{"id":3230,"date":"2012-12-15T09:44:25","date_gmt":"2012-12-15T12:44:25","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=3230"},"modified":"2019-03-28T16:59:19","modified_gmt":"2019-03-28T19:59:19","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-9\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inquietude talvez seja uma das ferramentas mais indispens\u00e1veis a um criador. Seja por um eixo filos\u00f3fico ou meramente org\u00e2nico, estar vivo j\u00e1 pode ser entendido como uma experi\u00eancia densamente inquiridora. Esse tipo de reflex\u00e3o pode conduzir-nos tamb\u00e9m \u00e0 instigante ideia de que o produto da arte n\u00e3o \u00e9 um objeto de um mero e reduzido estado de contempla\u00e7\u00e3o das coisas. Achar-se aqui, no meio da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d que constru\u00edmos at\u00e9 hoje, representa muito mais do que um exerc\u00edcio est\u00e9tico de observa\u00e7\u00e3o. Por mais acomodados que sejamos, acondicionados em bolhas de isolamento pessoal, o fato \u00e9 que n\u00e3o passamos impunes pelas urg\u00eancias do tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No campo da literatura, qual seria, ent\u00e3o, a melhor forma de representar a avalanche de sensa\u00e7\u00f5es que presenciamos atrav\u00e9s dos dias? Buscar respostas n\u00e3o parece algo razo\u00e1vel. Tudo isso tamb\u00e9m porque escrever implica penetrar nas camadas mais complexas poss\u00edveis, muitas delas envoltas em saberes e sabores que s\u00f3 s\u00e3o vi\u00e1veis gra\u00e7as a um permanente estado de perplexidade deveras \u00fatil aos caminhos da cria\u00e7\u00e3o. O espanto de se estar vivo e pertencer a uma cadeia de elementos pelas quais n\u00e3o temos dom\u00ednio absoluto \u00e9 aspecto que povoa as mais distintas inten\u00e7\u00f5es quando o assunto \u00e9 travar o combate das palavras. E n\u00e3o h\u00e1 como percorrer as paisagens humanas sem retirar das andan\u00e7as um m\u00ednimo que seja de estranhamento. \u00c9, por exemplo, um pouco da sensa\u00e7\u00e3o marcante que nos toma de assalto quando lemos <a href=\"http:\/\/vicentemiguel.wordpress.com\/ \"><strong>Andr\u00e9 de Leones<\/strong><\/a>. Em sua trajet\u00f3ria, esse jovem escritor goiano penetra de modo denso nas estruturas que permeiam a nossa condi\u00e7\u00e3o de humanos. De posse disso, faz uso de estrat\u00e9gias narrativas que chamam a aten\u00e7\u00e3o pelo modo como seres e lugares convergem para um sentimento de constante perturba\u00e7\u00e3o. Assim, perceber-se vivo na \u00f3tica do autor \u00e9 n\u00e3o pactuar com uma acostumada e perniciosa \u201cordem natural\u201d das coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caminho de lucidez sobre o qual Andr\u00e9 edifica sua obra demonstra que ap\u00f3s atravessar as vias de <em>Hoje est\u00e1 um dia morto <\/em>(Romance \u2013 Record &#8211; 2006), <em>Paz na terra entre os monstros <\/em>(Contos\/Novela \u2013 Record &#8211; 2008), <em>Como desaparecer completamente <\/em>(Romance \u2013 Rocco &#8211; 2010) e, mais recentemente, <em>Dentes Negros <\/em>(Romance \u2013 Rocco &#8211; 2011), ele parece estar cada vez mais disposto a p\u00f4r em xeque os alicerces em que se funda nossa tenra exist\u00eancia.\u00a0 Nesta entrevista, o autor pontua aspectos decisivos de sua cria\u00e7\u00e3o, refletindo um pouco sobre nosso tempo e seus ventos eivados de desassossego.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_16222\" aria-describedby=\"caption-attachment-16222\" style=\"width: 327px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/Andr\u00e9-de-Leones-INTERNA-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16222 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/Andr\u00e9-de-Leones-INTERNA-I.jpg\" alt=\"\" width=\"327\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/Andr\u00e9-de-Leones-INTERNA-I.jpg 327w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/Andr\u00e9-de-Leones-INTERNA-I-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 327px) 100vw, 327px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16222\" class=\"wp-caption-text\">Andr\u00e9 de Leones \/ Foto: Renato Parada<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;Dentes Negros&#8221;, seu \u00faltimo livro, \u00e9, digamos assim, um romance ca\u00f3tico, no qual a sensa\u00e7\u00e3o do derradeiro instante paira por sobre a sina dos personagens de modo a representar muito mais do que uma mera ideia de finitude. Em meio \u00e0 paisagem desoladora da narrativa, vest\u00edgios parecem ser precioso legado. O que lhe \u00e9 mais emblem\u00e1tico nessa percep\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDR\u00c9 DE LEONES &#8211;<\/strong> N\u00e3o vejo &#8216;Dentes negros&#8217; como um &#8220;romance ca\u00f3tico&#8221;. Em termos estritamente estruturais, por exemplo, talvez seja o livro sobre cuja organiza\u00e7\u00e3o eu mais trabalhei. Tudo nele aponta para a finitude, de uma forma ou de outra. O fato de a narrativa ser t\u00e3o curta \u00e9 um ind\u00edcio dessa inten\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 constitu\u00edda por cap\u00edtulos pequenos, objetivos, crus, mas que eu n\u00e3o encaro como &#8220;vest\u00edgios&#8221; ou coisa que o valha. Tamb\u00e9m n\u00e3o gosto do termo &#8220;sina&#8221;, pois tem a ver com certo fatalismo. N\u00e3o sou fatalista. N\u00e3o acredito em &#8220;sina&#8221; ou &#8220;destino&#8221;. N\u00e3o era o &#8220;destino&#8221; de Hugo voltar \u00e0 sua terra natal, assim como n\u00e3o era o &#8220;destino&#8221; de Alexandre encontrar Ana Maria. Escolhas s\u00e3o feitas cotidianamente, n\u00e3o importa em que circunst\u00e2ncias. Nesse sentido, &#8216;Dentes negros&#8217; tem tudo a ver com meus livros anteriores. Crio os personagens e os coloco em determinadas situa\u00e7\u00f5es. A narrativa avan\u00e7a a partir do que eles escolhem fazer (ou n\u00e3o), desde as coisas mais simples (ficar em casa ou sair) at\u00e9 as mais dif\u00edceis (continuar vivendo ou n\u00e3o).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O livro tem uma constru\u00e7\u00e3o narrativa cujo encadeamento das a\u00e7\u00f5es chama aten\u00e7\u00e3o pela disposi\u00e7\u00e3o das situa\u00e7\u00f5es. Nesse sentido, h\u00e1 algo marcantemente cinematogr\u00e1fico na obra. Quais caminhos nortearam essa perspectiva criativa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDR\u00c9 DE LEONES &#8211; <\/strong>De fato, o romance nasceu de um determinado g\u00eanero (ou subg\u00eanero) de filmes que me interessam muito. S\u00e3o aqueles passados em mundos desolados por uma qualquer hecatombe, como que depois do fim do mundo, com os sobreviventes tendo de se virar com o que restou da civiliza\u00e7\u00e3o, por entre os escombros. Claro, h\u00e1 livros estupendos que se apropriam desse tipo de coisa, e eles tamb\u00e9m s\u00e3o muito importantes para mim (cito &#8220;A Estrada&#8221;, de Cormac McCarthy), mas a minha vontade, ao escrever &#8220;Dentes negros&#8221;, foi me basear num subg\u00eanero cinematogr\u00e1fico do qual &#8216;Mad Max&#8217;, de George Miller, talvez seja o exemplo mais perfeito. N\u00e3o s\u00f3 pela extrema compet\u00eancia com que foi realizado, pela intelig\u00eancia visual de seu diretor, mas tamb\u00e9m pela sua aridez, pelo fato de n\u00e3o fazer concess\u00f5es na maneira como introduz um mundo ou um p\u00f3s-mundo em que os estamentos da civiliza\u00e7\u00e3o vieram abaixo. Ao escrever &#8220;Dentes negros&#8221;, eu me permiti contaminar por esse sentimento de desola\u00e7\u00e3o, pela aridez dos cen\u00e1rios e situa\u00e7\u00f5es, pela sensa\u00e7\u00e3o de que algo deu muito errado e n\u00e3o h\u00e1 muita coisa que se possa fazer a respeito. Por outro lado, e nisso eu me distingo desse tipo de filme, optei por n\u00e3o embarcar numa narrativa de perip\u00e9cias. Observe que mesmo a viol\u00eancia, em &#8220;Dentes negros&#8221;, \u00e9 anti-clim\u00e1tica, n\u00e3o h\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o de um emaranhado de a\u00e7\u00f5es que culminem num cl\u00edmax redentor ou coisa que o valha. Os personagens erram por a\u00ed, simplesmente. O retorno de um deles \u00e0 terra natal \u00e9 abortado logo de cara, por exemplo. O gesto de outro (ir \u00e0 procura da prima do morto e lhe entregar uma encomenda) n\u00e3o \u00e9 her\u00f3ico, cinematograficamente falando. Eu me fixo nesses gestos menores, que, no fim das contas, s\u00e3o aqueles de que somos capazes, quando somos. Fosse um filme, &#8220;Dentes negros&#8221; n\u00e3o seria cinema de a\u00e7\u00e3o, mas teria a lentid\u00e3o que percebo, por exemplo, nos filmes de Michelangelo Antonioni (um mestre, ali\u00e1s, em tomar premissas que renderiam &#8216;thrillers&#8217; para construir narrativas das mais introspectivas &#8211; vide &#8220;A Aventura&#8221; e &#8220;Profiss\u00e3o: Rep\u00f3rter&#8221;).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O modo como voc\u00ea aborda a quest\u00e3o da alteridade no contexto do livro \u00e9 um aspecto de interessante reflex\u00e3o. Tens a sensa\u00e7\u00e3o de que algo ali \u00e9 posto \u00e0 prova?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDR\u00c9 DE LEONES &#8211; <\/strong>A alteridade sempre foi um tema norteador em tudo o que escrevi. Desde os meus primeiros contos at\u00e9 &#8220;Dentes negros&#8221;, passando pelo &#8220;Dia Morto&#8221;, o mais importante sempre foi situar os personagens em determinadas situa\u00e7\u00f5es; para tanto, \u00e9 imprescind\u00edvel um ponto de refer\u00eancia, ou seja, o outro. Nos meus textos, t\u00e3o ou mais importante do que aquilo que os personagens dizem de si \u00e9 o que eles dizem uns dos outros e para os outros. O outro, portanto, \u00e9 uma via para alguma esp\u00e9cie de auto-conhecimento. &#8220;Dentes negros&#8221; traz, tamb\u00e9m, um esfor\u00e7o dessa natureza, seja para situar-se num mundo transformado em escombros, seja para seguir adiante, ainda que de forma prec\u00e1ria. O outro nos pede que o asseveremos de que ele est\u00e1 ali, continua ali, e em troca faz o mesmo por n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Observando o que vivemos hoje, sobretudo no que se refere ao terreno das rela\u00e7\u00f5es, acredita que estamos diante de uma crise de humanidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDR\u00c9 DE LEONES &#8211; <\/strong>A humanidade est\u00e1 onde sempre esteve. N\u00e3o somos grande coisa, nunca fomos, nunca seremos. Compreendo que muitos precisem acreditar num sentido maior para tudo o que h\u00e1, at\u00e9 para conseguir suportar uma exist\u00eancia que, na maior parte do tempo, \u00e9 desoladora. Eu, felizmente, n\u00e3o preciso disso. Nada faz sentido. Escrevo porque \u00e9 algo que aprecio fazer e porque preciso me ocupar enquanto estiver vivo. Acho que, se as pessoas conseguissem se manter ocupadas assim, sem recorrer a quaisquer transcend\u00eancias, viveriam melhor, prestariam mais aten\u00e7\u00e3o em si, nos outros e no mundo ao redor. At\u00e9 porque n\u00e3o h\u00e1 mais nada, reitero. Voc\u00ea n\u00e3o passa de uma carca\u00e7a arremessada para a morte, isto \u00e9, para o vazio. Acostume-se com essa ideia e tente aproveitar a viagem, se poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Lugares como Silv\u00e2nia e Goi\u00e2nia integram de modo recorrente seus escritos. Estas refer\u00eancias refletem em voc\u00ea alguma sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDR\u00c9 DE LEONES &#8211; <\/strong>N\u00e3o, pelo contr\u00e1rio. S\u00f3 me senti em casa em dois lugares at\u00e9 hoje, e um deles foi Jerusal\u00e9m. Silv\u00e2nia e Bras\u00edlia (onde residi por tr\u00eas anos e que adoro) s\u00e3o recorrentes, n\u00e3o Goi\u00e2nia. Nasci em Goi\u00e2nia, mas s\u00f3 passei temporadas relativamente curtas e em momentos muito distintos da minha vida na cidade, de tal forma que n\u00e3o a conhe\u00e7o bem. Mas, respondendo \u00e0 pergunta, Silv\u00e2nia aparece justamente como terra estrangeira, para n\u00e3o dizer alien\u00edgena, em meus escritos. N\u00e3o h\u00e1 sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento. A ang\u00fastia surda que move os personagens de &#8220;Hoje est\u00e1 um dia morto&#8221;, por exemplo, surge justamente de uma extrema sensa\u00e7\u00e3o de desconforto para com aquele ambiente. N\u00e3o por acaso, sempre descrevo a cidade como um lugar opressivo, desarvorador. Reitero: Silv\u00e2nia \u00e9 onipresente em meus escritos porque fui criado ali e tamb\u00e9m porque, como escritor, querendo ou n\u00e3o, sempre recorro aos lugares que me marcaram de alguma forma, boa ou ruim. A mem\u00f3ria engendra a fic\u00e7\u00e3o, no meu caso &#8211; o que n\u00e3o significa que os meus livros sejam factualmente autobiogr\u00e1ficos, acho bom ressaltar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_16223\" aria-describedby=\"caption-attachment-16223\" style=\"width: 327px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/Andr\u00e9-de-Leones-Foto-2-INTERNA-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16223 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/Andr\u00e9-de-Leones-Foto-2-INTERNA-II.jpg\" alt=\"\" width=\"327\" height=\"490\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/Andr\u00e9-de-Leones-Foto-2-INTERNA-II.jpg 327w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/Andr\u00e9-de-Leones-Foto-2-INTERNA-II-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 327px) 100vw, 327px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16223\" class=\"wp-caption-text\">Andr\u00e9 de Leones \/ Foto: Renato Parada<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Hoje voc\u00ea vive em S\u00e3o Paulo, metr\u00f3pole que, por mais que pare\u00e7a colossal e anacr\u00f4nica, seduz por seus atrativos de toda a ordem. Esse cosmo paulista instaura um novo paradigma em sua escritura? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDR\u00c9 DE LEONES &#8211; <\/strong>Creio que sim. Os lugares em que estou ou estive s\u00e3o muito importantes para a minha imagina\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, gostaria de retificar algo: al\u00e9m de Bras\u00edlia e Jerusal\u00e9m, tamb\u00e9m me sinto muito bem em S\u00e3o Paulo. Talvez por se tratar de uma cidade em boa parte constitu\u00edda por imigrantes como eu e seja, em fun\u00e7\u00e3o disso, muitas cidades numa s\u00f3 (no que isso tem de melhor e pior), ela parece se moldar aos olhos de cada um, de tal maneira que h\u00e1 uma S\u00e3o Paulo, boa ou ruim, ou \u00e0s vezes boa, \u00e0s vezes ruim, suport\u00e1vel e\/ou insuport\u00e1vel, para cada pessoa que vive nela, dependendo de onde e em que condi\u00e7\u00f5es se vive. Essa justaposi\u00e7\u00e3o tresloucada de olhares e viv\u00eancias constitui, por um lado, a pluralidade t\u00e3o associada \u00e0 cidade, mas, por outro, como que isola os que nela habitam em bolhas que mal se comunicam. Somos como sistemas isolados, e \u00e9 realmente muito f\u00e1cil (para aludir ao t\u00edtulo de meu livro mais paulistano at\u00e9 agora) desaparecer completamente por aqui e deixar de perceber o outro, o diferente, com um m\u00ednimo de aten\u00e7\u00e3o. Se a pessoa tem interesse e condi\u00e7\u00f5es de aproveitar o que a cidade oferece, a movimenta\u00e7\u00e3o cultural, a enorme variedade gastron\u00f4mica, a colcha de retalhos que a constitui, viver aqui \u00e9 muito bom. Mas, se a pessoa n\u00e3o tem, pode ser um inferno. O caos urbano e a multiplicidade de personagens que ele engendra s\u00e3o extremamente inspiradores para mim. N\u00e3o trocaria S\u00e3o Paulo por nenhuma outra cidade brasileira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seu processo de imers\u00e3o na cria\u00e7\u00e3o de um livro compreende algum rigor espec\u00edfico? Entre palavra e imagem, quem normalmente desponta como a centelha inicial?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDR\u00c9 DE LEONES &#8211; <\/strong>Tenho um processo cheio de manias. A palavra est\u00e1 sempre na origem. O nome de um lugar, de um personagem, uma frase solta, o nome de uma can\u00e7\u00e3o. A partir disso, penso numa situa\u00e7\u00e3o e procuro desenvolv\u00ea-la. Se preciso, pesquiso a respeito do lugar onde quero situar a hist\u00f3ria e outros detalhes que julgar importantes. Ou\u00e7o m\u00fasica, bastante, porque me ajuda a encontrar o tom, o ritmo que quero imprimir num determinado texto. Pego um caderno e escrevo muito <em>sobre<\/em> a hist\u00f3ria que quero contar antes de come\u00e7ar a esbo\u00e7ar a hist\u00f3ria propriamente dita. As primeiras vers\u00f5es s\u00e3o sempre manuscritas. Depois, digito, imprimo, reviso, volto a digitar, imprimo, reviso, reviso, reescrevo. Escrever, para mim, \u00e9 reescrever, nunca me canso de dizer isso. E n\u00e3o me canso porque ainda existe a ideia do artista &#8220;inspirado&#8221; escrevendo um texto assim, de primeira, gra\u00e7as a uma qualquer &#8220;febre criativa&#8221; ou coisa parecida. Claro, h\u00e1 dias em que o trabalho flui melhor e h\u00e1 dias em que simplesmente n\u00e3o flui. Mas \u00e9 disso que se trata, sempre: trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Est\u00e1 em curso algum novo projeto liter\u00e1rio seu?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDR\u00c9 DE LEONES &#8211; <\/strong>Terminei de escrever &#8216;Terra de casas vazias&#8217;, meu novo romance (com lan\u00e7amento previsto para o primeiro semestre de 2013 pela Rocco), em julho passado. Foram mais de tr\u00eas anos de trabalho e, bem, eu estou cansado. No entanto, a cabe\u00e7a nunca para de trabalhar e uma ideia me ocorreu h\u00e1 algumas semanas, para um novo romance. Ocorre que eu n\u00e3o quero nem posso me envolver em um novo projeto agora. Assim, o que estou fazendo \u00e9 &#8220;cozinhar&#8221; essa ideia, de tal forma que ela n\u00e3o morra, pois me parece interessante, mas tampouco se imponha e me obrigue a colocar todas as minhas outras atividades em segundo plano, que \u00e9 o que acontece quando inicio, de fato, a escrita de um novo livro. Como de h\u00e1bito, tenho anotado algumas coisas que me ocorrem relativas a essa ideia em um caderno. Daqui a um ano, mais ou menos, depois que eu j\u00e1 tiver lan\u00e7ado e, por assim dizer, me livrado de &#8216;Terra de casas vazias&#8217;, voltarei a esse caderno e verei se h\u00e1 mesmo alguma coisa ali. Se houver, a\u00ed, sim, embarcarei noutra viagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Jerusal\u00e9m, pelo fasc\u00ednio que exerce em voc\u00ea, figura como uma prov\u00e1vel influ\u00eancia criativa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDR\u00c9 DE LEONES &#8211; <\/strong>Prov\u00e1vel, n\u00e3o. A cidade j\u00e1 integra o meu universo criativo, tanto que parte de &#8216;Terra de casas vazias&#8217; se passa em Israel e, sobretudo, em Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Na literatura e, tamb\u00e9m, fora dela, o que voc\u00ea n\u00e3o endossa nesse estado de coisas chamado p\u00f3s-modernidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDR\u00c9 DE LEONES &#8211; <\/strong>Na literatura e fora dela, seja na p\u00f3s-modernidade, seja quando for, antes ou depois, n\u00e3o endosso ideologismos de qualquer esp\u00e9cie, \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda. A estupidez \u00e9 ambidestra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Por tudo o que j\u00e1 viveu at\u00e9 aqui em sua trajet\u00f3ria com as palavras, o que o impele a continuar trilhando o pantanoso of\u00edcio de escritor?\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDR\u00c9 DE LEONES &#8211; <\/strong>O que mais sei fazer? Muito simples: n\u00e3o tenho interesse por fazer mais nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa instigante conversa, o escritor Andr\u00e9 de Leones reflete sobre os caminhos da cria\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3233,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[768,16,2539],"tags":[783,786,784,788,497,63,785,787],"class_list":["post-3230","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-74a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-andre-de-leones","tag-como-desaparecer-completamente","tag-dentes-negros","tag-editora-record","tag-editora-rocco","tag-entrevista","tag-hoje-esta-um-dia-morto","tag-paz-na-terra-entre-os-monstros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3230","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3230"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3230\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16224,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3230\/revisions\/16224"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3233"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3230"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3230"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3230"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}