{"id":3049,"date":"2012-11-13T18:35:26","date_gmt":"2012-11-13T21:35:26","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=3049"},"modified":"2012-11-14T00:07:29","modified_gmt":"2012-11-14T03:07:29","slug":"ciceroneando-8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/ciceroneando-8\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>UMA BUSCA PELO SENTIDO DO SER: A POESIA DE JORGE ELIAS NETO<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Gustavo Felic\u00edssimo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/CAPAINTERNA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3037\" title=\"CAPAINTERNA\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/CAPAINTERNA.jpg\" alt=\"\" width=\"346\" height=\"525\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/CAPAINTERNA.jpg 346w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/CAPAINTERNA-197x300.jpg 197w\" sizes=\"auto, (max-width: 346px) 100vw, 346px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Rascunhos do Absurdo, obra de Jorge Elias Neto, se inicia com uma quest\u00e3o ontol\u00f3gica basilar: o sentido do Ser. Sua l\u00edrica insiste em um discurso de cariz filos\u00f3fico, marcadamente existencialista, e reflete o esvaziamento de valores do homem moderno, abandonado em si mesmo e desnorteado ante a desestabiliza\u00e7\u00e3o de verdades universais, frente \u00e0s quais est\u00e1 solit\u00e1rio, pois imerso em um processo de massifica\u00e7\u00e3o, reifica\u00e7\u00e3o e desumaniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es. Trata-se de uma poesia contempor\u00e2nea, poesia do desconexo, do descont\u00ednuo, fragmentada, cujo discurso denuncia um mundo que se desestruturou, ao mesmo tempo \u00e9 a poesia que busca, nesse mesmo mundo, uma nova constru\u00e7\u00e3o de sentido para o homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Criador de imagens cortantes, observador e cr\u00edtico da condi\u00e7\u00e3o humana, Jorge Elias Neto, desde Verdes Versos, seguindo <em>dictum <\/em>pr\u00f3prio, chega ao seu segundo livro propondo uma poesia que, carregada de um arsenal reflexivo, sabe que o poema n\u00e3o \u00e9 apenas um fen\u00f4meno de linguagem, mas tamb\u00e9m de id\u00e9ias, devendo partir da realidade v\u00edvida e vivida para a apreens\u00e3o de um sentido maior. Desse modo, o poeta constr\u00f3i seus poemas tateando o indiz\u00edvel, em sua <em>busca da ci\u00eancia de desinventar <\/em>(1\u00ba de janeiro de 2008, p. 74), sem nunca perder de vista aqueles <em>que nada entendem da solid\u00e3o<\/em> (idem).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como m\u00e9dico cardiologista, Jorge enfrenta no seu cotidiano in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es limites entre vida e morte que ajudam a acentuar o car\u00e1ter metaf\u00edsico da sua poesia, e isso, para o autor, conforme confidenciou-nos em uma entrevista, tornou-se uma quest\u00e3o de vida: <em>trabalhar a id\u00e9ia de morte e entender a multiplicidade de atitudes do homem frente a essa locomotiva&#8230;<\/em> Por isso a sua naturalidade po\u00e9tica n\u00e3o poderia ser outra: o Expressionismo Existencialista, no que este tem de mais visceral, legitimamente \u00edntimo e n\u00e3o desdobr\u00e1vel ou amold\u00e1vel a circunst\u00e2ncias outras que n\u00e3o seja a consci\u00eancia de mundo, na qual predomina a vis\u00e3o pessoal do artista e n\u00e3o uma poesia que aspire capturar a realidade, mas que seja um reflexo da reflex\u00e3o do poeta frente ao seu tempo. O poeta transmite sua ang\u00fastia criticando a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem, toda sorte de estupidez e mis\u00e9rias. Por isso,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Disseste que a corda<br \/>\napazigua os desencantados.<\/p>\n<p>Disseste que a terra treme<br \/>\nnas bordas do despenhadeiro.<\/p>\n<p>A terra n\u00e3o tem nada a ver<br \/>\ncom teu descontentamento.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 acima de qualquer suspeita.<br \/>\n\u00c9 que a luz s\u00f3 atinge tuas costas.<\/p>\n<p>Hoje, a estupidez n\u00e3o \u00e9 mais um tra\u00e7o:<br \/>\n\u00e9 um dem\u00f4nio que se agiganta.<br \/>\n(Noir, p. 58)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Ser e Tempo, Heidegger prop\u00f5e a pergunta acerca do sentido do ser. Pode-se dizer que tal pergunta apresenta o prop\u00f3sito de retomar o antigo questionamento ontol\u00f3gico sobre o ser dos homens, visando ao mesmo tempo uma explicita\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria compreens\u00e3o de ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jorge Elias Neto encontrou na linguagem po\u00e9tica a sua maneira de investigar o ser humano, seus desejos, seus medos e frustra\u00e7\u00f5es, ou seja, o que est\u00e1 interno em n\u00f3s e n\u00e3o a exterioriza\u00e7\u00e3o, a superficialidade. \u00c9 com a poesia, neste caso com Rascunhos do Absurdo, que ele empreende a sua busca pelo sentido do Ser, pois este n\u00e3o \u00e9 o resultado de algo posti\u00e7o ou acrescentado, mas um constituinte do poeta enquanto indiv\u00edduo. E desse livro o leitor n\u00e3o sai inc\u00f3lume, pois os melhores poemas nele inseridos s\u00e3o justamente aqueles que refletem o sentido tr\u00e1gico da vida, justamente aqueles que ganham dimens\u00e3o cada vez maior toda vez que relido e repassado, como acontece aos poemas g\u00eameos, Corpo tombado (p. 64) e Poema ao morto (p. 65), tamb\u00e9m a Circo (p. 71) e Poema para o homem contempor\u00e2neo (p. 77), assim como a outro belo esp\u00e9cime da fauna versificat\u00f3ria brasileira, capaz de arrebentar a cabe\u00e7a do leitor incauto, que \u00e9 Cristo de p\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Herdei de meu pai<br \/>\nesse Cristo forjado em miolo de p\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse crucifixo que, pacientemente,<br \/>\nfoi moldado no almo\u00e7o de domingo;<br \/>\nem seus dedos, amassado,<br \/>\nem seus l\u00e1bios umedecido.<\/p>\n<p>Um Deus criado<br \/>\npelo provedor de minha casa<br \/>\ndurante o eterno sil\u00eancio<br \/>\ncomigo repartido.<\/p>\n<p>E eu aprendi que da bolinha de massa<br \/>\nse forja um \u00eddolo.<\/p>\n<p>Ao final da refei\u00e7\u00e3o, meu pai me estendeu<br \/>\no Cristo na cruz.<\/p>\n<p>Eu o peguei<br \/>\ne ele se partiu.<\/p>\n<p>Foi duro para mim<br \/>\nver Deus quebrar-se em minhas m\u00e3os.<br \/>\n(p. 79)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de um poema dessacralizador, desorientador. Logo no primeiro d\u00edstico o poeta nos apresenta um \u201cCristo forjado em miolo de p\u00e3o\u201d para no final admitir que lhe fora duro \u201cver Deus quebrar-se em minhas m\u00e3os\u201d. N\u00e3o se trata apenas, possivelmente, da revela\u00e7\u00e3o de um \u201ceu\u201d profundo, descrente frente \u00e0s \u201cverdades\u201d seculares, mas de uma <em>experi\u00eancia reputada indiz\u00edvel que expressa-se e comunica-se pela imagem <\/em>(PAZ, 1972, p. 50). Imagem que n\u00e3o explica, antes <em>convida-nos a recri\u00e1-la e, literalmente, a rev\u00ea-la<\/em> (Idem). Nesse sentido, o poema \u00e9 um interm\u00e9dio entre uma experi\u00eancia original, avassaladora, e um conjunto de a\u00e7\u00f5es e viv\u00eancias posteriores, que apenas adquirem consist\u00eancia e sentido com refer\u00eancia \u00e0 experi\u00eancia primeva, fundadora, que o poema consagra no presente. E se \u00e9 presente <em>s\u00f3 existe neste agora e aqui de sua presen\u00e7a entre os homens. Para ser presente o poema necessita fazer-se presente entre os homens, encarnar na hist\u00f3ria <\/em>(Idem, p. 53). Afinal, o homem \u00e9 um ser hist\u00f3rico e fala das coisas que s\u00e3o suas e de seu tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo em Rascunhos do Absurdo, apenas para lembrarmos Vin\u00edcius de Morais, n\u00e3o \u00e9 \u201cquando\u201d, mas o presente. Essa constata\u00e7\u00e3o reflete no significado \u00faltimo do poema que n\u00e3o \u00e9 dito de maneira expl\u00edcita, mas \u00e9 o fundamento da po\u00e9tica de Jorge Elias Neto at\u00e9 aqui. Poesia feita no presente, para o tempo presente e para o advir, pelo menos enquanto o homem \u2013 ser temporal e relativo \u2013 for este que vemos a\u00ed, no mundo, conquistador de espa\u00e7os que mal s\u00e3o\u00a0 desbravados se transformam em cinzas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rascunhos do Absurdo \u00e9 composto por quatro cap\u00edtulos: \u201cLivro de Notas\u201d, \u201cO Estalo da Palavra\u201d, \u201cGaza\u201d e \u201cO encantamento do poeta Maratiba\u201d, este \u00faltimo dedicado a Miguel Marvilla, tamb\u00e9m poeta, amigo e incentivador de Jorge, falecido em seus bra\u00e7os, na emerg\u00eancia de um hospital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro cap\u00edtulo se configura por apresentar poemas extremamente l\u00edricos, muitos deles nos remetem \u00e0 pr\u00f3pria poesia ou \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do <em>poeta \u2013 \/ barriga de aluguel<\/em> (Ventre Vazio, p. 29), ao conv\u00edvio familiar, como em Dever de Casa, um poema imag\u00e9tico e sensorial, quase palp\u00e1vel, onde o poeta assegura \u00e0 amada<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fazer por onde<br \/>\nsempre t\u00ea-la ao meu lado<br \/>\npara dizer-te, sempre:<br \/>\nEu Te Amo.<br \/>\n(p. 39)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Suas palavras, sem qualquer prolixidade, tornam seus pensamentos consecutivamente compreens\u00edveis, levando o poeta \u00e0 busca de apurar seu discurso no sentido de transmitir o mais claramente poss\u00edvel seu enunciado, pois s\u00e3o plasmadas com coloquialidade, sem perder a eleg\u00e2ncia. \u00c9 a necessidade de ser entendido e sua mensagem apreendida que servem de alimento necess\u00e1rio \u00e0 sede do poeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo cap\u00edtulo \u00e9 marcado por aquela tem\u00e1tica que reflete o estranhamento do homem no mundo, impregnado por um sentido de deslocamento frente \u00e0 ruptura de valores da modernidade e \u00e0 queda de paradigmas, antes institucionalizados e agora questionados ou at\u00e9 mesmo negados. \u00c9 nessa atmosfera movedi\u00e7a da contemporaneidade que sobrevive o poeta. Sua l\u00edrica reflete o esvaziamento de valores do homem moderno, abandonado em si mesmo e desnorteado ante a desestabiliza\u00e7\u00e3o de verdades universais, como atesta o exemplar poema A Prazo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Levem-me as horas<br \/>\npara os caprichos mundanos!<\/p>\n<p>J\u00e1 destaquei a etiqueta.<\/p>\n<p>Tomei posse do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que n\u00e3o v\u00eaem<br \/>\nno meu ante-bra\u00e7o<br \/>\no carimbo de \u201cpago\u201d?<br \/>\n(p. 63)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse poema capta e revela o momento hist\u00f3rico da humanidade, em que o poeta tornou-se um alijado no seu tempo. Ent\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0J\u00e1 que a palavra \u00e9 uma puta:<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;<\/span>rasguem o poema.<\/p>\n<p>J\u00e1 que a rima \u00e9 farta; e o poeta<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;<\/span>um estorvo,<br \/>\nque se recompense o primeiro idiota<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;..<\/span>a me cortar a carne.<br \/>\n(Balada da Carne, p. 69)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_3038\" aria-describedby=\"caption-attachment-3038\" style=\"width: 357px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA10.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3038\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA10.jpg\" alt=\"\" width=\"357\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA10.jpg 357w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/INTERNA10-238x300.jpg 238w\" sizes=\"auto, (max-width: 357px) 100vw, 357px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3038\" class=\"wp-caption-text\">Jorge Elias Neto - Foto: Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Gaza, terceiro cap\u00edtulo, Jorge Elias Neto apresenta-nos uma poesia de forte apelo social e grande senso humano, preocupada \u2013 naquele momento de sua escrita \u2013 com os \u00faltimos desdobramentos do confronto entre palestinos e judeus, fazendo coro \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o que toma conta dos povos desde os tempos da cria\u00e7\u00e3o do estado de Israel, em 1948, quando Gandhi se manifestou dizendo que<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>O que est\u00e1 acontecendo na Palestina n\u00e3o \u00e9 justific\u00e1vel por nenhuma moralidade ou c\u00f3digo de \u00e9tica. Certamente, seria um crime contra a humanidade reduzir o orgulho \u00e1rabe para que a Palestina fosse entregue aos judeus parcialmente ou totalmente como o lar nacional judaico. <\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quase seis d\u00e9cadas ap\u00f3s, Jos\u00e9 Saramago se manifesta sobre o mesmo conflito, utilizando a imagem do franzino Davi que mata em combate o gigante filisteu, Golias, dizendo que<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Aquele louro David de antanho sobrevoa de helic\u00f3ptero as terras palestinas ocupadas e dispara m\u00edsseis contra alvos inermes, aquele delicado David de outrora tripula os mais poderosos tanques do mundo e esmaga e rebenta tudo o que encontra na sua frente, aquele l\u00edrico David que cantava loas a Betsab\u00e9, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lan\u00e7a a &#8220;po\u00e9tica&#8221; mensagem de que primeiro \u00e9 necess\u00e1rio esmagar os palestinos para depois negociar com o que deles restar.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que Israel suscitou uma sensibiliza\u00e7\u00e3o mundial em favor da causa palestina, inclusive por parte dos poetas. Notoriamente, o poeta mais importante nesse contexto \u00e9 o palestino Mahmud Darwish (a quem essa parte do livro \u00e9 dedicada), o precursor de uma gera\u00e7\u00e3o de autores da vertente denominada Poesia Palestina de Combate, surgida ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o de 1967, que inclui os palestinos Samikh Al Qassem, Fadwa Tukan e Tawfiq Al Zayad. Em Gaza a poesia de Jorge Elias Neto comunga e se amalgama ao canto desses tantos outros poetas em um grito un\u00edssono, fazendo-se ouvir em todos os cantos do planeta, pois retratam os absurdos e os horrores desse conflito desigual e desumano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por detr\u00e1s de todas as guerras percebe-se a inteira aus\u00eancia de amor ao pr\u00f3ximo, que, na verdade, refor\u00e7a no poeta (Jorge Elias Neto) a incerteza quanto \u00e0s verdades seculares, como a cren\u00e7a em um Deus que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ref\u00fagio para suas ang\u00fastias. O homem passa a ser o criador de suas verdades e realidades, por\u00e9m completamente aturdido pelo sentimento de abandono, por isso diz-nos que <em>Ao poema, cabe \/ despejar sobre o ch\u00e3o, \/ e na cara dos fac\u00ednoras, \/ uma resma de d\u00favidas<\/em> (A Pra\u00e7a, p.94), ao inv\u00e9s de bombas, deflagrando o absurdo do existir frente ao mist\u00e9rio. E refletindo sobre o engajamento de Darwish (que fora expulso de sua casa, com a fam\u00edlia, pelo ex\u00e9rcito de Israel), Jorge refaz seu caminho, e na celebra\u00e7\u00e3o do viver encontra sentido na atitude exemplar do poeta palestino que <em>N\u00e3o azulava as d\u00favidas com preces \/ e entendia a sujeira como um v\u00edcio da realidade. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, pensar e sentir est\u00e3o imbricados num prop\u00f3sito de induzir o homem \u00e0 revela\u00e7\u00e3o da verdade do ser e ao conhecimento de si. A poesia, nesse \u00ednterim, torna-se a express\u00e3o maior de significados do homem, transcendendo a superficialidade da express\u00e3o na busca de se exprimir o inef\u00e1vel. Nesse contexto, pautado nas quest\u00f5es essenciais que afligem o homem moderno, em que o ser se lan\u00e7a na investiga\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria de si mesmo e no descortinar do sentido da vida, pulsante na concretude do mundo, \u00e9 que se enquadra Rascunhos do Absurdo, uma obra comprometida com o homem e com a vida, em que o autor tece suas cr\u00edticas ao mundo moderno, pragm\u00e1tico e utilitarista, refletindo o espasmo do homem frente ao mundo por ele criado e sua busca na ressignifica\u00e7\u00e3o da vida.<strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6>Neto, Jorge Elias. <strong>Rascunhos do Absurdo<\/strong>, Vit\u00f3ria: Flor&amp;Cultura, 2010.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Paz, Octavio. <strong>Signos em rota\u00e7\u00e3o<\/strong>, Trad. Sebasti\u00e3o Uchoa Leite. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1972.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Dispon\u00edvel na internet, no<a href=\"http:\/\/somostodospalestinos.blogspot.com.br\/2011\/04\/terceira-intifada-palestina.html\"> <strong>site<\/strong><\/a> do Comit\u00ea Democr\u00e1tico Palestino \u2013 CDP \u2013 Brasil. Visitado em 15\/04\/2011.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Dispon\u00edvel na internet, no <a href=\"http:\/\/caderno.josesaramago.org\/20584.html\"><strong>site<\/strong><\/a> da Funda\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Saramago. Visitado em 10\/01\/2009.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><em>(<strong>Gustavo Felic\u00edssimo<\/strong> \u00e9 poeta, ficcionista e ensa\u00edsta paulista radicado no sul da Bahia)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gustavo Felic\u00edssimo percorre as vias po\u00e9ticas de Jorge Elias Neto<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3036,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[679,2533],"tags":[11,752,254,754,750,753,154,751,756,757,755,758,127,536],"class_list":["post-3049","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-73a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-artigo","tag-escritor","tag-gaza","tag-gustavo-felicissimo","tag-israel","tag-jorge-elias-neto","tag-jose-saramago","tag-judeus","tag-mahmud-darwish","tag-miguel-marvilla","tag-palestina","tag-poeta","tag-rascunhos-do-absurdo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3049","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3049"}],"version-history":[{"count":20,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3049\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3135,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3049\/revisions\/3135"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3036"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3049"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3049"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3049"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}