T23:32:10","modified_gmt":"2012-11-14T02:32:10","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-7\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><strong>GRACO BRAZ PEIXOTO &amp; A PERENIDADE DA CAN\u00c7\u00c3O POPULAR<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Floriano Martins<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O compositor e int\u00e9rprete Graco Braz Peixoto (Fortaleza, 1955) tem um curr\u00edculo no m\u00ednimo curioso. Possui mais de oitenta grava\u00e7\u00f5es de suas m\u00fasicas por cantores e autores de express\u00e3o no cen\u00e1rio da MPB, al\u00e9m de grava\u00e7\u00f5es nos EUA e Europa por artistas brasileiros. No entanto, somente em 2000 gravou seu primeiro e \u00fanico disco, <em>Kizumba-Mass<\/em>, uma produ\u00e7\u00e3o dele pr\u00f3prio para o selo Atra\u00e7\u00e3o Fonogr\u00e1fica. Entre os parceiros mais conhecidos e\/ou cantores gravados est\u00e3o: Belchior, Fagner, Ednardo, Fausto Nilo, Zeca Baleiro, Chico C\u00e9sar, Joanna, Oswaldinho do Acordeon, Nubia Lafayette, Altemar Dutra, Cl\u00e1udia Barroso, Maria Alcina e Anast\u00e1cia. Um destaque acima de qualquer suspeita \u00e9 a can\u00e7\u00e3o \u201cNoturno\u201d (escrita em parceria com seu irm\u00e3o, Caio S\u00edlvio), cuja grava\u00e7\u00e3o original, pelo Fagner, foi tema central \u2013 inclusive lhe dando t\u00edtulo \u2013 da telenovela <em>Cora\u00e7\u00e3o Alado<\/em>, de Janet Clair, para a TV Globo em 1980. Outro bom destaque \u00e9 a parceria com Daniel Taubkin que rendeu boa parte do disco <em>A Picture of Your Life<\/em>, do pr\u00f3prio Daniel Taubkin, produzido por Roy Cicala para o selo Blue Jackel, Estados Unidos, 2002. O di\u00e1logo a seguir \u00e9 uma palhinha da serenidade e vis\u00e3o de mundo desse artista apaixonado pela m\u00fasica e a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_2725\" aria-describedby=\"caption-attachment-2725\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Foto-GracoINTERNA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2725\" title=\"Foto Graco\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Foto-GracoINTERNA.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Foto-GracoINTERNA.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Foto-GracoINTERNA-300x224.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2725\" class=\"wp-caption-text\">Graco Braz Peixoto \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FLORIANO MARTINS &#8211; H\u00e1 um aspecto que sempre soa curioso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 op\u00e7\u00e3o est\u00e9tica de um criador, o que o levou a dar mais aten\u00e7\u00e3o a uma zona de cria\u00e7\u00e3o. Em teu caso, a can\u00e7\u00e3o popular. Qual \u00e9 o mapa da mina? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GRACO BRAZ PEIXOTO &#8211; <\/strong>Bom, talvez devesse falar antes do territ\u00f3rio para depois chegar \u00e0 mina. Antes da ilha-can\u00e7\u00e3o, a m\u00fasica como oceano. Algu\u00e9m j\u00e1 disse que todas as artes aspiram \u00e0 condi\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, a m\u00fasica que o fil\u00f3sofo Plotino considerava como um caminho para se chegar a Deus, a m\u00fasica que prescindiria da mat\u00e9ria e se tornaria contempla\u00e7\u00e3o da harmonia divina, como queria Santo Agostinho. A m\u00fasica, deste \u00e2ngulo, seria a via de acesso ao Absoluto. Todos n\u00f3s sentimos isso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica de Bach, de tantos g\u00eanios da hist\u00f3ria. \u00c9 sempre mais legal falar do aspecto sensorial do que falar da m\u00fasica como t\u00e9cnica. No princ\u00edpio, existe o mito da can\u00e7\u00e3o de Ur, na antiga Caldeia, a can\u00e7\u00e3o como sensa\u00e7\u00e3o do objeto primevo, aquela que o beb\u00ea balbucia ainda no ber\u00e7o. Este \u00e9 um mito rom\u00e2ntico, mas no campo das artes eu acho que a metaf\u00edsica \u00e9 sempre mais importante, toda arte se move no campo do sens\u00edvel e para al\u00e9m dele. E nesse aspecto, me parece que a m\u00fasica leva vantagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras artes. Quero dizer que \u00e9 muito mais f\u00e1cil um garoto se apaixonar primeiro pela m\u00fasica, principalmente se levarmos em conta sua rela\u00e7\u00e3o com a ind\u00fastria do entretenimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente a ideia de escolha deve ter surgido quando a aventura j\u00e1 estava em pleno curso. Deve ser algo inconsciente, voltando ao car\u00e1ter at\u00e1vico da coisa. Falar da m\u00fasica \u00e9 falar da inf\u00e2ncia, no caso a nossa inf\u00e2ncia em Fortaleza, a minha e do Caio, meu irm\u00e3o, pois ambos nos apaixonamos nas mesmas circunst\u00e2ncias. Muito cedo ouvimos Chopin quase que simultaneamente aos Beatles e Roberto Carlos. Minhas irm\u00e3s estudaram piano cl\u00e1ssico e depois veio o Aulo, o mais novo, que j\u00e1 come\u00e7ou compondo can\u00e7\u00f5es surpreendentes. Eu falo dos elos porque a m\u00fasica, e mais fortemente a can\u00e7\u00e3o tem essa capacidade de oferecer frui\u00e7\u00e3o individual e coletiva, da participa\u00e7\u00e3o do corpo, de quem embarca por um breve momento nessa c\u00e1psula sensorial feita de versos, melodia, ritmo e harmonia. A m\u00fasica, e, dentro dela, a can\u00e7\u00e3o, nos d\u00e1 a oportunidade de pertencer a um pequeno casulo de identidade e de uma realidade sobre a qual endossamos o discurso do autor, nos emocionamos. \u00c9 algo muito real, \u00e9 pura experi\u00eancia ou retorno \u00e0 experi\u00eancia vivida. Marca uma vida, a vida de todos. O corpo tamb\u00e9m canta e dela fica impregnado. Enquanto cantamos ou tocamos, estamos em n\u00f3s mesmos e ao mesmo tempo muito longe, pois enquanto isso acontece nos abstra\u00edmos para outra realidade. A can\u00e7\u00e3o, para mim, talvez n\u00e3o viesse sem o Caio, pois ele foi o primeiro a compor, a me despertar a vontade de fazer o mesmo. Fazia m\u00fasicas lindas e eu tentava tamb\u00e9m conseguir aquilo. Com a cabe\u00e7a nas meninas e todos os horm\u00f4nios viajando em Beatles e tantas vozes do r\u00e1dio, ningu\u00e9m poderia resistir. Eis a can\u00e7\u00e3o, a guitarra e a estrada. Ali\u00e1s, \u201cEis a can\u00e7\u00e3o\u201d, n\u00e3o por acaso \u00e9 o t\u00edtulo que o compositor M\u00e1rio Montaut deu \u00e0 nossa primeira parceria. E, veja que sincronia: por falar em Beatles, na altera\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica interna da can\u00e7\u00e3o ela foi depois rebatizada como \u201cPara sempre campos de algod\u00e3o\u201d. N\u00e3o \u00e9 bonito? Tem tamb\u00e9m este outro aspecto bel\u00edssimo: dependendo da interpreta\u00e7\u00e3o e da execu\u00e7\u00e3o, a can\u00e7\u00e3o se transforma. N\u00e3o seria exagero dizer que ela pode operar uma transfigura\u00e7\u00e3o do momento. Nesse caso a voz, sua cor, sua malha, suas particularidades t\u00eam um papel tamb\u00e9m decisivo. Uma bela can\u00e7\u00e3o \u00e9 um gesto prolongado, uma declara\u00e7\u00e3o da vida ao mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211; O que chamamos de can\u00e7\u00e3o popular j\u00e1 perdeu os vest\u00edgios de sua origem. O mercado transformou em can\u00e7\u00e3o popular um produto imposto ao consumidor. Isto faz, dentre outros preju\u00edzos, com que ela expresse o roteiro de uma campanha publicit\u00e1ria, e n\u00e3o que surja como referente de uma indigest\u00e3o social. No entanto, essas preciosas s\u00e3o assinadas por algu\u00e9m. O que significa hoje ser um compositor de can\u00e7\u00f5es populares?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GBP &#8211; <\/strong>Mais uma quest\u00e3o dif\u00edcil, muito aberta. A can\u00e7\u00e3o \u00e9 soberana. Sempre haver\u00e1 a quest\u00e3o do talento, ou seja, a quest\u00e3o primordial. N\u00e3o \u00e9 a altera\u00e7\u00e3o das regras do jogo imposto pela ind\u00fastria que vai enfraquecer o g\u00eanero, destruir talentos. Nesse momento, com certeza temos um cen\u00e1rio ruim, um desest\u00edmulo aos grandes autores e cantores em favor de uma porcaria assombrosa. A ind\u00fastria vende o que a sociedade cria. Seu pecado mesmo \u00e9 a reitera\u00e7\u00e3o, a multiplica\u00e7\u00e3o do que gera um mal estar vergonhoso. Esse lama\u00e7al acompanha toda a atomiza\u00e7\u00e3o que v\u00eam sofrendo as artes num ambiente onde n\u00e3o h\u00e1 horizonte, apenas o foco do momento, o imediatismo. N\u00e3o h\u00e1 mais a obra, apenas o \u201csingle\u201d, o funk escabroso. Do trovador da vila medieval, quando a can\u00e7\u00e3o foi tomando sua forma, ao trovador dos links houve uma dispers\u00e3o do cen\u00e1rio interno, da identidade. Hoje h\u00e1 um discurso para cada gavetinha do mercado, este senhor sem face, o que parece inviabilizar aquela id\u00e9ia antiga da MPB como deposit\u00e1ria de um discurso da sociedade brasileira. A sociedade est\u00e1 mais complexa, o acesso mais f\u00e1cil e a elabora\u00e7\u00e3o em geral \u00e9 muito rasteira. Hoje, a rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica \u2013 n\u00e3o s\u00f3 a can\u00e7\u00e3o \u2013 perdeu profundidade. O enfraquecimento da ind\u00fastria e a vulgariza\u00e7\u00e3o da grava\u00e7\u00e3o de discos geraram um n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o cuja absor\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. Ironicamente, downloads s\u00e3o feitos numa escala de frui\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel. Est\u00e1 tudo muito confuso. O discurso publicit\u00e1rio est\u00e1 muito evidente. Por natureza ele \u00e9 uma redu\u00e7\u00e3o e isso rima com a pobreza cultural do Brasil, por exemplo. Mas estamos enganados se pensamos ser esse um fen\u00f4meno brasileiro. Parece que o Ocidente se transformou num grande pagode com futebol. Talvez seja cedo para procurarmos uma palavra final. \u00c9 hora de dar \u00e0 palavra \u201cunderground\u201d, por incr\u00edvel e contradit\u00f3rio que pare\u00e7a, o seu verdadeiro significado. E devemos reconhecer que h\u00e1 espa\u00e7o para tanto. \u00c9 um espa\u00e7o que parece aos poucos voltar a vibrar. Ali\u00e1s, \u00e9 preciso tamb\u00e9m reconhecer que l\u00e1 atr\u00e1s o surgimento do cinema e da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica desempenhou um papel important\u00edssimo para o florescimento da can\u00e7\u00e3o, aquelas can\u00e7\u00f5es e rocks e bandas que fizeram a trilha sonora de nossas vidas. Mas apesar deste cen\u00e1rio, se formos catar as pedrinhas veremos que o pop e sua imensa constela\u00e7\u00e3o de subg\u00eaneros ainda possuem uma for\u00e7a e presen\u00e7a impressionantes. A can\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 o pr\u00f3prio mapa da mina, ou seja, ela \u00e9 o territ\u00f3rio, a identidade e o discurso do habitante, mesmo com a vulgariza\u00e7\u00e3o que presenciamos. Resumindo, da inven\u00e7\u00e3o do fon\u00f3grafo ao download, a ind\u00fastria possibilitou uma produ\u00e7\u00e3o imensa, a cria\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias linguagens musicais. \u00c9 sempre dif\u00edcil unir o micro e o macro. Seria imposs\u00edvel imaginar Elvis Presley em outro momento, o grito primal de John Lennon n\u00e3o teria tido o mesmo alcance. O rock j\u00e1 tem sua literatura, a MPB tem sua hist\u00f3ria e as pedras continuam rolando. Ser compositor, hoje, pode ser tamb\u00e9m abdicar de uma id\u00e9ia rom\u00e2ntica de estrelato e riqueza e reafirmar sua paix\u00e3o da inf\u00e2ncia. Os dilemas da m\u00fasica n\u00e3o est\u00e3o separados das quest\u00f5es do empobrecimento cultural. \u00c0s vezes, tamb\u00e9m penso que j\u00e1 tivemos a neurose e que hoje vivemos a necrose. Mas posi\u00e7\u00f5es assim, t\u00e3o preto no branco, nunca se sustentam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211; A m\u00e1xima publicit\u00e1ria \u201cDeus criou o mundo\u201d fascina a todos os artistas, seres em geral dotados de uma car\u00eancia afetiva cujo diapas\u00e3o espiritual n\u00e3o carece de mist\u00e9rio. N\u00e3o h\u00e1 enigma, mas sim pobreza de esp\u00edrito. Recordo este document\u00e1rio sobre o Michael Jackson, que logo no in\u00edcio cita um desejo seu de se tornar o artista mais popular do mundo. O mundo \u2013 mundo \u00e9 linguagem \u2013 \u00e9 uma entidade muito curiosa. Certos substantivos abstratos se tornaram violentamente concretos, como o medo. Em muitos casos a realidade se esfumou, tornando-se uma abstra\u00e7\u00e3o sem recurso. N\u00e3o fazemos uma ideia concreta \u2013 exceto a ideia aproximada de todas as \u00e9pocas \u2013 do que seja o mundo, de conformidade com nosso desejo. Na primeira metade do s\u00e9culo XX o desejo definia o homem. O desejo era evocado em seu sentido de liberdade. Tornou-se depois um argumento de explora\u00e7\u00e3o sexual e consumo. O erotismo for\u00e7ado das campanhas publicit\u00e1rias foi desaguar na prostitui\u00e7\u00e3o infantil. Evidente que Deus n\u00e3o criou esse mundo. Dividimos seu legado em tr\u00eas art\u00e9rias: a ci\u00eancia, a arte e a religi\u00e3o. Inventamos um deus para cada uma das veias. Como circulas por entre os bastidores dessa opereta?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GBP<\/strong> &#8211; Sinto um enlace de quest\u00f5es. \u00c9 muito dif\u00edcil chegar a ju\u00edzos pela subjetividade das pessoas. No caso dos artistas, pior ainda. Olhando bem de perto, \u00e9 raro encontrarmos um que n\u00e3o tenha suas fragilidades. Paul Gauguin, inseguro por n\u00e3o ter dom\u00ednio sobre anatomia, desenho, se encontrou no primitivismo da Martinica e acabou sendo um precursor do fauvismo, ele que havia deixado de lado toda a turma do impressionismo. Foi pioneiro e entrou para a hist\u00f3ria ao lado de caras como Henri Matisse e Maurice Vlaminck. Michael Jackson \u00e9 criatura da engrenagem, da ind\u00fastria, mas por ser um grande artista conseguiu inventar a si mesmo, mesmo com toda fragilidade, esta t\u00e3o gritante. N\u00e3o me interesso muito por suas fraquezas eg\u00f3icas, n\u00e3o era isso que ele levava para o palco. O mesmo poderia dizer da fragilidade e inseguran\u00e7a de Marilyn Monroe. Nesse caso, eu vejo muito mist\u00e9rio em cada diapas\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil negar o int\u00e9rprete, dan\u00e7arino e show-man que foi o Jackson, por exemplo. Ele vem de uma linhagem, uma gera\u00e7\u00e3o que come\u00e7a com B. B. King, passa por James Brown e explode para o mundo com a cristaliza\u00e7\u00e3o da Black Music que foi criada pela Motown Records. Isso \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o americana assimilada por grande parte do planeta. Penso que a valoriza\u00e7\u00e3o da liberdade e da express\u00e3o self-made man, signos da cultura capitalista americana, deram vaz\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um mundo onde a linguagem que o conduz \u00e9 o erotismo e a valoriza\u00e7\u00e3o da liberdade e do desejo. \u00c9 a sociedade do espet\u00e1culo, do pensador Guy Debord, em que temos que estar atentos para esta passividade e aceita\u00e7\u00e3o de toda representa\u00e7\u00e3o. Talvez no seu oposto, o mundo \u00e1rabe, onde o culto \u00e9 proibido, onde n\u00e3o h\u00e1 esse apego excessivo a mensagens publicit\u00e1rias, gurus de todo tipo, celebridades, atores e pol\u00edticos n\u00e3o tenha essa invers\u00e3o de valores causada pelo consumismo. Mas eu tenho esse defeito, o de pender para o que \u00e9 demasiado humano, para o lado do anjo ca\u00eddo. N\u00e3o seria capaz de ver essas manifesta\u00e7\u00f5es apenas como s\u00edmbolo de degrada\u00e7\u00e3o. Acho que ci\u00eancia \u00e9 conhecimento e dom\u00ednio desse conhecimento; arte, vejo como cria\u00e7\u00e3o, inven\u00e7\u00e3o, a gl\u00f3ria do engenho e da subjetividade que aumentam o repert\u00f3rio da exist\u00eancia. A arte p\u00f5e no mundo algo que antes n\u00e3o existia. A arte cria mundos, a ci\u00eancia os descobre. A arte p\u00f5e os v\u00e9us, a ci\u00eancia os decifra. A religi\u00e3o \u00e9 a terceira margem do rio. A f\u00e9 talvez seja o fen\u00f4meno mais poderoso do ser humano. Quem tem f\u00e9 n\u00e3o queima o p\u00e9. J\u00e1 passei por fases de ate\u00edsmo. Hoje tendo a ver o mist\u00e9rio como manifesta\u00e7\u00e3o do divino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM<\/strong> <strong>&#8211; O enlace foi proposital. Na medida em que desatavas o n\u00f3, fui recordando umas frases do Keith Richards que disponho aqui como uma sugest\u00e3o para a seq\u00fc\u00eancia de nossa conversa: \u201cO talento \u00e9 n\u00e3o interferir demais\u201d, \u201cCan\u00e7\u00f5es se escrevem sozinhas, voc\u00ea s\u00f3 as transporta\u201d, \u201cNunca tive dificuldades para compor\u201d. O processo de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre uma curiosidade referente \u00e0 obra de cada criador, para mim uma intrigante curiosidade, porque o alimento essencial do esp\u00edrito \u00e9 a obra em si, e n\u00e3o seus bastidores. Ent\u00e3o, mais do que indagar como crias, sugiro aqui abordar o que pensas desse talento evocado pelo Richards. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GBP &#8211;<\/strong> Bom, essas cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o um barato. Realmente, quando ouvimos can\u00e7\u00f5es incr\u00edveis, mesmo no caso de can\u00e7\u00f5es de amor t\u00e3o radicalmente diferentes em suas estruturas e concep\u00e7\u00f5es, como por exemplo, <em>Stand By Me <\/em>(Bem King\/Jerry Leiber\/Mike Stoller) e <em>Lu\u00edza <\/em>(Tom Jobim), temos a impress\u00e3o de que elas existem desde sempre, de t\u00e3o perfeitas que soam. Existe o mito do autor como um sensitivo que capta as coisas no ar, como se estivessem feitas. \u00c9 puro romantismo. Quando ele diz \u201cn\u00e3o interferir\u201d, na verdade se refere \u00e0 observa\u00e7\u00e3o e controle do que est\u00e1 sendo feito, de forma que a can\u00e7\u00e3o ao final soe \u201credonda\u201d, ou seja, sem arestas, sem elementos gratuitos. Can\u00e7\u00f5es n\u00e3o se escrevem sozinhas. Obviamente, n\u00e3o h\u00e1 termos de compara\u00e7\u00e3o entre as duas, mas \u00e9 claro que a primeira tem uma forma muito simplificada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 jobiniana <em>Lu\u00edza<\/em>. Aqui, caberia ent\u00e3o chamar aten\u00e7\u00e3o do meu inconsciente, que acabou de escrever \u201cjobiniana\u201d. O que significa que o criador desenvolveu sua escritura, fundou sua obra com uma linguagem pr\u00f3pria, com base em concep\u00e7\u00f5es, repert\u00f3rio pr\u00f3prio e talento tais que ela fez surgir uma nova \u00e1rea no universo das can\u00e7\u00f5es. Neste caso, o processo de cria\u00e7\u00e3o no mundo pop usa menor n\u00famero de recursos. N\u00e3o ter dificuldades para compor \u00e9 compor por prazer. O processo da cria\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre fascinante, por isso h\u00e1 tanto estudo, hoje, na academia, sobre a g\u00eanese da cria\u00e7\u00e3o. O apego \u00e0s anota\u00e7\u00f5es sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o da obra. No meu caso, antes eu demorava pouco tempo para compor uma can\u00e7\u00e3o; hoje, minha observa\u00e7\u00e3o leva um tempo maior, pois geralmente h\u00e1 o anteprojeto da coisa. \u00c0s vezes, a composi\u00e7\u00e3o torna-se uma quase obsess\u00e3o, os acordes podem ter diferentes desenhos, as palavras tamb\u00e9m t\u00eam sons, vogais que podem soar com pesos diferentes etc. Fazer tudo soar espontaneamente \u00e9 sempre um desafio. O Jo\u00e3o Gilberto seria o melhor exemplo de obsess\u00e3o com estes itens. Fazer a coisa sair da puls\u00e3o normal e ser lapidada na execu\u00e7\u00e3o \u00e9 algo sem fim. E h\u00e1 tamb\u00e9m a letra, a poesia que o canto enuncia, da maior import\u00e2ncia. No final, como voc\u00ea j\u00e1 disse, o que conta \u00e9 a obra em si. Destaco aqui minhas can\u00e7\u00f5es com Caio S\u00edlvio, com o Floriano Martins, Aulo S\u00edlvio, com Belchior, com o poeta Ricardo Alc\u00e2ntara e os compositores M\u00e1rio Montaut e C\u00e1ssio Gava, com estes \u00faltimos parcerias que apenas iniciamos. \u00c9 um processo de afinidade bonito. No meu caso, minhas parcerias com o Caio Silvio, por exemplo, me s\u00e3o muito importantes. Neste caso, minha participa\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre como letrista, o Caio \u00e9 um compositor de in\u00fameros recursos. J\u00e1 quando componho para os seus versos, por exemplo, tento me embalar na linguagem do poeta Floriano Martins, o que \u00e9 um outro prazer, pois conhecemos profundamente nossas predile\u00e7\u00f5es e eu gosto muito quando recebo uma letra em espanhol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211;<\/strong> <strong>Em meio a este ambiente das parcerias, eu queria destacar uma delas, no caso da cumplicidade com o Daniel Taubkin, para o disco <em>A Picture Of Your Life,<\/em> quanto ao aspecto de que as letras foram resultado de mergulho em outro idioma. Escrever em uma l\u00edngua que n\u00e3o \u00e9 a sua ajuda a iluminar os argumentos da escrita?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GBP &#8211; <\/strong>Escrever em outra l\u00edngua \u00e9 transportar-se, antes, para outra cultura. \u00c9 um atrevimento. Nesse caso, o trabalho resultou de termos uma forma\u00e7\u00e3o musical muito parecida. Obviamente n\u00e3o foi nada f\u00e1cil, tivemos sempre a leitura cr\u00edtica do produtor do disco, o Roy Cicala, americano que produziu discos de grandes celebridades e hoje mora no Brasil. Tanto o ingl\u00eas como o espanhol t\u00eam uma bel\u00edssima sonoridade. Conhecer express\u00f5es e a tradi\u00e7\u00e3o daquele cancioneiro ajuda a entrar na levada que tem cada can\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 sempre aquela coisa da p\u00e1gina em branco. As resenhas sobre o disco, lan\u00e7ado nos EUA, Europa e Jap\u00e3o nos deixaram muito satisfeitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_2727\" aria-describedby=\"caption-attachment-2727\" style=\"width: 520px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Graco-Silvio-INTERNA-02.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2727\" title=\"Graco Silvio\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Graco-Silvio-INTERNA-02.jpg\" alt=\"\" width=\"520\" height=\"390\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Graco-Silvio-INTERNA-02.jpg 520w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Graco-Silvio-INTERNA-02-300x224.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 520px) 100vw, 520px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2727\" class=\"wp-caption-text\">Graco Braz Peixoto \/ Foto: Floriano Martins<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM<\/strong> &#8211; <strong>Em uma confer\u00eancia que deu em Viena, em 1999, o compositor Nick Cave faz uma bela analogia entre m\u00fasica e sil\u00eancio: \u201cSe o mundo fosse ficando silencioso repentinamente Deus seria desconstru\u00eddo e morreria\u201d. Esta confer\u00eancia \u00e9 valiosa, porque ele trata muito sabiamente acerca da can\u00e7\u00e3o de amor, do ato criativo visto a partir da tristeza (\u201ca can\u00e7\u00e3o de amor \u00e9 uma m\u00fasica triste, \u00e9 o pr\u00f3prio som da tristeza\u201d) e da teoria do <em>duende<\/em> defendida por Garc\u00eda Lorca e uma densa tradi\u00e7\u00e3o na can\u00e7\u00e3o de l\u00edngua inglesa \u2013 Bob Dylan, Leonard Cohen, Tom Waits, Neil Young, Van Morrison \u2013 que lhe \u00e9 devedora.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GBP &#8211;<\/strong> Que maravilha esta cita\u00e7\u00e3o do Nick Cave. Acho que tamb\u00e9m somos herdeiros da tradi\u00e7\u00e3o inglesa, assim como os EUA, estes de forma mais acentuada. A can\u00e7\u00e3o de amor, sendo de alta voltagem \u00e9 imbat\u00edvel. \u00c9 um desses artefatos que me fazem crer na perenidade do g\u00eanero. Todos esses caras s\u00e3o fant\u00e1sticos. Devemos a eles grandes momentos. A can\u00e7\u00e3o de amor \u00e9 um ajuste de contas moment\u00e2neo. Como can\u00e7\u00e3o, ela acontece na redund\u00e2ncia, na chegada ao cl\u00edmax do refr\u00e3o, que ganha for\u00e7a na sua reitera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o que a can\u00e7\u00e3o tenha uma forma definida e imut\u00e1vel. O mist\u00e9rio de can\u00e7\u00f5es assim \u00e9 que depois de feitas parecem t\u00e3o simples. De fato, h\u00e1 como que uma repeti\u00e7\u00e3o do esquema, uma quase pobreza harm\u00f4nica na utiliza\u00e7\u00e3o de poucos acordes, coisa que foi superada entre n\u00f3s pelo refinamento vindo da bossa nova. Mas quando se vai fazer, meu velho, adeus facilidade. Fosse t\u00e3o f\u00e1cil assim, n\u00e3o ter\u00edamos todos n\u00f3s compositores um leque consider\u00e1vel de come\u00e7os de can\u00e7\u00f5es, peda\u00e7os delas e outros projetos que ainda n\u00e3o foram conclu\u00eddos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa met\u00e1fora de Nick Cave deve se referir a uma concep\u00e7\u00e3o mais oriental da paz e do mist\u00e9rio da exist\u00eancia. \u00c9 algo muito comum entre m\u00fasicos que tentam uma inicia\u00e7\u00e3o ao zen budismo. Sobre a teoria do duende, do poeta espanhol Garcia Lorca, \u00e9 uma bela met\u00e1fora para falar da arte espanhola, especialmente a m\u00fasica e a dan\u00e7a flamencas como uma fonte de prazer visceral caracter\u00edsticas da cultura espanhola. O duende, para n\u00f3s, seria como \u201cestar com a macaca\u201d ou \u201cestar possu\u00eddo\u201d. \u00c9, no fundo, uma afirma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter distintivo que tem a interpreta\u00e7\u00e3o, essa id\u00e9ia que no linguajar moderno se fala \u201cperformance\u201d. Temos poucos cantores entre n\u00f3s que cantam com esse duende. Ali\u00e1s, a bossa nova \u00e9 uma domestica\u00e7\u00e3o, um refinamento desse bicho. A dan\u00e7a, o cantar dram\u00e1tico e a poesia espanhola t\u00eam na can\u00e7\u00e3o de amor uma das grandes manifesta\u00e7\u00f5es de sua arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211; De onde remontam as tuas afinidades musicais? Que m\u00fasica ouvias na inf\u00e2ncia e que percebes tenha sido de boa influ\u00eancia em tuas escolhas musicais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GBP &#8211; <\/strong>Como um fen\u00f4meno familiar, nossas afinidades \u2013 minha, do Caio e do Aulo s\u00e3o as mesmas, com poucas prefer\u00eancias mais distintas. Donde se v\u00ea a import\u00e2ncia do meio. N\u00e3o temos nada a ver com samba, chorinho etc. Nossa \u00e1rea \u00e9 mais da m\u00fasica brasileira a partir dos anos 1960, com uma pegada forte nos \u201970, base de nossa forma\u00e7\u00e3o. No meu caso, com a vinda para S\u00e3o Paulo passei a me interessar muito por uma \u00e1rea de can\u00e7\u00f5es sofisticadas feitas por compositores que vinham de um ambiente jazz\u00edstico. Tudo isso foi gradativamente soldado \u00e0 minha forma\u00e7\u00e3o de m\u00fasica brasileira. \u00c9 o ciclo comum a todos; a diferen\u00e7a s\u00e3o as prefer\u00eancias. Pode parecer estranho ou esnobe, mas n\u00e3o \u00e9. Minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi afeita \u00e0 sensibilidade tel\u00farica do canto sertanejo, \u00e0quelas vis\u00f5es e formas \u2013 bonitas e preciosas \u2013 comuns a um universo onde a tradi\u00e7\u00e3o da poesia moura que h\u00e1 no Nordeste de certa forma ainda se imp\u00f5e. \u00c9 neste ponto que podemos acrescentar, porque propomos naturalmente um sincretismo. N\u00e3o fazemos a repeti\u00e7\u00e3o, mas criamos um corpo de can\u00e7\u00f5es onde esta leitura n\u00e3o se apresenta em primeiro plano. Em situa\u00e7\u00e3o alguma abrimos m\u00e3o de nossas refer\u00eancias, da modernidade. Can\u00e7\u00f5es de nossas autorias que tiveram sucesso nos deram uma resposta muito feliz acerca dessas m\u00fasicas. Como, por exemplo, <em>Noturno<\/em>, conhecida como \u201cCora\u00e7\u00e3o Alado\u201d, tema da novela hom\u00f4nima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211; Tens uma leitura muito elegante acerca da barb\u00e1rie que estamos criando em cativeiro privado. N\u00f3s que nascemos nos anos \u201950 no Brasil fomos atropelados por certa virul\u00eancia j\u00e1 ajustada em linha nos \u201980 e piorada gradativamente. Eu gostaria de te ouvir falando de algumas dessas can\u00e7\u00f5es, seu alcance, essa resposta feliz que mencionas.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GBP &#8211;<\/strong> Talvez tenhamos sido salvos pela arte, se \u00e9 que fomos salvos. A barb\u00e1rie talvez seja a mesma de sempre. Talvez nossa singularidade \u2013 que perante o mundo escapa ao tr\u00e1gico como uma manifesta\u00e7\u00e3o de alegre pot\u00eancia \u2013 possa ser expressa numa quest\u00e3o: como um pa\u00eds de baixa cultura como o Brasil p\u00f4de transformar um artefato de alta sofistica\u00e7\u00e3o como a bossa nova em produto de massa? Hoje, sua influ\u00eancia internacional \u00e9 indiscut\u00edvel. Para nossa surpresa, o Paul McCartney declarou que pretende vir ao Brasil e gravar com m\u00fasicos da bossa nova. \u00c9 um argumento a que recorro para tentar responder a pergunta, apesar de minha forma\u00e7\u00e3o pop. Poderia pin\u00e7ar algumas can\u00e7\u00f5es que surgiram como bandeiras, quando geralmente elas aparecem como um delicioso cobertor com o qual nos embalamos. Cito <em>Like a Rolling Stone<\/em>, do bardo Dylan, uma can\u00e7\u00e3o de 1965, com mais de seis minutos de versos demolidores, que demonstrou sua incr\u00edvel for\u00e7a marcando nossa gera\u00e7\u00e3o e o mundo de forma inquestion\u00e1vel, com reverbera\u00e7\u00f5es at\u00e9 nossos dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211; A cronologia \u00e9 o ambiente natural da hist\u00f3ria e a explora\u00e7\u00e3o conveniente do mercado. Entre o novo demais para morrer e velho demais para viver, a ret\u00f3rica oscila sem desconectar o cinismo autom\u00e1tico. S\u00e3o reais as conex\u00f5es que j\u00e1 mencionaste com a pobreza espiritual brasileira e o desgaste de certa mec\u00e2nica cultural do Ocidente. Qual o relato poss\u00edvel de sobreviv\u00eancia a tudo isto? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GBP &#8211;<\/strong> Algu\u00e9m j\u00e1 falou que a ret\u00f3rica \u00e9 a mais perigosa de todas as armas. Este assunto \u2013 a decad\u00eancia \u2013 me parece sempre uma quest\u00e3o da \u00e9tica. O cinismo a que voc\u00ea se refere antes \u00e9 a regra, n\u00e3o somente no Brasil. N\u00e3o sou economista, mas toda essa crise na Europa e na comunidade do Euro, por exemplo, me parece antes um problema da \u00e9tica. Como diz o Belchior, numa de nossas parcerias, \u201cO dinheiro \u00e9 um deus cruel\u201d, e a pol\u00edtica seu servo fiel. Precisar\u00edamos de homens, no lugar dos pol\u00edticos. Acho que esse \u00e9 um movimento circular. A rigor n\u00e3o h\u00e1 novidade, nos iludimos com as surpresas e as possibilidades que chegam com as tecnologias, mas a tortura e o massacre de crian\u00e7as, como vemos hoje na S\u00edria sempre podem estar no horizonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FM &#8211; Chegamos ao <em>Kizumba-Mass<\/em> como quem abre a p\u00e1gina de um manifesto. Em um ambiente de novas m\u00eddias, como tornar esse disco acess\u00edvel atualmente? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>GBP &#8211;<\/strong> Tenho mais de 80 grava\u00e7\u00f5es, mas o <em>Kizumba-Mass <\/em>\u00e9 meu primeiro e \u00fanico disco, exceto por algumas participa\u00e7\u00f5es coletivas as quais n\u00e3o curto. Gravei 21 m\u00fasicas, das quais 15 foram para o CD, cuja ideia foi criar um m\u00f3bile cujas pe\u00e7as seriam distintas entre si. O disco saiu pela gravadora Atra\u00e7\u00e3o e tem as participa\u00e7\u00f5es do Ednardo, Daniel Taubkin e Anast\u00e1cia. A exposi\u00e7\u00e3o do trabalho gratuitamente na internet \u00e9 bacana e muito importante, mas \u00e9 preciso resolver o problema da remunera\u00e7\u00e3o do compositor, que j\u00e1 era dif\u00edcil pelos meios antigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>\u00a0<a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/CAPA-CD.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2726\" title=\"CAPA CD\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/CAPA-CD.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/CAPA-CD.jpg 350w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/CAPA-CD-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/CAPA-CD-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<\/em><strong><em>Floriano Martins<\/em><\/strong><em> (Brasil, 1957) \u00e9 poeta, editor e ensa\u00edsta. Dirige a <\/em><a href=\"http:\/\/www.jornaldepoesia.jor.br\/agportal.htm\"><em><strong>Agulha Revista de Cultura<\/strong><\/em><\/a><em>. Entre os livros mais recentes, se encontram\u00a0<\/em>\u201c<em>Autobiografia de um truque\u201d<\/em><em> <\/em><em>(2010) e\u00a0<\/em>\u201c<em>Susana Wald &#8211; La vastedad simb\u00f3lica\u201d<\/em><em> <\/em><em>(2012)<\/em><em>)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O instigante di\u00e1logo musical entre Floriano Martins e o cantor e compositor Graco Braz Peixoto<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2724,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[588,16,2539],"tags":[617,612,615,603,600,608,613,601,618,605,63,604,606,560,599,609,602,614,616,611,610,8,607],"class_list":["post-2723","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-72a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-a-picture-of-your-life","tag-altemar-dutra","tag-anastacia","tag-belchior","tag-cancao-popular","tag-chico-cesar","tag-claudia-barroso","tag-coracao-alado","tag-daniel-taubkin","tag-ednardo","tag-entrevista","tag-fagner","tag-fausto-nilo","tag-floriano-martins","tag-graco-braz-peixoto","tag-joanna","tag-kizumba-mass","tag-maria-alcina","tag-mario-montaut","tag-nubia-lafayette","tag-oswaldinho-do-acordeon","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-zeca-baleiro"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2723","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2723"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2723\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3128,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2723\/revisions\/3128"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2724"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}