{"id":3319,"date":"2012-12-15T12:29:46","date_gmt":"2012-12-15T15:29:46","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=3319"},"modified":"2012-12-15T13:58:28","modified_gmt":"2012-12-15T16:58:28","slug":"dedos-de-prosa-ii-8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-8\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><strong>A casa Azul<\/strong><\/p>\n<p><em>Nelson Alexandre<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_3321\" aria-describedby=\"caption-attachment-3321\" style=\"width: 335px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/INTERNA7.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3321\" title=\"Foto: Catharina Suleiman\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/INTERNA7.jpg\" alt=\"\" width=\"335\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/INTERNA7.jpg 335w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/INTERNA7-201x300.jpg 201w\" sizes=\"auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3321\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Catharina Suleiman<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu apoiava a cabe\u00e7a no ombro de Helena todas as vezes que ela chegava de mansinho. Seu toque era meigo e delicado. O meu toque era possu\u00eddo por uma leva de palavr\u00f5es e atitudes irracionais. Era como se o mundo inteiro explodisse e eu n\u00e3o pudesse recolher seus peda\u00e7os por causa da confus\u00e3o. Quando a explos\u00e3o iluminava meus olhos, eles pegavam fogo e eu cuspia morcegos cegos em voos malucos. Rasgava os pr\u00f3prios intestinos e n\u00e3o podia aguentar o meu pr\u00f3prio cheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algu\u00e9m pode comer a pr\u00f3pria merda e falar em nome da bondade e honestidade sem mandar merda na cara de quem est\u00e1 prestando aten\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1 que isso \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu recolhia a cabe\u00e7a e deitava novamente em seu ombro, enquanto ela lia e me fazia perguntas sobre aquilo e isso&#8230; minha cabe\u00e7a dormia sobre o amor em forma de mulher. Cantava numa frequ\u00eancia pirata a m\u00fasica da car\u00eancia, enquanto o c\u00e9u vinha pra cima de mim, como os destro\u00e7os de um avi\u00e3o desgovernado caindo em cima da minha falta de vontade, bem em cima da minha total ignor\u00e2ncia sobre o assunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu olhava pro t\u00eanis encardido e sentia a podrid\u00e3o. A sujeira encarando meu olhar com reprova\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o queria levantar a cabe\u00e7a do seu ombro, do meu conforto, por nada desse mundo, mas n\u00f3s n\u00e3o temos sempre o dom\u00ednio da situa\u00e7\u00e3o, por isso, eu n\u00e3o gostava muito quando ela se levantava de forma r\u00e1pida e sem me avisar. Minha cabe\u00e7a levantava como um morto retirado das ferragens retorcidas de um carro detonado. Sem muito jeito, sem muita delicadeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela partia e eu ficava hipnotizado com seus passos, sempre apressados, em dire\u00e7\u00e3o a todos os cantos da casa. Parecia uma grande atriz atarefada, vagando pra l\u00e1 e pra c\u00e1 na sua pequena atmosfera ornada por enormes margaridas empalidecidas como fantasmas gigantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea sabe o qu\u00ea \u00e9 o amor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu, at\u00e9 aquele dia, n\u00e3o tinha muito conhecimento, como pensava que tinha. Eu pensava que dominava o amor, mas confundia complac\u00eancia com amor, enquanto as feridas brotavam no meu cora\u00e7\u00e3o como plantas carn\u00edvoras. Eu colocava as m\u00e3os no rosto e pensava: \u201cmais um dia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando voc\u00ea est\u00e1 morto, voc\u00ea perambula por a\u00ed, sem muita preocupa\u00e7\u00e3o, nem a\u00ed com o mundo ou com as pessoas que tamb\u00e9m perambulam por ele. No est\u00e1gio da morte, seus p\u00e9s s\u00e3o facas fazendo cortes, deixando pra tr\u00e1s profundos abismos de voc\u00ea mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s olh\u00e1vamos pra nossa casa, e aquele era o nosso c\u00e9u. Era o nosso lugar dentro do que \u00e9 perfeito. Helena gostava de ficar sentada fazendo seus desenhos, fumando um cigarro que soltava uma fuma\u00e7a que dan\u00e7ava na minha garganta como uma serpente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A morte, \u00e0s vezes, bate \u00e0 sua porta mais cedo do que o esperado. O azul da casa salvava os olhos cansados, a mente perturbada, a carnificina pronta pra brotar no peito. O azul era a cor da purifica\u00e7\u00e3o, e por alguns instantes, a cor de uma plenitude desconhecida e aceita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cvamos pintar de amarelo, minha querida?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o&#8230; o azul \u00e9 o mar repetindo-se sobre nossas cabe\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o ficava azul, sempre o mesmo tom de azul&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi numa noite de chuva que a casa azul ficou triste como um peixe fisgado pelo anzol. Tomado por uma dose de toxinas e assuntos mal resolvidos que viviam saltando na frente da minha paci\u00eancia como fantoches de disc\u00f3rdia, peguei uma vassoura e girei o cabo sobre minha cabe\u00e7a dominada por um milh\u00e3o de vozes dizendo \u201cesmague\u201d, e desferi v\u00e1rios golpes contra a luz que iluminava a garagem. Ela se fez em v\u00e1rios pedacinhos, da mesma forma como se encontrava o cora\u00e7\u00e3o de Helena, que chorava sozinha no quarto principal da casa azul, na periferia de Space City.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra vez, foi a toalha esquecida em cima da cama. O terror do colch\u00e3o encharcado por um l\u00edquido extra\u00eddo com o aperto dos bra\u00e7os delicados da inoc\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFoi voc\u00ea que esqueceu ela a\u00ed, n\u00e3o eu\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o adiantava argumentar, minha \u201craz\u00e3o\u201d cega e sem preocupa\u00e7\u00e3o com a inoc\u00eancia se desmanchando em l\u00e1grimas, tampava os ouvidos e abria a boca, apenas, para emitir o rugido da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, hoje, digo e defendo que, antes de voc\u00ea emitir um som ensurdecedor e se transformar num macaco violento, lembre-se&#8230; o cristal se rompe a qualquer toque sem amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra vez, foi o puro descontrole unido a uma dose sadomasoquista de c\u00f3lera, que mandou o pobre do nosso gatinho fazer uma viagem ao redor do \u00f3dio. Met\u00e1fora pura. Coisa que vem em primeiro lugar na cabe\u00e7a cheia de um rancor exasperado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes voc\u00ea est\u00e1 acompanhado com o diabo e n\u00e3o percebe&#8230; ou ser\u00e1 que o diabo pode ser uma alegoria que produzimos em n\u00f3s mesmos para n\u00e3o deixar brotar uma flor de bondade, mesmo que pequenina e t\u00edmida?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o c\u00e3o&#8230; sem d\u00favida, diz uma das vozes dentro da minha cabe\u00e7a. \u00c9 apenas um dist\u00farbio de comportamento, retruca uma outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com isso, posso dizer que, n\u00e3o deixe a estrutura do cristal ir \u00e0 tona toda estilha\u00e7ada. N\u00e3o deixe esse maldito \u00f3dio (digo isso lutando desesperadamente para n\u00e3o ser contaminado novamente) pegar voc\u00ea pelo ded\u00e3o do p\u00e9. Recuse suas car\u00edcias em seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos dan\u00e7ar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos entrar no esplendor do azul?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea despertou meu lado C\u00e9rbero&#8230; o qu\u00ea realmente voc\u00ea quer, meu senhor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quer que eu saia do meu buraco, depois de alguns anos, metralhando o \u00f3dio ou o amor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu cora\u00e7\u00e3o quer ficar azul. N\u00e3o tem mais a cobertura do manto vermelho. O qu\u00ea estou dizendo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entende de vozes, meu senhor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sol nasce como no cinema, morno, cheio de uma luz artificial, onde, de m\u00e3os dadas, nos iludimos e voltamos a ser seres humanos novamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSer\u00e1 que amarelo \u00e9 bom mesmo? Voc\u00ea quer imitar o sol? Amor, voc\u00ea vai acabar com as m\u00e3os queimadas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVai ser a nossa obra prima, baby, vai ser a nossa passagem para a eternidade, isso eu juro pra voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando ela ia dormir, eu ficava ainda algum tempo na sala, sentado no sof\u00e1, ouvindo m\u00fasica cl\u00e1ssica, sentindo minha cabe\u00e7a ser comprimida pelas vozes da minha consci\u00eancia. Eu tinha vontade de gritar at\u00e9 a garganta explodir. Queria ter uma bomba na fala&#8230; confidenciar explos\u00f5es nucleares com os dentes. Sentia o negrume feito coisa podre bem no meio da minha cara, olhando a consci\u00eancia dentro de uma vala comum, apodrecendo, definhando, sendo devorada por uma grande demanda de vermes asquerosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na madrugada, sobressaltava dos sonhos mais mesquinhos e sentia dem\u00f4nios colocando seus dedos sobre o meu ombro. De joelhos, pedia a Deus o azul. Pedia o supra-sentimento para a reden\u00e7\u00e3o de uma alma escura e lodosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu era um monstro que um dia foi um peixe dourado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<a href=\"http:\/\/www.nelsonalexandre.zip.net\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>Nelson Alexandre<\/strong><\/span><\/span> <\/a>nasceu em Maring\u00e1 &#8211; PR. J\u00e1 disseram que seus contos parecem com os de Charles Bukowski, John Fante e at\u00e9 mesmo uma mistura de William Burroughs e David Cronenberg, mas o autor descarta todas as possibilidades e afirma que seus escritos pertencem a ele mesmo e mais ningu\u00e9m)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crueza dos dias no conto de Nelson Alexandre<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3320,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[768,2534],"tags":[822,81,41,823,824,821],"class_list":["post-3319","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-74a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-a-casa-azul","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-encruado","tag-maringa","tag-nelson-alexandre"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3319","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3319"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3319\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3393,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3319\/revisions\/3393"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3320"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}