{"id":2957,"date":"2012-11-13T15:48:07","date_gmt":"2012-11-13T18:48:07","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=2957"},"modified":"2012-12-15T13:08:13","modified_gmt":"2012-12-15T16:08:13","slug":"dedos-de-prosa-i-8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-8\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><strong>SUMINHA<\/strong><\/p>\n<p><em>Tere Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_2959\" aria-describedby=\"caption-attachment-2959\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2959\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA3.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"398\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA3.jpg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA3-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA3-300x298.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2959\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Fao Carreira<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dos degraus junto \u00e0 cal\u00e7ada prorrompiam pap\u00e9is e folhas varridos pelas lufadas de ar, prenunciado a torrente que se aproximava. Sob a leveza das malhas de algod\u00e3o aguardava os pingos da chuva que lentamente lhe umedeciam a pele, o f\u00f4lego palpitante, apoiado por uma hachura decidida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminhou ondulando as pernas, apreciando o tremular das gotas como um afago de nanquim que lhe retirava as ard\u00eancias do dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Largou os sapatos encharcados junto ao ch\u00e3o luzidio da casa \u2013 a janela debatendo-se contra o vento numa cantoria estridente. As paredes lhe ampararam o cansa\u00e7o. Via-se no debrum da \u00e1gua que a banhara como se s\u00f3 naquele instante realmente valesse a pena desvelar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os livros que carregava no colo amaciaram a mesa e as transpar\u00eancias da sala. Largou-os como quem liberta retratos de outrora, recolocando-os novamente no olhar. Quase perscrutava com exatid\u00e3o pueril o chilreio das folhas semi-abertas, devorando as capas, os desenhos das capas, tateando: at\u00e9 onde tudo era somente o mosto de hist\u00f3rias, sons desertos, cores aninhadas em outras cores, \u00e1guas dentro de outras \u00e1guas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Buscava rapidamente o ar mais puro e perfeito, como quem se disp\u00f5e a arrefecer o frio, a alma disposta sem repress\u00f5es nos v\u00e3os da natureza. O barulho da enxurrada preenchia as fendas rudes da casa, o telhado ensurdecia-se dos pingos desfeitos na cer\u00e2mica. Viu-se no desassossego das a\u00e7\u00f5es mais simpl\u00f3rias. A lou\u00e7a do dia anterior ainda rescendia \u00e0 canela e erva-doce. Quantas vezes tomara o ch\u00e1 desanuviada de afazeres para melhor prender-lhe o sabor? N\u00e3o tinha d\u00favidas de que se filiaria algum dia, com tempo, ao movimento slow. Pensava enquanto o vapor do ch\u00e1 se misturava \u00e0 poeira da chuva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 fora para onde resolvera retornar, as flores permaneciam no seu crescimento inevit\u00e1vel. A legitimidade de estar conspirando para al\u00e9m da linguagem lhe parecia a incompreens\u00e3o de assumir detalhes, a desist\u00eancia decidindo por uma oposta intimidade apaixonando-se por silhuetas abstratas como se soubesse que, ao flanar sobre as coisas importantes, passassem, essas mesmas coisas a n\u00e3o ter mais lugar algum no mesmo e luminoso mundo que as pensara.\u00a0 No incomum, talvez mais oportuno e inc\u00f4modo, longe de superlativos ou relativismos, a lucidez de arguir sobre o que \u00e9 grandioso ou necess\u00e1rio nasceria invariavelmente da suspeita de n\u00e3o chegar a nada sem a via crucial dos sentimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As p\u00e9talas palmilhavam-se de um amarelo descrente, olhava-as, em tintas musicais \u2013 colheu v\u00e1rias, sentiu-lhes a seda, como se pedisse desculpas por n\u00e3o considerar-se uma delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pin\u00e7as de brisa se estendiam na claridade morna, retorcendo-lhe a curiosidade.\u00a0 Com al\u00edvio, retornou para dentro da casa. Amaciando-se na umidade da aragem, desfazendo-se sobre len\u00e7\u00f3is e travesseiros rebordados de um cetim confuso porque de letras<em> <\/em>brancas que sobre o negro cansava-lhe o fundo mar dos olhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensava como se sonhasse&#8230; e escolhia retornar \u00e0 beira do areal, ao menos at\u00e9 o ver\u00e3o retornar, a pele sugada por um farfalhar de asas, em movimento de abra\u00e7os&#8230;bastava-se num colar de ametista, afoita, sulcada pelo que se fora,\u00a0 qui\u00e7\u00e1 em ramas de mangues, de uma gar\u00e7a que vigiava \u2013\u00a0 o vento ruminante torcia as gaivotas, tomava notas ao secar-lhe os olhos suspeitando que a sensibilidade das retinas desse em algo poss\u00edvel de prodigalizar.\u00a0 Adiava as ondas enquanto ganhava novos \u00f3culos escuros, as t\u00eamporas renovadas pelos filtros duros de lume, da brandura \u00e1rida que n\u00e3o mais lhe provocava l\u00e1grimas. Como se assim pudesse evit\u00e1-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No lado mais despido da praia o bailado das dunas era um dueto a agigantar-lhe os c\u00edlios no rumor sonoro e mi\u00fado do alga\u00e7o. A vida era real como o vento que soprava a mem\u00f3ria dos sais retidos de Suminha. De outro ponto os cardumes contrariavam a correnteza e as redes como se fossem seus olhos multiplicados em cepas e borbulhas, em busca de fertiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As m\u00e3os restavam finas produzindo fogueiras sobre o mar \u2013 repletas de matizes azuis e verdes, a rebuscar a serenidade l\u00edquida transportando-a, imensur\u00e1vel, para uma tela qualquer, sem importar-se se algu\u00e9m diria que era um auto-retrato, um resto obscuro retirado da colora\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel dos corais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dedos \u00e1geis como o choro contido nas achas por arder, perfuravam o sil\u00eancio, prosseguiam nos mimos hirtos do horizonte, bebia do sarga\u00e7o, do sumo esgar\u00e7ado nas bordas dos barcos que mascavam a madeira carcomida pelas cordas da \u00e2ncora. \u201cSobe um pouco mais, Suminha, preenche o ato duplo dos gestos com o teu verde pueril \u2013 h\u00e1 ornamentos suficientes para estilha\u00e7ares condi\u00e7\u00f5es que por um descuido f\u00fatil do destino n\u00e3o mais te pertencem. O tato, Suminha\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomou os despojos. Alguma coisa sobrara dos rabiscos que ousaram ferir a brancura daquele dia, das polifonias daquele vento, daquele sal, se a preenchessem de mais cor, de mais for\u00e7a \u2013 o que havia perdido permanecia em origamis devorados por fungos de esperan\u00e7a \u2013 quantos pronunciavam que a experi\u00eancia n\u00e3o se media entre os dedos, entre o passado e o futuro, tampouco em entretantos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suminha do desacato chamuscava os feiti\u00e7os luminosos, n\u00e3o suportava a ideia de submeter-se por mais tempo ao torpor. \u201cQue cores acordam-te mais a m\u00fasica por dentro, Suminha? Assim, na umidade? Que rio te quer decantar esse azul-vermelho-d\u00e9bil-verde?\u201d. D\u00e1 voos aos beijos azuis, lava a lama das asas, o corpo fenece, l\u00fabrico, como se moldado pelas \u00e1guas que lhe ca\u00edram do c\u00e9u, na face, na secura febril dos olhos, o azul fiel lhe d\u00e1 guarida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A x\u00edcara de ch\u00e1 \u00e9 \u00f3leo, medium, piano, tecido. Agora sentia o sabor, controlava as gotas, recriando-se, dilu\u00edda do sil\u00eancio, na leveza de esvaziar-se no que lhe agradava. O peso leve da lou\u00e7a era igual ao da vida, da sua vontade que enfeitara feito Pen\u00e9lope cega, partituras dispostas num circuito infal\u00edvel&#8230; a limpidez dos nadas que carregava como adornos. Dos engenhos orquestrados, das teclas, das paletas. Demais o que desconhecia, era desnecess\u00e1rio dispor&#8230; os azuis salpicavam-lhe os cabelos, como pinc\u00e9is de outono musicando-lhe o que, independente de solicita\u00e7\u00f5es, concebera para o mundo \u2013 Suminha \u00e9 a multiplica\u00e7\u00e3o ass\u00eddua dos sons suspensos na mem\u00f3ria, na umidade l\u00eddima de cada segundo que ensaia abrir-se no horizonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<\/em><em><\/em><a href=\" http:\/\/m-eusoutros.blogspot.com\/\"><strong><em>Tere Tavares<\/em><\/strong><\/a><em>\u00a0\u00e9 escritora e artista pl\u00e1stica. Autora de tr\u00eas livros publicados: &#8220;Flor Ess\u00eancia&#8221; (2004), &#8220;Meus Outros&#8221; (2007) e &#8220;Entre as \u00c1guas&#8221; (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras. E-mail: <a href=\"mailto:t.teretavares@gmail.com\" target=\"_blank\">t.teretavares@gmail.com<\/a>)<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um universo sensorial varre a alma no conto de Tere Tavares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2958,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[679,2534,16],"tags":[437,81,41,149,694,693,695],"class_list":["post-2957","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-73a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-alma","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-prosa","tag-suminha","tag-tere-tavares","tag-universo-sensorial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2957","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2957"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2957\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3348,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2957\/revisions\/3348"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2958"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2957"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2957"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2957"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}