{"id":3001,"date":"2012-11-13T16:49:43","date_gmt":"2012-11-13T19:49:43","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=3001"},"modified":"2012-11-13T23:24:46","modified_gmt":"2012-11-14T02:24:46","slug":"dedos-de-prosa-iii-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-5\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OS OUTROS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Nilto Maciel<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_3003\" aria-describedby=\"caption-attachment-3003\" style=\"width: 459px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3003\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA5.jpg\" alt=\"\" width=\"459\" height=\"470\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA5.jpg 459w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA5-292x300.jpg 292w\" sizes=\"auto, (max-width: 459px) 100vw, 459px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3003\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Fao Carreira<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Severino me apareceu pela primeira vez, nem me assustei, porque o vi de relance e queria voltar logo \u00e0 sala, cioso de rever a chegada do primeiro homem \u00e0 Lua. H\u00e1 tempos me imagino astronauta, a saltitar no solo seco do sat\u00e9lite. Chovia muito, a luz dos postes bruxuleava na rua, os pneus dos carros jogavam \u00e1gua nas cal\u00e7adas. Fui ao banheiro correndo, apenas para cuspir na pia e bochechar. Assim, nem acendi a luz. Al\u00e9m disso, a claridade da sala me permitia ver bem a pia e o espelho. Enquanto esfregava as m\u00e3os e cuspia, olhei para o ret\u00e2ngulo de vidro e vi o bigode em branco e preto, leve tra\u00e7o de preocupa\u00e7\u00e3o ao redor da boca e nos olhos. Muito parecido comigo, \u00e9 verdade. Por\u00e9m, apresentava uns tra\u00e7os de outro. Voltei \u00e0 sala e n\u00e3o mais pensei nele, pelo menos durante uma hora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela noite e nos dias seguintes n\u00e3o falei nada disso a ningu\u00e9m, muito menos a Sibila. O nome do desconhecido surgiu por acaso. Precisava de um nome. Qualquer um. E o primeiro (ou talvez o mais apropriado \u00e0quele rosto) a ancorar em meu porto \u2013 como barco perdido \u2013 se anunciou com letras redondas: Severino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para evitar discuss\u00f5es dom\u00e9sticas, passei a trancar a porta do banheiro, quando ia me ver. Sibila me vigiava e fazia perguntas: Por que tanto voc\u00ea se olha, Rafael? Est\u00e1 ficando vaidoso, depois de velho? Com a porta fechada, poderia passar alguns minutos a observar Severino, analis\u00e1-lo e at\u00e9 conversar, sem ser interrompido por Sibila. Mas n\u00e3o adiantou nada a minha precau\u00e7\u00e3o: ela continuou a me importunar. Est\u00e1 virando Narciso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo a aparecer se chama Mariano. Tamb\u00e9m usa bigode, como eu, mas em seu olhar h\u00e1 uma profundidade abissal. N\u00e3o podia mais esconder de Sibila a novidade. Ela me chamou de doido. Parasse de beber. Aquilo era alucina\u00e7\u00e3o. Arrependi-me de lhe ter contado tudo. Ela n\u00e3o acreditou em mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Severino se mostrou mais algumas vezes, mesmo depois de Mariano e outros. Depois sumiu para sempre, ou at\u00e9 agora. Da segunda vez, tamb\u00e9m na moldura do espelho do banheiro, demonstrou vontade de me revelar um segredo. N\u00e3o posso assegurar ter ouvido sua voz. Seria mentira. O bigode parecia mais branco do que preto, por\u00e9m as rugas mais se acentuavam. Figurou-se um homem sofrido, desiludido. Falei-lhe (juro ter falado, e isso mais irritou Sibila, que riu, gargalhou e prometeu me levar \u00e0 for\u00e7a a um hospital para doentes mentais) de meus problemas pessoais, dom\u00e9sticos e de relacionamento com Sibila.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bernardo surgiu numa noite de muito calor. Passei alguns minutos a conversar com ele. Ainda n\u00e3o realizara a maioria dos sonhos, por\u00e9m n\u00e3o desistia deles. Pensava em viajar \u00e0 Europa, passar uns tempos longe daqui. Plano para um futuro pr\u00f3ximo, coisa de um a dois anos. Precisava juntar mais dinheiro, parar de gastar com futilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito me estranha em tudo isso \u00e9 as pessoas s\u00f3 me aparecerem no espelho do banheiro. No do quarto n\u00e3o se apresentou ningu\u00e9m. Para tirar d\u00favidas, comprei um espelhinho de bolso. Talvez eles quisessem se expor a qualquer momento, em qualquer lugar. Vez por outra, eu metia a m\u00e3o no bolso, procurava saber se n\u00e3o estavam a me espionar os curiosos, fazia careta, mostrava os dentes, a querer engan\u00e1-los. Como se estivesse preocupado com limpeza. Certa feita, uma colega de trabalho cochichava aos ouvidos de outra. Riam. Tive \u00edmpetos de lan\u00e7ar sobre elas o espelho ou o grampeador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos tempos, minha vida tem sido um mart\u00edrio. Os antigos amigos se afastaram. As mulheres se aproximam, v\u00e3o ao meu apartamento, dormem comigo (Sibila desistiu de mim), mas logo se afastam, ao me virem diante do espelho do banheiro, em conversas prolongadas comigo mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ontem tudo piorou de vez: antes de me deitar, quebrei o espelho, espatifei-o todo. Fui dormir. Os cacos ainda est\u00e3o no ch\u00e3o. S\u00f3 assim poderei me livrar desses desconhecidos que me atormentam dia e noite. Mas uma for\u00e7a estranha me puxa para o ch\u00e3o, me for\u00e7a a juntar os fragmentos do espelho. Eles, Severino, Mariano, Bernardo e outros, parecem pedir socorro, como se quisessem voltar \u00e0 vida, ao conv\u00edvio comigo. Por\u00e9m, n\u00e3o tenho for\u00e7a para remover do piso do banheiro os restos deles. Talvez me falte vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<\/em><a href=\" http:\/\/literaturasemfronteiras.blogspot.com\/ \"><strong><em>Nilto Maciel<\/em><\/strong><\/a><em>: Venho da serra, do verde do Cear\u00e1, mas meus pais e av\u00f3s vieram do sert\u00e3o seco. Do tempo do trabuco, da injusti\u00e7a, da persegui\u00e7\u00e3o, de Antonio Conselheiro (Antonio Vicente Mendes Maciel), aquele de Canudos, que as tropas militares massacraram. N\u00e3o esqueci isso. Li a Hist\u00f3ria desses povos, dessas gentes. Mas li tamb\u00e9m Cam\u00f5es, a B\u00edblia, Alencar, Machado, cordel, Moreira Campos. E me pus a escrever tamb\u00e9m. Mais para relembrar aquele povo e seus descendentes. Para recri\u00e1-los. Ou mesmo cri\u00e1-los, porque talvez nada exista. O que existe \u00e9 a obra de arte, que \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. Nada \u00e9 real. Quanto mais antigo mais irreal. Ningu\u00e9m me conhece, ningu\u00e9m me l\u00ea. Sou marginal da literatura. H\u00e1 muito deixei de sonhar com gl\u00f3rias e famas. Tudo isso \u00e9 passageiro. O que \u00e9 bom fica, permanece. Sem precisar de muletas, fanfarras, galard\u00f5es, medalhas. Sou apenas um escritor de poemas, contos e romances) <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conto de Nilto Maciel exp\u00f5e as m\u00faltiplas artimanhas do ser<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3002,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[679,2534],"tags":[81,41,714,712,713,149],"class_list":["post-3001","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-73a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-literatura-sem-fronteiras","tag-nilto-maciel","tag-os-outros","tag-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3001","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3001"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3001\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3113,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3001\/revisions\/3113"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3002"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3001"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3001"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3001"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}