{"id":2746,"date":"2012-10-12T11:41:02","date_gmt":"2012-10-12T14:41:02","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=2746"},"modified":"2012-11-13T23:31:34","modified_gmt":"2012-11-14T02:31:34","slug":"aperitivo-da-palavra-i-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-2\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p><strong>Psi, a pen\u00faltima<\/strong><\/p>\n<p><em>Por W. J. Solha<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Psi-CAPA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2836\" title=\"Psi - CAPA\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Psi-CAPA.jpg\" alt=\"\" width=\"311\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Psi-CAPA.jpg 311w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Psi-CAPA-207x300.jpg 207w\" sizes=\"auto, (max-width: 311px) 100vw, 311px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">SF,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">fica dif\u00edcil falar sobre seu <em>Psi, a pen\u00faltima<\/em> depois de ler o Ap\u00eandice III do livro, com o que voc\u00ea chamou de Ecos da Cr\u00edtica e da Generosidade. N\u00e3o desato as sand\u00e1lias de nenhum de seus comentadores, com os quais concordo totalmente, claro. Mas \u2013 como tamb\u00e9m fa\u00e7o versos &#8211; chamou-me a aten\u00e7\u00e3o a declara\u00e7\u00e3o de Lorca, citada no pref\u00e1cio do Gerardo Mello Mour\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Yo no puedo, yo no s\u00e9 hablar sobre poesia. Yo la tengo aqui en mis manos, s\u00e9 que est\u00e1 quemando mi piel, pero no lo s\u00e9 lo que es. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa afirma\u00e7\u00e3o me leva diretamente \u00e0s Confiss\u00f5es de Santo Agostinho:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O que \u00e9, por conseguinte, o <\/em><strong><em>tempo<\/em><\/strong><em>? <\/em><strong><em>Se<\/em><\/strong><em> ningu\u00e9m <\/em><strong><em>me perguntar<\/em><\/strong><em>, <\/em><strong><em>eu sei<\/em><\/strong><em>; <\/em><strong><em>se<\/em><\/strong><em> o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, j\u00e1 <\/em><strong><em>n\u00e3o sei<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, vejo-me, de repente, com dois enigmas colocados de um mesmo modo: poesia e tempo. E me pergunto \u2013 oportunista \u2013 se o segredo da poesia, o segredo da sua poesia, n\u00e3o estaria&#8230;\u00a0 no tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Explico-me.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro-me de que quando era garoto, l\u00e1 em Sorocaba, S\u00e3o Paulo, ouvia sempre um vizinho, mineiro, cantar, deitado na rede, acompanhando-se no viol\u00e3o, a m\u00fasica \u201cFelicidade\u201d, apressada, como Lupic\u00ednio Rodrigues a compusera. Nem perca tempo de ouvi-la inteira, <a href=\" http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=k0z0dfntzPo\"><strong>aqui<\/strong><\/a>. Basta a primeira estrofe, pra ver, em seguida, onde quero chegar:<\/p>\n<p><em>Felicidade foi embora<\/em><br \/>\n<em>e a saudade no meu peito<\/em><br \/>\n<em>ainda mora,<\/em><br \/>\n<em>e \u00e9 por isso que eu gosto<\/em><br \/>\n<em>l\u00e1 de fora,<\/em><br \/>\n<em>porque sei que a falsidade<\/em><br \/>\n<em>n\u00e3o vigora:<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anos depois, quando eu j\u00e1 vivia na Para\u00edba, surge um novo sucesso de Caetano Veloso, e vi que se tratava da mesma \u201cFelicidade\u201d do Lupic\u00ednio, mas.. transfigurada\u00a0 por aquela pregui\u00e7a baiana. Basta, novamente, a primeira estrofe, pra que voc\u00ea sinta a diferen\u00e7a obtida com a mudan\u00e7a de tempo na interpreta\u00e7\u00e3o, de modo a fazer com que uma grande poesia \u2013 que eu n\u00e3o sentia na vers\u00e3o original &#8211; de repente aflorasse das mesmas palavras e partitura:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/kyiqGumfGDw\" frameborder=\"0\" width=\"420\" height=\"315\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O que isso tem a ver com a <em>sua <\/em>poesia. Bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sou grande romancista nem poeta, mas tenho trabalhado nas duas \u00e1reas e me parece que sei \u2013 com aquele <em>saber no sabiendo \/ toda ci\u00eancia tracendiendo <\/em>de San Juan de La Cruz (e de Lorca e Agostinho) &#8211; quando devo me estender na prosa e me conter em versos. Umberto Eco goza com todos n\u00f3s quando garante que poesia \u00e9 aquele texto que n\u00e3o vai at\u00e9 o fim da linha. S\u00f3 isso. Mas me parece que na brincadeira ele deixou escapar uma verdade, pois esse \u00e9 um modo de se tirar o p\u00e9 do acelerador de um texto, mudando \u2013 de modo mais imediato \u2013 o <em>tempo <\/em>do seu conte\u00fado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que noto de imediato \u00e9 que voc\u00ea <em>gosta<\/em> de poemas que poderiam ser contos ou cr\u00f4nicas. Como <em>Ant\u00edfona, <\/em>onde h\u00e1 uma estrofe que poderia estar assim:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Depois me mudei: fui para al\u00e9m das cabe\u00e7as da Serra Branca, para al\u00e9m do lado de l\u00e1, atravessei o crep\u00fasculo, debandei para <\/em>etc etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prosa. Mas&#8230;\u00a0 \u201catravessei o crep\u00fasculo\u201d? Poderia ter dito \u201cfui para o poente\u201d ou \u201cpara oeste\u201d. Seria mais pragm\u00e1tico. Mas o resultado \u00e9 que imediatamente sacamos que a prosa foi pra cucuia e o primeiro mandamento de Eco nos vem \u00e0 baila: nada de chegar ao fim da linha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Depois me mudei:<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(tempo)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>fui para al\u00e9m das cabe\u00e7as da Serra Branca,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(tempo para degustar <em>das cabe\u00e7as da Serra Branca<\/em>)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>para o lado de l\u00e1,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(tempo pra <em>sentir: para o lado de l\u00e1?<\/em>)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>atravessei o crep\u00fasculo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(Caramba!)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais adiante:<\/p>\n<p><em>Passava<\/em><br \/>\n<em>tonitruante o Poti,<\/em><br \/>\n<em>um\u00a0 rio velho, cobarde e mentiroso.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poeta \u2013 ante o adjetivo \u201ccobarde\u201d -, puxa o freio de m\u00e3o e faz o <em>replay, <\/em>em <em>slow motion:<\/em><\/p>\n<p><em>Era de medo da seca,<\/em><br \/>\n<em>fugindo do Cear\u00e1;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(Pausa. Pra que se sinta a beleza, a for\u00e7a da imagem que vem a seguir:)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>troava o Poti, dentro dos abismos da serra,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que n\u00e3o estou a lhe dizer novidade. No Ap\u00eandice I do <em>Psi<\/em>, \u201cOs Poemas da Besta (ensaio)\u201d, seu tema \u00e9 justamente o tempo. Logo na ep\u00edgrafe, tirada do Apocalipse 10, 5-6, voc\u00ea se extasia com a frase terr\u00edvel do Anjo: a de que \u201cj\u00e1 n\u00e3o haver\u00e1 mais tempo!\u201d Desencantei-me com a redu\u00e7\u00e3o prosaica de outra vers\u00e3o, onde li: \u201cJ\u00e1 n\u00e3o haver\u00e1 mais demora!\u201d, e fui \u00e0 Vulgata:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tempus amplius non erit.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e0 fonte grega:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u03a7\u03c1\u03bf\u03bd\u03bf\u03c2. Cronos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Volto \u00e0s \u201cConfiss\u00f5es\u201d de Agostinho. Ele tenta responder, no cap\u00edtulo XIII, a pergunta O que fazia Deus antes da cria\u00e7\u00e3o. E conclui como Einstein, dezesseis s\u00e9culos depois:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Se antes do c\u00e9u e da terra, Senhor, n\u00e3o havia tempo algum, porque perguntam o que fazias ent\u00e3o? N\u00e3o poderia haver ent\u00e3o se n\u00e3o existia o tempo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Genial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tempo, mat\u00e9ria-prima do poeta, da\u00ed essa sua ep\u00edgrafe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curiosa \u2013 por causa disso \u2013 a quantidade de notas que seguem todos os seus poemas. Lembram-me o gloss\u00e1rio que acompanhava o romance tamb\u00e9m inaugural, \u201cA Bagaceira\u201d, de Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida, ao apresentar &#8211; em 1928 &#8211; a Para\u00edba ao pa\u00eds, como uma terra ainda t\u00e3o ignota quanto a civiliza\u00e7\u00e3o futura de a \u201cLaranja Mec\u00e2nica\u201d, de Anthony Burgess, romance tamb\u00e9m com seu gloss\u00e1rio de g\u00edrias ainda n\u00e3o criadas. Lembra-me \u201cCem Anos de Solid\u00e3o\u201d come\u00e7ando assim:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">El mundo era tan reciente, que muchas cosas carec\u00edan de nombre, y para mencionarlas hab\u00eda que se\u00f1alarlas con el dedo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim \u00e9 o Siarah que voc\u00ea nos traz como que de um tempo-espa\u00e7o que n\u00e3o nosso.<\/p>\n<p>Acudam-me os cantadores:<br \/>\nIgn\u00e1cio da Catingueira, negro e escravo;<br \/>\nRomano da M\u00e3e d\u00b4\u00c1gua;<br \/>\n<strong>voc\u00eas fundaram <\/strong><br \/>\n<strong>o galope, a cantoria<\/strong><br \/>\n(&#8230;)<br \/>\nTamb\u00e9m a dona Barr\u00f3sa, a senhora dona Barr\u00f3sa,<br \/>\nDe seu Neco das Martins, o desafio,<br \/>\nque tamb\u00e9m me acuda,<br \/>\neram poetas,<br \/>\nganhou, ganharam,<br \/>\n<strong>fundaram este pa\u00eds!<\/strong><br \/>\n(&#8230;)<br \/>\nAi do cantador que se atrever,<br \/>\nai daquele que n\u00e3o possa dizer:<br \/>\neu sou,<br \/>\neu venho,<br \/>\n<strong>eis a ess\u00eancia,<\/strong><br \/>\n<strong>a chave-mestra,<\/strong><br \/>\n<strong>a gota primeira:<\/strong><br \/>\n<strong>n\u00f3s!!! \u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_2837\" aria-describedby=\"caption-attachment-2837\" style=\"width: 380px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Soares-Feitosa-INTERNA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2837\" title=\"Soares Feitosa -INTERNA\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Soares-Feitosa-INTERNA.jpg\" alt=\"\" width=\"380\" height=\"378\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Soares-Feitosa-INTERNA.jpg 380w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Soares-Feitosa-INTERNA-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/Soares-Feitosa-INTERNA-300x298.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 380px) 100vw, 380px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2837\" class=\"wp-caption-text\">Soares Feitosa \/ Foto: David Feitosa<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed sua poesia frequentemente me lembrar a prosa de Guimar\u00e3es Rosa, que falou de homens e terras de Minas t\u00e3o de dentro deles, que apelou para os neologismos joyceanos, como Shakespeare fez ao praticamente inaugurar seu idioma, ainda sem sequer dicion\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea diz:<\/p>\n<p>Venho de um poeta, digamos Euclydes,<br \/>\nCapit\u00e3o Ocrides.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Falemos<br \/>\ndo fogar\u00e9u deste meu ch\u00e3o sem \u00e1guas,<br \/>\nSiarah de ch\u00e3os e terra!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Siarah! Temos, realmente, de puxar \u2013 de novo &#8211; o freio de m\u00e3o ante a beleza de seu desafio ao poeta Thiago de Mello:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o te pabules dos teus rios<br \/>\nque (&#8230;) escorra\u00e7o-te com os meus peixes,<br \/>\nn\u00e3o esses \u201cpeixes\u201d de lenda-de-beira-de-rio\u00a0 &#8211;<br \/>\ncom os peixes verdadeiros, por\u00e9m, peixes-de-mar,<br \/>\nde-mar-cheio, do-mar-oceano;<br \/>\ne os meus tubar\u00f5es <strong>de vinte metros<\/strong><br \/>\ne as baleias de <strong>duzentos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pabulagem? Fantasia! Como as de Chagall, judeu com seus milenares mandamentos. Por que n\u00e3o, ent\u00e3o, os do sert\u00e3o profundo de sua distant\u00edssima inf\u00e2ncia?<\/p>\n<p>N\u00e3o podia era tirar ninho,<br \/>\nnem judiar de inocente,<br \/>\nnem abrir-a-porteira-do-curral,<br \/>\nnem mangar do desvalido,<br \/>\nnem desrespeitar o mais velho,<br \/>\nnem deixar de socorrer, doente, o animal.<br \/>\nTocar fogo no capim?<br \/>\nNem pensar,<br \/>\n<strong>Pois o C\u00e3o \u201caparecia\u201d&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e0 toa voc\u00ea se refere tanto a Jeremias, Salmos, Apocalipse. A mem\u00f3ria de sua terra se enche da mesma linda magia, nos seus poemas, com que voc\u00ea a via:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois o vento dos c\u00e9us, elemento novo,<br \/>\nd\u00b4abastan\u00e7a,<br \/>\nexpulsava do ventre do tanque seco<br \/>\naquele outro vento,<br \/>\nvento velho,<br \/>\nencardido, das<strong> vacas<\/strong><br \/>\n<strong>magras!<\/strong><\/p>\n<p>O vento bom,<br \/>\nt\u00fargido,<br \/>\nque descia dos c\u00e9us,<br \/>\nentrava em luta com o vento do abismo,<br \/>\ntrevas;<br \/>\no morma\u00e7o era expulso<br \/>\nao ribombar dos c\u00e9us,<br \/>\nfarra dos ventos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso tudo \u00e9 de uma beleza t\u00e3o densa, intensa, que nos imp\u00f5e seu tempo, seu pr\u00f3prio espa\u00e7o-e-tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Detalhe deslumbrante:<\/p>\n<p>Era de noite que chovia:<br \/>\n<strong>gotas amarelavam<\/strong><br \/>\n<strong>\u00e0 luz frouxa da lamparina de querosene.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 todo um trecho igualmente cosmog\u00f4nico no poema \u201cPanos Passados\u201d, em que voc\u00ea nos leva a assistir a um fen\u00f4meno \u00fanico: o nascimento de um rio! Permita-me uns grifos:<\/p>\n<p>Chuva primeira:<br \/>\nfolhas,<br \/>\nfolhas secas, caducas, garranchos,<br \/>\np\u00f3,<br \/>\nfolhas formando levas<br \/>\n&#8211; retirantes \u2013<br \/>\ntangidas ao estrondar,<br \/>\nrel\u00e2mpagos e coriscos,<br \/>\n<strong>gentil\u00edssimas gotas primeiras,<\/strong><br \/>\num leve fio d\u00b4\u00e1gua,<br \/>\ne era ali, solene, <strong>m\u00edtico,<\/strong><br \/>\n<strong>que se fundava,<\/strong><br \/>\n<strong>refundavam-se os fundamentos<\/strong><br \/>\nrenascidos,<br \/>\nrefundados,<br \/>\npela en\u00e9sima vez,<br \/>\ndo velho rio,<br \/>\nrios,<br \/>\nrios secos,<br \/>\nmeus rios,<br \/>\ndo quintal da nossa aldeia:<br \/>\nrio do Governo,<br \/>\nJaguaribe,<br \/>\nMacacos,<br \/>\nCurtume,<br \/>\nAcara\u00fa.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>E o fant\u00e1stico cheiro da terra,<br \/>\nda terra f\u00eamea, terra molhada:<br \/>\nmais uma vez,<br \/>\n<strong>as primeiras estrofes do G\u00eanesis,<\/strong><br \/>\n<strong>como se fosse a vez primeira.<\/strong><\/p>\n<p>Assisti uma infinidade de vezes a este pequeno flagrante cinematogr\u00e1fico de \u201cConvite \u00e0 Saudade\u201d:<br \/>\nMestre Besouro Preto olhou e olhou,<br \/>\navoou de uma \u00e1rvore a outra,<br \/>\n<strong>fez um cocuruto de v\u00f4o, mais alto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo, no seu livro, vive muito pr\u00f3ximo da cria\u00e7\u00e3o b\u00edblica. Como em \u201cRio Macacos\u201d:<\/p>\n<p>Porque as vertentes disseram \u00e0s \u00e1guas:<br \/>\n&#8211; des\u00e7am!<br \/>\nE as \u00e1guas desceram!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No poema <em>Psi a pen\u00faltima, <\/em>dou com sua po\u00e9tica:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gritei:<\/p>\n<p>&#8211; \u1f00\u03bb\u03ce\u03c0\u03b7\u03be (alopex)?!<br \/>\nVulpes?!<br \/>\nRenard!?<br \/>\nRenaaard???<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Fale simples,<br \/>\nChame a \u201cComadre\u201d<br \/>\n(disse o Santo).<br \/>\n\u00c9 a senha,<br \/>\nbatei, abrir-se-vos-\u00e1!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pra encerrar: voc\u00ea diz, no ensaio j\u00e1 citado, que o baiano Lu\u00eds Antonio Cajazeira Ramos \u201cn\u00e3o sabe a for\u00e7a que tem (&#8230; ou sabe?)\u201d. Acho que sabe. Voc\u00ea talvez n\u00e3o soubesse da sua. Pois ele diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Que nos resta? Dessacralizar os sacros (ou sacralizar a Poesia?) Antes que blasfememos, leiamos Psi, a pen\u00faltima, caldeir\u00e3o febril sobre uma trempe cultural \u2013 grecirromana, judicrist\u00e3 e mundinordestina &#8211; , de onde sai cozida a palavra justa, e mais:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>o abismo.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<\/em><em><\/em><strong><em>W. J. Solha<\/em><\/strong><em>\u00a0lan\u00e7ou Relato de Pr\u00f3cula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Pr\u00eamio Graciliano Ramos por sua Hist\u00f3ria Universal da Ang\u00fastia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Pr\u00eamio Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Ark\u00e1ditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lan\u00e7ou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo<\/em>)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor W. J. 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