{"id":3459,"date":"2013-01-20T12:27:42","date_gmt":"2013-01-20T15:27:42","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=3459"},"modified":"2013-02-18T21:12:34","modified_gmt":"2013-02-19T00:12:34","slug":"dedos-de-prosa-ii-9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-9\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Bruna Mitrano<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_3461\" aria-describedby=\"caption-attachment-3461\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/INTERNA1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3461\" title=\"Luiza Maciel Nogueira\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/INTERNA1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/INTERNA1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/INTERNA1-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3461\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Luiza Maciel Nogueira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Numa noite dessas<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chovia forte. Eu voltava do trabalho e via a gente da rua muito agitada, os pontos de \u00f4nibus alagados e os homens disputando espa\u00e7o na sarjeta. Esperei um tempo debaixo duma marquise. Uma mulher esbarrou em mim com o guarda-chuva e uma crian\u00e7a negociou um trocado. A chuva estiou logo. Caminhei pesado, os t\u00eanis encharcados, at\u00e9 a cal\u00e7ada e subi num \u00f4nibus velho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O engarrafamento era longo e o cheiro nauseante. Numa parada, um menino sujo e magro pediu carona ao motorista. Dizia: estou doente, acho que tenho febre. O motorista acenou que sim, mas amarrou a cara ao v\u00ea-lo entrar. Os passageiros, que se apertavam, resmungaram: cracudo filho da puta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda est\u00e1vamos no espa\u00e7o de meio quil\u00f4metro em que o \u00f4nibus permaneceu por duas horas, quando o garoto vomitou um visgo amarelo. Ignoravam-no, todos. N\u00e3o demorou para que ele tombasse pr\u00f3ximo a mim. Teve convuls\u00f5es. Repousei a mochila num peda\u00e7o de ch\u00e3o entre minhas pernas e me abaixei para segurar sua cabe\u00e7a. Os espasmos chacoalharam a carne mole dos meus bra\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os olhos grandes remelentos do garoto olhavam meus olhos como se implorassem por socorro ou perd\u00e3o. Um senhor gritou que cham\u00e1ssemos os bombeiros. Algu\u00e9m pegou o telefone, embora soub\u00e9ssemos que ningu\u00e9m chegaria r\u00e1pido ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, a calmaria. Os olhos grandes muito abertos. Minhas m\u00e3os coladas \u00e0 cabe\u00e7a do menino, afundadas em seus cabelos grossos de poeira e suor. \u00c0 volta, o sil\u00eancio: o garoto estava morto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O motorista precisou levar o corpo \u00e0 delegacia. Dei alguns esclarecimentos \u00e0 pol\u00edcia. Depois, peguei um \u00f4nibus mais novo e um pouco mais caro. As ruas j\u00e1 estavam secas e o tr\u00e2nsito flu\u00eda bem. Em casa, joguei as roupas na m\u00e1quina de lavar e o t\u00eanis na lixeira. Tomei um banho quente, fritei uns empanados e sentei \u00e0 mesa, sozinha, sem tristeza nem pressa, desejando que aquela noite durasse um pouco mais. Eu estava viva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>.fim<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">bomba-rel\u00f3gio, 6:00, levanta, lava a cara duas vezes, envelheceu muito esse ano. banho porco, roupa pronta, engole o caf\u00e9 com leite e p\u00e3o, e sai pela metade. sol, gente, sustos, dorme, chega. gritos, \u00e9 assim. a molecada espera na fila. sala de aula, arrastam cadeiras, o giz no quadro, formiga a gengiva. cinco tempos, morre com farofa ao meio dia. almo\u00e7a naquela pens\u00e3ozinha xexelenta mas, tem papel no banheiro. volta, a mesa grande, cad\u00ea os \u00f3culos? m\u00e9dias, faltas, t\u00e1 na hora. anda torto, a pasta pesa e cai, no meio do corredor. revoada, os pap\u00e9is escapando das m\u00e3os. gritos, \u00e9 assim. bomba-rel\u00f3gio, falta pouco pro fim do dia, pouco pro fim do m\u00eas ($), pouco pro fim do ano. quanto pro fim da linha?, conta nos dedos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<strong>Bruna Mitrano<\/strong>\u00a0(1985) \u00e9 carioca suburbana, professora da rede p\u00fablica, mestranda em literatura portuguesa, leitora compulsiva, desenhista frustrada, bipolar e torcedora do Bangu. Escreve na revista Mallarmargens. Tem textos publicados no Jornal Pl\u00e1stico Bolha, no F\u00f3rum Virtual de Literatura e Teatro, na revista Germina e em outros espa\u00e7os na Internet)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A prosa de Bruna Mitrano impregnada do contorno implac\u00e1vel dos dias<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3460,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[830,2534,16],"tags":[842,81,41,844,843],"class_list":["post-3459","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-75a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-bruna-mitrano","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-fim","tag-numa-noite-dessas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3459","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3459"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3459\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3909,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3459\/revisions\/3909"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3460"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3459"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3459"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3459"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}