{"id":3486,"date":"2013-01-20T13:00:32","date_gmt":"2013-01-20T16:00:32","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=3486"},"modified":"2013-02-18T21:12:04","modified_gmt":"2013-02-19T00:12:04","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-10","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-10\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fotografia tem o cond\u00e3o de vislumbrar perspectivas que se agigantam cada vez que a subjetividade governa seus signos. O modo como um fot\u00f3grafo observa a vida e seus complexos fen\u00f4menos \u00e9 especial quando se pode olhar tudo como se fosse a primeira vez. O real, atravessado pelos recursos advindos da alma humana, n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo. Muda sempre, como se estiv\u00e9ssemos mirando um caudaloso e intr\u00e9pido rio. Assim, flagrar os instantes que nos agarram incessantemente e despertam nossa aten\u00e7\u00e3o passa a ser uma miss\u00e3o deveras intuitiva e sens\u00edvel, mesmo considerando o necess\u00e1rio dom\u00ednio t\u00e9cnico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que ser\u00e1 que norteia o olhar frente ao universo de pontos de vista que est\u00e1 diante de n\u00f3s? Talvez um algu\u00e9m como a paulistana <a href=\"http:\/\/www.mercedeslorenzo.com\/ \"><strong>Mercedes Lorenzo<\/strong><\/a> saiba nos responder com a propriedade de quem percebe caminhos singulares por entre os dias. Dona de uma vis\u00e3o que associa poesia \u00e0 imagem, Mercedes penetra nas sutilezas e retira delas a mat\u00e9ria que d\u00e1 sentido ao seu of\u00edcio. Mesmo no registro da materialidade das coisas e seres, a fot\u00f3grafa consegue um resultado que vai al\u00e9m de uma no\u00e7\u00e3o concreta e acabada de tudo. Nela, um vigor abstrato e intimista \u00e9 capaz de redimensionar o foco da cria\u00e7\u00e3o, fazendo com que um novo impulso seja conferido \u00e0 exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formada em Desenho Publicit\u00e1rio e Fotografia pela Escola Panamericana de Artes (EPA &#8211; SP), Mercedes direciona suas a\u00e7\u00f5es para uma reflex\u00e3o mais humanista das coisas, fato que a estimula a desenvolver novos trabalhos. Na entrevista que agora segue, a artista fala, dentre outros temas, dos motores de sua cria\u00e7\u00e3o, da especial rela\u00e7\u00e3o com a palavra e faz algumas reflex\u00f5es sobre o papel da arte na contemporaneidade.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_3488\" aria-describedby=\"caption-attachment-3488\" style=\"width: 367px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/ML01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3488 \" title=\"Mercedes Lorenzo\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/ML01.jpg\" alt=\"\" width=\"367\" height=\"550\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/ML01.jpg 367w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/ML01-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 367px) 100vw, 367px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3488\" class=\"wp-caption-text\">Mercedes Lorenzo \/ Foto: Rubens Guilherme Pesenti<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;\u00a0 N\u00e3o h\u00e1 como passar por suas fotografias sem observar a forma como os espa\u00e7os s\u00e3o captados. Disso, deriva uma escrita da luz que permeia o ambiente das interven\u00e7\u00f5es humanas, de como divisamos ser e n\u00e3o-ser. Visivelmente habitados ou n\u00e3o, muitos de seus lugares possuem a marca vigorosa dos vest\u00edgios. Como lidar com isso na cria\u00e7\u00e3o da imagem?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MERCEDES LORENZO &#8211; <\/strong>H\u00e1 uma frase de Anais Nin, em meu blog, que resume fantasticamente esta quest\u00e3o: &#8220;n\u00e3o vemos as coisas como s\u00e3o, vemos as coisas como somos&#8221;. Isso pra mim implica que a cria\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica \u00e9 uma conversa \u00edntima entre o que \u00e9 pr\u00e9-existente no ambiente com o que necessita de via de express\u00e3o dentro da mente do fot\u00f3grafo. A partir desse di\u00e1logo mudo, das concord\u00e2ncias e disson\u00e2ncias entre eles, vai se estabelecendo um ponto fino de equil\u00edbrio e toda essa din\u00e2mica acontece \u00e0s vezes em quest\u00e3o de segundos. Mas sempre existe essa conversa \u00edntima e ela determina o que ser\u00e1 ignorado e o que ser\u00e1 &#8216;focado&#8217;, usando met\u00e1foras da pr\u00f3pria fotografia. \u00c9 algo no qual n\u00e3o costumo prestar aten\u00e7\u00e3o consciente em rela\u00e7\u00e3o ao processo em si. Por isso, talvez a dificuldade em te responder objetivamente. \u00c9 intuitivo e org\u00e2nico para mim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Falando em car\u00e1ter org\u00e2nico da fotografia, o que mais chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o menor n\u00edvel de interfer\u00eancia poss\u00edvel por parte de quem faz os registros. Acredita que a poesia da imagem se inscreve no pacto silencioso entre o fot\u00f3grafo e o universo das coisas? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MERCEDES LORENZO &#8211; <\/strong>Sim, sua observa\u00e7\u00e3o \u00e9 pertinente. De fato, nos trabalhos fotogr\u00e1ficos autorais\/conceituais eu tento o m\u00ednimo de interfer\u00eancia poss\u00edvel, algo como uma busca da &#8220;legitimidade&#8221; da cena, embora isso seja ilus\u00f3rio: o olhar, o enquadramento, o foco ou qualquer outro elemento de escolha aleat\u00f3ria no ato de captar a imagem j\u00e1 \u00e9 uma interfer\u00eancia, e ela se prolonga depois no tratamento da imagem em p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sou o tipo de fot\u00f3grafa &#8220;purista&#8221; nesse sentido, estou interessada justamente em transmitir uma linguagem po\u00e9tica. E quando penso em poesia, n\u00e3o penso necessariamente em coisas belas ou benfazejas. Esse pacto entre o meu olhar e o universo das coisas, como voc\u00ea diz, \u00e9 uma esp\u00e9cie de transgress\u00e3o ou licen\u00e7a po\u00e9tica. A n\u00e3o-interfer\u00eancia \u00e9 quase que honrar a veracidade de algo que s\u00f3 eu estou vendo num determinado instante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seus caminhos iniciais na arte apontam para um envolvimento com os desenhos. Voc\u00ea traz algum entendimento dessa fase para o olhar de fot\u00f3grafa? Diria que houve uma esp\u00e9cie de transi\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MERCEDES LORENZO &#8211; <\/strong>Desde pequena eu desenhava. Num determinado momento, na escola, percebi que desenhava um pouco melhor do que os colegas e ent\u00e3o pratiquei com mais determina\u00e7\u00e3o. A princ\u00edpio, copiando imagens que gostava e depois criando umas poucas. Mais tarde, nos anos 80, fiz o curso de Desenho Publicit\u00e1rio, especificamente pensando em aplicar aquele &#8220;dom&#8221; a algo que pudesse tamb\u00e9m me satisfazer profissionalmente. Trabalhei por alguns anos com desenho-animado comercial at\u00e9 me mudar de S\u00e3o Paulo para Santa Catarina, onde residi por 25 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse intervalo de tempo, tive outras atividades, trabalhei e estudei in\u00fameras coisas diferentes e me envolvi mais e mais com a linguagem, a palavra. Ent\u00e3o, a transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi direta, embora eu tenha hoje consci\u00eancia de que tendo a pensar sempre em termos visuais, quando penso em algo pela primeira vez. Isso \u00e9 natural em mim, e provavelmente tem tudo a ver com a escolha da fotografia e o fato de me sentir t\u00e3o \u00e0 vontade nessa atividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acredito, sim, que a facilidade do &#8220;entendimento espacial&#8221; das coisas, proporcionado pelo desenho, favore\u00e7a de algum modo o exerc\u00edcio da fotografia, bem como a din\u00e2mica do mundo da publicidade seja um treinamento e tanto para determinados desafios da fotografia documental.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 tamb\u00e9m a Mercedes que se deixa envolver pelos enlaces po\u00e9ticos, pela feitura de versos que sabem a delicados percursos existenciais. Em que medida a converg\u00eancia entre palavra e imagem pontua sua trajet\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MERCEDES LORENZO &#8211;<\/strong> O meu envolvimento com a poesia come\u00e7ou mesmo antes da fotografia profissional, e foi em parte incentivado por amigos que leram alguns escritos meus. Acredito que a palavra tomou destaque em minha vida tamb\u00e9m influenciada pelos meus estudos em Neurolingu\u00edstica por volta dos anos 90. A poesia, a meu ver, \u00e9 um imenso exerc\u00edcio de s\u00edntese desse mist\u00e9rio que chamamos Vida, com o pior e o melhor que ela possui. Essa s\u00edntese se vale da ferramenta &#8220;palavra&#8221;, assim como a fotografia \u00e9 tamb\u00e9m uma outra forma de s\u00edntese que se vale da imagem. S\u00e3o signos que na minha viv\u00eancia pessoal est\u00e3o intimamente ligados e creio at\u00e9 que se confundem, na medida em que meus escritos carregam em si uma forte dose visual, e as fotos carregam em si uma dose igualmente grande de simbologia po\u00e9tica. De todo modo, n\u00e3o me considero poeta, apenas arrisco express\u00f5es escritas aqui e ali como parte da experi\u00eancia de pensar o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_3489\" aria-describedby=\"caption-attachment-3489\" style=\"width: 367px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/ML02.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3489 \" title=\"Mercedes Lorenzo\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/ML02.jpg\" alt=\"\" width=\"367\" height=\"550\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/ML02.jpg 367w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/ML02-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 367px) 100vw, 367px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3489\" class=\"wp-caption-text\">Mercedes Lorenzo \/ Foto: Lais Simenikim<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Na sua opini\u00e3o, qual o grande desafio da cria\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica frente \u00e0s \u201cfacilidades\u201d do mundo digital que nos atravessa? N\u00e3o nos iludimos com uma revolu\u00e7\u00e3o muito mais tecnol\u00f3gica do que inventiva?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MERCEDES LORENZO &#8211; <\/strong>Como disse anteriormente, n\u00e3o sou &#8220;purista&#8221; no sentido de evitar a manipula\u00e7\u00e3o digital da imagem quando se trata de buscar uma linguagem a ser transmitida e, claro, dependendo do contexto e finalidade do trabalho em quest\u00e3o. Fotojornalismo \u00e9 diferente de fotografia conceitual. Mas, ao contr\u00e1rio do que muitos acreditam, a manipula\u00e7\u00e3o da imagem fotogr\u00e1fica j\u00e1 existia desde os prim\u00f3rdios da fotografia anal\u00f3gica, e muitos dos efeitos digitais hoje propagados t\u00eam sua origem justamente nos laborat\u00f3rios qu\u00edmicos e em grandes nomes como o de Man Ray, para citar um. Isso n\u00e3o invalida de modo algum o trabalho conceitual que \u00e9 isento de manipula\u00e7\u00e3o, acho que h\u00e1 lugar para todos os tipos de express\u00e3o individual. A qualidade da ideia final transmitida \u00e9 o que deveria contar, n\u00e3o propriamente o processo em si, mesmo sendo ele uma parte l\u00fadica e apaixonante do nosso trabalho. Cada fot\u00f3grafo tem habilidades espec\u00edficas e prefer\u00eancias pessoais ao usar suas ferramentas dispon\u00edveis para chegar aonde quer. \u00c9 a sua &#8220;paleta de pintor&#8221;, que apenas come\u00e7a na c\u00e2mera. O grande desafio, a meu ver, reside no mesmo lugar de sempre: a originalidade e consist\u00eancia do trabalho, seja digital ou anal\u00f3gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seus registros para a publicidade possuem uma conota\u00e7\u00e3o art\u00edstica deveras importante. Imagina rupturas ali?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MERCEDES LORENZO &#8211; <\/strong>Eu penso que a publicidade \u00e9 um segmento que acompanha de perto todo tipo de inova\u00e7\u00e3o e consegue, talvez mais do que nenhum outro, absorver tend\u00eancias de novas linguagens. Claro que estou falando da publicidade de alto n\u00edvel. Ent\u00e3o, nesse sentido eu acredito que, mais do que ruptura, \u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o constante. Meus registros para publicidade se querem sempre consoantes com essa maneira de assinalar uma valoriza\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia do cliente e do seu p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Quando a arte n\u00e3o passa impune pelas quest\u00f5es de nosso tempo, seu significado ganha corpo especial. E voc\u00ea traz isso \u00e0 tona na s\u00e9rie <a href=\"http:\/\/www.mercedeslorenzo.com\/galerias\/luz.html\"><em>Lan\u00e7ar Luz \u00e0 Indiferen\u00e7a<\/em><\/a>. O que lhe \u00e9 mais caro nesse percurso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MERCEDES LORENZO &#8211;<\/strong> Fico gratificada por voc\u00ea ter feito men\u00e7\u00e3o a esse trabalho, ele me \u00e9 muito caro em v\u00e1rios sentidos. Acredito que a arte pode refletir as quest\u00f5es de seu tempo de forma impl\u00edcita ou mais expl\u00edcita, como uma cr\u00edtica, que \u00e9 o caso da s\u00e9rie <em>Lan\u00e7ar Luz \u00e0 Indiferen\u00e7a<\/em>. Minha experimenta\u00e7\u00e3o com essa explicitude se deu transitando na linha t\u00eanue entre cr\u00edtica e provoca\u00e7\u00e3o. Toda a s\u00e9rie foi produzida por mim com recursos fotogr\u00e1ficos e de edi\u00e7\u00e3o digital de imagens, de forma a chegar perto de um efeito &#8220;publicit\u00e1rio&#8221; muito mais do que propriamente &#8220;art\u00edstico&#8221;, pois se valeu dessa linguagem para dar ambi\u00eancia ao questionamento proposto. A import\u00e2ncia deste tipo de trabalho no meu percurso \u00e9 a de me colocar em contato com todas as realidades sociais que me cercam, mas n\u00e3o apenas isso: pens\u00e1-las, propor um pensamento cr\u00edtico e independente sobre elas, uma aproxima\u00e7\u00e3o a elas por parte dos que ainda n\u00e3o o fizeram. S\u00e3o muitas ambi\u00e7\u00f5es, eu sei, mas aprendi com a poesia que n\u00f3s nunca sabemos exatamente onde uma ideia pode florescer e o qu\u00e3o longe ela pode alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Chama aten\u00e7\u00e3o a forma como voc\u00ea aborda a perspectiva do masculino no ensaio <a href=\"http:\/\/www.mercedeslorenzo.com\/galerias\/nudus.html \"><em>Ecce Homo Nudus<\/em><\/a>. A poesia do corpo revela um olhar especial sobre o homem, desanuviando tens\u00f5es aborrecidas do g\u00eanero e propondo outras leituras. Estamos diante de um resgate necess\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MERCEDES LORENZO &#8211; <\/strong>Sim, sem d\u00favida, eu acredito que estamos diante de um resgate necess\u00e1rio, em muitos sentidos. Apesar de aclamado na m\u00eddia e amplamente exibido na publicidade, o que observo \u00e9 um recrudescimento em termos de moralismo no que se refere ao corpo na sua express\u00e3o natural. Esse recrudescimento se reflete inclusive nos espa\u00e7os da web com uma censura indiscriminada que coloca a pornografia e o mau gosto no mesmo patamar de um Davi de Michelangelo, por exemplo. Tamb\u00e9m se reflete na reitera\u00e7\u00e3o de dogmas medievais travestidos de condutas contempor\u00e2neas. Este ensaio est\u00e1 entre os meus favoritos, n\u00e3o somente pelo resultado est\u00e9tico, mas tamb\u00e9m pelo que ele simboliza e tenta resgatar. Ele vem acompanhado em meu site de um texto introdut\u00f3rio, onde resumo essa vis\u00e3o que vai al\u00e9m do er\u00f3tico, do comercializ\u00e1vel, do corpo idealizado. O corpo aqui se quer parte indissoci\u00e1vel do Ser. \u00c9 incr\u00edvel que em pleno s\u00e9culo XXI ainda n\u00e3o tenhamos irrestritamente difundida a ideia revolucion\u00e1ria do psicanalista Wilhelm Reich, que nos mostrou que a mente humana est\u00e1 &#8220;espalhada&#8221; por todo o corpo e n\u00e3o reside apenas no c\u00e9rebro. Esse conceito \u00e9 a ant\u00edtese da dicotomia repressora e moralizante, e mesmo sem essa clareza o ser humano o tem intu\u00eddo ao longo das eras. Mas a\u00ed j\u00e1 vamos descambar em Foucault (risos). \u00a0Eu quis que fosse um nu masculino porque tamb\u00e9m nessa especificidade residem tabus, j\u00e1 que o corpo da mulher \u00e9 muito mais exposto pela m\u00eddia em geral. A inspira\u00e7\u00e3o final, o <em>start<\/em> da coisa, veio quando pude obter num sebo (j\u00e1 que se encontra esgotado) o maravilhoso livro da fot\u00f3grafa Vania Toledo: &#8220;Homens, um ensaio&#8221;. Editado em 1980, ele traz v\u00e1rias personalidades masculinas da \u00e9poca (e ainda atuais) em fotos de nu absolutamente naturais, despojadas, e em situa\u00e7\u00f5es que evocam particularidades de cada um deles. Fiquei me perguntando por que o livro n\u00e3o foi reeditado, pois existem t\u00e3o poucos ensaios desse tipo no pa\u00eds. Considero esse trabalho transformador e po\u00e9tico num n\u00edvel muito sutil, e por isso ele me \u00e9 caro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em termos art\u00edsticos, acredita que a contemporaneidade \u00e9 um convite \u00e0 transgress\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MERCEDES LORENZO &#8211; <\/strong>Em termos art\u00edsticos, s\u00f3 entendo como poss\u00edvel a transgress\u00e3o (risos). S\u00f3 consigo conceber a cria\u00e7\u00e3o como algo que transgride em maior ou menor grau o que \u00e9 vigente. Isso se aplica, a meu ver, desde o come\u00e7o dos tempos. Mas contemporaneamente acho que o desafio \u00e9 maior, na medida em que existem j\u00e1 in\u00fameros referenciais para a arte de outras \u00e9pocas. Transgredir sendo criativo, hoje em dia, exige ao menos um superficial conhecimento do que j\u00e1 foi feito, e isso n\u00e3o \u00e9 pouco. As ferramentas que permitem a auto-express\u00e3o criativa podem ter sido ampliadas e\/ou facilitadas, mas o conte\u00fado continua dependendo \u00fanica e exclusivamente do elemento humano. A multiplicidade de nossos dias talvez dificulte exatamente a observa\u00e7\u00e3o do cerne daquilo que \u00e9 vigente, para ent\u00e3o poder ser transgredido. Por isso a arte hoje, na minha opini\u00e3o, tem a import\u00e2ncia da s\u00edntese. Para chegar a essa s\u00edntese \u00e9 preciso pensar &#8211; num momento em que a palavra de ordem \u00e9 consumir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_3490\" aria-describedby=\"caption-attachment-3490\" style=\"width: 385px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/ML04.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3490 \" title=\"Mercedes Lorenzo\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/ML04.jpg\" alt=\"\" width=\"385\" height=\"506\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/ML04.jpg 385w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/ML04-228x300.jpg 228w\" sizes=\"auto, (max-width: 385px) 100vw, 385px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3490\" class=\"wp-caption-text\">Mercedes Lorenzo \/ Foto: Rubens Guilherme Pesenti<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que voc\u00ea n\u00e3o endossa nesse estado de coisas chamado p\u00f3s-modernidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MERCEDES LORENZO &#8211; <\/strong>Vou tentar resumir, porque a pergunta \u00e9 bastante abrangente. Acredito que muitos comportamentos dessa nossa era chamada p\u00f3s-moderna s\u00e3o mais reativos do que pr\u00f3-ativos, eles s\u00e3o consequ\u00eancia de um mundo sem garantias e em pleno processo de transforma\u00e7\u00e3o de valores. Essa transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa ser negativa em si mesma, mas requer a todo momento a valida\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o de ideias que eram dadas como certas at\u00e9 o s\u00e9culo passado. Nem todos t\u00eam a predisposi\u00e7\u00e3o para esse constante questionamento e alguns se sentem sem ch\u00e3o, sem refer\u00eancias, e as buscam onde for mais conveniente segundo suas afinidades. Nesse sentido, o que eu n\u00e3o endosso de forma nenhuma, s\u00e3o todos os tipos de fundamentalismo: seja religioso, ideol\u00f3gico, pol\u00edtico, etc. Tamb\u00e9m n\u00e3o endosso o automatismo consumista como f\u00f3rmula de escape para o enfrentamento existencial a que todos estamos sujeitos. \u00c9 uma v\u00e3 tentativa anest\u00e9sica num momento em que a humanidade precisa estar dispon\u00edvel e alerta para todo tipo de ideia que possa promover justi\u00e7a social e a sustentabilidade do meio ambiente a longo prazo. E isso, na minha opini\u00e3o, precisa ser feito n\u00e3o s\u00f3 urgentemente, mas com alegria, com vistas \u00e0 felicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Por tudo o que voc\u00ea j\u00e1 viveu com a fotografia, o exerc\u00edcio do olhar implica mais em estranhamento, contempla\u00e7\u00e3o ou espanto frente ao existir?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>MERCEDES LORENZO &#8211; <\/strong>O exerc\u00edcio do olhar&#8230; acho que \u00e9 uma soma dessas coisas que voc\u00ea disse, e talvez mais algumas. N\u00e3o poderia me restringir a uma delas, mas isso sou eu. O estranhamento \u00e9 fundamental, me mobiliza, n\u00e3o me deixa acomodar e provoca a cria\u00e7\u00e3o de novas sinapses o tempo todo. Sem o estranhamento n\u00e3o haveria o aprendizado. Confesso ter uma verdadeira satisfa\u00e7\u00e3o diante do estranhamento, pois implica sempre que algo \u00e9 novo para mim. O espanto \u00e9 mais emocional, e implica mais na constru\u00e7\u00e3o \u00edntima daquilo que futuramente vai demandar uma express\u00e3o externa. A contempla\u00e7\u00e3o, sim, faz parte do exerc\u00edcio do olhar, por\u00e9m ao contr\u00e1rio: para dentro. \u00c9 ali que eu tento exercer a contempla\u00e7\u00e3o, como quem se pergunta &#8220;<em>o que \u00e9 que tem a\u00ed para se expressar?<\/em>&#8221; ou &#8220;<em>o que \u00e9 que j\u00e1 assentou o suficiente a\u00ed dentro para ter uma possibilidade de s\u00edntese e\/ou entendimento?<\/em>&#8220;. Isso tudo se mistura, como voc\u00ea disse, frente ao existir. E acho que a arte n\u00e3o deve nunca dar respostas prontas, mas saber fazer as melhores perguntas, como na Caju\u00edna de Caetano: &#8220;existirmos, a que ser\u00e1 que se destina?&#8221;.<strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>* Algumas fotografias de Mercedes Lorenzo fazem parte da nossa <a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?cat=588\"><strong>72\u00aa Leva<\/strong><\/a>. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma conversa com a fot\u00f3grafa e poeta Mercedes Lorenzo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3487,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[830,16,2539],"tags":[63,66,427,8,17],"class_list":["post-3486","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-75a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-fotografia","tag-mercedes-lorenzo","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-poesia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3486","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3486"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3486\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3907,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3486\/revisions\/3907"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3487"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3486"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3486"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3486"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}